domingo, 9 de junho de 2019

Precisei voltar àquela esquina da Avenida Conselheiro Nébias

Image by Hans Braxmeier from Pixabay
Lídia Maria de Melo

Ele nunca saberá a volta que eu dei para reencontrá-lo e depositar R$ 20,00 em seu boné.
Na manhã de sexta-feira, peguei a Avenida Conselheiro Nébias, única via santista que liga o porto à praia, cortando diversos bairros, em uma extensão de 4,4 Km.
Estava na altura do número 300, no sentido Centro-Praia.  Precisava chegar ao número 741, na pista oposta, Praia-Centro. Isso exigiu que, dirigindo, eu fizesse o contorno por trás do Supermercado Carrefour, instalado no número 802, onde nos anos 1970 funcionou o Hipermercado Eldorado, com seu restaurante com mesa giratória, grande atrativo no Bairro do Boqueirão.
Essa mudança de pista me fez virar à direita, na Rua Roberto Simonsen, e percorrer um pequeno trecho da Pedro de Toledo, que me deu acesso ao sentido Praia-Centro da Avenida Conselheiro Nébias. Justamente nesse cruzamento, com o semáforo fechado, avistei um homem de idade, magro, cabelo branco, coluna ainda ereta, vestido com dignidade, estendendo um boné branco, num gesto pedinte em direção aos motoristas dos demais carros.
A cena me condoeu. Era um idoso, com jeito de quem trabalhou a vida inteira e agora estava necessitado. O semáforo logo abriu e não deu tempo para que eu abrisse a bolsa, repleta de bolsos e alcançasse a carteira com zíper, onde guardava meu pouco dinheiro trocado.
Quando dei partida no carro, ele estava na altura do vidro a meu lado. Fiz um gesto de sinto muito e segui, com o coração partido.
Enquanto me conduzia a meu destino, tracei um plano e o cumpri à risca. Trafeguei até o número 741, parei no estacionamento do Laboratório Pasteur, onde pegaria um exame para minha mãe. Antes de descer do carro e acionar o alarme, retirei da carteira R$ 20,00 e deixei no console. Na recepção, não havia ninguém, além da recepcionista, que me atendeu em cerca de dois minutos.
De posse da sacola de exames, voltei ao carro e me pus na Conselheiro Nébias, na direção contrária ao mar. Converti na Rua Soares de Camargo, primeira que deu acesso à Rua Oswaldo Cruz, e nessa continuei até a Lobo Viana, onde percorri uma quadra e acessei a Álvares de Azevedo, por trás do Super Centro Boqueirão.
Ali, peguei a Rua Bento de Abreu e a Dr. Amílcar Mendes Gonçalves, para retornar até a Avenida Conselheiro Nébias, sentido Centro-Praia, e chegar de novo até a Rua Roberto Simonsen, para outra vez passar atrás do Supermercado Carrefour e alcançar a Rua Pedro de Toledo.
Nesse trecho, torci para que o semáforo estivesse novamente fechado. Assim, poderia entregar os R$ 20,00 àquele homem de idade avançada, cabelo branco, vestido com dignidade, que estendia o boné na direção dos vidros dos automóveis, na esperança de angariar constrangedores trocados.
Talvez estivesse com fome, talvez a aposentadoria já não desse para sobreviver. Talvez houvesse remédios para comprar. Talvez, talvez, talvez...
Eu só podia supor. Jamais o tinha visto naquele cruzamento do Boqueirão, onde cadeirantes vendem balas, outros necessitados oferecem meia-dúzia de panos de chão branquinhos por R$ 10,00, meninos lançam bolinhas ou limões para o ar em malabarismos toscos, em troca de moedas ou nota de R$ 2,00.
Minha torcida deu certo. O semáforo exibia a luz vermelha acesa. Porém, na direção de meu carro, veio uma moça loira que me entregou um fólder de uma construtora. Rapidamente recolhi, e depositei no banco ao lado, aquele anúncio de apartamentos de dois dormitórios, com 53,97 m², por R$ 290 mil, na Rua Alexandre Martins, altura do Canal 5, após a Avenida Afonso Pena, no bairro do Estuário.
Meus olhos aflitos tinham outro interesse. Buscaram com rapidez a imagem daquele senhor, até avistarem o topo de seu cabelo branco entre as três fileiras de carros.
Em poucos instantes, a luz verde acenderia. Então, mentalmente, eu o atraí até mim.
O semáforo liberou a passagem para os carros, que logo se puseram em movimento. Ainda segurando a velocidade do meu, abri o vidro, estendi a mão para fora e balancei a cédula de R$ 20,00, com medo de não conseguir lhe entregar. Por sorte, ninguém acionou a buzina. Também por sorte, ele me percebeu e se aproximou. Não pegou o dinheiro com a mão. Estendeu o boné, onde o depositei, a tempo de ouvi-lo agradecer:
_ Deus a abençoe, minha senhora.
A voz era firme e, assim como a calça, o tênis e a camisa com manga dobrada acima do pulso, a ponto de exibir a pele branca com manchas senis, também demonstrava dignidade.
Não doei o dinheiro para sossegar minha consciência. Não. Eu não era culpada pela condição dele. Fiz todo aquele trajeto de novo, porque não me conformei em ver um homem idoso sendo obrigado a mendigar uns trocados no semáforo. Nenhum ser humano nasceu para herdar sina tamanha.
Aquela quantia não resolveria sua carência. Era pouco. Eu sei. Talvez permitisse que ele pudesse, ao menos, fazer uma refeição, ou pegar uma condução. Não tenho como conhecer sua real necessidade, assim como ele jamais saberá que eu não conseguiria ir embora, sem retornar àquela esquina.
Refazer todo o trajeto e depositar aquela nota em seu boné foi tudo o que estava a meu alcance naquele momento. Além disso, ele não ouviu, porque a fluência do trânsito me obrigou a tirar logo o carro dali, mas eu desejei que Deus o abençoasse também.




sábado, 1 de junho de 2019

Receitas contra aborrecimento

Texto e foto: Lídia Maria de Melo
Quando me aborreço muito, faço-me um agrado como esse da fotografia, ou ponho-me à frente do espelho, com uma tesoura na mão, e corto o cabelo.
Em meados de maio, fiz as duas coisas.
Num fim de tarde chuvoso, saboreei, na Confeitaria Brunella, um croquete de carne, um doce de massa folhada com creme de baunilha e uma xícara de chocolate quente.
Depois, tosei o cabelo, de um jeito que detesto, mas descarreguei as energias.
Não perdi a força, como ocorreu com Sansão, quando Dalila cortou seu cabelo enquanto ele dormia.
Fiquei sem o aquecimento natural do pescoço quando esfria. Mas isso passa. É só esperar crescer de novo.
Desde criança, acumulo histórias envolvendo meu cabelo, que por anos foi loiro e depois escureceu. Esta é somente mais uma fase. Logo estará longo de novo. Pronto para ser cortado, se necessário for.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Niki Lauda, um tricampeão. Nas pistas e na vida

Niki Lauda - Reprodução
Lídia Maria de Melo
Acabo de saber da morte de Niki Lauda, corredor de Fórmula 1 dos tempos em que eu, garota, acompanhava essa modalidade esportiva. (Depois da morte de Ayrton Senna, em 1994, abandonei a F1). 

Lauda era um dos maiores adversários de James Hunt. Um ídolo. 
Mas do que mais me lembro é do acidente em 1976, que o deixou gravemente queimado. 
O brasileiro Emerson Fittipaldi ajudou a tirá-lo das chamas, mas não a tempo de evitar que o rosto de Niki ficasse totalmente deformado. 
Mesmo assim, Niki Lauda seguiu em frente. 
Em 1986, uma brasileira de Curitiba, Cristina Lopes Afonso, teve grande parte do corpo queimado pelo próprio namorado, um médico enciumado. 
A história dela, que hoje é vereadora em Goiânia, ganhou repercussão internacional, tamanha a violência. 
Niki Lauda ajudou-a a se tratar fora do Brasil. 
Hoje, Niki Lauda morreu em Viena, sua cidade natal, aos 70 anos. Um tricampeão! Nas pistas e na vida.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Patrono da Educação, Paulo Freire está sob ataque injusto


Folhetim (Folha de S. Paulo)
1º de julho de 1979, p3
Lídia Maria de Melo                
Cresci ouvindo falar de Paulo Freire com muito respeito, devido a seu método de alfabetização, que se popularizou pelo nome de Método Paulo Freire.
O mundo reverenciou suas ideias. 
O Brasil também.
Depois de ter conseguido ensinar 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias, foi convidado pelo presidente João Goulart a desenvolver o Plano Nacional  de Alfabetização, que previa cursos de formação de professores por todo o  País.
Após o golpe militar de 1964, o pernambucano Paulo Reglus Neves Freire, nascido em 19 de setembro de 1921, passou 70 dias preso.
Quando saiu da prisão, deixou o Brasil, para somente retornar em 1979, com a assinatura da Lei de Anistia.
Em 2012, quinze anos após sua morte, ocorrida em 2 de maio de 1997, foi declarado Patrono da Educação  Brasileira.
Quando me tornei jornalista, tive a honra de entrevistar Paulo Freire em 22 de setembro de 1988, na Redação do jornal A Tribuna, em Santos, e ele me contou que, enquanto vivia no exílio, participou de um congresso na Grécia e, na saída do teatro onde o encontro ocorreu, um vendedor ambulante cumprimentou-o por sua obra. Aquela manifestação deixou-o muito feliz. 
Folhetim (Folha de S. Paulo)
1º de julho de 1979, p.4
Ele também me disse que não criou um método. O que colocou em prática foi uma filosofia educacional que contextualizava o ensino, empregando na alfabetização palavras que faziam sentido aos alunos, como, por exemplo, "tijolo", "casa", "saúde", e despertavam o pensamento crítico.
Conversamos ainda sobre uma pitangueira, da qual ele sentia saudades enquanto vivia longe do Brasil. O assunto veio à baila, porque comentei sobre a entrevista à jornalista Ione Cirilo, publicada em 26 de agosto de 1979,  no Folhetim, suplemento dominical do jornal Folha de S. Paulo.  Essa entrevista ao Folhetim tinha como título uma frase do próprio Paulo Freire sobre a pitangueira: "Se você tiver uma pitangueira em casa, cuide das pitangas... Pode ser que um dia você se exile também".
Em meu início de carreira no Magistério, lecionei em uma escola particular, de 1978 a 1982, e era chamada de "tia". Isso me incomodava. Não pelas crianças, mas pelo fato de pressentir uma falta de respeito à minha profissão. Quando comentava sobre esse incômodo, ninguém me compreendia. Anos depois, soube que "professora" passou a ser tratamento obrigatório nessa escola.

Entrevista de Paulo Freire
Folhetim em 26/8/1979, p. 8
Entrevista de Paulo Freire
Folhetim em 26/8/1979, p.9

Em 1993, Paulo Freire lançou o livro "Professora, sim; tia, não". Lavou minha alma quando escreveu: "A tentativa de reduzir a professora à condição de tia é uma "inocente" armadilha ideológica em que, tentando-se dar a ilusão de adocicar  a vida da professora, se tenta amaciar a sua capacidade de luta ou entretê-la no exercício de tarefas fundamentais. Entre elas, por exemplo, a de desafiar seus alunos, desde a mais tenra e adequada idade, através de jogos, de estórias, de leituras para compreender a necessidade de coerência entre discurso e prática; um discurso sobre a defesa dos fracos, dos pobres, dos descamisados; um discurso que nega a existência das classes sociais, seus conflitos, e a prática política em favor exatamente dos poderosos".
De uns tempos para cá, com espanto, vejo brasileiros atacarem as ideias do educador Paulo Freire. Diversos países, no entanto, reverenciam-no e adotam suas ideias em seus planos educacionais. Por que o Brasil quer destruir seu patrimônio cultural e intelectual? Não seria um suicídio? Pense nisso. 
Para saber mais sobre a obra de Paulo Freire, clique aqui. 
Um de seus livros mais conhecidos é Pedagogia do Oprimido, de 1968. Para acessar, clique aqui.
Para ler as reportagens, faça download das imagens dos jornais.