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sábado, 23 de setembro de 2023

Você conhece a expressão "PT saudações"?

Lídia Maria de Melo

Outro dia, em uma rede social, perguntei a meus seguidores se alguém conhecia a expressão "PT Saudações".
Alguns, mais velhos, disseram que sim.
Outros preferiram não arriscar uma resposta.
Pois bem, vamos às explicações.

A expressão surgiu com o telegrama, meio de comunicação inaugurado no Brasil em meados do século 19, após a invenção do telégrafo. Tratava-se de uma forma bem rápida e urgente  de comunicação.

O telégrafo foi criado pelo norte-americano Samuel Finely Breese Morse em 1837. Somente em 1844, ele conseguiu enviar a primeira mensagem à distância. A linguagem usada passou a ser conhecida como Código Morse. 
No Brasil, a primeira linha de telégrafo foi instalada na cidade do Rio de Janeiro em 1852, a pedido do imperador D. Pedro II, um entusiasta das novas tecnologias.  
O telegrama passou a ser uma alternativa à carta, que demorava dias para ser entregue.
A linguagem do telegrama era sintética, sem preposições, artigos e pontuação, para reduzir o custo da mensagem, entregue pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
As letras PT eram a abreviação de ponto (final). Não tinham (nem têm) qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, que só foi fundado no Brasil em 1980.
A palavra "saudações" era um cumprimento  formal, equivalente a  "um abraço", "passar bem" etc. Com o tempo, "PT Saudações" passou a ser usada com o sentido de despedida.
Às vezes, quando uma conversa ficava alterada, era comum um dos interlocutores encerrar o assunto, usando essa expressão, numa demonstração de contrariedade, ou de desprezo pelo interlocutor. Ao mesmo tempo, encostava o dedo indicador na própria testa e apontava em direção ao outro, como se batesse continência. Depois, dava as costas e ia embora.
Hoje, quem pesquisa telegrama na internet só encontra o aplicativo Telegram, que não é o dos Correios, mas segue o mesmo conceito: mensagem rápida.
Em tempo: os Correios ainda oferecem o serviço de envio de telegramas, que pode ser escrito ou fonado.

terça-feira, 15 de março de 2022

Doença é causa natural de morte? Falecimento do ator William Hurt faz surgir essa dúvida

Lídia Maria de Melo (foto e texto)

O que é morte por causa natural? O falecimento do ator estadunidense William Hurt, no último domingo, provocou dúvidas nesse sentido. Hurt recebeu o Oscar de Melhor Ator, em 1985, por seu papel no filme O Beijo da Mulher Aranha, dirigido por Hector Babenco e também estrelado pela atriz Sônia Braga.
Em nota publicada em uma rede social, o filho do ator informou que o pai morreu de causas naturais. Muitos órgãos de imprensa repetiram a mesma informação.
Leitores e telespectadores passaram a questionar a expressão "causas naturais", já que em 2018 circulou a notícia de que o ator apresentava metástase de um câncer de próstata.
Pois bem, a elucidação está na tanatologia, ou seja, estudo científico sobre a morte. A medicina legal  também explica.
De acordo com essas duas áreas, as mortes provocadas por doenças são classificadas como naturais, pois resultam de uma falência do próprio organismo. Ou seja, é natural que um dia todo ser humano morra.
Já a morte violenta decorre de um ato praticado por outra pessoa (caso do homicídio), pela própria pessoa (suicídio) ou por um acidente de qualquer gênero (trânsito, drogas, queda etc). As mortes violentas são sempre motivos de investigação.
Agora, você já sabe: quem morre em consequência de uma doença, conforme a linguagem técnica, tem uma morte provocada por causa natural.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Campanha da AMB para simplificar linguagem jurídica me levou a fazer reportagem sobre juridiquês

Reportagem que fiz e publiquei no jornal A Tribuna, de Santos, em
30 de outubro de 2005. Clique na imagem e salve para ler melhor. 
Lídia Maria de Melo

Em 2005, fiz e publiquei uma reportagem sobre "juridiquês".
Na ocasião, a Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) tinha lançado uma campanha dirigida a jornalistas e profissionais do Direito, com a finalidade de incentivar a simplificação da linguagem jurídica.
Quando tomei conhecimento da iniciativa, fiquei exultante. Isso porque sempre defendi a tese de que a morosidade da justiça era uma questão de linguagem. Claro que não é só essa a razão, mas a linguagem arcaica muitas vezes contribui para o atraso no andamento dos processos, como me relataram juízes.
A campanha me motivou a realizar uma reportagem com profissionais do Direito, começando as entrevistas pelo idealizador, o juiz que presidia a AMB na época, o catarinense Rodrigo Collaço.
Telefonei para a associação, em Brasília, solicitando um horário com ele, quando estava de saída para o jornal A Tribuna, onde era editora,  imaginando que ele demoraria para retornar. Mas qual não foi minha surpresa, quando o telefone de minha residência tocou e era o próprio juiz Collaço. Super-rápido.
Conversei com muitos outros profissionais, os juízes Leandro Constant e Alexandre Coelho, o desembargador, doutrinador, professor e comunicador Luiz Antônio Rizzatto Nunes, os advogados Eduardo Jardim e Rodrigo Lyra, que presidia a OAB-Santos, a professora de Português Kátia Patella, e a então estudante de Direito Maristela Low.
O resultado foi uma matéria de página dupla, diagramada pelo colega Luiz Sérgio Moura, com fotos feitas pelos repórteres-fotográficos Paulo Freitas e Marcelo Justo, e publicada no dia 30 de outubro de 2005 no jornal A Tribuna, de Santos.
Por tempos, ficou reproduzida no site da AMB, como é possível ver aqui neste link.
No sábado passado, decidi digitalizar a reportagem e aqui reproduzo.
Para ler com clareza, é preciso fazer download da imagem e salvá-la em seu computador, tablet ou celular. Boa leitura.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Entre isso e aquilo" ou " entre isso ou aquilo"?

Lídia Maria de Melo

Outro dia, uma jornalista que foi minha aluna, enviou-me esta pergunta sobre o emprego da preposição "entre":
Professora, escrevi um texto usando ENTRE: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa e honrar os compromissos financeiros."
Aí o editor corrigiu: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa ou honrar os compromissos financeiros".
Fiquei na dúvida! Entre isso e aquilo OU Entre isso ou aquilo?
                                                                 ***
Esclareci a questão com esta resposta:
Uma das acepções da preposição "entre" é "a meio de" (dois espaços, dois tempos, duas situações etc).
Dessa forma, citando um exemplo do dicionarista Antônio Houaiss, podemos dizer: "O livro estava entre a mesa e a estante".  E ainda: "Está em dúvida entre a primavera e o outono".
Com base nesses enunciados, referendados por um dos maiores filólogos brasileiros, podemos concluir que você escreveu corretamente.
Seu editor deve ter se confundido com a expressão "ou isso ou aquilo" (sem "entre"). Utilizando a preposição "entre", o correto é como você usou, ou seja, com a conjunção "e".
Para empregar o "ou", o enunciado deve excluir o "entre". Desta forma : "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher: (DOIS PONTOS) ou colocar comida na mesa, (VÍRGULA) ou honrar os compromissos financeiros".
Reforçando, o correto é "entre isso e aquilo". 
Um abraço.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ministra defende juiz federal, mas ofende a Língua Portuguesa

Lídia Maria de Melo

Com a devida vênia, preciso comentar a fala da ministra Cármen Lúcia, na abertura da sessão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) puxou a orelha do presidente do Senado, Renan Calheiros (sem citar o nome dele), na defesa do juiz federal Vallisney Souza Oliveira, e cometeu uma ofensa à Língua Portuguesa. Logo ela que fala tão bem e disse, equivocadamente, que o termo "presidenta" estava errado, insinuando que a ex-presidente da República não havia estudado.
Hoje, ela cometeu erros de concordância ao dizer: "Todas as vezes que um juiz é agredido, eu e cada um de nós, juízes, é agredido".
A expressão "cada um de nós" leva o verbo para o singular. Nesse caso, o uso do verbo "ser" no singular estaria correto ("Cada um de nós é"). Porém, a ministra adicionou a essa expressão o pronome pessoal "eu", formando um sujeito composto. 
Nesse caso, o verbo "ser" deveria ter sido usado no plural, assim como o adjetivo: "Eu e cada um de nós, juízes, somos agredidos".
Com todo o respeito à ministra Cármen Lúcia, fico imaginando a repercussão, caso esse deslize fosse cometido pela ex-presidente Dilma ou pelo ex-presidente Lula.

Em tempo: A defesa da ministra ao juiz federal Vallisney Souza Oliveira está relacionada à ofensa que o presidente do Senado fez ao magistrado, porque ele autorizou a prisão de quatro policiais legislativos na semana passada, dentro da Operação Métis.

(Republicado do blog Prosa Linguística)

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Você sabe o que é "cutruvia" e " catraia"?

Lídia Maria de Melo

Quando alguém me pede o sinônimo de uma palavra, invariavelmente pergunto: "Qual é a frase?".
A pergunta tem fundamento. Uma palavra fora do contexto pode concentrar diversos sentidos (polissemia), ou não ter sentido algum.
O contexto é um conjunto de circunstâncias que ajudam na compreensão de uma mensagem. A partir dele, um fato ou um vocábulo adquire significado.
Na novela Velho Chico, escrita por Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi,  e apresentada na Rede Globo às 21 horas, a personagem Luzia costuma usar as palavras "catraia" e cutruvia".
Pelo contexto em que são empregados, não há dúvidas de que a mulher de Santo dos Anjos atribui aos dois termos uma carga semântica bastante ofensiva.

Catraia no Porto de Santos

Catraias atracadas na Bacia do Mercado, em Santos. 
À esquerda, o canal sob o  Porto.
Desde criança conheço a palavra "catraia". Trata-se de um barco, com um motor, tripulado por uma pessoa, o catraieiro.
Na travessia entre Santos e o distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, a catraia transporta 25 passageiros sentados, além do catraieiro.
Em Santos, o embarque (e desembarque) é feito na Bacia do Mercado.
A catraia segue por um canal, sob o cais do Porto, até alcançar o Canal do Estuário para, após atravessá-lo, atracar em outra estação de embarque e desembarque em Vicente de Carvalho.
Catraia.
Quando a maré está baixa, as catraias chegam a atolar no fundo do canal sob o Porto. Quando está alta, os passageiros precisam se curvar, mesmo sentados, para não baterem a cabeça no teto de concreto. Se a passagem fica inviável, a atracação é feita no cais do Porto mesmo e as catraias não chegam à Bacia do Mercado.
Se duas catraias se encontram em direção contrária dentro do canal sob o Porto, a água muitas vezes respinga nas roupas dos passageiros. Devido à concentração de óleo, as manchas se revelam quando os respingos secam. A única forma de retirar esse óleo da roupa é esfregar óleo de cozinha no local, até sumir a mancha. Depois, é só lavar.
Não ando de catraia há muitos anos. Acho que há mais de quatro décadas, mas de vez em quando passo perto da Bacia do Mercado e tudo está como sempre.
Voltando ao sentido da palavra "catraia", o que eu conheço nada tem a ver com o empregado por Luzia, em Velho Chico.
A mulher de Santo dos Anjos utiliza o termo para ofender Maria Tereza de Sá Ribeiro, a antiga e eterna paixão de seu marido. E não se trata de uma invenção semântica da personagem.
O dicionário Aurélio Século XXI (edição de 1999) registra "catraia" com quatro acepções, que são:

  1.  barco de pequeno porte; 
  2.  pequena construção, casinhola; 
  3.  meretriz; 
  4.  meretriz de baixa classe.
O dicionário Míni Houaiss (2008) e o Dicionário da Língua Portuguesa Comentado pelo Professor Pasquale (2009) só admitem "catraia" no sentido de barco pequeno.

Cutruvia
Se "catraia" é reconhecida pelos dicionários, inclusive pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), ao menos no sentido de "barco", o mesmo não ocorre com "cutruvia", outro xingamento do repertório de Luzia.
Essa ofensa repetida à exaustão contra Maria Tereza não tem registro no VOLP, nem nos dicionários citados acima.
Segundo o site O Nordeste.com , o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto Maior (2010), registra "cotruvia" (com "o") como prostituta de ínfima classe.
O site Dicionário Informal  apresenta dois conceitos para a palavra:
  1.  Mulher da vida, que se relaciona com homens comprometidos. Meretriz. Amante.
  2.  Pessoa por quem se nutre antipatia. 
Assim, "cutruvia", na linguagem falada, designa prostitutas.
Mesmo que não houvesse registro em nenhum local, seria fácil perceber seu significado. Bastaria prestar atenção à maneira como Luzia se expressa.
O contexto seria suficiente para esclarecer as dúvidas semânticas.

terça-feira, 15 de março de 2016

Como conjugar o verbo haver sem errar

Para o pessoal que gosta de saber regras e para aqueles que têm dúvidas.
O verbo "haver", no sentido de "existir, acontecer ou ocorrer", é sempre utilizado na terceira pessoa do singular, independentemente do tempo, modo ou forma.
Jamais se deve dizer, por exemplo, "Houveram muitas situações". O correto é: "Houve muitas situações". "Há muitos casos". "Havia muitas reclamações". "Vai haver muitas contestações". "Poderá haver muitas queixas".
O verbo "haver" é conjugado quando está na função de auxiliar: "Os funcionários receberam abono, porque haviam feito hora extra". (Nessa frase, "haver" é auxiliar de "fazer").
Quando tem outros sentidos (que não sejam "existir", "acontecer" e "ocorrer"), ele também é conjugado. Esses sentidos são pouco usuais, mas na área de Direito costumam aparecer.
Fique atento.

Leia mais sobre a conjugação do verbo haver  no artigo "Emprego do verbo 'haver', no sentido de 'existir', 'ocorrer' e 'acontecer', exige atenção", publicado no blog Prosa Linguística, onde escrevo especificamente sobre questões linguísticas. 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pronúncia de "gratuito" e de "chassi"
confunde repórter

Nunca assisto, mas hoje vi um programa sobre empreendimentos. Gostei.
Uma coisa, porém, me incomodou muito. Em uma das reportagens, a repórter "escorregou no tomate", como expressava uma revisora de um jornal em que trabalhei.
Disse que a bicicleta tem um número de "chassis". Logo emendou, afirmando, por duas ou três vezes, que o serviço era "gratuíto".
Ui! Ui! Ui! Editor, não deu para ouvir e corrigir na edição?
No singular, a palavra é "chassi". Só se usa "chassis" no plural.
Quanto para o que é grátis, diz-se "gratuito" ("tui", com pronúncia forte no "u", não no "i").
Não adianta dizer que a língua portuguesa é isso ou aquilo. Se escolheu trabalhar com comunicação, precisa aprender.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

''Mais bem'' ou ''melhor''? ''Mais mal'' ou ''pior''?
Dúvida cruel. Veja a regra.

De uma amiga chega a pergunta:  “Tenho ouvido frases do tipo 'os times melhores colocados...' Não seria 'melhor colocados'?” Qual é o correto?
Nem uma maneira, nem outra. 
As formas comparativas sintéticas dos advérbios “bem” e “mal” são  “melhor” e “pior”.  
Exemplos:
a) Ele escreve melhor que o amigo. 
b) Ela tem o gênio pior que o dele.
Porém, antes de adjetivos-particípios ( verbos no particípio que atuam como adjetivos), as formas de comparativo são analíticas: “mais bem” e “mais mal”.
Exemplos:
a) Os times mais bem colocados no campeonato. 
b) Os times mais mal colocados no campeonato.

(Fontes: gramáticas de Celso Cunha, Rocha Lima, Evanildo Bechara e Pasquale & Ulisses)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Verbo intervir segue a conjugação do vir


                                                      Lídia Maria de Melo
Além de me chamar a atenção pelo assunto, uma reportagem  sobre os manifestantes violentos, veiculada hoje por uma grande emissora de televisão, me surpreendeu por um aspecto linguístico: a conjugação do verbo "intervir".
O repórter disse erroneamente: "A polícia interviu".
De acordo com as regras gramaticais vigentes, a conjugação do verbo "intervir" segue o paradigma do verbo "vir" e não, do "ver". Ou seja, na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito, a flexão é "interveio".
Nesse caso, então, a frase deveria ter sido: "A polícia interveio".
Esteja sempre atento, ou atenta.


Atualização em 21 de fevereiro de 2020.
Hoje, pesquisando um livro sobre recuperação da Serra do Mar na segunda metade dos anos 1980, deparei-me com a seguinte frase: "A partir de 1964, o governo interviu nos serviços de saneamento básico, [...]".
Nem que eu quisesse, meus olhos passariam distraídos pela conjugação do verbo "intervir". Ossos do ofício. Olho clínico. De novo, a mesma incorreção no uso do verbo "intervir".
Então, vale tornar a chamar a atenção para a conjugação desse verbo derivado de "vir".  O correto é dizer que: "A partir de 1964, o governo interveio nos serviços de saneamento básico, [...]".

domingo, 1 de junho de 2014

Cuidado ao abreviar a palavra "professor".
Ela não termina com a letra "o".

A abreviação da palavra "professor" é prof., segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.
A de "professora" é profª., com "a" no fim, porque "professora" termina com "a".
As mesmas regras valem para os vocábulos "doutor" (dr.) e "doutora" (drª.).

Abreviação correta de professor.

Abreviação correta de professora

Nos últimos tempos, virou uma febre incluir indevidamente um "o" no final de prof. de dr..
Pessoas gabaritadas têm cometido essa impropriedade e acabam criando seguidores.
Porém, esse "o" não existe na abreviação de "professor" e de "doutor", afinal a palavra correta não é "professoro", nem "doutoro".

Abreviação errada de professor.

Abreviação errada de professor.

Em 2013, uma peça de teatro, protagonizada pela atriz Jandira Martini, mostrava as duas formas corretamente escritas em seu título. Então, siga o exemplo:



Se você se interessou por esta postagem, certamente terá afinidade com os artigos do blog Prosa Línguística .

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pronúncia de algumas palavras dá o que falar

Lídia Maria de Melo

A pronúncia da palavra "gratuito" exige um certo cuidado. Muitas pessoas manifestam dúvidas em relação à sílaba tônica. Então, vamos tentar esclarecer, com base na gramática normativa.
A sílaba forte é o “tu” (sem acento gráfico). Pela norma padrão, a pronúncia adequada é “tui”. Não é “tu-í”. 
A mesma regra vale para "circuito" e "fluido" (substantivo).
Fluido, sem acento gráfico, é um produto líquido ou gasoso. O fluido do isqueiro, por exemplo.
Fluído, com acento agudo, refere-se ao particípio do verbo fluir (Exemplo: Quando o encanador chegou para reparar a tubulação, muita água tinha fluído dos canos).
A pronúncia do nome da torre que se tornou um símbolo mundial da França também causa controvérsia.
No idioma francês, Eiffel tem acento de pronúncia na última sílaba, ou seja, a palavra é oxítona. Em português, se fosse paroxítona, deveria receber um acento gráfico (circunflexo) no primeiro "e", já que termina em "l". Como nada disso ocorre, a pronúncia no Brasil deve ser a mesma francesa: Eiffel, com ênfase na sílaba "fel".
Sobre a pronúncia do nome do estado brasileiro "Roraima", com vogal aberta ou fechada nasalizada na penúltima sílaba, explico: tanto faz. Ambos estão corretos. 


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Veja como conjugar o verbo gear

Regular, irregular, defectivo, anômalo ou abundante. Não importa. 
Independentemente da classificação, a conjugação verbal em língua portuguesa costuma causar dúvidas.
Se o verbo for pouco usado, como "gear", por exemplo, o jeito é rever as regras. Então, vamos lá.
O verbo "gear" segue o paradigma de "frear", mas é impessoal. Isso quer dizer que ele só é empregado na terceira pessoa do singular. 
Nas formas rizotônicas (quando a sílaba tônica fica na raiz), recebe a vogal "i" ("geie" e "geia"). 
Para deixar claro, aqui vai a conjugação completa:
Infinitivo: gear.
Presente do indicativo: geia.
Pretérito perfeito: geou.
Pretérito imperfeito: geava.
Pretérito mais-que-perfeito: geara.
Futuro do presente: geará.
Futuro do pretérito: gearia.
Presente do subjuntivo: geie.
Imperfeito do subjuntivo: geasse.
Futuro do subjuntivo: gear.
.....
Leia também: Verbo defectivo: falir 


sexta-feira, 8 de março de 2013

Análise: anúncio publicitário fala de Jimi Hendrix e Janis Joplin em alerta contra drogas

(Atenção:  Na análise abaixo,  foi mantida a grafia da época, 1970, nas citações aspeadas do texto da Agência Alcântara Machado. Por isso, algumas palavras recebem acentos que não fazem parte das regras ortográficas atuais)
                                                                               Lídia Maria de Melo

Anúncio da agência Alcântara Machado
publicado em outubro de 1970 nos veículos
brasileiros de  circulação nacional
Em outubro de 1970, a Agência Alcântara Machado publicou em jornais e revistas de circulação nacional um anúncio em que lamentava a morte de Jimi Hendrix, “gênio da guitarra”, e da cantora Janis Joplin, a “estrêla do soul”. Ambos, vítimas das drogas.
 O texto era um alerta para o perigo do vício que matava cada vez mais naqueles finais de anos 60 e início dos 70. Na época, os jovens rejeitavam o mundo dos negócios e, ao mesmo tempo, exaltavam o lema “paz e amor” e a filosofia “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.
A agência queria sensibilizar a juventude, para que não se iludisse com as falsas sensações provocadas pelos entorpecentes (“fuja dos traficantes”) e não alimentasse “o mais sujo negócio do mundo”.
Com ritmo ligeiro, devido às frases curtas e, quando longas, bem-pontuadas, o anúncio assume um discurso emotivo e confessional desde o início. Essa característica fica evidente pelo emprego da primeira pessoa:  “Estamos chorando por eles”; “Somos uma emprêsa ìntimamente ligada à comunicação”.
Depois, com linguagem referencial, enaltece as qualidades da juventude (“Porque eles são um sôpro de vida no cansaço do mundo”; “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”)  e propõe uma aliança (“...estamos colocando nossa arma  - o anúncio – a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”).
Na sequência, utiliza a função conativa ou apelativa, para aproximar-se dos jovens leitores e aconselhar: “Não deixem que as drogas os levem para sempre do mundo que vocês querem esquecer”. Mas explica: “Sem vocês, êsse mundo fica ainda maior”.
As justificativas prosseguem nos parágrafos seguintes, em tom argumentativo:  “...você, que tem um sereno desprezo pelo ‘mundo dos negócios’, estará alimentando o mais sujo negócio do mundo: drogas”. Até que um desafio é lançado: “Viva o suficiente para tentar mudar o mundo que lhe demos”.
Embora volte à função referencial, o texto disfarça um tom apelativo, usando um eufemismo, para evitar mencionar de novo  a palavra morte: “Ninguém faz nada nem muda nada embaixo de um túmulo”.
Numa tentativa de aliança e linguagem compreensiva, a agência barganha: “Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”.
No final, surgem os verbos no imperativo, característicos da função conativa, mas não como ordens, que os jovens rejeitariam, mas como conselho  e apelo definitivos: “Não morra por nada. Não vale a pena. Ou, para usar nossa linguagem: é um mau negócio”. Ou seja, o texto coloca o jovem em pé de igualdade com o mundo que ele rejeita: o dos negócios. Só que os maléficos.

Durante todo o tempo, o anúncio contrapõe a linguagem e a ideologia do jovem da época com a dos mais velhos, para reafirmar sua mensagem aos primeiros.
Além do eufemismo mencionado mais acima, a agência emprega outras figuras de linguagem, como a metáfora  (“..seríamos um punhado de cifras, alienado e sem calor”, “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”); a aliteração (“vazio de vida”), a metonímia (“Porque o mundo só é rico no coração dos jovens”), a antítese (“Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”) e a prosopopeia (“Não deixem que as drogas os levem para sempre que vocês querem esquecer”).
Alguns erros também são observados.  O nome do guitarrista, por exemplo, está escrito como Jimmy, quando o correto é  Jimi. A idade dele e a de Janis aparecem como  24 anos e 26, respectivamente. Os dois, no entanto,  tinham 27 e já se aproximavam dos 28. Atualmente, eles são mencionados como integrantes do Clube dos 27, ou seja, dos ídolos do universo musical que morreram com essa idade. A mais recente foi a cantora Amy Winehouse, encontrada morta em 23 de julho de 2011, em Londres.

Quando menciona a Ilha de Wight, a correlação entre verbo e  preposição não é adequada. Se o verbo "erguer" é conjugado no gerúndio, o "baixar" também deveria ser flexionado nessa forma. Assim: “Preferimos ver você levantando os braços na Ilha de Wight do que os baixando para morrer”. 
Como o verbo "preferir", pela norma culta da linguagem, é regido pela preposição "a" e não pela locução conjuntiva "do que", a agência deveria recorrer a outra frase. Pode ser que ela tenha assumido a locução, porque é mais coloquial e o modo formal soaria distante do receptor jovem.
Na frase “Sem vocês, êsse mundo fica ainda pior”, o pronome demonstrativo está errado. O correto seria “este”, do mesmo modo como foi usado “deste” em outra frase: “... a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”.
Quanto à acentuação, aparecem os circunflexos diferenciais (“êles”, “êsse”, “côres”, “emprêsa”, “estrêla”) e o acento grave na palavra derivada “ìntimamente”. Em outubro de 1970, data da publicação do texto, ainda vigoravam as regras de 1942. Somente em dezembro de 1971 foi assinada reforma ortográfica que extinguiu os acentos diferenciais e o grave (quando usado nos vocábulos derivados de outros acentuados com o agudo). Essas regras passaram a valer em  janeiro de 1972.

Em termos de apresentação, a agência substituiu o título por fotos de Jimi Hendrix e Janis Joplin, porque as imagens têm mais apelo, já que ambos eram ídolos de uma geração.
Não fosse pela rejeição que os jovens dos anos 60 tinham pelo mundo dos negócios e que os de hoje não têm, esse texto da Agência Alcântara Machado seria totalmente atual. Bastaria trocar os nomes de Jimi e Janis pelos de Michael Jackson e Amy Winehouse, por exemplo, e corrigir a acentuação.
Ninguém diria que foi escrito há mais de quatro décadas.
Leia mais em:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Retifica ou ratifica? Médica não sabia a diferença. E pacientes correram riscos

O fato aconteceu na minha presença.
Dois pacientes correram risco duplo.
Um estava com infecção alta e o outro, não. Mas os exames deles foram trocados pelo laboratório. O paciente saudável saiu do PS medicado com o remédio que o portador de infecção deveria tomar. O que estava doente foi embora como se sua saúde estivesse perfeita.
Quando a médica percebeu o engano e quis consertar, quase pôs tudo a perder. Ela desconhecia a diferença entre duas palavras: retificar e ratificar.
Quem salvou a situação foram duas recepcionistas.
Em 1º. de agosto de 2000, publiquei na coluna Campus, na página A-7 do jornal A Tribuna, umas notas relatando o episódio.
Para ler, clique na imagem ao lado.
Se não conseguir ampliar, você pode ler abaixo a reprodução:
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CAMPUS
Lídia Maria de Melo
  Editora Local

Dúvida I
O fato ocorreu em um pronto-socorro particular da Cidade.
Aflita com a troca de exames de dois pacientes, uma jovem médica perguntou às duas recepcionistas de plantão: "Quando se quer corrigir um engano, a gente retifica ou ratifica?" A resposta da dupla foi rápida e em uníssono: "Retifica!"

Dúvida II
O episódio traz à baila algumas questões.
Por que foi extinta a obrigatoriedade do ensino de Língua Portuguesa em todos os cursos universitários? Será que os estudantes de Exatas e Biológicas podem prescindir das aulas de Português? Qual a razão de, mesmo na área de Humanas, com poucas exceções, o estudo da nossa língua ter sido relegado a segundo plano?

Dúvida III
Que os especialistas apresentem as respostas. Sejam elas quais forem, uma coisa é certa: se, em vez de retifica (corrige), a médica tivesse escrito ratifica (confirma) em seu relatório, as consequências poderiam ter sido desastrosas para os dois pacientes.

Dúvida IV
Consultar gramática e dicionário sempre ajuda em casos como esse. Isso parece óbvio, mas ainda existem universitários que não adquiriram o hábito. Explicações sobre parônimos (termos que têm forma parecida, como retifica e ratifica) podem ser encontradas no capítulo Significação das palavras, na gramática de Celso Cunha. Já a de Rocha Lima aborda o assunto no de Estilística léxica.

domingo, 18 de setembro de 2011

Com que autoridade estão mudando os ditados populares? Por que agora se "vaia" Roma?

Não há novidade em se dizer que a língua é dinâmica e, de tempos em tempos, passa por alterações, tanto na forma das palavras, quanto nos sentidos. Muitos vocábulos surgem e outros morrem. Essas mudanças ocorrem sempre a partir de uma necessidade dos falantes do idioma.
Primeiro, as alterações costumam se dar no plano oral. Depois, no escrito. E normalmente ficam registradas em documentos, na imprensa, na literatura. Só a partir de uma ocorrência acentuada é que linguistas e dicionaristas procedem ao registro oficial nas gramáticas, nos estudos linguísticos e nos dicionários.
Desde que a internet tornou-se ambiente comum aos povos, passaram a circular entre os usuários informações nem sempre fundamentadas ou assinadas por alguém idôneo. Mesmo assim, são aceitas como corretas pela maioria que não questiona a procedência delas.
No rol de exemplos estão textos falsos, atribuídos a pessoas respeitadas em seu campo de atuação, como jornalistas, escritores, poetas, professores de português, políticos.

Em espanhol, em francês e italiano, quem tem boca vai a Roma. Por que não em português?

Já há algum tempo, chama a atenção uma lista de ditados populares que, supostamente, teriam sido concebidos há séculos com estrutura diferente da que utilizamos agora. Com "agora", quero dizer há mais de 100 anos. Faço esse cálculo porque meus avós, se vivos fossem, teriam ultrapassado um século de existência. Meus pais aprenderam com eles ditados que hoje ainda ouço. Se alguém decide atualmente que eles surgiram com outro sentido, essa correção deve remontar a um período superior a um cento de anos.
Entre os ditados, está o mais que conhecido "Quem tem boca vai a Roma".
Em agosto do ano passado, na revista Língua Portuguesa, o professor e escritor Sírio Possenti, do Departamento de Linguística da Unicamp e autor do livro Os Humores da Língua - Análises Linguísticas de Piadas, comentou sobre esse modismo de se alterar certas expressões, com o argumento de que elas não fazem sentido.
Além de outros exemplos, ele citou "Quem tem boca vai a Roma", que a lista da internet corrige para "Quem tem boca vaia Roma".
"Boca", como explicou o professor, é uma metonímia para "perguntar", "sabe falar" etc. Ele lembrou também que o mesmo ditado tem correspondente em outras línguas. Em francês, Qui langue a, à Rome vá (numa tradição livre, Quem tem língua, vai a Roma); em espanhol, Preguntando se va a Roma (Perguntando se vai a Roma); e, em italiano, Chi língua há, a Roma va (Quem tem língua, vai a Roma).
Ou seja, nesses idiomas de origem latina, como o português, o ditado quer dizer exatamente o que o nosso expressa: "Quem tem boca vai a Roma" (Quem tem boca pergunta e chega ao lugar procurado). Por que somente no Brasil a cidade que foi sede de um império seria vaiada?
Na tal lista que circula na internet, consta também a expressão "bicho-carpinteiro" como errada e corrigida para "bicho no corpo inteiro". Basta uma consulta aos dicionários, como o de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Aurélio Século XXI), para ver a expressão "bicho-carpinteiro" registrada com o sentido relacionado "a quem não consegue ficar quieto, não para em lugar nenhum".
Utilizada há séculos no arquipélago de Açores, a expressão é mencionada também pelo frei português Francisco Rei de Abreu Mata Zeferino em seu livro Anatômico Jocoso, de 1755, no capítulo 1, nas páginas 155 e 204. Ou seja, há 256 anos.

Alterar o dito popular equivale a trocar "risco de vida" por "risco de morte". Modismo sem fundamento. 

 Essa ânsia de correção, sem base científica, é semelhante à que envolve a expressão idiomática "risco de vida", há séculos consagrada pelo uso, no português, no francês (risque de vie), no espanhol (riesgo de vida), no inglês (risk of life), mas que, agora, alguém no Brasil cismou de mudar para "risco de morte".
Escritores renomados da língua portuguesa registraram-na em suas obras: Aluísio de Azevedo, em O Cortiço ("Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos estiveram em risco de vida"); José de Alencar, em O Guarani ( "Não há dúvida, disse D. Antônio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecília quis fazer-lhe a vontade com risco de vida"); Machado de Assis, em Quincas Borba ("Salvar uma criança com o risco da própria vida..."). As leis brasileiras falam em "gratificação por risco de vida", assim como o Código de Ética Médico menciona "iminente risco de vida". Isso não quer dizer que a expressão "risco de morte" não possa ser usada. O que causa estranheza é empregá-la no lugar de "risco de vida", como se essa estivesse errada.
O uso de "risco de morte" é registrado também em nossa literatura, mas a expressão está sempre acompanhada de um adjetivo. Exemplos: risco de morte súbita, risco de morte por afogamento, risco de morte por parada cardíaca, como cita o professor Cláudio Moreno no blog Sua Língua.
Então, não se poderia usar a expressão "ao pé da letra" Afinal, letra não tem pé!

Volto a repetir, como a língua é dinâmica, alterações podem ocorrer nas expressões, nas palavras. Mas só as aceito de bom grado se surgirem espontaneamente entre a população. 
No caso dos ditados populares e de "risco de vida", as mudanças têm sido impostas pela imprensa e por usuários da internet que não questionam as mensagens que recebem por e-mails.
Se alguém trouxer a público documentos que comprovem que os ditos populares incluídos na listagem surgiram de forma diferente há séculos e séculos, então darei minha mão à palmatória. Opa, essa expressão quer dizer que me renderei aos argumentos. Quando foi criada, fazia referência ao castigo aplicado nas escolas ou nas casas, com o uso da palmatória, um instrumento que servia para castigar uma pessoa, aplicando-lhe golpes na palma da mão. Como a palmatória foi abolida, pode ser que alguém queira encontrar uma outra explicação para ela.
Vale lembrar que as expressões idiomáticas não têm sentido literal. A maioria está impregnada de sentidos expressos por figuras de linguagem ou de pensamento, ou faz referência a uma realidade que já se modificou. Retratam a cultura do povo que as criou.
Uma mesma palavra ou expressão pode assumir conotação diferente, dependendo do contexto. Se assim não fosse, jamais poderíamos dizer, por exemplo, "ao pé da letra". Afinal, letra não tem pé!

 Verificar a autenticidade é ato necessário.

A tal lista alterando os ditados populares foi atribuída ao professor Pasquale Cipro Neto. Indignado, ele negou a autoria em artigo publicado na Folha de S. Paulo de 13 de maio de 2010.  Clique no link do jornal e leia..
Ah, aqui também cabe um alerta: antes de disseminar tudo o que aparece em mensagem enviada por e-mail, postada em redes sociais, ou acreditar no que está escrito, é preciso verificar a autenticidade.
Durante a campanha eleitoral à Presidência da República, um e-mail difamava a então candidata Dilma Rousseff, atribuindo-lhe ações das quais ela jamais participou. Aquelas afirmações não tinham fundamento, eram mentirosas, mas muita gente acreditou.
Por isso e muito mais, é preciso confirmar a procedência das informações que circulam na internet (ou fora dela).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Livro não incentiva o erro de Português

Reproduções
O livro 'Por Uma Vida Melhor', de Heloísa Ramos, foi distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) em escolas públicas, após seleção efetuada por uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Não conheço o livro entregue a 484.195 estudantes, mas, pelo trecho que vi reproduzido em um jornal, não me surpreendo com o que a autora escreveu.
Ela não incentiva o erro de Português. Mostra as variações dos falares brasileiros e explica as regras que são exigidas pela norma culta ou linguagem formal.
'O ''nóis vai'' interiorano equivale ao ''tu vai'' do santista e do gaúcho. O emprego dessas formas coloquiais na presença de pessoas íntimas não é atestado de incapacidade verbal.
Certamente, quem domina a norma culta fará a concordância correta quando estiver em uma situação formal (falando ou escrevendo).
Quem ainda não domina precisará aprender, para poder usar o idioma como as regras gramaticais vigentes estabelecem. Do contrário, não saberá se colocar nos meios em que o padrão culto for dominante e correrá o risco de ser discriminado.
Esse livro não é o primeiro a enfocar o assunto. Na verdade, a maioria das publicações de Língua Portuguesa que conheço e utilizo apresenta as variantes dos falares brasileiros.
Nem por isso deixo, ou deixei, de exigir de meus alunos ou de meus repórteres o emprego das regras gramaticais que regem o Português culto.
No entanto, quando estou diante de uma pessoa que não teve acesso à educação sistemática e que comete erros de concordância ou de pronúncia, não a discrimino, nem espero que ela tenha o mesmo domínio do idioma que eu esperaria de uma pessoa com escolaridade completa. Também não a considero menos capaz intelectualmente.
O assunto merece um debate mais responsável do que o que vem sendo realizado pela imprensa.
Do contrário, vai se repetir o festival de bobagens veiculado em 1990 (e nos anos imediatamente seguintes) depois que o então ministro Antônio Rogério Magri disse que o Plano Collor era ''imexível''. Para que a polêmica arrefecesse, foi preciso que linguistas viessem a público em defesa da palavra inventada pelo então titular do Ministério do Trabalho.
Na ocasião, até que gostei dos absurdos publicados sobre a criação daquela palavra. Foram úteis para mim. Pude enriquecer minha dissertação de Mestrado, ''Neologismos em Pauta - Os Jornais como Disseminadores e Criadores de Novas Palavras'', defendida em 2001 na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
A imprensa precisaria abordar questões linguísticas com mais conhecimento de causa.
Minha sugestão é que leiam os livros: 'Preconceito Linguístico', de Marcos Bagno, publicado pelas  Edições Loyola, e 'Preconceito e Intolerância na Linguagem', de Marli Quadros Leite, pela Editora Contexto.
Bagno fez Letras e  Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco e Doutorado na USP. É professor da Universidade de Brasilía. Marli é professora livre-docente do programa de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da  USP.
Leia nota da Associação Brasileira de Linguística (Abralin) aqui.
Este meu artigo está reproduzido no Portal Luís Nassif.
Leia também: ''Polêmica ou Ignorância?'', de Marcos Bagno.

(Este texto foi republicado no site do Observatório da Imprensa, da AdNews e do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná).

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa

Clique na foto para ampliar a página e ler
Em 1º de janeiro de 2009, a Língua Portuguesa começou a ser escrita com algumas alterações ortográficas.
Ministrei um curso para jornalistas (meus colegas) e demais funcionários do Sistema A Tribuna de Comunicação (de Santos) e escrevi uma matéria sobre o assunto, que foi publicada no jornal A Tribuna em 31 de dezembro de 2008. Ao lado, republico a página.
Motivo da republicação: as dúvidas ainda imperam entre os usuários de nosso idioma.
Muitos, por exemplo, deixaram de empregar acentos nas palavras, como se todos eles tivessem sido abolidos. Isso é sinal de que as novas regras (já não tão novas assim) ainda não foram assimiladas. Que tal recordar? É só clicar na imagem para ampliar e ler.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Verbo defectivo - Falir

Sempre gostei mais de Literatura e Teoria da Literatura do que de Gramática. Mas, para estudar Literatura e Teoria da Literatura, no curso de Letras, eu não poderia escapar da Gramática.
Então, por amor à Literatura Brasileira e à Teoria da Literatura, estudei Gramática Normativa, Gramática Histórica, Gramática Descritiva, Latim, Linguística (no tempo em que ainda havia trema), Gramática da Língua Inglesa, Literatura Inglesa e Americana, Literatura Portuguesa e uma infinidade de outras disciplinas, além da Teoria da Literatura e da própria Literatura Brasileira. Sem contar Francês, que conheci na escola e na Aliança Francesa.
Acabei me embrenhando tanto em questões do idioma que me tornei professora de Português (de Gramática e Literatura). Fiz concursos. Três somente nessa área. E fui aprovada em todos. Passei anos dando aulas dessa disciplina. Até que parei.
Hoje, mesmo sendo jornalista, as pessoas recorrem a mim muito mais por causa da Gramática da Língua Portuguesa do que por outras questões.
Todo este preâmbulo para dizer que me consultaram sobre a conjugação do verbo Falir.
Queriam saber como diriam no caso em que a oração levava o verbo Falir para o Presente do Subjuntivo.
Sem mencionar que se trata de um verbo defectivo, expliquei: ''Não tem como dizer isso, usando esse verbo. Ele não é conjugado em todas as pessoas, nem em todos os tempos''.
Verbos defectivos são justamente os que não têm conjugação completa. Eles não são flexionados em todas as formas. É o caso de Falir.
No Modo Indicativo, tempo Presente, ele é conjugado somente na primeira e na segunda pessoa do plural: Nós falimos, Vós falis. No Pretérito Perfeito, conjuga-se completamente: eu fali, tu faliste, ele faliu, nós falimos, vós falistes, eles faliram. No Pretérito Imperfeito, eu falia, tua falias, ele falia, nós falíamos, vós falíeis, eles faliam. No Pretérito Mais-que-perfeito, eu falira, tu faliras, ele falira, nós falíramos, vós falíreis, eles faliram. No Futuro do Presente, eu falirei, tu falirás, ele falirá, nós faliremos, vós falireis, eles falirão. No Futuro do Pretérito, eu faliria, tu falirias, ele faliria, nós faliríamos, vós faliríeis, eles faliriam.
No Modo Subjuntivo, tempo Presente, não há conjugação. No Pretérito Imperfeito do Subjuntivo, (que ou se) eu falisse, tu falisses, ele falisse, nós falíssemos, vós falísseis, eles falissem. No Futuro do Subjuntivo, (se ou quando) eu falir, tu falires, ele falir, nós falirmos, vós falirdes, eles falirem.
No Modo Imperativo, Afirmativo, somente é conjugado na segunda pessoa do plural, fali vós. No negativo, não é conjugado.
Na forma infinitiva pessoal, é igual ao Futuro do Subjuntivo: falir eu, falires tu, falir ele, falirmos nós, falirdes vós, falirem eles.
Nas formas nominais: Gerúndio - falindo; Particípio - falido.
Existem outros tantos verbos defectivos. Em outra hora, poderei escrever mais sobre o assunto.