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quarta-feira, 2 de abril de 2025

A verdadeira sede do DOPS_SANTOS


Artigo publicado no jornal santista A Tribuna, na
 coluna Tribuna Livre, em 31 de março de 1964.


Tropas do Exército rumaram de Juiz de Fora (MG) ao Rio de Janeiro, no dia 31 de março de 1964, para destituir o presidente da República, João Goulart. Em Santos, o golpe se concretizou em 1.º de abril, Dia da Mentira. Para que não nos esqueçamos e ninguém altere a História e desrespeite a memória dos que lutaram e resistiram em nossa cidade, escrevi e publiquei o artigo "A Verdadeira Sede do DOPS-Santos" no jornal santista A Tribuna, onde trabalhei por 23 anos, como repórter, subeditora e editora do primeiro caderno. Reproduzo a imagem da publicação e a transcrição do texto, para que todos os interessados possam ler. Boa leitura.

A VERDADEIRA SEDE DO DOPS-SANTOS

Lidia Maria de Melo, jornalista, escritora, professora e advogada.

O Dia da Mentira costumava ser marcado por sustos e risos. A intensidade da diversão dependia de quem soubesse inventar uma história melhor que a outra. Sem importar a idade, 1º de abril sempre foi uma data para se brincar.
Em 1964, a brincadeira acabou. De manhã, forças civis e militares, bem armadas, devassaram sindicatos ligados ao Porto de Santos. Dirigentes, associados e funcionários foram presos no Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, junto com políticos, profissionais liberais e lavradores.
No prédio, funcionava a Cadeia Pública, a Delegacia Auxiliar da 7ª Região e a 4ª Delegacia de Ordem Política e Social, cuja sigla, DOPS, era usada no feminino e no masculino, por ser igual à do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, identificado, em outro período, também como DEOPS.
As entidades classistas ficaram nas mãos de interventores nomeados pelo capitão dos Portos, Júlio de Sá Bierrenbach, por indicação da Companhia Docas de Santos.
A sequência dessa História já é pública: inquéritos, demissões, processos, desemprego, prisão no navio Raul Soares, torturas, doenças, mortes.
Acompanhei tudo de perto. Meu pai era diretor do Sindicato dos Operários Portuários (atual Sintraport), foi preso no DOPS e no navio-presídio, que conheci por dentro. Eu tinha 6 anos e fazia o 1.º ano do Curso Primário na escola do sindicato.
Essa História me segue pela vida. Publiquei o livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós e tenho outro na fila de edição. Fiz reportagens, palestras, dei entrevistas e testemunhei na Comissão Nacional da Verdade e na Municipal. Ouvi sindicalistas daquela geração repetir que ficaram presos no DOPS. Não havia dúvida sobre a localização.
Em 2024, surgiu a versão de que o antigo DOPS havia funcionado no ex-prédio da Ciretran, na Av. Conselheiro Nébias. Não questiono o fato de que, naquela delegacia, tenha havido tortura, mas isso não torna o local a sede do DOPS-Santos.
Apesar dos métodos escusos, o DOPS não era clandestino e funcionou no Palácio da Polícia até 1983. Em 2010, milhares de prontuários de investigados e presos foram localizados numa sala e entregues ao Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Sobre a requisição do antigo imóvel da Ciretran, para fazer dele um lugar de memória, não sou contra. Porém, provas das alegações devem ser expostas, assim como se cobrou dos que foram à Justiça e à Comissão de Anistia reivindicar seus direitos.
Neste 1.º de abril de 2025, é preciso lembrar que, se queremos preservar a Memória e garantir a Justiça, para contar a História de luta e resistência de Santos, devemos priorizar a Verdade.



sábado, 1 de março de 2025

Além do santista Rubens Paiva, ditadura prendeu e torturou cerca de 500 pessoas em Santos

 Lídia Maria de Melo

Na esteira da torcida pela atriz Fernanda Torres e pelo filme Ainda estou aqui, na cerimônia do Oscar, amanhã (2/3/2025), o jornal Diário do Litoral publicou, na edição de hoje, uma matéria de página sobre a ditadura em Santos. Na condição de entrevistada, colaborei para esse trabalho do colega jornalista Nilson Regalado. Para quem não sabe, sou jornalista e autora do livro Raul Soares, um navio tatuado em nós, que relata, a partir de meu ponto de vista, as consequências do golpe de Estado de 1964 em minha família, após a prisão de meu pai, que era sindicalista e funcionário da Companhia Docas de Santos (CDS). Também narra as experiências dele na prisão efetuada pelo DOPS, no Palácio da Polícia, em Santos, e no navio Raul Soares, no Porto de Santos. Na época, eu tinha 6 anos de idade, e acompanhei tudo e também visitei meu pai dentro desse navio, sob a escolta de policiais marítimos e fuzileiros navais armados de fuzis e metralhadoras. Como vocês podem ver, Santos foi uma cidade bastante atingida pelo golpe militar de 1964 e pela ditadura, ao longo de 21 anos. Quem comandou a repressão em Santos, em 1964, foi o então capitão dos Portos do Estado de São Paulo, Júlio de Sá Bierrenbach, que tinha a patente de capitão de mar e guerra. Este ano, publicarei mais um livro sobre esse tema, mas com novas informações e enfoques, além de muita pesquisa. Nele, realizo um trabalho em que emprego as técnicas adquiridas em minhas áreas de formação: Letras (professora), Comunicação Social (jornalista), Ciências da Comunicação (pesquisadora) e Direito (advogada). Deixo aqui uma cópia da página do jornal. Acho que, para ler no computador, é melhor fazer download da imagem e salvar. Assim, fica mais fácil para ampliar. No celular, acredito que também é melhor salvar, ou ir ampliando com o dedo indicador e o polegar (rsrs). Vale a pena a leitura de reportagem. E também a torcida pela Fernanda e pelo filme. Nunca me canso de dizer que Walter Salles faz poesia em forma de filme, mesmo que seja um drama.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Ainda estou aqui. Assista ao filme, leia o livro e defenda sempre a democracia.

                Lídia Maria de Melo

Atrasei a ida ao cinema, para ver "Ainda estou aqui". Temia me deparar com a emoção, embora já conhecesse a história. Em 2015, comprei e li o livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que deu origem ao filme de Walter Salles. Sabia o que me esperava.
Ontem (19/11/24), tomei coragem. Escolhi a sessão das 12h30, porque preferia que a sala não estivesse lotada. Acertei na escolha.
Chorei durante o filme quase inteiro. Isso nunca me aconteceu.
Não me surpreenderam as cenas de brutalidade dos militares, tanto na abordagem nas blitze, quanto nos "interrogatórios". Ainda na infância senti na pele os efeitos dessa selvageria. Há décadas, acompanho, estudo e escrevo sobre essa temática.
Mesmo assim, independentes, as lágrimas escorriam. Por causa desse passado que também marcou minha família e a mim. Pelas ameaças atuais à nossa democracia. Pelo que o futuro ainda pode nos reservar.
Com maestria, Walter Salles enfatiza para a plateia que Rubens Paiva, Eunice e os cinco filhos eram pessoas comuns, distintas, que, no cotidiano, viviam em harmonia e rodeadas de amigos.
A mais nova das quatro filhas ainda trocava os dentes de leite. O molequinho Marcelo jogava bola na rua, empinava pipa e brincava na areia da praia.
As meninas maiores não passavam de adolescentes iguais a outras tantas, que tinham amigas, ouviam músicas e iam à praia. A mais velha registrava cenas banais com sua filmadora super 8.
Eunice destacava-se como mãe e esposa, que cuidava da rotina de cada um, das refeições e da memória da família. Guardava fotos em álbuns, em caixas, e anotava no verso as datas, para não se esquecer. Identifiquei-me muito com essa característica de ser a guardiã da memória.
O perfil da família Paiva destrói o argumento dos que, ainda hoje, defendem a volta dos militares ao poder. Rubens Paiva não era terrorista, nem comunista, sequer pegou em armas contra a ditadura. Havia sido deputado federal, foi cassado e, como engenheiro, trabalhava diariamente. Sua maior ousadia foi ser solidário com os injustamente perseguidos.
Esse retrato me fez lembrar de meu pai. Mesmo muito pequenas, sabíamos que ele não tinha cometido crime algum. Foi preso duas vezes por ser diretor sindical, por defender direitos trabalhistas e por se negar a testemunhar falsamente contra um companheiro do porto e de sindicato.
Na postura de Eunice Paiva, após o desaparecimento do marido, vi a força e a firmeza de minha mãe, que se reinventou para amparar e sustentar suas meninas, o próprio marido e a si mesma, sem perder a capacidade de sorrir, apesar de se irritar muitas vezes.
Quando nosso pai foi preso, ela certamente nos omitiu alguns fatos, mas muito poucos. Não havia como ocultar que nosso pai não voltou para casa e ficou dois longos períodos preso. Por isso, nos levou ao Palácio da Polícia, para tentar saber dele, e ao navio-prisão Raul Soares, onde pudemos vê-lo sob a mira de policiais marítimos e metralhadoras.
Em algumas cenas, lembrei de minha irmã mais velha. Por ter uma inteligência acima da média e por tanto entender o que acontecia, quase não falava sobre o assunto. Talvez para preservar a mim e a minha mãe. Seu desabafo manifestou-se por meio de uma rara doença autoimune, que a roubou de nós ainda na adolescência.
Rubens Paiva foi morto sob tortura. Em Santos, sua terra natal, noventa e nove vírgula nove por cento dos trabalhadores presos em 1964 foram absolvidos, anos e anos depois, pela Justiça Militar. Ninguém foi morto, mas todos sofreram tortura. Tecnicamente, há várias maneiras de se torturar, assim como de se matar alguém. Alguns continuaram vivos, mas uma parte dentro deles nunca mais foi a mesma. Muitos adoeceram e morreram precocemente.
No filme, senti falta da cena em que Marcelo, aos 9 anos, teve que pular o muro da casa e levar um bilhete, a partir do qual a avó paterna, que morava em Santos, fosse avisada. Não nos esqueçamos de que Rubens Paiva era santista.
Talvez o filme pudesse também mostrar que, após o desaparecimento do marido e de mudar do Rio de Janeiro, Eunice e os filhos se instalaram por dois anos em Santos, na casa dos pais de Rubens, no Canal 1. Quando ela prestou vestibular aos 42 anos, foi aprovada na Faculdade de Direito da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atual Universidade Católica de Santos (UniSantos). Depois é que se transferiu para a do Mackenzie.
Gostaria também de ter visto que ela foi advogada do cantor britânico Sting, amigo do cacique Raoni e apoiador da causa indígena. Esse detalhe talvez despertasse ainda mais a plateia estrangeira. O filme mostra sua atuação como especialista em Direito Indígena, mas não a relaciona ao ex-vocalista da banda The Police.
Também seria impactante mostrar a cena em que ela sai pelas ruas do Rio de Janeiro, de camisola, quando mais tarde voltou a morar lá sozinha. Os vizinhos é que deram o alerta aos filhos sobre esses primeiros sinais do Alzheimer.
Por outro lado, adorei a inclusão do pedido de autógrafo da funcionária do Fórum a Marcelo. Além de mostrar a capa de “Feliz Ano Velho”, numa sugestão de leitura, e informar que ele se tornou escritor e que sofreu um acidente, a cena me fez lembrar da noite de 23 de março de 1984. Nessa data, ele fez palestra em Santos e autografou o livro que tenho até hoje.
Sobre a atuação de Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro, só posso expressar o privilégio de testemunhar esse grau de excelência na dramaturgia brasileira. Todo o elenco está de parabéns.
Por sinal, já tive a honra de ver mãe e filha de perto, em momentos diferentes. Fernandona, na redação do jornal A Tribuna e no Sesc, em “Dona Doida”. Fernandinha, também n’A Tribuna e no saudoso Bar da Praia, em um talk show comandado por Eduardo Caldeira, em 1990.
Quanto à trilha sonora, amei ouvir e ver a dancinha de “Hey Hey Dee Dee, Take me back to Piauí”. Deu saudade do menestrel Juca Chaves, a quem vi em show no Casa Grande Hotel, em Guarujá, em 1997. E as meninas dançando “Je t’ aime moi non plus”? E “As curvas da Estrada de Santos”? Perfeita referência à nossa cidade, terra de Rubens.
Comentaria muito mais sobre a dramática saga dos Paivas e do Brasil, mas fico por aqui. Antes de terminar, preciso recomendar a leitura do livro “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva. Não há como se arrepender. É um meio de se fortalecer com mais informações. Nos dias atuais, precisamos delas para nos proteger dos planos nefastos dos que ainda sonham trazer de volta o terror. Então, assistam ao filme, leiam o livro e defendam a democracia.
#democracia #ditaduramilitar #desaparecidoforçado #RubensPaiva #EunicePaiva #MarceloRubensPaiva #WalterSalles #AindaEstouAqui #cinema #filme #Santos #Brasil

sábado, 14 de setembro de 2024

O golpe de 1964 e a invasão de sindicatos do Porto de Santos, em minha entrevista na Band Litoral


Para assistir, clique aqui.

Os 60 anos do golpe militar e a perseguição aos trabalhadores do Porto, organizados em sindicatos. Esse foi o tema de mais uma entrevista que concedi este ano e foi ao ar em 14 de setembro de 2024 no programa Porto e Baixada, veiculado pela Thathy TV - Band Litoral e também no canal da emissora no Youtube. Trato desse assunto no meu próximo livro sobre a ditadura no Porto de Santos. Para assistir e conhecer um pouco mais sobre esse tema histórico e tão importante, clique no link: https://youtu.be/UfUw_Wd8DyY.  

A equipe que me entrevistou foi a Naihara Carvalho - Naih Oliveira Carvalho (produção), Rafael Roncarati (cinegrafista) e Gabriel Ursini (produção e operação de drone). No roteiro e edição final, André Rittes; edição, Renan Sposito; apresentação, Felipe Folli; e direção, Ari Brito.

Obrigada a todos pela veiculação de um assunto tão importante para a História do Brasil, de Santos, do Porto, dos Trabalhadores Portuários e de outras áreas e do Sindicalismo Santista e Brasileiro.

Para assistir, clique  no link:     https://youtu.be/UfUw_Wd8DyY ,

#DitaduraNuncaMais #sindicalismo #Santos #PortoDeSantos #trabalhadores #companhiadocas

sábado, 23 de setembro de 2023

Você conhece a expressão "PT saudações"?

Lídia Maria de Melo

Outro dia, em uma rede social, perguntei a meus seguidores se alguém conhecia a expressão "PT Saudações".
Alguns, mais velhos, disseram que sim.
Outros preferiram não arriscar uma resposta.
Pois bem, vamos às explicações.

A expressão surgiu com o telegrama, meio de comunicação inaugurado no Brasil em meados do século 19, após a invenção do telégrafo. Tratava-se de uma forma bem rápida e urgente  de comunicação.

O telégrafo foi criado pelo norte-americano Samuel Finely Breese Morse em 1837. Somente em 1844, ele conseguiu enviar a primeira mensagem à distância. A linguagem usada passou a ser conhecida como Código Morse. 
No Brasil, a primeira linha de telégrafo foi instalada na cidade do Rio de Janeiro em 1852, a pedido do imperador D. Pedro II, um entusiasta das novas tecnologias.  
O telegrama passou a ser uma alternativa à carta, que demorava dias para ser entregue.
A linguagem do telegrama era sintética, sem preposições, artigos e pontuação, para reduzir o custo da mensagem, entregue pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
As letras PT eram a abreviação de ponto (final). Não tinham (nem têm) qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, que só foi fundado no Brasil em 1980.
A palavra "saudações" era um cumprimento  formal, equivalente a  "um abraço", "passar bem" etc. Com o tempo, "PT Saudações" passou a ser usada com o sentido de despedida.
Às vezes, quando uma conversa ficava alterada, era comum um dos interlocutores encerrar o assunto, usando essa expressão, numa demonstração de contrariedade, ou de desprezo pelo interlocutor. Ao mesmo tempo, encostava o dedo indicador na própria testa e apontava em direção ao outro, como se batesse continência. Depois, dava as costas e ia embora.
Hoje, quem pesquisa telegrama na internet só encontra o aplicativo Telegram, que não é o dos Correios, mas segue o mesmo conceito: mensagem rápida.
Em tempo: os Correios ainda oferecem o serviço de envio de telegramas, que pode ser escrito ou fonado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Povo que lutou por democracia ocupa Brasília na posse de Lula e entrega a faixa presidencial

 Lídia Maria de Melo

O Brasil está de volta à civilidade.
2022 foi-se embora. Levou nas costas a fama de ano louco.
Agora, o calendário virou a página. Ontem, dia 1º de janeiro de 2023, já foi outro dia, com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato.
O Planeta Terra voltou a ser redondo, graças à resistência das pessoas que não se curvaram à panaceia dos últimos quatro anos.
2023 chegou e precisamos de coragem para recomeçar e recuperar  o Brasil. De mãos dadas somos mais fortes.
O slogan do novo Governo Federal, neste terceiro mandato de Lula, representa bem esse pensamento: "Brasil - União e Reconstrução".
A multidão que foi aclamar Lula ontem em Brasília também dá a medida correta dessa filosofia.
Os que ali estavam não eram fanáticos, mas pessoas que lutaram pelo restabelecimento da democracia no País.
Havia um clima de felicidade no ar e, quando os repórteres entrevistavam os que se aglomeravam na Praça dos Três Poderes, esperando que Lula subisse a rampa do Palácio do Planalto, cada um sabia dizer com muita clareza e propriedade o motivo pelo qual decidiu participar da posse.


Povo ocupa a Praça dos Três Poderes
Foto de Warley Andrade/Agência Brasil - EBC

Entre os presentes, havia muitos professores. Alguns, da cidade de Santos. Por eles, eu me senti representada.
Quem transmitiu a faixa governamental ao novo presidente foram pessoas do povo. Isso só foi possível, porque o presidente anterior recusou-se a participar da solenidade de transmissão do cargo, escapando pela porta dos fundos.
Na verdade, ainda bem que ele se omitiu, porque abriu espaço para que os organizadores da solenidade tornassem o povo protagonista desse momento importante.

Já com a faixa presidencial, 
Lula e os representantes do povo
acena para a multidão
Foto de Tânia Rego/Agência Brasil - EBC

A faixa presidencial acabou sendo entregue a Lula por:
Francisco Carlos do Nascimento, um menino de 10 anos, filho de uma assistente social e de um advogado, morador de Itaquera, em São Paulo, corintiano e nadador que ganhou o primeiro lugar no campeonato da Federação Aquática Paulista em 2022. 
Aline Souza, catadora de material reciclável, mãe de sete filhos e presidente da Rede Centcoop -DF, que reúne catadores do país. Foi ela que colocou a faixa presidencial em Lula, após passar pelas mãos dos demais.
Cacique Raoni Metuktire, líder indígena da aldeia Kraimopry-yaka, de 93 anos, conhecido mundialmente, por sua luta em favor da Amazônia e dos povos da floresta.  Amigo do cantor inglês Sting, é da etnia caiapó e habita a região do Rio Xingu.
Weslley Viesba Rodrigues Rocha,  metalúrgico de 36 anos, que trabalha no ABC paulista e é formado em Educação Física, com benefício do Fies (Programa de Financiamento Estudantil). Atua tabém como DJ no grupo de rap Falange.
Murilo Quadros de Jesus, professor universitário, formado em Letras pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Jucimara Fausto dos Santos, cozinheira que mora em Maringá, no Paraná.
Ivan Baron, ativista potiguar em defesa da inclusão e engajado na luta anticapacitista. Aos 3 anos de idade teve meningite viral, o que lhe causou paralisia cerebral.
Flávio Pereira, artesão paranaense que esteve presente durante 580 dias de vigília, enqaunto Lula foi mantido preso em Curitiba (PR).


A catadora Aline Souza coloca a faixa presidencial
no presidente Lula.
Foto de Tomaz Silva/Agência Brasil - EBC


O nadador Francisco Carlos, de 10 anos,
foi um dos escolhidos para 
entregar a faixa a Lula.
Foto de Tomaz Silva/Agência Brasil - EBC

Lula e o cacique Raoni, da etnia caiapó,
que tem 93 anos, habita a região do Rio Xingu
e é conhecido internacionalmente por
sua luta em favor da Amazônia e
dos povos das florestas. 
Foto de Tânia Rego/Agência Brasil - EBC


Santos homenageia Pelé em queima de fogos nas praias, à luz da Lua, na chegada de 2023

Lídia Maria de Melo


Na noite do Revéillon, a cidade de Santos homenageou o Rei Pelé, pouco antes da queima de fogos iniciada à meia-noite do dia 31 de dezembro de 2022, abrindo o ano de 2023. A duração foi de 14 minutos.
Já a homenagem ao Rei do Futebol e Atleta do Século XX, que faleceu erm 29 de dezembro de 2022, foi realizada na Praia do Gonzaga, por uma equipe da Prefeitura de Santos, que utilizou 80 drones. 
Como o vídeo mostra, em fotos, houve uma animação no céu, sob a luz do luar.  Milhares de pessoas acompanharam da areia das praias. 
Primeiramente, apareceram pontos de luz formando três corações, numa referência à cidade mineira onde, em 23 de outubro de 1940, nasceu Edson Arantes do Nascimento, filho de Celeste Arantes do Nascimento (nascida em 20 de novembro de 1922) e  Antônio Ramos do Nascimento (o jogador Dondinho, nascido em 2 de doutubro de 1917 e falecido em 16 de novembro de 1996).
Na sequência da homenagem, os drones projetaram no céu de Santos o distintivo do Santos Futebol Clube, time da Vila Belmiro, ode Pelé jogou de 1956 a 1974. 
Depois, aparecem dois garotos jogando bola. Um deles é Pelé, que chuta três bolas, mantidas iluminadas. 
Na próxima imagem, uma das pernas do menino transforma-se no número 1, que, ao lado das três bolas, ajuda a formar a imagem de 1000, simbolizando os mil gols completados por Pelé em 19 de novembro de 1969, no Estádio Mário Fuilho, o famoso Maracanã, em uma partida entre o Santos e Vasco, válida pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa. 
O gol de número 1.000 Pelé dedicou às crianças brasileiras. 
O goleiro do Vasco, que não conseguiu evitar o milésimo gol, foi o argentino Edgardo Andrada, falecido aos 80 anos, em 3 de setembro de 2019, e que, segundo a revista IstoÉ, mais tarde, atuou como agente da ditadura da Argentina (1976-1983).
A próxima projeção da homenagem é Pelé beijando uma taça, seguida pela comemoração tradicional dele, saltando e dando o conhecido soco no ar. 
Em seguida, surge a assinatura de Pelé. 
A última imagem mostra a assinatura ao lado de um coração. 
A multidão, então, ovaciona o ídolo que se consagrou como um dos maiores esportistas do mundo. 
Só então, começa a queima de fogos, marcando a entrada de 2023.
O Atleta do Século XX faleceu em 29 de dezembro de 2022, no Hospital Albert Einstein, na cidade de São Paulo, começou a ser velado no gramado do Estádio Urbano Caldeira, sede do Santos Futebol Clube, na Vila Belmiro, na cidade de Santos, às 10 horas de 2 de janeiro de 2023. 
Às 10 horas de 3 da janeiro de 2023, o caixão de Pelé será transportado em caminhão do Corpo de Bombeiros plas ruas de Santos, para que possa passar em frente à casa de dona Celeste, no Canal 6, no bairro da Ponta da Praia.
O sepultamento do atleta, que também jogou no Cosmos, de Nova York, marcou 1.282 gols na carreira e foi tricampeão em Copas do Mundo, será realizado no Memorial Necrópole Ecumênica. 
Em 5 de fevereiro de 2004, tive a oportunidade de entrevistar Pelé, para um livro que estava escrevendo (Rosinha Viegas, A Garra de Uma Leoa). A entrevista foi realizada em uma sala da sede antiga da TV Tribuna, então localizada na cidade de São Vicente, na Rua Antônio Emmerich. 
Na emissora, ele estava gravando um comercial, junto com seu barbeiro, Didi. 
Além da entrevista, eu o fotografei. Ele concedeu autógrafo em uma camiseta do Santos, de número 10, para meu sobrinho. Também fez uma foto comigo, com a mão em meu ombro, muito sorridente. O fotógrafo que registrou esse momento foi o uruguaio Walter Cabrera. 


Fotografei a assinatura de Pelé
em uma placa da empresa dele
exposta na Rua Bittencourt, em Santos.


Imagem de Pelé, exposta no Memorial das Conquistas,
na sede do Estádio Urbano Caldeira, na Vila Belmiro, sede
do Santos Futebol Clube, time onde Pelé jogou
de 1956 a 1974.

Eu e Pelé em 5 de fevereiro de 2003
na antiga sede da TV Tribuna
em São Vicente.
Nesse dia eu o entrevistei e fotografei.

 
Leia mais em: 

                         Pelé, 80 anos 
                         

                         De placa, mas não é gol.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Revista Úrsula publica meu artigo "De Garrincha e Pelé a Messi e Mbappé, as lições do futebol"

Lídia Maria de Melo
 

Não testemunhei o grande feito da Seleção Brasileira de Futebol, em 1958, na Suécia. Nasci às vésperas da Copa que revelou ao mundo a genialidade de Garrincha e o talento do menino Pelé. Porém, desde que comecei a me entender por gente, ouvia minha mãe e meu pai  cantarolarem a canção que embalou essa primeira conquista rumo à posse definitiva da Jules Rimet: "A taça do mundo é nossa/ com os brasileiros/ não há quem possa/ ê eta esquadrão de ouro/ é bom no samba/ é bom no couro". 

Essa é a abertura  de meu artigo De Garrincha e Pelé  a Messi e Mbappé, as lições do futebol, que foi publicado, no dia 18 de dezembro, na Revista Úrsula, no encarte especial intitulado Sob a Sombra das Chuteiras. A publicação coincidiu com o encerramento da Copa do Mundo de Futebol de 2022, realizada no Catar (Qatar). 


No artigo, traço um panorama das Copas do Mundo de Futebol, a partir de 1958, resgatando informações e memórias a respeito de cada campeonato até 2022.  Para acessar diretamente meu artigo, clique aqui no link
Se desejar acessar todos os artigos (o meu e o de outros autores) do encarte, guiando-se pelos títulos, clique aqui.

Aqui neste blog, há alguns textos que publiquei durante outras edições da Copa do Mundo de Futebol, realizada a cada quatro anos. Para ler, acesse o menu no alto da página e clique em "Futebol". Ao final da primeira página de postagens, aparecerá a indicação "Postagens mais antigas". Clique e leia mais artigos. 

No dia 18 de dezembro, a final do campeonato mundial foi entre a Seleção da Argentina, de Messi, e a Seleção da França, de Mbappé. Nessa data, o mundo teve a oportunidade de testemunhar uma das mais brilhantes partidas da história das Copas do Mundo. No tempo regulamentar, o jogo terminou empatado em 2x2. Na prorrogação, cada seleção marcou mais um gol, perfazendo o placar de 3x3. Com esse resultado, as duas equipes enfrentaram-se nos pênaltis. Argentina  converteu 4, enquanto a França só acertou 2, perdeu 1 (com chute para fora) e o goleiro argentino defendeu 1. 

Dessa forma, a Seleção de Messi tornou-se a campeã de 2022, consagrando o tricampeonato, após 34 anos do bi. A Seleção de Mbappé também jogou muito. A diferença é que os argentinos entraram em campo com um jogador a mais: a apaixonada torcida, que permaneceu o tempo inteiro conectada com a seleção. 


Reprodução do encarte especial da edição número 7 da 
 Revista Úrsula, editada por Duanne Ribeiro.
                                           

sábado, 11 de setembro de 2021

11 de setembro de 2001. Onde estávamos naquele dia?

Lídia Maria de Melo

As imagens estão soterradas sob 20 anos, mas nunca nos esqueceremos daquele dia.
Meu relato sobre 11 de setembro de 2001 está registrado neste link. Clique:
https://lidiamariademelo.blogspot.com/2011/09/ataques-de-11-de-setembro-de-2001-onde.html



terça-feira, 24 de agosto de 2021

Morte de Charlie Watts me faz lembrar do show dos Rolling Stones em S. Paulo, no Pacaembu, em 1995

 Lídia Maria de Melo
Fotos do meu acervo

Hoje, acordei muito cedo, mas só no início da tarde ouvi a notícia. "Charlie Watts morre aos 80 anos". Logo, pensei: os Rolling Stones nunca mais serão os mesmos. Imediatamente, lembrei-me do show Voodoo Lounge, a que tive o privilégio de assistir, junto com minha irmã, no Estádio do Pacaembu, em 28 de janeiro de 1995, um sábado, que começou chuvoso, mas terminou estrelado, ao som do rock da banda mais aclamada da história.

O público aplaudiu cada um dos Stones, mas o baterista Charlie Watts foi ovacionado por longos minutos. Os aplausos eram contínuos. Emocionado, ele se levantou, curvou-se, em reverência, e fez um gesto com as mãos e uma expressão facial, como se perguntasse: “Por que eu?”. A banda inglesa tinha quatro estrelas de primeira grandeza, mas Charlie Watts encarnava a elegância dos lordes.

Em 18 de abril de 2020, também um sábado, quando o mundo começava a tentar sobreviver ao coronavírus, os Rolling Stones marcaram presença no festival virtual Together at Home. Dessa vez, cada um em sua casa, cantando e tocando You Can’t Always Get What You Want. De novo, Charlie Watts foi destaque. Quando apareceu no quadrado destinado a sua imagem, tinha duas baquetas nas mãos, mas atuou como um menino que sonha um dia ser baterista. Tocou um instrumento imaginário, fazendo do braço de uma poltrona o grande prato de sua batera. Um gentleman! Um verdadeiro lorde!

Em outras ocasiões, escrevi sobre o show de 1995. Hoje, não há como deixar de repetir.

O show Voodoo Lounge, dentro da programação Hollywood Rock, seria no Morumbi, mas o estádio não foi liberado. Então, transferiu-se para o Pacaembu, que é menor. Assim, em vez de duas apresentações, houve necessidade de três, nos dias 27, 28 e 30 de janeiro de 1995. O ingresso deveria ser trocado. Quem não fez isso, como eu e minha irmã, foi obrigado a comprar outro, ou deixou de ver o show.

Nós compramos outros ingressos. Fomos no segundo dia. Minha irmã havia perdido a oportunidade de assistir ao show dos Stones em Praga. Dessa vez, ela não admitia perder de novo. Por nada, neste mundo.

Fomos cedo para São Paulo, em um ônibus de uma agência de turismo. Pegamos fila e chuva. Compramos capas de plástico transparente e com capuz. Quando abriram os portões, tivemos que depositar o ingresso na catraca. Não havia devolução. Como eu e minha irmã tínhamos os que deveriam ser trocados, pudemos guardar esses de lembrança.

O primeiro show em São Paulo foi realizado na sexta-feira, mas a chuva atrapalhou. Testemunhamos o da noite de sábado. Para nós, o melhor.

Antes dos #Stones nos encantarem indescritivelmente, subiram ao palco Barão Vermelho, Spin Doctors e Rita Lee, o tempo todo maravilhosa e surpreendente. Na execução de "Miss Brasil 2000", a roqueira brasileira teve a companhia de uma modelo, com cetro, coroa e um manto, que, aberto, exibiu rapidamente a total nudez da moça sob a veste.

Houve fogos de artifícios, telões, o dirigível da Pepsi sobrevoando-nos e artistas brasileiros entre o público, como Arnaldo Antunes, Paulo Ricardo e Luciana Vendramini. E, óbvio, muito, mas muito rock 'n' roll, por conta do rebolante e simpático Mick Jagger, do psicodélico Keith Richards, do caçula Ron Wood e do elegante Charlie Watts.

Não temos fotos, nem gravações da turnê Voodoo Lounge, porque máquinas eram proibidas. O melhor, como costuma dizer minha irmã, está registrado na memória. E eu digo, no coração também. Valeu, Charlie Watts. Muito obrigada. Para sempre. 


#therollingstones   #charliewatts  #mickjagger  #keithrichards  #ronwood  #rocknroll 

domingo, 16 de maio de 2021

Morte de Bruno Covas me faz lembrar da cobertura jornalística do falecimento de Mário Covas em 2001

Caderno Especial do jornal
A Tribuna,  de Santos, em
 6 de março de 2001
.
            
Foto de Adalberto Marques de
8 de outubro de 1994
mostra Bruno Covas, aos 14 anos (de boné),
ao lado da avó, dona Lila,
do avô, Mário Covas,
do irmão, Gustavo,
e da mãe, Renata Covas Lopes.


Texto de Lídia Maria de Melo
  Fotos Reprodução

      Com a morte precoce de Bruno Covas, prefeito de São Paulo, não há como não lembrar de Mário Covas, seu avô.
Covas, o Mário, era governador do Estado quando faleceu em 6 de março de 2001, também por câncer.
Eu e colegas jornalistas que trabalhávamos no jornal A Tribuna acompanhamos o período de internação do então governador no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. Como editora, ajudei a coordenar uma equipe de repórteres que se revezavam no plantão diante do InCor.
Também participei da elaboração do caderno especial que foi publicado no dia 6 de março de 2001, em paralelo à edição normal do dia. Mário Covas faleceu de manhã bem cedo, às 5h30. Então, o caderno especial, que já estava editado, foi rodado na gráfica.
Quando chegou às bancas, esgotou. A população passou a ligar para o jornal na tentativa de obter um exemplar que, por sinal, trazia uma foto em que Bruno Covas aparece, aos 14 anos, junto com o avô, Mário Covas, a avó, dona Lila, a mãe, Renata Covas Lopes, e o irmão, Gustavo Covas Lopes.

Eu, Lídia Maria de Melo,  editora de Local do jornal,
A Tribuna, com a então editora-chefe Miriam
Guedes de Azevedo, no sepultamento de
Mário Covas, no Cemitério do Paquetá, em Santos, 
em 7 de março de 2001.
 

Expediente do jornal A Tribuna lista
os nomes dos jornalistas que
fizeram a cobertura dos fatos que
envolveram a morte de Mário Covas
.

O sepultamento ocorreu no dia seguinte, 7 de março, e contou com a presença de políticos de todo o Pais, inclusive do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso (FHC), na companhia de dona Ruth Cardoso, que era antropóloga.
Em frente à Catedral de Santos, foi realizada uma salva de tiros. Emocionante!
A população se aglomerava para acompanhar. Chegar ao Cemitério do Paquetá, exigiu um esforço.
Acompanhei o sepultamento, ao lado da então editora-chefe do jornal, Miriam Guedes de Azevedo.
Toda a cobertura foi publicada no jornal do dia 8 de março de 2001, cujo expediente traz os nomes dos jornalistas que fizeram a cobertura e trabalharam naquela edição.
No dia 7, data do enterro, tive dificuldades para chegar da Ponta da Praia até o Centro de Santos, indo pelo Porto.
Isso porque parte do trajeto portuário estava interditado, para que o helicóptero que levaria o presidente FHC e dona Ruth pudesse pousar na direção da Rua João Pessoa.
Fui vencendo as barreiras policiais, mostrando minha credencial d´A Tribuna. Assim, consegui chegar ao jornal naquele dia. Hoje, lamento profundamente a morte precoce de Bruno Covas.


Edição de 8 de março de 2001 do jornal
A Tribuna, de Santos.



sábado, 1 de maio de 2021

O dia em que Ayrton Senna morreu

 

Reprodução do Correio Braziliense
 23/01/1990

Onde você estava quando Ayrton Senna morreu?
Impossível esquecer o que ocorreu naquele fatídico dia 1º de maio de 1994. 
De repente, o mundo silenciou. Eu estava de plantão no jornal naquele dia. Ia entrar por volta das 15 horas. Saí de casa e percebi que as ruas estavam desertas. Havia um luto no ar. Ninguém falava. Quem ainda dirigia não buzinava. Na Redação do jornal, o clima não era diferente. Jornalistas gostam de notícias e se enchem de adrenalina quando um fato mais sério rompe a rotina naturalmente agitada. Mas aquela notícia ninguém queria dar. O silêncio enlutado predominava também no jornal A Tribuna, de Santos.
Quando fez  15 anos da morte desse ídolo da Fórmula 1, que conquistou o mundo inteiro, escrevi um texto sobre as memórias daquele fato. 
Republiquei em 2010, quando se anunciava a estreia do documentário Senna.
Hoje, 27 anos depois, retorno àquele texto, pois a história é a mesma e as lembranças não mudaram.
Quer ler a postagem original? Basta clicar no link:
 https://lidiamariademelo.blogspot.com/2010/11/ayrton-senna-o-eterno-idolo-da-formula.html
Se não der, eu republico abaixo:

                               15 Anos da Morte de Ayrton Senna

1º de maio de 1994 foi um dia triste. Amanheceu como tantos outros domingos, com transmissão da corrida de Fórmula 1 pela Rede Globo de Televisão, sob a narração de Galvão Bueno. O dia anterior havia sido um sábado de treino preocupante no GP de San Marino, em Imola, na Itália. O austríaco Roland Ratzenberger, de 34 anos, morrera na Curva Villeneuve. Rubens Barrichello já havia sofrido um acidente sério na sexta-feira, mas escapara ileso. O brasileiro Ayrton Senna, o ídolo mundial da Fórmula 1, visitara Barrichello e fora ver de perto a curva que provocara a morte do austríaco. Dera entrevistas, falara sobre a segurança, chegara a pensar em não correr, mas no domingo estava lá em sua Williams/Renault.
Quando acordei naquela manhã, liguei a TV. Senna era favorito. Aumentei o volume da televisão e abri levemente a porta do quarto de minha irmã, para que ela acordasse com o barulho e fosse acompanhar na sala a competição. Mas uma coisa me chamou a atenção, Galvão Bueno narrava a corrida sem mencionar o nome de Senna. Achei estranho e pensei: ''será que ele parou?'' Mas no dia anterior já havia tido uma morte e a corrida estava envolta em preocupação. Não demorou muito para minha irmã chegar à sala e perguntar: ''Cadê o Senna?''.
De repente, Galvão Bueno voltou a falar nele. Foi aí que soubemos do acidente que já havia acontecido na Curva Tamburello. As imagens mostravam que o carro daquele que era considerado um dos maiores ídolos da Fórmula 1 não curvara para a esquerda, seguira reto e batera direto a mais de 300 Km/hora no muro de concreto. A coluna de direção havia partido. Ele tirou o pé do acelerador, pisou no freio, mas não houve jeito de evitar o choque, que jogou seu carro de volta para trás e provocou um tranco em seu cérebro. As imagens da Globo mostraram quando seu corpo tremera no carro já parado. Parecia que ali ele dava os suspiros finais. Galvão Bueno não escondia a preocupação e o mundo parou para acompanhar o que se passava no Hospital Maggiore, em Bolonha, para onde o piloto de 34 anos fora levado.
Foram horas de apreensão até que às 13h40, o repórter Roberto Cabrini entrou ao vivo para anunciar, com a voz embargada, que Ayrton Senna da Silva acabara de morrer. De repente, o mundo silenciou. Eu estava de plantão no jornal naquele dia. Ia entrar por volta das 15 horas. Saí de casa e percebi que as ruas estavam desertas. Havia um luto no ar. Ninguém falava. Quem ainda dirigia não buzinava. Na Redação do jornal, o clima não era diferente. Jornalistas gostam de notícias e se enchem de adrenalina quando um fato mais sério rompe a rotina naturalmente agitada. Mas aquela notícia ninguém queria dar. O silêncio enlutado predominava também no jornal A Tribuna, de Santos.
O resto da história todo mundo acompanhou pelos jornais, televisão e rádio. Não era ainda a época da internet, mas Senna globalizava a competição. Depois de sua morte, muita gente, como eu, deixou de assistir às corridas, porque a F1 perdeu a graça.
Uma imagem de que sempre me lembro quando falo nisso é do francês Alain Prost, o maior rival de Senna nas pistas, segurando uma das alças do caixão, em São Paulo. De Ayrton Senna, restaram inúmeras imagens e lembranças nas pistas, principalmente quando ele venceu em Interlagos e chegou gritando e agitando a bandeira do Brasil, quando, acabada a corrida, ele explicava com simplicidade o que acontecera com o motor, em tal curva, com determinada marcha... Era competente na direção e com as palavras. Tinha carisma e talento. Era um campeão.
Até hoje, ainda é difícil acreditar que que ele não existe mais a não ser nas lembranças, nas memórias e na história da Fórmula 1.

#ondevoceestavaquandoayrtonsennamorreu
#ayrtonsenna

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Jornal A Tribuna publica nota a respeito de meu próximo livro sobre ditadura militar

Na sexta-feira, dia 9, a jornalista Cristina Guedes, em sua coluna do jornal A Tribuna, de Santos, deu uma nota sobre meu novo livro, a respeito da ditadura militar, que devo lançar em dois ou três meses.
Cristina me pôs em excelente companhia. Ninguém menos que mister Paul McCartney com sua Let it be (Deixe estar).
Ela também mencionou meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", que enfoca o navio que serviu de presídio político no Porto de Santos em 1964, após o golpe militar.
Meu pai foi um dos sindicalistas presos na embarcação.
Algumas pessoas têm me perguntado sobre esse livro.
Eu respondo: a edição está esgotada, mas ainda pode ser adquirido em sebos virtuais. Até mesmo na Amazon.
No dia 22, participarei de uma live que lembra a chegada do navio-presídio ao Porto de Santos em 1964.
Quando estiver mais perto do lançamento do meu novo livro, darei spoilers sobre ele.

terça-feira, 9 de março de 2021

Meu poema Apenas Um Navio virou música na voz de Julinho Bittencourt

Lídia Maria de Melo

Em maio de 1982, quando eu fazia o primeiro ano do curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, na UniSantos, escrevi o poema Apenas Um Navio. Na mesma época, fiz um outro, intitulado Filho de Um Estupro.
Ambos remetem às memórias de quando eu tinha 6 anos de idade e meu pai, Iradil Santos Mello, foi preso pelo regime militar em 1964, logo após o golpe de estado, simplesmente porque era sindicalista. Marcam também a atuação de minha mãe, Mercedes Gomes de Sá, para proteger e sustentar a família, materialmente e emocionalmente.
Primeiro, meu pai ficou na sede do Dops. Depois, no navio Raul Soares, que serviu de presídio político no canal do estuário do Porto de Santos, de abril a novembro de 1964. 
Acabei incluindo os dois poemas no meu trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulado Para Não Ser Pego de Surpresa, em 1985. Dez anos depois, ou seja, em 1995, o trabalho virou livro e publiquei com o título de Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós. 
Em 2013, esses dois poemas foram comentados no livro Esquinas do Mundo, ensaios sobre História e Literatura a partir do porto de Santos, do jornalista e historiador Alessandro Atanes, que também os espalhou em blogs e sites (http://revistapausa.blogspot.com/2012/08/apenas-um-navio-poesia-em-estado-de.html).
Agora, em 2021, recebo a notícia de que o jornalista e músico Julinho Bittencourt criou uma melodia para meu poema Apenas Um Navio. Dessa forma, nós nos tornamos parceiros.
Quando você escutar a música Apenas Um Navio, saiba que se trata de mais um filhinho meu que escapa de meus cuidados e ganha o mundo.
Não é a primeira vez que faço uma parceria, mas é sempre como se fosse.
Se você não conhece os poemas, leia a seguir. Se já conhece, relembre:

Apenas Um Navio
   (Lídia Maria de Melo - maio de 1982)

No ano de meia quatro,
no meio do estuário,
em frente ao Porto de Santos,
o porto de minha infância,
das barcas e das catraias,
dos navios e rebocadores,
dos trens e dos armazéns,
onde os botos,
às cinco e meia da tarde,
viravam cambalhotas
enquanto as gaivotas
fisgavam peixes no mar,
avistava-se um navio
velho, preto,
ancorado
próximo à Ilha Barnabé,
que os menos informados
confundiam com um navio comum.
Mas eu e muitas crianças,
que ansiavam
para verem os pais
(confinados),
sabíamos que ele era bem mais
que um navio qualquer
e o culpávamos
pela ausência paterna
nos almoços de domingo,
pela angústia disfarçada nos olhos de nossas mães,
pela melancolia que abraçava
todas as nossas brincadeiras,
pela vontade de chorar
sem saber bem o porquê.
Nós já sentíamos tudo
e éramos tão crianças!
Só o que não entendíamos
é que o Raul Soares
era apenas um navio
e não tinha culpa de nada.
Não tinha culpa de ter virado
Instrumento repressivo
no ano de meia quatro.

.....

Filho de Um Estupro

   (Lídia Maria de Melo - maio de 1982)

O pai deste meu medo de agora
veio montado no nariz vermelho
de minha mãe
que forçava um sorriso
para ocultar
de suas crianças
no pátio da escola
o peso da repressão
(não saberia traduzir-nos
que há horas certas
para falar, pensar e discordar).
No entanto, não pôde impedir
que o montador de seu nariz
violentasse meus olhos
e me engravidasse o coração
com um pavor pulsante
que jamais poderei abortar...
E carrego comigo
cravado nos gestos
enterrado nos olhos,
com o incômodo
de uma mãe que carrega no ventre
o filho de um estupro.