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sábado, 7 de junho de 2014

Uma prosa com a poesia de Adélia Prado

Não bebo café. Adoro o cheiro, mas o sabor amargo não me agrada.
Uma vez, fui entrevistar a escritora Adélia Prado na casa dela, em Divinópolis (MG). Estávamos na sala, ela e eu, quando a funcionária dela entrou com uma bandeja, levando cafezinho em xícara de porcelana. Só para mim. Fiquei na maior saia justa. Rejeitei o cafezinho na sala de Adélia Prado. Porém, a sorte me salvou. No mesmo instante, a campainha tocou. Era uma amiga de Adélia que, enfeitiçada pelo cheiro do café, tomou-o em meu lugar. Ufa!
Leia o texto que resultou dessa entrevista. Foi publicado no jornal A Tribuna, de Santos, no caderno AT Especial, em 3 de novembro de 1990, quando a atriz Fernanda Montenegro encenou, no Teatro do Sesc/Santos, o espetáculo Dona Doida, montado com poemas de Adélia Prado. Na matéria, faço uma análise da obra da poetisa mineira, mesclando com trechos da entrevista que ela me concedeu em julho de 1984, em sua casa, na cidade de Divinópolis, em Minas Gerais). Leia a seguir:
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     UMA PROSA COM A POESIA DE ADÉLIA PRADO
Clique na imagem para ler a reportagem
                                          (Lídia Maria de Melo)
A poesia de Adélia Prado tem seus modos, seu sotaque mineiro. Não faz pose. Nasce das mínimas coisas, do que  lhe toca a sensibilidade. Tanto pode estar na cozinha _ ‘‘Minha mãe cozinhava exatamente/ arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas./ Mas cantava’’ _ como na igreja _ ‘‘Igreja é o melhor lugar./ Lá o gado de Deus pára pra beber água’’.
     Harmoniza perfeitamente palavrão _ ‘‘e morra a puta/ que pariu minha tristeza’’ _ e erotismo _ ‘‘meu coração bate desesperadamente/ onde minhas pernas se juntam’’ _ com religiosidade _ ‘‘Tudo é uma coisa só. Sombra do que será./ O que difere é Deus’’ _ e metafísica _ ‘‘Eu sempre sonho que uma coisa gera,/ nunca nada está morto./ O que não parece vivo, aduba’’.                 
      Pude sentir melhor essa sutileza, quando, depois de ler toda sua obra, estive em sua casa na Rua Ceará, em Divinópolis, Minas Gerais, e ela me disse com simplicidade: ‘‘A poesia é o substrato de toda a existência. Não pára quando se vai pôr uma panela de arroz no fogo. O poeta é existencialmente poeta. Todo seu enfoque do mundo é poético’’.
     Era 21 de julho de 1984. Conversamos por quase duas horas e o tempo todo a poesia rodeou por ali ‘‘requintada e esquisita como uma dama’’. No piano, nas paredes de pedra, na mesa comprida de madeira escura com passadeira branca, nos retratos, na fala de Adélia, no jeito particular de mexer nos cabelos.
     Havia um mês que Os Componentes da Banda tinham sido lançados. Era o seu sexto livro. Um romance sem narrativa convencional, com personagens flutuantes, elaborado a partir dos conflitos da protagonista Violeta Vigo Viante. Como os demais, resultou das anotações à mão, que costuma fazer em seu sebo, caderno onde registra as situações cotidianas em que sente literatura. ‘‘É como um saco onde se vai pondo retalhos bonitos, até que chega um dia em que se junta tudo e se faz uma colcha bem bonita’’, explicou-me.
Lambendo a cria
      Adélia ainda estava surpresa com o próprio texto e lambia a cria, da mesma forma como fizera com os outros cinco.
       _ ‘‘Meu livro sobre a mesa contraponteava exato/ com os pardais, os urinóis pela metade,/ o antigo e intenso desejar de um verso’’.
       Os amigos e familiares faziam a leitura com intenção de descobrir a relação dos personagens com pessoas conhecidas. ‘‘Outro dia’’, comentou, ‘‘meu tio me disse que havia encontrado um rapaz de meu livro lá na Rua Goiás e queria que eu confirmasse. Esse mesmo tio já está sendo chamado de Tio Dan-Dan (um personagem). Eu digo que não é bem assim!’’.
        Esclareceu que não faz cópia da realidade. Procura alguma coisa a mais. Porém, admitiu que só sabe escrever sobre o que vivenciou. _ ‘‘Uma ocasião,/ meu pai pintou a casa toda/ de alaranjado brilhante./ Por muito tempo moramos numa casa/ como ele mesmo dizia:/ constantemente amanhecendo’’.
        Somente sob esse aspecto é que admite que sua obra seja considerada autobiográfica. _ ‘‘Sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia./ Faço comida e como./ Aos domingos, bato o osso no prato pra chamar o cachorro/ e atiro os restos’’.
      Aquele encantamento não impedia de estar atenta aos acontecimentos do País. Adélia criticou a educação brasileira, considerando escola ‘‘a coisa mais odiosa’’, devido  à forma de avaliação que, através do nivelamento quantitativo, não permite o desenvolvimento da criatividade.
      Revelou-se inconformada com a falta de espaço para as verdadeiras vocações, já que, depois de anos de estudo, os jovens profissionais são obrigados a ‘‘vender pipoca ou sanduíches naturais, quando não enfrentam concursos desonestos’’.
Paciência histórica
      Sobre a sucessão presidencial aguardada para o ano seguinte, desabafou: ‘‘Faltam homens, não é? Homens que estejam dispostos a morrer por nós’’. O tom de esperança retornou quando comentou a situação de dom Paulo Evaristo Arns na Arquidiocese de São Paulo.
      Certa vez, ouviu um pronunciamento do cardeal, conclamando o povo a reconquistar seus direitos, e impressionou-se com a expressão ‘‘paciência histórica’’, utilizada por ele. Não teve dúvidas: colocou-a na boca da personagem Violeta Vigo Viante.
      Adélia também não deixou de citar sua imensa fé em Deus _ ‘‘Sem fé a pessoa está morta’’. Nem o amor: ‘‘Antes de querer salvar o mundo, é preciso salvar a si mesmo através da metáfora mais incrível, o amor’’.
      Para ela, um ser somente passa a existir realmente através do sentimento de um outro ser.    _ ‘‘Minha mãe achava estudo/ a coisa mais fina do mundo./ Não é./ A coisa mais fina do mundo é o sentimento’’. _ Por essa razão, não crê que uma pessoa mal amada, que não procura fazer uma revolução interior, seja capaz de fazer uma revolução social.
      Adélia nasceu em Divinópolis em 1936. Era uma entre os oito filhos de um ferroviário. Formou-se professora com os franciscanos, antes de se casar com José, um funcionário do Banco do Brasil. Cursou a Faculdade de Filosofia, mas voltou ao Magistério depois que os cinco filhos haviam crescido.
      Também foi professora de catecismo na igreja, ajudou a montar autos festivos, mas se afastou. Continua a participar da vida religiosa pela liturgia, fé e poesia. _ ‘‘A poesia me salvará./ Por ela entendo a paixão/ que Ele teve por nós, morrendo na cruz’’.
Desde adolescente
      A escrever, começou na adolescência: ‘’Não tinha valor literário. Imitei demais Augusto dos Anjos, Alphonsus Guimarães, à procura de uma linguagem própria’’. A maturidade só veio na década de 70. ‘’Fiz um texto lírico e me assustei. Tinha achado um atalho’’.
      Em 75, enviou os originais de Bagagem, o primeiro volume  de poesias, para Afonso Romano de Sant´Anna, então crítico da revista Veja. Os poemas tocaram-no a tal ponto que ele os recomendou a Carlos Drummond de Andrade, que de pronto dedicou elogiosa crônica à conterrânea no Jornal do Brasil.
      A publicação veio no ano seguinte, com sucesso. O segundo livro de poesias, O Coração Disparado, saiu em 77, com prefácio de Romano de Sant´Anna, e recebeu o Prêmio Jabuti um ano depois. Em 79, surgiu a prosa poética de Solte os Cachorros.
     Cacos para um Vitral surpreendeu em 80 como um romance embrionário, conforme definiu a própria autora. Terra de Santa Cruz trouxe mais poemas em 81. Depois de Os Componentes da Banda, Adélia lançou O Pelicano em 87. O último foi Faca no Peito, em 88. Passou pelas editoras Imago, Nova Fronteira, Guanabara e Rocco.
      Tudo o que escreve à mão com caneta Parker, o marido, que trata por Zé, datilografa. Agora, Fernanda Montenegro interpreta, concretizando uma esperança de Adélia _ ‘‘esperança que de Minas Gerais dá pra escutar até Nova Iorque’’ _, revelada pela personagem Glória, de Cacos para um Vitral: ‘‘Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão’’.
       Quando a atriz repete _ ‘‘De que modo vou abrir a janela, se não for doida?/ Como a fecharei se não for santa?’’, o sonho de Adélia se torna, como ela mesma gosta de dizer, ‘‘plausível’’.
      Quando Fernanda se junta a Adélia, dá para reviver a emoção de seis anos atrás em Divinópolis. Lá, tive o privilégio de testemunhar a concretização dos versos ‘‘Eu sou de barro e oca/ Eu sou barroca’’.
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Post  Scriptum
Em sua coluna de 14 de setembro de 2007, no Estadão, o escritor Ignácio de Loyola Brandão lamenta ter ido a Divinópolis e não ter conseguido descobrir qual das casas da Rua Ceará é a da também escritora Adélia Prado. Ele mesmo parodia o clichê: ''ir a Divinópolis e não ver Adélia é como ir a Roma e não ver o papa''.
Posso dizer que tive mais sorte que ele em 1984, quando namorei um divinopolitano. Não só fui à casa de Adélia Prado, como fui muito bem-recebida por ela, que me deu uma entrevista maravilhosa. Eu ainda era estudante do terceiro ano de Jornalismo.
Na época, escrevi uma matéria para o jornal-laboratório Agência Facos, da Faculdade de Comunicação (curso de Jornalismo) da Universidade Católica de Santos. Em 1990, aproveitei o material e publiquei a matéria reproduzida acima.



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