domingo, 8 de dezembro de 2019

Por um triz

Azaléias - Foto de Lídia Maria de Melo
Lídia Maria de Melo (texto e foto)

Alguns dizem que, enquanto dormimos, nosso espírito costuma sair a passear. Não sei se creio nessas peripécias. Mas, se ocorrem de fato, hoje, um amigo veio me visitar.
Não nos vemos, nem nos falamos, há pelo menos dez anos. Mesmo assim, ele apareceu.
Enquanto eu revisava textos de alunos em sala de aula, abaixou-se ao lado de minha mesa e disse que iria me esperar.  Concordei, feliz.
A primeira vez que ele se aproximou de mim, eu era uma jovem determinada e cheia de planos. Cursava o terceiro ano da faculdade. Alguém chamou meu nome no corredor e ele reconheceu o mesmo que assinava as reportagens que sempre chamavam sua atenção no nosso jornal-laboratório.
Dali em diante, partilhamos muitas histórias, ao sabor de torta de banana açucarada e mousse de manga.
Hoje, até tentei me apressar, mas a conversa não se consumou. Sonho é sempre sonho. Acordei, antes de podermos nos reconectar.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O melhor contra baratas

Texto, foto e ilustração: Lídia Maria de Melo

A rede social Facebook instituiu a lembrança a seus usuários.
Traz de volta postagens.
Hoje, me deu a oportunidade de recordar um texto que escrevi em 29 de outubro de 2017. Vamos a ele:
Inspirada na postagem de uma aluna, conto-lhes esta história sobre baratas. 
O calor deixa as bichinhas malucas. 
Elas saem por aí, dando voos rasantes e tirando o aconchego dos lares. 
Ontem à noite, uma delas entrou em meu apartamento, mais precisamente no meu quarto. Pela janela. Como voam alto as safadinhas! 
Ouvi um farfalhar e percebi que ela caminhava sobre um móvel e depois escondeu-se em um tubo de madeira, que liga duas prateleiras da escrivaninha e por onde passam fios de eletricidade e da TV a cabo. 
Fui correndo pegar um inseticida. 
Espirrei bastante dentro do tubo. Em pouco tempo ela saiu, e eu joguei o chinelo Havaianas em cima. Matei. Tenho nojo. Não tenho medo. 
Havaianas, o melhor contra baratas.

Abaixo da postagem, seguidores comentaram. Uma me chamou de corajosa. Nem tanto!
Outro quis saber a cor de minhas sandálias. Postei a foto: marrons, com bandeirinha do Brasil e nas laterais, três faixas: um verde, uma amarela e outra branca.
Outra lembrou o humorista José Simão: "Todos são héteros até a barata voar".
E um quarto mencionou um antigo comercial das sandálias Havaianas: "Não têm cheiro, não deformam, não soltam as tiras".
Estamos no final de outubro. A primavera em breve nos dará adeus.
O mormaço úmido do litoral paulista já começa a atormentar.
Logo, logo, as baratas tornarão a voar.

sábado, 21 de setembro de 2019

Fogo consome 80% do Refúgio Ecológico Caiman, paraíso do Pantanal, onde fiz reportagem há 25 anos

Região alagadiça, o Pantanal recebe 
as águas do Planalto Brasileiro, com o qual
se limita a Leste, e da Cordilheira dos Andes,
a Oeste, no período de cheia e degelo. Esse ciclo 
renova a fauna, a flora e o solo pantaneiro. 
Foto: Lídia Maria de Melo. 

Chamada de primeira página
no jornal A Tribuna
de minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman,
no Pantanal, 
em 1994. 
Textos e fotos de
Lídia Maria de Melo


21 de setembro, Dia da Árvore. Não há como ficar indiferente às queimadas que dizimam, em ritmo acelerado, parte das florestas brasileiras. Tanto na Amazônia, quanto em outras regiões do país. 
No Pantanal sul-mato-grossense, por exemplo, bombeiros tentam há dias conter o fogo que já destruiu 80% do Refúgio Ecológico Caiman. 
Empenham-se para evitar a morte de animais e vegetação, na área da Reserva Particular do Patrimônio Natural, onde é possível avistar 650 espécies de aves, 90 de mamíferos, 50 de répteis e 250 de peixes. 
São  araras azuis, tuiuiús, tucanos, colhereiros, garças, carcarás, onças pintadas, jacarés, sucuris, pintados, dourados, pacus... Impossível relacionar todos.
Embora seja considerada uma das regiões mais belas e mais ricas do país, em termos de fauna e flora, o Pantanal enfrenta o problema constante de desmatamentos, queimadas, caça e pesca descontroladas e extração de ouro, que polui seus rios com mercúrio. 
Este ano, no entanto, os incêndios tomaram proporções gigantescas, atingindo áreas que até então tinham conseguido escapar ilesas. 
Por essa razão, as notícias atuais me causam profunda consternação.  
De 26 a 29 de maio de 1994, tive o privilégio de conhecer Caiman, como integrante de um grupo de jornalistas de vários veículos de imprensa brasileiros.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-5.  
Foi uma das mais belas viagens que realizei a trabalho.
Propriedade do empresário Roberto Klabin, atual presidente do Instituto SOS Pantanal, o Refúgio Ecológico Caiman é uma fazenda de 53 mil hectares, localizada em Miranda, a 240 quilômetros de Campo Grande e a 36 da área urbana do município. 
Ali, pude realizar uma reportagem de cunho ambiental, para o Caderno de Turismo do jornal A Tribuna, de Santos, onde eu atuava como subeditora da Editoria Local. 
Com edição de Lauro Tubino, diagramação de Eugênio Lara e ilustração de Seri, meus textos foram publicados com fotografias também de minha autoria, além outras de divulgação. 
Ocuparam três páginas do caderno veiculado no dia 14 de agosto de 1994, um domingo.
Naquele tempo, não tínhamos fotos digitais. Usávamos negativos.

Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-6
Como não viajei acompanhada por um repórter-fotográfico do próprio jornal, precisei me virar com uma máquina Yashica, sem lentes especiais, ou outros recursos que permitissem fotografar os animais à distância, com nitidez, durante caminhadas e safáris fotográficos.
Mesmo assim, consegui capturar algumas imagens do tanto que o Pantanal oferece a quem tem olhos e ouvidos para entrar em sintonia com suas maravilhas.
Não vou detalhar. 
Prefiro publicar aqui as páginas do Caderno de Turismo do jornal A Tribuna de 25 anos atrás.
Dessa maneira,  você tem a possibilidade de ler meus textos e ver por que nosso meio ambiente deve ser defendido.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-7
A reprodução exigiu o escaneamento de várias partes de cada página do jornal e, depois, a montagem, usando o programa Paint.
O processo foi artesanal, com poucos recursos técnicos. Uma espécie de junção improvisada das peças de um quebra-cabeça. Apenas o que deu para executar, porque cada página do jornal media 34 cm de largura e 55 cm de altura, enquanto a lente do scanner de mesa tem 21 por 28 cm.
Para ler o texto de cada página do jornal, talvez seja preciso clicar na imagem, aumentar o zoom do navegador ou fazer download.
Publico também algumas fotografias minhas (veja logo mais abaixo), com outras  informações sobre o Pantanal.

Boa leitura e ajude a divulgar a importância do meio ambiente para o Planeta Terra. Faça o que estiver a seu alcance para  preservá-lo.

Cerca de 650 espécies de aves
já foram catalogadas no Pantanal sul-mato-grossense.
 Algumas são aves de arribação. Ou seja,
são aquelas que, no inverno no hemisfério norte,
voam para a América do Sul. Na foto,
um urubu-rei.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O Refúgio Ecológico Caiman
tinha, em 1994, um rebanho de
18 mil cabeças de gado nelore.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O tuiuiú, também chamado de jaburu, é a ave-símbolo
 do Pantanal. Tem o corpo branco, uma faixa vermelha
no pescoço, que parece um cachecol, e a cabeça preta.
Tem 1,30 m de altura e 3 m de envergadura
(distância entre as pontas das asas).
Foto de Lídia Maria de Melo.

Tive a oportunidade de alimentar jacaré pantaneiro,
no Lago do Hotel. Acervo de Lídia Maria de Melo.
Os jacarés do Pantanal
(caiman crocodilus yacaré)
são lerdos e mansos. Podem ser
alimentados com pulmão de boi, ou bofe,
O turista só não pode tocar em seu dorso.
Já o jacaré-do-papo-amarelo são
animais em extinção.
Foto de Lídia Maria de Melo.
A piúva é parente do ipê.
É a árvore-símbolo do Pantanal.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O zebrão é um caminhão
usado para fazer safári
fotográfico.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O tereré é bebida típica pantaneira.
Derivado do chimarrão,
é mate preparado com água fria.
A bebida utiliza erva do Paraná e
é servida em uma guampa, feita
com chifre de boi, polido com
folha da árvore lixeira. Sorve-se com
uma bombilha. A bebida foi
criada por migrantes gaúchos.
Acervo de Lídia Maria de Melo.

Celestino Prudêncio da Silva tinha
69 anos em 1994. Dos 14 aos 52,
atuou como onceiro e caçou
88 onças pintadas e 275 pardas.
Usava arma de fogo, zagaia e um cão.
A primeira caçada ocorreu
para provar sua coragem
ao pai da namorada.
Só parou em 1977, quando a onça
tornou-se protegida por lei.
Depois, passou a atuar como guia de campo
na Caiman. Foto de Lídia Maria de Melo.








Ao final da estadia, partimos de Caiman
em um Cessna 208 Caravan,
um monomotor turboélice, que inaugurou
a linha aérea entre a fazenda e Campo Grande.
Antes, esse trajeto de 240 quilômetros
 era feito em furgão.
Foto de Lídia Maria de Melo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Tecnologia digital revolucionou o mundo em poucos anos, mas não conseguiu desacelerar preconceitos


Texto: Lídia Maria de Melo
Fotos: Pixabay - Free license

Só para lembrar. 
O boom da internet no Brasil só ocorreu em 1996. Eu comprei meu primeiro computador com internet em 1997. A maioria dos jornalistas que trabalhavam no jornal A Tribuna, também. 
Mesmo assim, a conexão era discada. Precisava de um telefone. 
Em 1994, fiz uma reportagem para a revista Nova Escola e precisei explicar o que era internet, inclusive que eram necessárias, para a conexão, uma placa de modem e uma linha telefônica. 
Logo depois, a Folha de S. Paulo fez matéria de página dupla sobre a internet. 
A banda larga só surgiu depois do ano 2000. 
Defendi dissertação de Mestrado na USP em abril de 2001. Até então, não havia conteúdo na internet. Nada, ou quase nada, que fosse possível pesquisar com credibilidade. 
O Google só foi fundado em setembro de 1998. Imagine! 
Rede social era sala de bate papo do Uol ou do Terra, além do ICQ. 
O primeiro celular no Brasil chegou em 1990, mas era artigo de luxo. Caríssimo. E, até 20 anos atrás, só era possível fazer ligação. 
Meu primeiro celular, eu comprei, após pegar uma fila quilométrica, em 1998 ou 1999. 
Celular com touch screen só surgiu em 2007. 
O Windows só foi introduzido em celulares em 2012. Pouco antes, o sistema era apenas Android. 
Smartphone é bebê ainda.
Os blogs, inicialmente, eram diários de adolescentes.
Criei o meu primeiro em 2006, ano em que escrevi uma crônica e um comentário para o Blog do Noblat, que já tinha cunho jornalístico. Na crônica, falei sobre um coral de bem-te-vis. No comentário, opinei sobre a cabeçada do Zidane no jogador Materazzi, na Copa da Alemanha.
Ou seja, a revolução tecnológica é coisa muito recente no mundo.
Então eu me pergunto: se a gente se acostumou com isso tudo, tão rapidamente, por que não consegue se livrar do preconceito étnico, social, de gênero, sexual, linguístico, religioso?