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sábado, 23 de setembro de 2023

Você conhece a expressão "PT saudações"?

Lídia Maria de Melo

Outro dia, em uma rede social, perguntei a meus seguidores se alguém conhecia a expressão "PT Saudações".
Alguns, mais velhos, disseram que sim.
Outros preferiram não arriscar uma resposta.
Pois bem, vamos às explicações.

A expressão surgiu com o telegrama, meio de comunicação inaugurado no Brasil em meados do século 19, após a invenção do telégrafo. Tratava-se de uma forma bem rápida e urgente  de comunicação.

O telégrafo foi criado pelo norte-americano Samuel Finely Breese Morse em 1837. Somente em 1844, ele conseguiu enviar a primeira mensagem à distância. A linguagem usada passou a ser conhecida como Código Morse. 
No Brasil, a primeira linha de telégrafo foi instalada na cidade do Rio de Janeiro em 1852, a pedido do imperador D. Pedro II, um entusiasta das novas tecnologias.  
O telegrama passou a ser uma alternativa à carta, que demorava dias para ser entregue.
A linguagem do telegrama era sintética, sem preposições, artigos e pontuação, para reduzir o custo da mensagem, entregue pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
As letras PT eram a abreviação de ponto (final). Não tinham (nem têm) qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, que só foi fundado no Brasil em 1980.
A palavra "saudações" era um cumprimento  formal, equivalente a  "um abraço", "passar bem" etc. Com o tempo, "PT Saudações" passou a ser usada com o sentido de despedida.
Às vezes, quando uma conversa ficava alterada, era comum um dos interlocutores encerrar o assunto, usando essa expressão, numa demonstração de contrariedade, ou de desprezo pelo interlocutor. Ao mesmo tempo, encostava o dedo indicador na própria testa e apontava em direção ao outro, como se batesse continência. Depois, dava as costas e ia embora.
Hoje, quem pesquisa telegrama na internet só encontra o aplicativo Telegram, que não é o dos Correios, mas segue o mesmo conceito: mensagem rápida.
Em tempo: os Correios ainda oferecem o serviço de envio de telegramas, que pode ser escrito ou fonado.

sábado, 16 de abril de 2022

Buscando a Cristo, soneto barroco de Gregório de Matos, escritor baiano chamado de Boca do Inferno



Clique na imagem ou neste link, para
assistir aos vídeo no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=Lf8ATpaDuyo


Lídia Maria de Melo

O poema barroco Buscando a Cristo, do escritor baiano Gregório de Matos, expõe o antagonismo entre a capacidade cristã de perdoar e a insignificância humana.  A ambivalência se apresenta também pela consciência do eu-lírico de ser um pecador que busca o acolhimento  do Cristo crucificado.

Em termos de estilo, o poeta apelidado de Boca do Inferno, devido às suas obras satíricas, emprega figuras de linguagem. Marcadamente, são observadas a antítese, ou seja, o uso de palavras e ideias de sentidos contrários, e a metonímia, em referência às partes do corpo de Cristo, braços, olhos, mãos, pés, cabeça, sangue, como se cada uma delas fosse de fato o corpo inteiro. 

Os cravos são mencionados como a representação do próprio castigo, a crucificação. Gregório de Matos utiliza ainda a prosopopeia ou personificação, atribuindo às partes do corpo de Cristo crucificado características humanas. 

Outra figura presente no poema é a zeugma, assim como a anáfora. Zeugma é a omissão da forma verbal “correndo vou”, que é empregada no primeiro verso da primeira estrofe e suprimida nas demais.  Anáfora é a repetição da expressão “ A vós” no início de vários versos.

Na estrofe  final do poema, o eu-lírico expõe sua necessidade de ser acolhido por Cristo e  o tamanho do sacrifício do filho de Nazaré pela humanidade. É nesse momento que podemos observar a característica denominada fusionismo, o homem entendendo que obterá incondicionalmente o perdão divino.

O barroco foi um movimento estético, surgido na segunda metade do século XVI, na Península Ibérica, após o Renascimento. Foi  marcado pelos princípios ideológicos nascidos  a partir da fundação da ordem religiosa Companhia de Jesus, em 1540, e ainda pelo movimento da Contra-Reforma, que se caracterizou pela tentativa de conciliar as novidades renascentistas  com a tradição religiosa da Idade Média. 

Além disso, o barroco sofreu influência das decisões do Concílio de Trento, que se reuniu de 1545 a 1563, que teve como principal objetivo reafirmar os dogmas católicos diante do crescimento do  protestantismo.

Nessa época, surge então, um novo homem, com pensamentos, concepções sociais, políticas, artísticas e religiosas, influenciadas pela Contra-Reforma católica e pelos ditames do Concílio de Trento.

Entre as características barrocas, estão: o culto ao contraste, como se vê no poema Buscando a Cristo, de Gregório de Matos; uma preferência pelos aspectos cruéis, dolorosos, sangrentos e até repugnantes, com o intuito de mostrar a miséria humana por meio de impressões sensoriais; o conflito entre o homem santo e o homem pecador; uma intensidade na exposição do sentido da existência humana; a humanização do sobrenatural; e o fusionismo, ou seja, a fusão entre luz e treva, entre racional e irracional, surgindo  daí o uso abusivo das figuras de linguagem nas obras literárias.

O barroco, como citou Domício Proença Filho, em Estilos de Época na Literatura, apresenta “traços bem definidos nas artes visuais e plásticas, bem como na literatura” , que correspondem ao século XVII. Ele está na raiz do futuro movimento do Romantismo e penetra pelo século XVIII, um período de entrecruzamento ideológico.

Independentemente das características estéticas do poema Buscando a Cristo, a leitura dessa obra na Semana Santa nos remete à crucificação de Jesus pelos romanos e a seu mais profundo ensinamento: amar ao próximo como a si mesmo.


terça-feira, 15 de março de 2022

Doença é causa natural de morte? Falecimento do ator William Hurt faz surgir essa dúvida

Lídia Maria de Melo (foto e texto)

O que é morte por causa natural? O falecimento do ator estadunidense William Hurt, no último domingo, provocou dúvidas nesse sentido. Hurt recebeu o Oscar de Melhor Ator, em 1985, por seu papel no filme O Beijo da Mulher Aranha, dirigido por Hector Babenco e também estrelado pela atriz Sônia Braga.
Em nota publicada em uma rede social, o filho do ator informou que o pai morreu de causas naturais. Muitos órgãos de imprensa repetiram a mesma informação.
Leitores e telespectadores passaram a questionar a expressão "causas naturais", já que em 2018 circulou a notícia de que o ator apresentava metástase de um câncer de próstata.
Pois bem, a elucidação está na tanatologia, ou seja, estudo científico sobre a morte. A medicina legal  também explica.
De acordo com essas duas áreas, as mortes provocadas por doenças são classificadas como naturais, pois resultam de uma falência do próprio organismo. Ou seja, é natural que um dia todo ser humano morra.
Já a morte violenta decorre de um ato praticado por outra pessoa (caso do homicídio), pela própria pessoa (suicídio) ou por um acidente de qualquer gênero (trânsito, drogas, queda etc). As mortes violentas são sempre motivos de investigação.
Agora, você já sabe: quem morre em consequência de uma doença, conforme a linguagem técnica, tem uma morte provocada por causa natural.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Campanha da AMB para simplificar linguagem jurídica me levou a fazer reportagem sobre juridiquês

Reportagem que fiz e publiquei no jornal A Tribuna, de Santos, em
30 de outubro de 2005. Clique na imagem e salve para ler melhor. 
Lídia Maria de Melo

Em 2005, fiz e publiquei uma reportagem sobre "juridiquês".
Na ocasião, a Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) tinha lançado uma campanha dirigida a jornalistas e profissionais do Direito, com a finalidade de incentivar a simplificação da linguagem jurídica.
Quando tomei conhecimento da iniciativa, fiquei exultante. Isso porque sempre defendi a tese de que a morosidade da justiça era uma questão de linguagem. Claro que não é só essa a razão, mas a linguagem arcaica muitas vezes contribui para o atraso no andamento dos processos, como me relataram juízes.
A campanha me motivou a realizar uma reportagem com profissionais do Direito, começando as entrevistas pelo idealizador, o juiz que presidia a AMB na época, o catarinense Rodrigo Collaço.
Telefonei para a associação, em Brasília, solicitando um horário com ele, quando estava de saída para o jornal A Tribuna, onde era editora,  imaginando que ele demoraria para retornar. Mas qual não foi minha surpresa, quando o telefone de minha residência tocou e era o próprio juiz Collaço. Super-rápido.
Conversei com muitos outros profissionais, os juízes Leandro Constant e Alexandre Coelho, o desembargador, doutrinador, professor e comunicador Luiz Antônio Rizzatto Nunes, os advogados Eduardo Jardim e Rodrigo Lyra, que presidia a OAB-Santos, a professora de Português Kátia Patella, e a então estudante de Direito Maristela Low.
O resultado foi uma matéria de página dupla, diagramada pelo colega Luiz Sérgio Moura, com fotos feitas pelos repórteres-fotográficos Paulo Freitas e Marcelo Justo, e publicada no dia 30 de outubro de 2005 no jornal A Tribuna, de Santos.
Por tempos, ficou reproduzida no site da AMB, como é possível ver aqui neste link.
No sábado passado, decidi digitalizar a reportagem e aqui reproduzo.
Para ler com clareza, é preciso fazer download da imagem e salvá-la em seu computador, tablet ou celular. Boa leitura.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal carioca Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
      UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
               CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.

     

domingo, 16 de outubro de 2016

O filme norte-americano "Olhos da Justiça" recria o argentino "O Segredo dos Seus Olhos"

Lídia Maria de Melo

Apesar do início do horário de verão, que engoliu uma hora de meu precioso tempo, consegui assistir a um filme ontem. Aleatoriamente, no Netflix, escolhi "Olhos da Justiça", dirigido por Billy Ray, com Chiwetel  Ejiofor, Júlia Roberts e Nicole Kidman.
Trata-se de uma narrativa de suspense policial, contada com o auxílio de flash back, que me manteve atenta e distante do sono. Um filme de Hollywood, com atores talentosos e bonitos e interpretações que não decepcionam. Aliás, a cena da personagem de Julia Roberts (Jess) com a filha morta na caçamba foi emocionante.
Acompanhei cena a cena a investigação do personagem de Chiwetel  Ejiofor, o agente do FBI, para tentar prender, 13 anos depois, o assassino da filha de sua colega investigadora Jess, mas não percebi que era um remake do filme argentino  "El Secreto de Sus Ojos" (O Segredo dos Seus Olhos), de Juan José Campanella, estrelado por Ricardo Alberto Darín e Soledad Villamil e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.
Somente na etapa final, quando a amargurada e envelhecida Jess dirige-se para uma construção estranha, nos fundos de sua casa, é que intuí que a história se assemelhava ao belo e premiado filme argentino.
Primeiro, pensei em plágio. Depois (não vou contar a cena), cheguei à conclusão de que era um remake, ou seja, um filme intertextual.
De maneira geral, não há plágio nesse tipo de composição dialógica, no sentido do termo cunhado por Mikhail Bakhtin, "principalmente", como já disse o compositor e escritor Bráulio Tavares (em: A cereja do bolo narrativo, revista Língua Portuguesa, dez. 2011), "se os novos adornos (...) tiverem riqueza bastante para se imporem sobre a mecânica antiga”.
Na versão de Billy Ray, o esqueleto do enredo do filme de Campanella está todo ali, mas a história contada é outra. É como se novos personagens vivessem um fato semelhante ao já vivido por outros personagens. A esse processo, a búlgara naturalizada francesa Julia Kristeva denominou intertextualidade, a criação de um novo texto a partir outros textos já existentes.
No fim das contas, o filme argentino também é intertextual, porque se baseia no livro de Eduardo Sacheri, "La Pregunta de sus Ojos", publicado em 2005.
Nesse caso, a arte segue as leis da natureza, pois, como explicou o químico Antoine Laurent Lavoisier, no século XVIII, "na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", no que foi parodiado por Chacrinha, no século XX: "Na televisão, nada se cria, tudo se copia". Na realidade, o valor da arte está na criação, ou na recriação, mas nunca na cópia, pura e simples.
Quanto à minha preferência em relação aos dois filmes, não tenho dúvidas: o argentino é muito melhor, porque causa impacto. É trágico, mas é poético, criativo e original.

Leia o que escrevi em 2010 sobre O Segredo dos Seus Olhos

domingo, 1 de junho de 2014

Cuidado ao abreviar a palavra "professor".
Ela não termina com a letra "o".

A abreviação da palavra "professor" é prof., segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.
A de "professora" é profª., com "a" no fim, porque "professora" termina com "a".
As mesmas regras valem para os vocábulos "doutor" (dr.) e "doutora" (drª.).

Abreviação correta de professor.

Abreviação correta de professora

Nos últimos tempos, virou uma febre incluir indevidamente um "o" no final de prof. de dr..
Pessoas gabaritadas têm cometido essa impropriedade e acabam criando seguidores.
Porém, esse "o" não existe na abreviação de "professor" e de "doutor", afinal a palavra correta não é "professoro", nem "doutoro".

Abreviação errada de professor.

Abreviação errada de professor.

Em 2013, uma peça de teatro, protagonizada pela atriz Jandira Martini, mostrava as duas formas corretamente escritas em seu título. Então, siga o exemplo:



Se você se interessou por esta postagem, certamente terá afinidade com os artigos do blog Prosa Línguística .

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pronúncia de algumas palavras dá o que falar

Lídia Maria de Melo

A pronúncia da palavra "gratuito" exige um certo cuidado. Muitas pessoas manifestam dúvidas em relação à sílaba tônica. Então, vamos tentar esclarecer, com base na gramática normativa.
A sílaba forte é o “tu” (sem acento gráfico). Pela norma padrão, a pronúncia adequada é “tui”. Não é “tu-í”. 
A mesma regra vale para "circuito" e "fluido" (substantivo).
Fluido, sem acento gráfico, é um produto líquido ou gasoso. O fluido do isqueiro, por exemplo.
Fluído, com acento agudo, refere-se ao particípio do verbo fluir (Exemplo: Quando o encanador chegou para reparar a tubulação, muita água tinha fluído dos canos).
A pronúncia do nome da torre que se tornou um símbolo mundial da França também causa controvérsia.
No idioma francês, Eiffel tem acento de pronúncia na última sílaba, ou seja, a palavra é oxítona. Em português, se fosse paroxítona, deveria receber um acento gráfico (circunflexo) no primeiro "e", já que termina em "l". Como nada disso ocorre, a pronúncia no Brasil deve ser a mesma francesa: Eiffel, com ênfase na sílaba "fel".
Sobre a pronúncia do nome do estado brasileiro "Roraima", com vogal aberta ou fechada nasalizada na penúltima sílaba, explico: tanto faz. Ambos estão corretos. 


terça-feira, 25 de junho de 2013

Charges avaliam manifestações de maneira
criativa, contundente e bem-humorada

      Angeli - Folha de S. Paulo 23/6/2013 - reprodução
A charge é um dos meios mais sintéticos de se expressar opinião. Para transmitir o que pensa a respeito de determinado assunto, o chargista utiliza linguagem não verbal, que pode estar associada, ou não, a recursos verbais. Porém, somente o emprego de imagem e de palavras não garante que a mensagem seja entendida.
A compreensão do conteúdo da charge envolve a somatória de outros fatores, como contexto, intertextualidade e conhecimento partilhado entre emissor e receptor. Se, por exemplo, quem observar a charge não tiver informação suficiente sobre o tema abordado, a comunicação não se concretizará.
O emprego de figuras de linguagem, como metáfora, ironia, hipérbole, prosopopeia, onomatopeia, elipse, é outro ponto fundamental para que a intenção da charge se consolide. Em outras palavras, a charge é uma unidade, formada por um mosaico de sentidos, ligados pelo humor.
Desde o início do mês, quando a população brasileira passou a ocupar as ruas das cidades para protestar, as manifestações tomaram o lugar da Copa das Confederações na relação de temas que serviram de inspiração aos chargistas.
                              "Afinal, pelo que vocês lutam?".
Na edição de domingo do jornal Folha de S. Paulo, a charge assinada por Angeli aborda o assunto (veja imagem acima). Ambientada em um espaço não especificado, mas que pode ser qualquer uma das cidades que estão sendo palco de manifestações, ela mostra um jornalista fazendo a seguinte questão a um grupo de encapuzados: "Afinal, pelo que vocês lutam?".
À frente de chamas e  armados com paus e embalagens de sprays, os integrantes do grupo respondem: "Ora! Por um país mais transparente!". A interjeição "ora" e os pontos de exclamação dão à explicação dos manifestantes um tom de obviedade.
A boca entreaberta do jornalista, além de caracterizar o momento da elaboração da pergunta, simboliza a expressão de surpresa diante da resposta, que torna a situação contraditória e irônica.
A perplexidade do repórter ocorre em silêncio, o que remete à  elipse, figura caracterizada pela omissão de palavras facilmente subentendidas no contexto. É como se ele e o leitor se perguntassem: "Se eles desejam tão ardentemente a transparência, como se apresentam com os rostos cobertos?!"
Assim, consolida-se, em clímax, a opinião humorada do chargista.
 DaCosta - A Tribuna 15/6/2013 - reprodução
No dia 15, a charge que DaCosta publicou no jornal A Tribuna envolve Copa das Confederações, protestos e repressão policial, sob um título formado pelo trocadilho: "Bola e Bala". As duas  palavras incorporam a síntese dos acontecimentos.
De um lado, a Seleção Brasileira de Futebol faz a bola rolar na abertura da Copa das Confederações.
Do outro, uma manifestante protesta nas ruas e tenta se proteger contra as balas de borracha disparadas pela Polícia Militar.
Esse tipo de projétil foi utilizado pela PM na Avenida Paulista, em  São Paulo, na tarde do dia 13, durante a  tentativa de conter o protesto contra o aumento da tarifa do transporte público. No episódio, manifestantes e jornalistas acabaram feridos e precisaram ser hospitalizados.
Nos dois quadros que compõem a charge, outro fator contribui para a construção do sentido, as cores da Bandeira Brasileira. O verde está no gramado, na gola e nas mangas da camiseta do jogador, que no restante é amarela. O azul aparece nas meias e no calção, que na lateral tem um detalhe branco, cor que tinge a chuteira.
Na manifestante, o verde colore o calçado, enquanto o amarelo se evidencia no bermudão, e o azul, na camiseta e na bolsa tiracolo. Já o branco, como símbolo da paz, chama a atenção na camiseta, que é larga e comprida.
Outras cores deixam suas marcas: o cinza do asfalto, de uma parte da bola e das balas que perfuram o papelão bege, com o qual a manifestante tenta se proteger.
A única diferença de tom entre os dois personagens é o roxo, que no cabelo da manifestante serve de indício de sua juventude e irreverência. 
O preto usado de base para o título pode ser interpretado como uma referência aos momentos de luto, já que o clima de confronto entre manifestantes e polícia nas ruas, até aquele momento, era de muito temor.
Nessa charge de DaCosta, o humor não provoca riso, mas apreensão. A mesma que se pode observar tanto na expressão do jogador, quanto na da manifestante.
 Paixão - Gazeta do Povo 15/6/2013 - reprodução
 
No mesmo dia 15, na Gazeta do Povo, Paixão faz intertextualidade com o quadro O Grito, de Edvard Munch (ao lado), datado de 1893, para expressar a reação do manifestante ao barulho das bombas lançadas pela tropa de choque da Polícia Militar.
A exemplo do que ocorre na pintura de Munch, a charge não emprega linguagem verbal, mas o grito que ecoa pode ser ouvido pela representação da imagem: o personagem tem a boca escancarada, os olhos arregalados e as mãos nos ouvidos, para protegê-los do estrondo das explosões. Os sons das bombas se evidenciam nos desenhos de fogueiras pontiagudas, pintadas de vermelho e amarelo, ao mesmo tempo em que delas sobem espirais de fumaças brancas.
 Jorge Braga - O Popular 18/6/2013 - reprodução
No dia 18, no jornal  O Popular, Jorge Braga, com linguagem não verbal e uma onomatopeia, dá sua interpretação à frase que mais vem se repetindo no País desde que os protestos tomaram conta das ruas: "O gigante despertou".
Numa associação explícita com o super-herói Hulk, o chargista mostra o Brasil, caracterizado pelo mapa, se transformando e rugindo, enfurecido e esverdeado. Ele não só despertou. Também amedronta. Basta ver  a expressão facial e os gestos do Hulk-Brasil.
Mesmo sem palavras, a charge faz referência aos versos do hino nacional brasileiro "gigante pela própria natureza" e "deitado eternamente em berço esplêndido", consolidando uma paródia.
Neste caso, ocorre então uma intertextualidade híbrida entre textos verbais, que são o hino e a frase sobre o despertar do gigante, e não verbais, o mapa do Brasil e o incrível Hulk.
Como se vê, as charges expõem comentários sobre questões cotidianas, de forma bastante sintética, mas muito criativa, contundente e bem-humorada.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Análise: anúncio publicitário fala de Jimi Hendrix e Janis Joplin em alerta contra drogas

(Atenção:  Na análise abaixo,  foi mantida a grafia da época, 1970, nas citações aspeadas do texto da Agência Alcântara Machado. Por isso, algumas palavras recebem acentos que não fazem parte das regras ortográficas atuais)
                                                                               Lídia Maria de Melo

Anúncio da agência Alcântara Machado
publicado em outubro de 1970 nos veículos
brasileiros de  circulação nacional
Em outubro de 1970, a Agência Alcântara Machado publicou em jornais e revistas de circulação nacional um anúncio em que lamentava a morte de Jimi Hendrix, “gênio da guitarra”, e da cantora Janis Joplin, a “estrêla do soul”. Ambos, vítimas das drogas.
 O texto era um alerta para o perigo do vício que matava cada vez mais naqueles finais de anos 60 e início dos 70. Na época, os jovens rejeitavam o mundo dos negócios e, ao mesmo tempo, exaltavam o lema “paz e amor” e a filosofia “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.
A agência queria sensibilizar a juventude, para que não se iludisse com as falsas sensações provocadas pelos entorpecentes (“fuja dos traficantes”) e não alimentasse “o mais sujo negócio do mundo”.
Com ritmo ligeiro, devido às frases curtas e, quando longas, bem-pontuadas, o anúncio assume um discurso emotivo e confessional desde o início. Essa característica fica evidente pelo emprego da primeira pessoa:  “Estamos chorando por eles”; “Somos uma emprêsa ìntimamente ligada à comunicação”.
Depois, com linguagem referencial, enaltece as qualidades da juventude (“Porque eles são um sôpro de vida no cansaço do mundo”; “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”)  e propõe uma aliança (“...estamos colocando nossa arma  - o anúncio – a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”).
Na sequência, utiliza a função conativa ou apelativa, para aproximar-se dos jovens leitores e aconselhar: “Não deixem que as drogas os levem para sempre do mundo que vocês querem esquecer”. Mas explica: “Sem vocês, êsse mundo fica ainda maior”.
As justificativas prosseguem nos parágrafos seguintes, em tom argumentativo:  “...você, que tem um sereno desprezo pelo ‘mundo dos negócios’, estará alimentando o mais sujo negócio do mundo: drogas”. Até que um desafio é lançado: “Viva o suficiente para tentar mudar o mundo que lhe demos”.
Embora volte à função referencial, o texto disfarça um tom apelativo, usando um eufemismo, para evitar mencionar de novo  a palavra morte: “Ninguém faz nada nem muda nada embaixo de um túmulo”.
Numa tentativa de aliança e linguagem compreensiva, a agência barganha: “Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”.
No final, surgem os verbos no imperativo, característicos da função conativa, mas não como ordens, que os jovens rejeitariam, mas como conselho  e apelo definitivos: “Não morra por nada. Não vale a pena. Ou, para usar nossa linguagem: é um mau negócio”. Ou seja, o texto coloca o jovem em pé de igualdade com o mundo que ele rejeita: o dos negócios. Só que os maléficos.

Durante todo o tempo, o anúncio contrapõe a linguagem e a ideologia do jovem da época com a dos mais velhos, para reafirmar sua mensagem aos primeiros.
Além do eufemismo mencionado mais acima, a agência emprega outras figuras de linguagem, como a metáfora  (“..seríamos um punhado de cifras, alienado e sem calor”, “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”); a aliteração (“vazio de vida”), a metonímia (“Porque o mundo só é rico no coração dos jovens”), a antítese (“Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”) e a prosopopeia (“Não deixem que as drogas os levem para sempre que vocês querem esquecer”).
Alguns erros também são observados.  O nome do guitarrista, por exemplo, está escrito como Jimmy, quando o correto é  Jimi. A idade dele e a de Janis aparecem como  24 anos e 26, respectivamente. Os dois, no entanto,  tinham 27 e já se aproximavam dos 28. Atualmente, eles são mencionados como integrantes do Clube dos 27, ou seja, dos ídolos do universo musical que morreram com essa idade. A mais recente foi a cantora Amy Winehouse, encontrada morta em 23 de julho de 2011, em Londres.

Quando menciona a Ilha de Wight, a correlação entre verbo e  preposição não é adequada. Se o verbo "erguer" é conjugado no gerúndio, o "baixar" também deveria ser flexionado nessa forma. Assim: “Preferimos ver você levantando os braços na Ilha de Wight do que os baixando para morrer”. 
Como o verbo "preferir", pela norma culta da linguagem, é regido pela preposição "a" e não pela locução conjuntiva "do que", a agência deveria recorrer a outra frase. Pode ser que ela tenha assumido a locução, porque é mais coloquial e o modo formal soaria distante do receptor jovem.
Na frase “Sem vocês, êsse mundo fica ainda pior”, o pronome demonstrativo está errado. O correto seria “este”, do mesmo modo como foi usado “deste” em outra frase: “... a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”.
Quanto à acentuação, aparecem os circunflexos diferenciais (“êles”, “êsse”, “côres”, “emprêsa”, “estrêla”) e o acento grave na palavra derivada “ìntimamente”. Em outubro de 1970, data da publicação do texto, ainda vigoravam as regras de 1942. Somente em dezembro de 1971 foi assinada reforma ortográfica que extinguiu os acentos diferenciais e o grave (quando usado nos vocábulos derivados de outros acentuados com o agudo). Essas regras passaram a valer em  janeiro de 1972.

Em termos de apresentação, a agência substituiu o título por fotos de Jimi Hendrix e Janis Joplin, porque as imagens têm mais apelo, já que ambos eram ídolos de uma geração.
Não fosse pela rejeição que os jovens dos anos 60 tinham pelo mundo dos negócios e que os de hoje não têm, esse texto da Agência Alcântara Machado seria totalmente atual. Bastaria trocar os nomes de Jimi e Janis pelos de Michael Jackson e Amy Winehouse, por exemplo, e corrigir a acentuação.
Ninguém diria que foi escrito há mais de quatro décadas.
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sábado, 20 de outubro de 2012

As palavras transportam todos os nossos segredos. A defesa de José Genoino e o parquet

Após tomar conhecimento da carta da filha de José Genoíno a respeito das acusações que pesam contra o pai no esquema do Mensalão, busquei mais informações na internet. Fico sempre tentada a ouvir as pessoas que se dizem acusadas injustamente.
Na terça-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Genoíno por corrupção ativa. A carta de Miruna Genoíno foi lida, ontem, pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP) na tribuna do Senado.
Neste momento, como jornalista, o que mais gostaria era de poder entrevistar o ex-deputado e ex-presidente do PT. Não para acusá-lo ou tomar partido. Para, quem sabe, poder decifrar histórias e fatos que não se revelam com facilidade, que passam despercebidos aos olhos comuns.
Acho que este anseio surgiu em mim durante a ditadura militar, quando a verdade dos perseguidos se ocultava nos vãos das palavras, nas entrelinhas, como charadas a serem decifradas somente por quem fosse capaz de alcançar os sentidos invisíveis e flutuantes das linguagens.
No site do jornal O Globo, encontrei um infográfico intitulado Saiba quem são os acusados do mensalão. Cliquei no nome de Genoíno e achei sua defesa apresentada ao Supremo Tribunal Federal.
Vou me debruçar sobre ela. Quem sabe eu consiga analisar mais em silêncio, longe da influência de meus colegas da imprensa e dos holofotes das câmeras de TV, as ponderações da defesa. Se um dia eu tiver a oportunidade de conversar com ele, estarei preparada.
Assinado pelos advogados Sônia Cochrane Ráo, Luiz Fernando Pacheco, Sandra Gonçalvez Pires e Marina Chaves Alves, o documento de 115 páginas é datado de 8 de setembro de 2011.
Além dos argumentos da defesa, oferece oportunidade secundária de estudo do léxico. Não pude escapar desta outra tentação, que pode parecer supérflua, diante da gravidade do tema em pauta. Mas asseguro que não é. As palavras transportam todos os nossos segredos (desconfio que essa frase seja o embrião de um poema).
Para entender, acompanhe um exemplo. Logo de início, os advogados empregam a palavra francesa "parquet" (lê-se parquê). O termo é muito comum  nos meios judiciários, embora pudesse ser substituído por ministério público ou pelo cargo ocupado por um de seus membros.
Pois bem, "parquet", em francês, significa "assoalho". Na época dos reinados franceses, nas salas de audiência, os procuradores dos monarcas ficavam no assoalho (parquet) e não, no tablado ocupado pelo juiz. Com o tempo, no Direito, esse termo passou a designar o Ministério Público ou o representante dele, indicando que a instituição é o sustentáculo, a base, do sistema jurídico.
Vou me debruçar sobre essa defesa e, claro, sobre a acusação. Certamente, depreenderei muito mais.

domingo, 18 de setembro de 2011

Com que autoridade estão mudando os ditados populares? Por que agora se "vaia" Roma?

Não há novidade em se dizer que a língua é dinâmica e, de tempos em tempos, passa por alterações, tanto na forma das palavras, quanto nos sentidos. Muitos vocábulos surgem e outros morrem. Essas mudanças ocorrem sempre a partir de uma necessidade dos falantes do idioma.
Primeiro, as alterações costumam se dar no plano oral. Depois, no escrito. E normalmente ficam registradas em documentos, na imprensa, na literatura. Só a partir de uma ocorrência acentuada é que linguistas e dicionaristas procedem ao registro oficial nas gramáticas, nos estudos linguísticos e nos dicionários.
Desde que a internet tornou-se ambiente comum aos povos, passaram a circular entre os usuários informações nem sempre fundamentadas ou assinadas por alguém idôneo. Mesmo assim, são aceitas como corretas pela maioria que não questiona a procedência delas.
No rol de exemplos estão textos falsos, atribuídos a pessoas respeitadas em seu campo de atuação, como jornalistas, escritores, poetas, professores de português, políticos.

Em espanhol, em francês e italiano, quem tem boca vai a Roma. Por que não em português?

Já há algum tempo, chama a atenção uma lista de ditados populares que, supostamente, teriam sido concebidos há séculos com estrutura diferente da que utilizamos agora. Com "agora", quero dizer há mais de 100 anos. Faço esse cálculo porque meus avós, se vivos fossem, teriam ultrapassado um século de existência. Meus pais aprenderam com eles ditados que hoje ainda ouço. Se alguém decide atualmente que eles surgiram com outro sentido, essa correção deve remontar a um período superior a um cento de anos.
Entre os ditados, está o mais que conhecido "Quem tem boca vai a Roma".
Em agosto do ano passado, na revista Língua Portuguesa, o professor e escritor Sírio Possenti, do Departamento de Linguística da Unicamp e autor do livro Os Humores da Língua - Análises Linguísticas de Piadas, comentou sobre esse modismo de se alterar certas expressões, com o argumento de que elas não fazem sentido.
Além de outros exemplos, ele citou "Quem tem boca vai a Roma", que a lista da internet corrige para "Quem tem boca vaia Roma".
"Boca", como explicou o professor, é uma metonímia para "perguntar", "sabe falar" etc. Ele lembrou também que o mesmo ditado tem correspondente em outras línguas. Em francês, Qui langue a, à Rome vá (numa tradição livre, Quem tem língua, vai a Roma); em espanhol, Preguntando se va a Roma (Perguntando se vai a Roma); e, em italiano, Chi língua há, a Roma va (Quem tem língua, vai a Roma).
Ou seja, nesses idiomas de origem latina, como o português, o ditado quer dizer exatamente o que o nosso expressa: "Quem tem boca vai a Roma" (Quem tem boca pergunta e chega ao lugar procurado). Por que somente no Brasil a cidade que foi sede de um império seria vaiada?
Na tal lista que circula na internet, consta também a expressão "bicho-carpinteiro" como errada e corrigida para "bicho no corpo inteiro". Basta uma consulta aos dicionários, como o de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Aurélio Século XXI), para ver a expressão "bicho-carpinteiro" registrada com o sentido relacionado "a quem não consegue ficar quieto, não para em lugar nenhum".
Utilizada há séculos no arquipélago de Açores, a expressão é mencionada também pelo frei português Francisco Rei de Abreu Mata Zeferino em seu livro Anatômico Jocoso, de 1755, no capítulo 1, nas páginas 155 e 204. Ou seja, há 256 anos.

Alterar o dito popular equivale a trocar "risco de vida" por "risco de morte". Modismo sem fundamento. 

 Essa ânsia de correção, sem base científica, é semelhante à que envolve a expressão idiomática "risco de vida", há séculos consagrada pelo uso, no português, no francês (risque de vie), no espanhol (riesgo de vida), no inglês (risk of life), mas que, agora, alguém no Brasil cismou de mudar para "risco de morte".
Escritores renomados da língua portuguesa registraram-na em suas obras: Aluísio de Azevedo, em O Cortiço ("Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos estiveram em risco de vida"); José de Alencar, em O Guarani ( "Não há dúvida, disse D. Antônio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecília quis fazer-lhe a vontade com risco de vida"); Machado de Assis, em Quincas Borba ("Salvar uma criança com o risco da própria vida..."). As leis brasileiras falam em "gratificação por risco de vida", assim como o Código de Ética Médico menciona "iminente risco de vida". Isso não quer dizer que a expressão "risco de morte" não possa ser usada. O que causa estranheza é empregá-la no lugar de "risco de vida", como se essa estivesse errada.
O uso de "risco de morte" é registrado também em nossa literatura, mas a expressão está sempre acompanhada de um adjetivo. Exemplos: risco de morte súbita, risco de morte por afogamento, risco de morte por parada cardíaca, como cita o professor Cláudio Moreno no blog Sua Língua.
Então, não se poderia usar a expressão "ao pé da letra" Afinal, letra não tem pé!

Volto a repetir, como a língua é dinâmica, alterações podem ocorrer nas expressões, nas palavras. Mas só as aceito de bom grado se surgirem espontaneamente entre a população. 
No caso dos ditados populares e de "risco de vida", as mudanças têm sido impostas pela imprensa e por usuários da internet que não questionam as mensagens que recebem por e-mails.
Se alguém trouxer a público documentos que comprovem que os ditos populares incluídos na listagem surgiram de forma diferente há séculos e séculos, então darei minha mão à palmatória. Opa, essa expressão quer dizer que me renderei aos argumentos. Quando foi criada, fazia referência ao castigo aplicado nas escolas ou nas casas, com o uso da palmatória, um instrumento que servia para castigar uma pessoa, aplicando-lhe golpes na palma da mão. Como a palmatória foi abolida, pode ser que alguém queira encontrar uma outra explicação para ela.
Vale lembrar que as expressões idiomáticas não têm sentido literal. A maioria está impregnada de sentidos expressos por figuras de linguagem ou de pensamento, ou faz referência a uma realidade que já se modificou. Retratam a cultura do povo que as criou.
Uma mesma palavra ou expressão pode assumir conotação diferente, dependendo do contexto. Se assim não fosse, jamais poderíamos dizer, por exemplo, "ao pé da letra". Afinal, letra não tem pé!

 Verificar a autenticidade é ato necessário.

A tal lista alterando os ditados populares foi atribuída ao professor Pasquale Cipro Neto. Indignado, ele negou a autoria em artigo publicado na Folha de S. Paulo de 13 de maio de 2010.  Clique no link do jornal e leia..
Ah, aqui também cabe um alerta: antes de disseminar tudo o que aparece em mensagem enviada por e-mail, postada em redes sociais, ou acreditar no que está escrito, é preciso verificar a autenticidade.
Durante a campanha eleitoral à Presidência da República, um e-mail difamava a então candidata Dilma Rousseff, atribuindo-lhe ações das quais ela jamais participou. Aquelas afirmações não tinham fundamento, eram mentirosas, mas muita gente acreditou.
Por isso e muito mais, é preciso confirmar a procedência das informações que circulam na internet (ou fora dela).

sábado, 30 de julho de 2011

Apenas uma pessoa morreu. Apenas?!

                   Ilustração: Lídia Maria de Melo
Como você se sentiria, se descobrisse que a única vítima fatal em um acidente de avião, com 162 pessoas a bordo, é seu filho ou sua filha, irmão, irmã, marido, mulher, alguém de sua família?
Como você reagiria se uma criança vítima de abuso sexual fosse sua parente? E se ela tivesse 9 anos em vez de 3? Faria diferença? Você se sentiria menos indignado? Sua dor seria menor?
Imaginando que você seja pai ou mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, avô ou avó, tio ou tia, integrante de uma família a quem ama, que seja um ser humano com um mínimo de sentimentos, posso antever sua resposta.
Então, é hora de outra pergunta. Desta vez, destinada a colegas jornalistas. Por que empregar o advérbio "apenas" em notícias desse gênero?
Observe esta frase: "Apenas uma pessoa se salvou entre os 162 ocupantes do avião". O "apenas" não tem o mesmo efeito que nesta outra: "Apenas uma pessoa morreu entre os 162 ocupantes do avião".
Na primeira, não ofende, porque está associado à ideia de vitória dentro de uma tragédia. Está ligado à celebração da vida.
Na segunda, soa como se essa vida perdida tivesse pouca ou nenhuma importância, já que tantas outras se salvaram. Ajuda a desmerecer a dor da família.
Do ponto de vista jornalístico, o "apenas" relega a nada a única pessoa morta no acidente aéreo, porque numericamente a quantidade é ínfima. No entanto, para a família, mesmo em termos percentuais, a perda equivale a 100%. Pode corresponder a todo seu universo.
O "apenas" também terá conotações totalmente diferentes nestas duas outras construções: 1) "Uma criança de apenas 3 anos aprendeu a ler sozinha"; 2) "Uma criança de apenas 3 anos foi violentada".
Na primeira, ressalta uma situação inusitada, mas positiva. Reforça que não é comum uma criança dessa idade aprender a ler, e ainda mais sozinha. Não agride os que não estão incluídos nesse rol.
Na segunda, é desnecessário, porque a situação envolve "uma criança", que tem "3 anos" e que foi "violentada". Essa notícia não precisa de um advérbio para ser chocante.
O uso do "apenas" deixa subentendido que, se o abuso sexual fosse contra uma criança mais velha, como uma de 9 anos, por exemplo, o crime seria menos grave. O que não é verdade.
Dá para perceber?
Por isso, é preciso refletir sobre os vários sentidos e o peso das palavras antes de se divulgar uma notícia.
Uma frase como "Apenas uma pessoa morreu no acidente" soa como descaso. Ou uma agressão.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Hjelmslev via a linguagem como um
fio tecido na trama do pensamento

Foto: reprodução
''Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana até os momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor.
A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento''.
(Louis Trolle Hjelmslev*, em Prolegômenos a uma teoria da linguagem)

* Hjelmslev era um linguista dinamarquês, nascido em 3 de outubro de 1899, na cidade de Copenhague, e falecido em 30 de maio de 1965. Doutor em Filologia, fundou o Círculo Linguístico de Copenhague, mas, o mais importante, foi precursor das tendências modernas da Linguística. Defendeu a teoria de que a língua é um todo autossuficiente.

P.S.: Prolegômeno pode ser compreendido como introdução, prefácio.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Requintada


Jardim Botânico de Curitiba,
foto de Lídia Maria de Melo
Requinte. Gosto dessa palavra e de seus derivados. Combinam com vinho, seda, cetim, taça de cristal, porcelana, pérola, tom pastel, delicadeza de gestos, carinho, elegância, sutileza, silêncio, inteligência, respeito, justiça, educação, gentileza... 
Gosto de gente que faz aflorar em mim os sentimentos nobres, o meu sorriso, que por si só sempre foi solto e largo.
Sou como um espelho. Reflito.
Se bem me tratam, retribuo com meus melhores gestos.
Se me recebem com modos ácidos, meu lado sombrio desperta. Não tenho vocação para, nesse aspecto, seguir os ensinamentos do filho do criador, que ofereceu a outra face a quem o agrediu.
Meu sangue tem mistura de diversas etnias. Resultou na fórmula que o faz ferver de vez em quando. O antídoto para essa fervura se chama gentileza. Com fino trato, sou doce, seda, cetim, algodão...
Mas essa gentileza não pode andar de mãos dadas com falsidade, dissimulação. Nesse caso, meu radar começa a girar e põe meu sexto sentido em alerta total. Mesmo a quilômetros de distância, ele capta os maus fluidos ocultos, disfarçados, as artimanhas. 
É nessa hora que meu anjo da guarda entra em ação: me envolve numa redoma, que tem a força de uma armadura, e eu começo a ler pensamentos e até ouvi-los. Tudo para me proteger e eu continuar sorrindo, dormindo com tranquilidade, me mantendo íntegra e fiel a meus princípios, sem precisar agredir nem a mim, nem a ninguém.
Meu anjo da guarda tem maneiras requintadas de me pôr a salvo das mazelas.
(texto publicado originariamente em 28 de julho de 2008, em meu antigo blog)

Marisa Monte canta 'Gentileza' - clique para ouvir

terça-feira, 18 de maio de 2010

O sublime e o belo em A Partida

Muito se comentou sobre o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. O favorito era A Fita Branca, roteirizado e dirigido por Michael Haneke. O vencedor, no entanto, foi o argentino El Secreto de Sus Ojos (O Segredo dos Seus Olhos), direção de Juan José Campanella.
Filme belo, de trama inteligente, com narrativa que entrelaça o presente e o passado.
Não é exatamente policial, embora conte uma história que parte de um assassinato e tenha personagens ligados às investigações. Não é romântico, apesar de mostrar duas histórias fortes de amor. É um enredo que enovela ingredientes da vida. Portanto, a paixão, em diversos setores. A paixão como os argentinos sabem expor.
Gostei do que assisti na tarde chuvosa do sábado que antecedeu o Dia das Mães. A luz do cenário impressiona, assim como a fotografia. Mas alguma coisa faltou.
O Segredo dos Seus Olhos é um título extremamente poético e instigante. Todas as pessoas que eu conheço, e que já viram o filme, adoraram e recomendaram. Por que não o considerei a obra-prima que elas me descreveram?
Não sabia. Algo me intrigava.
Uma semana depois, assisti, em casa, ao japonês A Partida (Okuribito, no idioma nativo, e Departures, em inglês), dirigido por Yojiro Takita e ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009.
Agora, então, eu sei o que faltou em O Segredo de Seus Olhos. A emoção delicada, o sublime, a filosofia presentes em cada cena de A Partida.
O filme argentino explora muito bem a técnica. O japonês apresenta uma narrativa mais linear, mas com todos os ingredientes necessários a uma obra-prima.
Como espectadora, prefiro mais uma boa história que me emocione e me acompanhe além das duas horas de projeção .
A Partida aborda um tema espinhoso do qual quase todo mundo foge: a morte. Mas a abordagem é inusitada e poética. Coloca o público diante de duras situações que podem ocorrer em sua própria vida. Mas o acalanta.
Não vou revelar o enredo. Quem desejar saber detalhes deve assisti-lo. Certamente, não irá se decepcionar. Ao contrário, vai se encantar. Como ocorreu comigo.
Antes da saber de sua premiação, exclamei no final da projeção: ''Esse, sim, merecia um Oscar''. Pois é, não foi gratuitamente que A Partida conquistou o prêmio máximo do cinema.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Crônicas de Rubem Braga são megaliteratura

Rejeito esse tipo de pergunta: ''De quem você gosta mais? Da mamãe ou do papai?'' E qual seu prato predileto? E o livro? E a música?
Por que forçar uma criança a ter preferência entre as pessoas que a trouxeram ao mundo? Por que ter predileção por um prato quando há tantas iguarias saborosas distintas umas das outras? Em meio a uma infinidade de livros bem-escritos e que podem ser considerados clássicos, mesmo com histórias desconhecidas da maioria das pessoas, por que é necessário indicar um único? E a música então? Somente no Brasil, a relação de composições supremas excede o limite da minha memória. Se incluir as estrangeiras, o rol torna-se astronômico. As possibilidades são tantas, por que me contentar somente com uma?
Sou eclética. Meus gostos não cabem em espaços segregados. Mesclam-se.
No domingo, o jornal Folha de S. Paulo trouxe as indicações de um seleto grupo de personalidades em relação a livros. O nome de Rubem Braga apareceu repetidamente na lista de alguns.
Apesar de não gostar desse tipo de escolha, fiquei satisfeita. Rubem Braga figura eternamente entre os escritores por quem devoto infindável admiração.
No meu blog antigo, já escrevi sobre ele algumas vezes.
Já que estamos encerrando o ano, vou reafirmar meu apego à obra do bruxo de Cachoeiro de Itapemirim. Aqui, reproduzo o texto publicado em 27 de agosto de 2006:

As crônicas de Rubem Braga


(...)Como a madrugada vai alta e uma dor na coluna me incomoda sobremaneira, não vou me estender. Mas faço questão de frisar: quem nunca leu Rubem Braga não pode deixar para depois.
Meus primeiros contatos com sua obra ocorreram quando eu era criança, lá pelos 7 anos de idade. No meu livro de 2ª série do antigo curso primário (hoje, ensino fundamental), havia a crônica
''Duas meninas e o mar''. Releio-a de vez em quando no livro ''200 Crônicas Escolhidas'', lançado pela Editora Record em 1978. Foram textos selecionados, pelo próprio Rubem com a ajuda de Fernando Sabino, de seus oito primeiros livros.
Outra de que sempre me lembro é
''O afogado'', que conta a história de um homem que quase morre em uma movimentada praia do Rio. Depois de toda a angústia de lutar contra as ondas, ele consegue chegar a uma pedra. Ninguém na areia havia percebido seu desespero, por isso, quando alguém grita para que ele saia daquele lugar, porque é perigoso, ele apenas sorri, como se dissesse que, depois do que havia enfrentado, aquele local era um paraíso. A pessoa era bem-intencionada, mas não sabia de nada!
Uma outra é a que fala dos passarinhos que ele doou. Sentia falta deles, mas também estava aliviado por não ter mais responsabilidade com horários de alimentação, cuidados especiais e outras atenções que um bicho de estimação exige. Então, ele conclui mais ou menos assim: ''Estou mais só, mas estou mais livre''.
''As boas coisas da vida'', lançada em 1988, pela Editora Record, também é outra obra que recomendo. Tem crônica para Rita Lee e Amir Klink. Não estou certa, mas acho que dei esse livro por engano. Se ocorreu mesmo, vou comprar outro exemplar.
Na semana passada, redescobri em minha estante
''Um cartão de Paris'', que reúne crônicas publicadas por Rubem Braga no jornal O Estado de S. Paulo no último período de sua vida, de 1988 a 1990. Os textos foram selecionados pelo crítico literário Domício Proença Filho, a pedido do filho do cronista, Roberto Braga. A orelha foi escrita pela também espetacular escritora Ana Maria Machado, que confessa ter sido influenciada por Rubem a começar a escrever. Há tantas delicadezas nessas crônicas que fica difícil citar exemplos. Mas vou tentar.
Na crônica que dá nome ao livro, ele conta sobre um cartão enviado por uma nova amiga que está em Paris. O gesto faz com que ele se esqueça das coisas ruins que o incomodam. ''Mas como é fácil alegrar meu coração!'', diz em um trecho. Em outro, acrescenta: ''Essa delicadeza gratuita me faz bem. Ganhei o dia, a noite, já não me sinto mais sozinho na varanda triste''.

ASSISTA ao vídeo Um Cartão de Paris, no meu canal no Youtube: 
https://youtu.be/mHo9BOxF8ag.
Também veja o vídeo sobre as características do gênero jornalístico crônica. Clique neste link: https://youtu.be/4GmfWlJSaiE

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, Rubem Braga morreu em 1990, depois de ter sido, além de cronista, jornalista que cobriu a Segunda Grande Guerra. Ele sempre soube transformar acontecimentos mais corriqueiros do dia a dia em verdadeiras preciosidades.
Muita gente não sabe definir se crônica é jornalismo ou literatura. Há quem defenda que é um gênero que está no limiar das duas categorias. E existem também os que a classificam como subliteratura. Para mim, as crônicas de Rubem Braga são megaliteratura.
Observação: Um pouco da obra do jornalista-escritor pode ser lido no site Releituras .

P.S1.: Não dei ''As boas coisas da vida''. Reencontrei-o na estante. Foi presente de um ex-namorado.
P.S2.: Marco Antônio de Carvalho publicou pela Editora Globo, em 2007, a biografia Rubem Braga _ Um cigano fazendeiro do ar.
P.S3.: Marco Antônio de Carvalho morreu em 2007, aos 57 anos, antes do lançamento do livro.

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