quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog em 1997, conto Bala Perdida narra agonia de menino alvejado

BALA PERDIDA (*)

                                                                                                                       Lídia Maria de Melo (**)

       Vivia atrás das balas que os fregueses recebiam de troco nos supermercados e abandonavam ali mesmo nos caixas. Ou daquelas que os frequentadores de cafés ganhavam de brinde e nem retiravam dos pires. Umas traziam mensagens românticas nas embalagens, outras eram mais sisudas. Pouco lhe interessavam essas características, porque o papel nem chegava a ir para um cesto. Ficava mesmo pelo chão das ruas que percorria na sua catança instigante. Até fazia apostas com os moleques da turma sobre a quantidade que encontraria nos estabelecimentos situados no percurso da escola para casa. Na volta ficava mais livre, sem se importar com horário. Na ida, se houvesse atraso, a professora enchia o saco e ainda dizia que as balas eram um inimigo cruel porque atacavam os dentes com cáries. 
      Mas quando garimpava balas, queria mesmo era o doce, o sabor de leite, de açúcar, de mel, de coco, de chocolate... Podia até ser de hortelã, apesar do ardor . Só não buscava as amargas de café ou esse meloto incômodo que agora lhe lambuzava o rosto, lhe tingia os dentes e deixava a boca com esse travo nojento. Nunca procurou esse visgo que agora tomava seus olhos, turvando o caminho de casa e retardando o andar das pessoas, como se elas fizessem parte do replay de um gol em câmera lenta.
      Gostava de balas e de bolas. Das de gude nem adiantava gostar, porque o que aprendera com o pai ninguém mais sabia fazer. Aquele manejo de dedos que ele tinha para matar as do adversário nunca mais conseguiu ver, depois que ele morreu no meio de um fogo cruzado, quando subia o morro, num início de noite de uns quatro anos atrás.  Na  compreensão dos seus 10 anos de vida,  o futuro dependia da habilidade que os pés tivessem para dominar a de capão. Por isso, todas as tardes, lá pelas tantas, se juntava com a molecada da rua e partia para um campo de várzea, onde treinava seu ataque, na esperança de um dia defender o seu time do coração. A mãe já lhe prometera que, se passasse para a 5a. série, podia contar que iria ver, das arquibancadas do Maracanã, seu ídolo jogar.
      Só um prazer de moleque que agora não compreendia de onde vinha esse zumbido repetido e o queimor na cabeça. Que rodopio era esse, de pipa fisgada em cerol, que aproximava as pessoas e as afastava de repente, numa ciranda tão bêbada? Por que havia tantos gestos e movimentos de bocas e nenhum som?
      Chamava-se Vivier, um nome em desacordo com o sobrenome comum. Não se pronunciava a última letra e a penúltima era fechada, como se vestisse um chapéu daqueles bem circunflexos. A explicação ouvira do avô paterno, autor daquela esquisitice, por causa de um francês a quem ele prestara serviços nos tempos em que trabalhou em um cassino. Velho elegante o avô, que arriscava uns passos de dança, vivia sorrindo à toa e morreu dormindo, na boa, um ano antes do filho tombar com um tiro no peito, no meio daquele fogo cruzado de uns quatro anos atrás.
      Mas as pessoas em volta não conheciam sua história, nem sabiam o que fazer para evitar que em instantes desse com a cara no chão. Melhor era tentar chegar perto do muro ou do tronco de uma árvore. Também não podia esquecer de comprar os dois retroses de linha, uma vermelha e outra azul, senão a mãe ia ficar brava, porque tinha que terminar a encomenda de costura. Mas as pernas não passavam de dois fios de macarrão cozido. Como é que iria jogar lá pro final da tarde? Os moleques iam pensar que estava com medo do Requeijão, o zagueiro do outro time, só porque o atrevido cheirava cola e traficava a poeira. Deixava essas coisas pra eles que eram da mesma laia e se entendiam. Não via graça em nenhum desses bagulhos. Mesmo quando o Tijolo lhe ofereceu um troco para levar uma encomenda  no Morro do Chapéu. Não foi que não era trouxa e a mãe já cansou de falar que não quer ganhar dinheiro fácil e perder filho pra droga. O que tirava com as costuras ainda estava dando pro gasto. E por falar em dinheiro, as moedas para pagar as linhas estavam no bolso esquerdo. Precisava ter cuidado para não perder no meio dessa gente estranha velando sua tontura.
      Agora já não via mais nada. Nem sentiu quando o corpo tombou de uma vez no chão. Tampouco ouviu as sirenes da Polícia e do resgate dos Bombeiros, que atraíam ainda mais uma multidão curiosa e desnorteada, com a constância de cenas daquele tipo. Um soldado o envolveu num cobertor, percebendo seus calafrios, e colocou-o na maca junto com a mochila da escola. Os procedimentos de primeiros socorros eram os mesmos que ele já vira fazer em outras tantas pessoas. Agora era a sua vez de ser arrancado dos trilhos e jogado num roteiro sem nexo e sem autoria. Mas nada disso lhe doía, por obra da inconsciência.    
      Quando a mãe o encontrou, com a mesma roupa suja de sangue, os cabelos num grude só e moscas pousando na testa, ele tinha um braço estirado  por onde tomava soro. Horas tinham passado e a noite já começava, como a pelada contra o time do Requeijão. Ninguém sabia informar se a operação ainda seria naquele dia, porque não havia vagas e o jeito era esperar ali mesmo no corredor do hospital. O desespero a dominou, mas a enfermeira pediu que tivesse calma. Seu drama era mais um. Casos iguais ao de seu filho ocorriam diariamente. Ela não via pela televisão? Era como uma guerra civil, ainda acrescentou a enfermeira, antes de seguir adiante, fazendo-a lembrar-se da cena do filme que ela simplesmente chamava de “O Vento Levou” , porque não via sentido em dizer o nome com um “e” sobrando bem no começo. Gente e mais gente estropiada, cheia de dor e sem remédio e só um velho médico  para atender. Seu Vivier nem com isso contava. Já fazia um tempo que estava ao lado do filho e nenhum doutor tinha passado para lhe dar um conforto.
      Só Deus podia ajudar. Não era possível que uma criança saísse para a escola e não tivesse certeza de que iria retornar. Já com o marido foi o mesmo sobressalto. Agora não era justo que tivesse que passar por um sofrimento igual. Onde é que estavam os políticos naquela hora? E o dinheiro que descontavam cada vez que trocava um cheque do pagamento das costuras? E a contribuição do INSS? Tanto pagar e pagar e agora tinha que ver o filho morrendo à mingua sem ninguém pra socorrer? Isso não estava direito! Só dando uma de louca e começando a gritar. Quem sabe a televisão aparecesse e eles tivessem medo e viessem dar solução pro caso de seu menino infeliz.
      Impaciente de tudo, passou a entrar e sair das salas que davam para aquele corredor onde jogaram seu filho e tantos outros cidadãos, nas costas de quem eles deviam dar tapinhas em tempos de eleição. Nem uma alma sequer. Decerto por aquelas horas, os médicos estavam jantando, assim como o prefeito, o governador e o presidente. Quem iria se importar com o tamanho de sua dor?  Se seu menino estava com a cabeça aberta e cumpria uma pena por um crime que não cometeu? Os verdadeiros bandidos não estavam na cadeia, mas Vivier jazia preso naquela agonia sem fim.
      Só Deus daria um jeito. Se ele não desse, ninguém adivinharia a impotência que lhe dilacerava as entranhas. Pobre não nascera pra viver. Não podia ser verdade a crença de sua vizinha, de que a única saída é matar pra não morrer. Não foi o que planejou no dia em que o filho nasceu. Alguém haveria de ter um pouco de compaixão. Um inocente morrer, como o último dos miseráveis, só mesmo num país sem leis e sem dignidade, onde o dinheiro dos pobres ajuda a proteger os ralos da safadeza. Nossa Senhora valesse, que o coração de uma mãe não suportaria ver aquela heresia.
      Tudo o que seu filho queria, pensou, acariciando o bracinho livre da agulha, era jogar futebol, fazer sucesso e ganhar dinheiro. E assim ia poder ajudar uma porção de criancinhas e comprar um monte de balas. Do sabor que preferisse. Bala de coco, de alfenins, de leite, de chocolate... Ia morar no estrangeiro, longe desses tiroteios. Nunca mais precisaria esperar tanto por um médico e nem testemunhar que, quando um deles chegasse, já não tinha mais o que fazer, como agora, que ele só pôde perguntar se fora uma bala perdida.

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(**) Lídia Maria de Melo é jornalista, professora-universitária e autora do livro-reportagem Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós (relato da experiência de sua família com a ditadura militar e o navio que foi presídio político no Porto de Santos em 1964). Formada em Letras e em Jornalismo, é Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa Neologismos em Pauta: Os Jornais com Disseminadores e Criadores de Novas Palavras. Em 2018, cursa o último ano de Direito na UniSantos.

(*) Bala Perdida venceu o XIX Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos-1997, categoria Literatura (http://premiovladimirherzog.org.br/busca-resultado-autor.asp?id=493&letra=L).
Registrado na Biblioteca Nacional, sob o n.° 287.594, livro 520, folha 254. 
Publicado no jornal A Tribuna, de Santos, na edição de 25 de outubro de 1998, na Ceciliana nº 9,  Revista de Estudos da Unisanta, em 1998, e no site da Faculdade de Artes e Comunicação, disponível em:  http://sites.unisanta.br/faac/espaco/balaperdida.html.


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