sábado, 21 de setembro de 2019

Fogo consome 80% do Refúgio Ecológico Caiman, paraíso do Pantanal, onde fiz reportagem há 25 anos

Região alagadiça, o Pantanal recebe 
as águas do Planalto Brasileiro, com o qual
se limita a Leste, e da Cordilheira dos Andes,
a Oeste, no período de cheia e degelo. Esse ciclo 
renova a fauna, a flora e o solo pantaneiro. 
Foto: Lídia Maria de Melo. 

Chamada de primeira página
no jornal A Tribuna
de minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman,
no Pantanal, 
em 1994. 
Textos e fotos de
Lídia Maria de Melo


21 de setembro, Dia da Árvore. Não há como ficar indiferente às queimadas que dizimam, em ritmo acelerado, parte das florestas brasileiras. Tanto na Amazônia, quanto em outras regiões do país. 
No Pantanal sul-mato-grossense, por exemplo, bombeiros tentam há dias conter o fogo que já destruiu 80% do Refúgio Ecológico Caiman. 
Empenham-se para evitar a morte de animais e vegetação, na área da Reserva Particular do Patrimônio Natural, onde é possível avistar 650 espécies de aves, 90 de mamíferos, 50 de répteis e 250 de peixes. 
São  araras azuis, tuiuiús, tucanos, colhereiros, garças, carcarás, onças pintadas, jacarés, sucuris, pintados, dourados, pacus... Impossível relacionar todos.
Embora seja considerada uma das regiões mais belas e mais ricas do país, em termos de fauna e flora, o Pantanal enfrenta o problema constante de desmatamentos, queimadas, caça e pesca descontroladas e extração de ouro, que polui seus rios com mercúrio. 
Este ano, no entanto, os incêndios tomaram proporções gigantescas, atingindo áreas que até então tinham conseguido escapar ilesas. 
Por essa razão, as notícias atuais me causam profunda consternação.  
De 26 a 29 de maio de 1994, tive o privilégio de conhecer Caiman, como integrante de um grupo de jornalistas de vários veículos de imprensa brasileiros.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-5.  
Foi uma das mais belas viagens que realizei a trabalho.
Propriedade do empresário Roberto Klabin, atual presidente do Instituto SOS Pantanal, o Refúgio Ecológico Caiman é uma fazenda de 53 mil hectares, localizada em Miranda, a 240 quilômetros de Campo Grande e a 36 da área urbana do município. 
Ali, pude realizar uma reportagem de cunho ambiental, para o Caderno de Turismo do jornal A Tribuna, de Santos, onde eu atuava como subeditora da Editoria Local. 
Com edição de Lauro Tubino, diagramação de Eugênio Lara e ilustração de Seri, meus textos foram publicados com fotografias também de minha autoria, além outras de divulgação. 
Ocuparam três páginas do caderno veiculado no dia 14 de agosto de 1994, um domingo.
Naquele tempo, não tínhamos fotos digitais. Usávamos negativos.

Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-6
Como não viajei acompanhada por um repórter-fotográfico do próprio jornal, precisei me virar com uma máquina Yashica, sem lentes especiais, ou outros recursos que permitissem fotografar os animais à distância, com nitidez, durante caminhadas e safáris fotográficos.
Mesmo assim, consegui capturar algumas imagens do tanto que o Pantanal oferece a quem tem olhos e ouvidos para entrar em sintonia com suas maravilhas.
Não vou detalhar. 
Prefiro publicar aqui as páginas do Caderno de Turismo do jornal A Tribuna de 25 anos atrás.
Dessa maneira,  você tem a possibilidade de ler meus textos e ver por que nosso meio ambiente deve ser defendido.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-7
A reprodução exigiu o escaneamento de várias partes de cada página do jornal e, depois, a montagem, usando o programa Paint.
O processo foi artesanal, com poucos recursos técnicos. Uma espécie de junção improvisada das peças de um quebra-cabeça. Apenas o que deu para executar, porque cada página do jornal media 34 cm de largura e 55 cm de altura, enquanto a lente do scanner de mesa tem 21 por 28 cm.
Para ler o texto de cada página do jornal, talvez seja preciso clicar na imagem, aumentar o zoom do navegador ou fazer download.
Publico também algumas fotografias minhas (veja logo mais abaixo), com outras  informações sobre o Pantanal.

Boa leitura e ajude a divulgar a importância do meio ambiente para o Planeta Terra. Faça o que estiver a seu alcance para  preservá-lo.

Cerca de 650 espécies de aves
já foram catalogadas no Pantanal sul-mato-grossense.
 Algumas são aves de arribação. Ou seja,
são aquelas que, no inverno no hemisfério norte,
voam para a América do Sul. Na foto,
um urubu-rei.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O Refúgio Ecológico Caiman
tinha, em 1994, um rebanho de
18 mil cabeças de gado nelore.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O tuiuiú, também chamado de jaburu, é a ave-símbolo
 do Pantanal. Tem o corpo branco, uma faixa vermelha
no pescoço, que parece um cachecol, e a cabeça preta.
Tem 1,30 m de altura e 3 m de envergadura
(distância entre as pontas das asas).
Foto de Lídia Maria de Melo.

Tive a oportunidade de alimentar jacaré pantaneiro,
no Lago do Hotel. Acervo de Lídia Maria de Melo.
Os jacarés do Pantanal
(caiman crocodilus yacaré)
são lerdos e mansos. Podem ser
alimentados com pulmão de boi, ou bofe,
O turista só não pode tocar em seu dorso.
Já o jacaré-do-papo-amarelo são
animais em extinção.
Foto de Lídia Maria de Melo.
A piúva é parente do ipê.
É a árvore-símbolo do Pantanal.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O zebrão é um caminhão
usado para fazer safári
fotográfico.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O tereré é bebida típica pantaneira.
Derivado do chimarrão,
é mate preparado com água fria.
A bebida utiliza erva do Paraná e
é servida em uma guampa, feita
com chifre de boi, polido com
folha da árvore lixeira. Sorve-se com
uma bombilha. A bebida foi
criada por migrantes gaúchos.
Acervo de Lídia Maria de Melo.

Celestino Prudêncio da Silva tinha
69 anos em 1994. Dos 14 aos 52,
atuou como onceiro e caçou
88 onças pintadas e 275 pardas.
Usava arma de fogo, zagaia e um cão.
A primeira caçada ocorreu
para provar sua coragem
ao pai da namorada.
Só parou em 1977, quando a onça
tornou-se protegida por lei.
Depois, passou a atuar como guia de campo
na Caiman. Foto de Lídia Maria de Melo.








Ao final da estadia, partimos de Caiman
em um Cessna 208 Caravan,
um monomotor turboélice, que inaugurou
a linha aérea entre a fazenda e Campo Grande.
Antes, esse trajeto de 240 quilômetros
 era feito em furgão.
Foto de Lídia Maria de Melo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Tecnologia digital revolucionou o mundo em poucos anos, mas não conseguiu desacelerar preconceitos


Texto: Lídia Maria de Melo
Fotos: Pixabay - Free license

Só para lembrar. 
O boom da internet no Brasil só ocorreu em 1996. Eu comprei meu primeiro computador com internet em 1997. A maioria dos jornalistas que trabalhavam no jornal A Tribuna, também. 
Mesmo assim, a conexão era discada. Precisava de um telefone. 
Em 1994, fiz uma reportagem para a revista Nova Escola e precisei explicar o que era internet, inclusive que eram necessárias, para a conexão, uma placa de modem e uma linha telefônica. 
Logo depois, a Folha de S. Paulo fez matéria de página dupla sobre a internet. 
A banda larga só surgiu depois do ano 2000. 
Defendi dissertação de Mestrado na USP em abril de 2001. Até então, não havia conteúdo na internet. Nada, ou quase nada, que fosse possível pesquisar com credibilidade. 
O Google só foi fundado em setembro de 1998. Imagine! 
Rede social era sala de bate papo do Uol ou do Terra, além do ICQ. 
O primeiro celular no Brasil chegou em 1990, mas era artigo de luxo. Caríssimo. E, até 20 anos atrás, só era possível fazer ligação. 
Meu primeiro celular, eu comprei, após pegar uma fila quilométrica, em 1998 ou 1999. 
Celular com touch screen só surgiu em 2007. 
O Windows só foi introduzido em celulares em 2012. Pouco antes, o sistema era apenas Android. 
Smartphone é bebê ainda.
Os blogs, inicialmente, eram diários de adolescentes.
Criei o meu primeiro em 2006, ano em que escrevi uma crônica e um comentário para o Blog do Noblat, que já tinha cunho jornalístico. Na crônica, falei sobre um coral de bem-te-vis. No comentário, opinei sobre a cabeçada do Zidane no jogador Materazzi, na Copa da Alemanha.
Ou seja, a revolução tecnológica é coisa muito recente no mundo.
Então eu me pergunto: se a gente se acostumou com isso tudo, tão rapidamente, por que não consegue se livrar do preconceito étnico, social, de gênero, sexual, linguístico, religioso?

domingo, 9 de junho de 2019

Precisei voltar àquela esquina da Avenida Conselheiro Nébias

Image by Hans Braxmeier from Pixabay
Lídia Maria de Melo

Ele nunca saberá a volta que eu dei para reencontrá-lo e depositar R$ 20,00 em seu boné.
Na manhã de sexta-feira, peguei a Avenida Conselheiro Nébias, única via santista que liga o porto à praia, cortando diversos bairros, em uma extensão de 4,4 Km.
Estava na altura do número 300, no sentido Centro-Praia.  Precisava chegar ao número 741, na pista oposta, Praia-Centro. Isso exigiu que, dirigindo, eu fizesse o contorno por trás do Supermercado Carrefour, instalado no número 802, onde nos anos 1970 funcionou o Hipermercado Eldorado, com seu restaurante com mesa giratória, grande atrativo no Bairro do Boqueirão.
Essa mudança de pista me fez virar à direita, na Rua Roberto Simonsen, e percorrer um pequeno trecho da Pedro de Toledo, que me deu acesso ao sentido Praia-Centro da Avenida Conselheiro Nébias. Justamente nesse cruzamento, com o semáforo fechado, avistei um homem de idade, magro, cabelo branco, coluna ainda ereta, vestido com dignidade, estendendo um boné branco, num gesto pedinte em direção aos motoristas dos demais carros.
A cena me condoeu. Era um idoso, com jeito de quem trabalhou a vida inteira e agora estava necessitado. O semáforo logo abriu e não deu tempo para que eu abrisse a bolsa, repleta de bolsos e alcançasse a carteira com zíper, onde guardava meu pouco dinheiro trocado.
Quando dei partida no carro, ele estava na altura do vidro a meu lado. Fiz um gesto de sinto muito e segui, com o coração partido.
Enquanto me conduzia a meu destino, tracei um plano e o cumpri à risca. Trafeguei até o número 741, parei no estacionamento do Laboratório Pasteur, onde pegaria um exame para minha mãe. Antes de descer do carro e acionar o alarme, retirei da carteira R$ 20,00 e deixei no console. Na recepção, não havia ninguém, além da recepcionista, que me atendeu em cerca de dois minutos.
De posse da sacola de exames, voltei ao carro e me pus na Conselheiro Nébias, na direção contrária ao mar. Converti na Rua Soares de Camargo, primeira que deu acesso à Rua Oswaldo Cruz, e nessa continuei até a Lobo Viana, onde percorri uma quadra e acessei a Álvares de Azevedo, por trás do Super Centro Boqueirão.
Ali, peguei a Rua Bento de Abreu e a Dr. Amílcar Mendes Gonçalves, para retornar até a Avenida Conselheiro Nébias, sentido Centro-Praia, e chegar de novo até a Rua Roberto Simonsen, para outra vez passar atrás do Supermercado Carrefour e alcançar a Rua Pedro de Toledo.
Nesse trecho, torci para que o semáforo estivesse novamente fechado. Assim, poderia entregar os R$ 20,00 àquele homem de idade avançada, cabelo branco, vestido com dignidade, que estendia o boné na direção dos vidros dos automóveis, na esperança de angariar constrangedores trocados.
Talvez estivesse com fome, talvez a aposentadoria já não desse para sobreviver. Talvez houvesse remédios para comprar. Talvez, talvez, talvez...
Eu só podia supor. Jamais o tinha visto naquele cruzamento do Boqueirão, onde cadeirantes vendem balas, outros necessitados oferecem meia-dúzia de panos de chão branquinhos por R$ 10,00, meninos lançam bolinhas ou limões para o ar em malabarismos toscos, em troca de moedas ou nota de R$ 2,00.
Minha torcida deu certo. O semáforo exibia a luz vermelha acesa. Porém, na direção de meu carro, veio uma moça loira que me entregou um fólder de uma construtora. Rapidamente recolhi, e depositei no banco ao lado, aquele anúncio de apartamentos de dois dormitórios, com 53,97 m², por R$ 290 mil, na Rua Alexandre Martins, altura do Canal 5, após a Avenida Afonso Pena, no bairro do Estuário.
Meus olhos aflitos tinham outro interesse. Buscaram com rapidez a imagem daquele senhor, até avistarem o topo de seu cabelo branco entre as três fileiras de carros.
Em poucos instantes, a luz verde acenderia. Então, mentalmente, eu o atraí até mim.
O semáforo liberou a passagem para os carros, que logo se puseram em movimento. Ainda segurando a velocidade do meu, abri o vidro, estendi a mão para fora e balancei a cédula de R$ 20,00, com medo de não conseguir lhe entregar. Por sorte, ninguém acionou a buzina. Também por sorte, ele me percebeu e se aproximou. Não pegou o dinheiro com a mão. Estendeu o boné, onde o depositei, a tempo de ouvi-lo agradecer:
_ Deus a abençoe, minha senhora.
A voz era firme e, assim como a calça, o tênis e a camisa com manga dobrada acima do pulso, a ponto de exibir a pele branca com manchas senis, também demonstrava dignidade.
Não doei o dinheiro para sossegar minha consciência. Não. Eu não era culpada pela condição dele. Fiz todo aquele trajeto de novo, porque não me conformei em ver um homem idoso sendo obrigado a mendigar uns trocados no semáforo. Nenhum ser humano nasceu para herdar sina tamanha.
Aquela quantia não resolveria sua carência. Era pouco. Eu sei. Talvez permitisse que ele pudesse, ao menos, fazer uma refeição, ou pegar uma condução. Não tenho como conhecer sua real necessidade, assim como ele jamais saberá que eu não conseguiria ir embora, sem retornar àquela esquina.
Refazer todo o trajeto e depositar aquela nota em seu boné foi tudo o que estava a meu alcance naquele momento. Além disso, ele não ouviu, porque a fluência do trânsito me obrigou a tirar logo o carro dali, mas eu desejei que Deus o abençoasse também.




sábado, 1 de junho de 2019

Receitas contra aborrecimento

Texto e foto: Lídia Maria de Melo
Quando me aborreço muito, faço-me um agrado como esse da fotografia, ou ponho-me à frente do espelho, com uma tesoura na mão, e corto o cabelo.
Em meados de maio, fiz as duas coisas.
Num fim de tarde chuvoso, saboreei, na Confeitaria Brunella, um croquete de carne, um doce de massa folhada com creme de baunilha e uma xícara de chocolate quente.
Depois, tosei o cabelo, de um jeito que detesto, mas descarreguei as energias.
Não perdi a força, como ocorreu com Sansão, quando Dalila cortou seu cabelo enquanto ele dormia.
Fiquei sem o aquecimento natural do pescoço quando esfria. Mas isso passa. É só esperar crescer de novo.
Desde criança, acumulo histórias envolvendo meu cabelo, que por anos foi loiro e depois escureceu. Esta é somente mais uma fase. Logo estará longo de novo. Pronto para ser cortado, se necessário for.