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sábado, 23 de setembro de 2023

Você conhece a expressão "PT saudações"?

Lídia Maria de Melo

Outro dia, em uma rede social, perguntei a meus seguidores se alguém conhecia a expressão "PT Saudações".
Alguns, mais velhos, disseram que sim.
Outros preferiram não arriscar uma resposta.
Pois bem, vamos às explicações.

A expressão surgiu com o telegrama, meio de comunicação inaugurado no Brasil em meados do século 19, após a invenção do telégrafo. Tratava-se de uma forma bem rápida e urgente  de comunicação.

O telégrafo foi criado pelo norte-americano Samuel Finely Breese Morse em 1837. Somente em 1844, ele conseguiu enviar a primeira mensagem à distância. A linguagem usada passou a ser conhecida como Código Morse. 
No Brasil, a primeira linha de telégrafo foi instalada na cidade do Rio de Janeiro em 1852, a pedido do imperador D. Pedro II, um entusiasta das novas tecnologias.  
O telegrama passou a ser uma alternativa à carta, que demorava dias para ser entregue.
A linguagem do telegrama era sintética, sem preposições, artigos e pontuação, para reduzir o custo da mensagem, entregue pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
As letras PT eram a abreviação de ponto (final). Não tinham (nem têm) qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, que só foi fundado no Brasil em 1980.
A palavra "saudações" era um cumprimento  formal, equivalente a  "um abraço", "passar bem" etc. Com o tempo, "PT Saudações" passou a ser usada com o sentido de despedida.
Às vezes, quando uma conversa ficava alterada, era comum um dos interlocutores encerrar o assunto, usando essa expressão, numa demonstração de contrariedade, ou de desprezo pelo interlocutor. Ao mesmo tempo, encostava o dedo indicador na própria testa e apontava em direção ao outro, como se batesse continência. Depois, dava as costas e ia embora.
Hoje, quem pesquisa telegrama na internet só encontra o aplicativo Telegram, que não é o dos Correios, mas segue o mesmo conceito: mensagem rápida.
Em tempo: os Correios ainda oferecem o serviço de envio de telegramas, que pode ser escrito ou fonado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal carioca Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
      UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
               CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.

     

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Você sabe o que é "cutruvia" e " catraia"?

Lídia Maria de Melo

Quando alguém me pede o sinônimo de uma palavra, invariavelmente pergunto: "Qual é a frase?".
A pergunta tem fundamento. Uma palavra fora do contexto pode concentrar diversos sentidos (polissemia), ou não ter sentido algum.
O contexto é um conjunto de circunstâncias que ajudam na compreensão de uma mensagem. A partir dele, um fato ou um vocábulo adquire significado.
Na novela Velho Chico, escrita por Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi,  e apresentada na Rede Globo às 21 horas, a personagem Luzia costuma usar as palavras "catraia" e cutruvia".
Pelo contexto em que são empregados, não há dúvidas de que a mulher de Santo dos Anjos atribui aos dois termos uma carga semântica bastante ofensiva.

Catraia no Porto de Santos

Catraias atracadas na Bacia do Mercado, em Santos. 
À esquerda, o canal sob o  Porto.
Desde criança conheço a palavra "catraia". Trata-se de um barco, com um motor, tripulado por uma pessoa, o catraieiro.
Na travessia entre Santos e o distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, a catraia transporta 25 passageiros sentados, além do catraieiro.
Em Santos, o embarque (e desembarque) é feito na Bacia do Mercado.
A catraia segue por um canal, sob o cais do Porto, até alcançar o Canal do Estuário para, após atravessá-lo, atracar em outra estação de embarque e desembarque em Vicente de Carvalho.
Catraia.
Quando a maré está baixa, as catraias chegam a atolar no fundo do canal sob o Porto. Quando está alta, os passageiros precisam se curvar, mesmo sentados, para não baterem a cabeça no teto de concreto. Se a passagem fica inviável, a atracação é feita no cais do Porto mesmo e as catraias não chegam à Bacia do Mercado.
Se duas catraias se encontram em direção contrária dentro do canal sob o Porto, a água muitas vezes respinga nas roupas dos passageiros. Devido à concentração de óleo, as manchas se revelam quando os respingos secam. A única forma de retirar esse óleo da roupa é esfregar óleo de cozinha no local, até sumir a mancha. Depois, é só lavar.
Não ando de catraia há muitos anos. Acho que há mais de quatro décadas, mas de vez em quando passo perto da Bacia do Mercado e tudo está como sempre.
Voltando ao sentido da palavra "catraia", o que eu conheço nada tem a ver com o empregado por Luzia, em Velho Chico.
A mulher de Santo dos Anjos utiliza o termo para ofender Maria Tereza de Sá Ribeiro, a antiga e eterna paixão de seu marido. E não se trata de uma invenção semântica da personagem.
O dicionário Aurélio Século XXI (edição de 1999) registra "catraia" com quatro acepções, que são:

  1.  barco de pequeno porte; 
  2.  pequena construção, casinhola; 
  3.  meretriz; 
  4.  meretriz de baixa classe.
O dicionário Míni Houaiss (2008) e o Dicionário da Língua Portuguesa Comentado pelo Professor Pasquale (2009) só admitem "catraia" no sentido de barco pequeno.

Cutruvia
Se "catraia" é reconhecida pelos dicionários, inclusive pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), ao menos no sentido de "barco", o mesmo não ocorre com "cutruvia", outro xingamento do repertório de Luzia.
Essa ofensa repetida à exaustão contra Maria Tereza não tem registro no VOLP, nem nos dicionários citados acima.
Segundo o site O Nordeste.com , o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto Maior (2010), registra "cotruvia" (com "o") como prostituta de ínfima classe.
O site Dicionário Informal  apresenta dois conceitos para a palavra:
  1.  Mulher da vida, que se relaciona com homens comprometidos. Meretriz. Amante.
  2.  Pessoa por quem se nutre antipatia. 
Assim, "cutruvia", na linguagem falada, designa prostitutas.
Mesmo que não houvesse registro em nenhum local, seria fácil perceber seu significado. Bastaria prestar atenção à maneira como Luzia se expressa.
O contexto seria suficiente para esclarecer as dúvidas semânticas.

domingo, 1 de junho de 2014

Cuidado ao abreviar a palavra "professor".
Ela não termina com a letra "o".

A abreviação da palavra "professor" é prof., segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.
A de "professora" é profª., com "a" no fim, porque "professora" termina com "a".
As mesmas regras valem para os vocábulos "doutor" (dr.) e "doutora" (drª.).

Abreviação correta de professor.

Abreviação correta de professora

Nos últimos tempos, virou uma febre incluir indevidamente um "o" no final de prof. de dr..
Pessoas gabaritadas têm cometido essa impropriedade e acabam criando seguidores.
Porém, esse "o" não existe na abreviação de "professor" e de "doutor", afinal a palavra correta não é "professoro", nem "doutoro".

Abreviação errada de professor.

Abreviação errada de professor.

Em 2013, uma peça de teatro, protagonizada pela atriz Jandira Martini, mostrava as duas formas corretamente escritas em seu título. Então, siga o exemplo:



Se você se interessou por esta postagem, certamente terá afinidade com os artigos do blog Prosa Línguística .

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pronúncia de algumas palavras dá o que falar

Lídia Maria de Melo

A pronúncia da palavra "gratuito" exige um certo cuidado. Muitas pessoas manifestam dúvidas em relação à sílaba tônica. Então, vamos tentar esclarecer, com base na gramática normativa.
A sílaba forte é o “tu” (sem acento gráfico). Pela norma padrão, a pronúncia adequada é “tui”. Não é “tu-í”. 
A mesma regra vale para "circuito" e "fluido" (substantivo).
Fluido, sem acento gráfico, é um produto líquido ou gasoso. O fluido do isqueiro, por exemplo.
Fluído, com acento agudo, refere-se ao particípio do verbo fluir (Exemplo: Quando o encanador chegou para reparar a tubulação, muita água tinha fluído dos canos).
A pronúncia do nome da torre que se tornou um símbolo mundial da França também causa controvérsia.
No idioma francês, Eiffel tem acento de pronúncia na última sílaba, ou seja, a palavra é oxítona. Em português, se fosse paroxítona, deveria receber um acento gráfico (circunflexo) no primeiro "e", já que termina em "l". Como nada disso ocorre, a pronúncia no Brasil deve ser a mesma francesa: Eiffel, com ênfase na sílaba "fel".
Sobre a pronúncia do nome do estado brasileiro "Roraima", com vogal aberta ou fechada nasalizada na penúltima sílaba, explico: tanto faz. Ambos estão corretos. 


terça-feira, 25 de junho de 2013

Charges avaliam manifestações de maneira
criativa, contundente e bem-humorada

      Angeli - Folha de S. Paulo 23/6/2013 - reprodução
A charge é um dos meios mais sintéticos de se expressar opinião. Para transmitir o que pensa a respeito de determinado assunto, o chargista utiliza linguagem não verbal, que pode estar associada, ou não, a recursos verbais. Porém, somente o emprego de imagem e de palavras não garante que a mensagem seja entendida.
A compreensão do conteúdo da charge envolve a somatória de outros fatores, como contexto, intertextualidade e conhecimento partilhado entre emissor e receptor. Se, por exemplo, quem observar a charge não tiver informação suficiente sobre o tema abordado, a comunicação não se concretizará.
O emprego de figuras de linguagem, como metáfora, ironia, hipérbole, prosopopeia, onomatopeia, elipse, é outro ponto fundamental para que a intenção da charge se consolide. Em outras palavras, a charge é uma unidade, formada por um mosaico de sentidos, ligados pelo humor.
Desde o início do mês, quando a população brasileira passou a ocupar as ruas das cidades para protestar, as manifestações tomaram o lugar da Copa das Confederações na relação de temas que serviram de inspiração aos chargistas.
                              "Afinal, pelo que vocês lutam?".
Na edição de domingo do jornal Folha de S. Paulo, a charge assinada por Angeli aborda o assunto (veja imagem acima). Ambientada em um espaço não especificado, mas que pode ser qualquer uma das cidades que estão sendo palco de manifestações, ela mostra um jornalista fazendo a seguinte questão a um grupo de encapuzados: "Afinal, pelo que vocês lutam?".
À frente de chamas e  armados com paus e embalagens de sprays, os integrantes do grupo respondem: "Ora! Por um país mais transparente!". A interjeição "ora" e os pontos de exclamação dão à explicação dos manifestantes um tom de obviedade.
A boca entreaberta do jornalista, além de caracterizar o momento da elaboração da pergunta, simboliza a expressão de surpresa diante da resposta, que torna a situação contraditória e irônica.
A perplexidade do repórter ocorre em silêncio, o que remete à  elipse, figura caracterizada pela omissão de palavras facilmente subentendidas no contexto. É como se ele e o leitor se perguntassem: "Se eles desejam tão ardentemente a transparência, como se apresentam com os rostos cobertos?!"
Assim, consolida-se, em clímax, a opinião humorada do chargista.
 DaCosta - A Tribuna 15/6/2013 - reprodução
No dia 15, a charge que DaCosta publicou no jornal A Tribuna envolve Copa das Confederações, protestos e repressão policial, sob um título formado pelo trocadilho: "Bola e Bala". As duas  palavras incorporam a síntese dos acontecimentos.
De um lado, a Seleção Brasileira de Futebol faz a bola rolar na abertura da Copa das Confederações.
Do outro, uma manifestante protesta nas ruas e tenta se proteger contra as balas de borracha disparadas pela Polícia Militar.
Esse tipo de projétil foi utilizado pela PM na Avenida Paulista, em  São Paulo, na tarde do dia 13, durante a  tentativa de conter o protesto contra o aumento da tarifa do transporte público. No episódio, manifestantes e jornalistas acabaram feridos e precisaram ser hospitalizados.
Nos dois quadros que compõem a charge, outro fator contribui para a construção do sentido, as cores da Bandeira Brasileira. O verde está no gramado, na gola e nas mangas da camiseta do jogador, que no restante é amarela. O azul aparece nas meias e no calção, que na lateral tem um detalhe branco, cor que tinge a chuteira.
Na manifestante, o verde colore o calçado, enquanto o amarelo se evidencia no bermudão, e o azul, na camiseta e na bolsa tiracolo. Já o branco, como símbolo da paz, chama a atenção na camiseta, que é larga e comprida.
Outras cores deixam suas marcas: o cinza do asfalto, de uma parte da bola e das balas que perfuram o papelão bege, com o qual a manifestante tenta se proteger.
A única diferença de tom entre os dois personagens é o roxo, que no cabelo da manifestante serve de indício de sua juventude e irreverência. 
O preto usado de base para o título pode ser interpretado como uma referência aos momentos de luto, já que o clima de confronto entre manifestantes e polícia nas ruas, até aquele momento, era de muito temor.
Nessa charge de DaCosta, o humor não provoca riso, mas apreensão. A mesma que se pode observar tanto na expressão do jogador, quanto na da manifestante.
 Paixão - Gazeta do Povo 15/6/2013 - reprodução
 
No mesmo dia 15, na Gazeta do Povo, Paixão faz intertextualidade com o quadro O Grito, de Edvard Munch (ao lado), datado de 1893, para expressar a reação do manifestante ao barulho das bombas lançadas pela tropa de choque da Polícia Militar.
A exemplo do que ocorre na pintura de Munch, a charge não emprega linguagem verbal, mas o grito que ecoa pode ser ouvido pela representação da imagem: o personagem tem a boca escancarada, os olhos arregalados e as mãos nos ouvidos, para protegê-los do estrondo das explosões. Os sons das bombas se evidenciam nos desenhos de fogueiras pontiagudas, pintadas de vermelho e amarelo, ao mesmo tempo em que delas sobem espirais de fumaças brancas.
 Jorge Braga - O Popular 18/6/2013 - reprodução
No dia 18, no jornal  O Popular, Jorge Braga, com linguagem não verbal e uma onomatopeia, dá sua interpretação à frase que mais vem se repetindo no País desde que os protestos tomaram conta das ruas: "O gigante despertou".
Numa associação explícita com o super-herói Hulk, o chargista mostra o Brasil, caracterizado pelo mapa, se transformando e rugindo, enfurecido e esverdeado. Ele não só despertou. Também amedronta. Basta ver  a expressão facial e os gestos do Hulk-Brasil.
Mesmo sem palavras, a charge faz referência aos versos do hino nacional brasileiro "gigante pela própria natureza" e "deitado eternamente em berço esplêndido", consolidando uma paródia.
Neste caso, ocorre então uma intertextualidade híbrida entre textos verbais, que são o hino e a frase sobre o despertar do gigante, e não verbais, o mapa do Brasil e o incrível Hulk.
Como se vê, as charges expõem comentários sobre questões cotidianas, de forma bastante sintética, mas muito criativa, contundente e bem-humorada.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Análise: anúncio publicitário fala de Jimi Hendrix e Janis Joplin em alerta contra drogas

(Atenção:  Na análise abaixo,  foi mantida a grafia da época, 1970, nas citações aspeadas do texto da Agência Alcântara Machado. Por isso, algumas palavras recebem acentos que não fazem parte das regras ortográficas atuais)
                                                                               Lídia Maria de Melo

Anúncio da agência Alcântara Machado
publicado em outubro de 1970 nos veículos
brasileiros de  circulação nacional
Em outubro de 1970, a Agência Alcântara Machado publicou em jornais e revistas de circulação nacional um anúncio em que lamentava a morte de Jimi Hendrix, “gênio da guitarra”, e da cantora Janis Joplin, a “estrêla do soul”. Ambos, vítimas das drogas.
 O texto era um alerta para o perigo do vício que matava cada vez mais naqueles finais de anos 60 e início dos 70. Na época, os jovens rejeitavam o mundo dos negócios e, ao mesmo tempo, exaltavam o lema “paz e amor” e a filosofia “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.
A agência queria sensibilizar a juventude, para que não se iludisse com as falsas sensações provocadas pelos entorpecentes (“fuja dos traficantes”) e não alimentasse “o mais sujo negócio do mundo”.
Com ritmo ligeiro, devido às frases curtas e, quando longas, bem-pontuadas, o anúncio assume um discurso emotivo e confessional desde o início. Essa característica fica evidente pelo emprego da primeira pessoa:  “Estamos chorando por eles”; “Somos uma emprêsa ìntimamente ligada à comunicação”.
Depois, com linguagem referencial, enaltece as qualidades da juventude (“Porque eles são um sôpro de vida no cansaço do mundo”; “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”)  e propõe uma aliança (“...estamos colocando nossa arma  - o anúncio – a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”).
Na sequência, utiliza a função conativa ou apelativa, para aproximar-se dos jovens leitores e aconselhar: “Não deixem que as drogas os levem para sempre do mundo que vocês querem esquecer”. Mas explica: “Sem vocês, êsse mundo fica ainda maior”.
As justificativas prosseguem nos parágrafos seguintes, em tom argumentativo:  “...você, que tem um sereno desprezo pelo ‘mundo dos negócios’, estará alimentando o mais sujo negócio do mundo: drogas”. Até que um desafio é lançado: “Viva o suficiente para tentar mudar o mundo que lhe demos”.
Embora volte à função referencial, o texto disfarça um tom apelativo, usando um eufemismo, para evitar mencionar de novo  a palavra morte: “Ninguém faz nada nem muda nada embaixo de um túmulo”.
Numa tentativa de aliança e linguagem compreensiva, a agência barganha: “Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”.
No final, surgem os verbos no imperativo, característicos da função conativa, mas não como ordens, que os jovens rejeitariam, mas como conselho  e apelo definitivos: “Não morra por nada. Não vale a pena. Ou, para usar nossa linguagem: é um mau negócio”. Ou seja, o texto coloca o jovem em pé de igualdade com o mundo que ele rejeita: o dos negócios. Só que os maléficos.

Durante todo o tempo, o anúncio contrapõe a linguagem e a ideologia do jovem da época com a dos mais velhos, para reafirmar sua mensagem aos primeiros.
Além do eufemismo mencionado mais acima, a agência emprega outras figuras de linguagem, como a metáfora  (“..seríamos um punhado de cifras, alienado e sem calor”, “Porque eles são côres, vida, amor, liberdade”); a aliteração (“vazio de vida”), a metonímia (“Porque o mundo só é rico no coração dos jovens”), a antítese (“Preferimos ver você levantando os braços na ilha de Wight, do que baixá-los para morrer”) e a prosopopeia (“Não deixem que as drogas os levem para sempre que vocês querem esquecer”).
Alguns erros também são observados.  O nome do guitarrista, por exemplo, está escrito como Jimmy, quando o correto é  Jimi. A idade dele e a de Janis aparecem como  24 anos e 26, respectivamente. Os dois, no entanto,  tinham 27 e já se aproximavam dos 28. Atualmente, eles são mencionados como integrantes do Clube dos 27, ou seja, dos ídolos do universo musical que morreram com essa idade. A mais recente foi a cantora Amy Winehouse, encontrada morta em 23 de julho de 2011, em Londres.

Quando menciona a Ilha de Wight, a correlação entre verbo e  preposição não é adequada. Se o verbo "erguer" é conjugado no gerúndio, o "baixar" também deveria ser flexionado nessa forma. Assim: “Preferimos ver você levantando os braços na Ilha de Wight do que os baixando para morrer”. 
Como o verbo "preferir", pela norma culta da linguagem, é regido pela preposição "a" e não pela locução conjuntiva "do que", a agência deveria recorrer a outra frase. Pode ser que ela tenha assumido a locução, porque é mais coloquial e o modo formal soaria distante do receptor jovem.
Na frase “Sem vocês, êsse mundo fica ainda pior”, o pronome demonstrativo está errado. O correto seria “este”, do mesmo modo como foi usado “deste” em outra frase: “... a serviço de todos os Jimmys e Janis dêste País”.
Quanto à acentuação, aparecem os circunflexos diferenciais (“êles”, “êsse”, “côres”, “emprêsa”, “estrêla”) e o acento grave na palavra derivada “ìntimamente”. Em outubro de 1970, data da publicação do texto, ainda vigoravam as regras de 1942. Somente em dezembro de 1971 foi assinada reforma ortográfica que extinguiu os acentos diferenciais e o grave (quando usado nos vocábulos derivados de outros acentuados com o agudo). Essas regras passaram a valer em  janeiro de 1972.

Em termos de apresentação, a agência substituiu o título por fotos de Jimi Hendrix e Janis Joplin, porque as imagens têm mais apelo, já que ambos eram ídolos de uma geração.
Não fosse pela rejeição que os jovens dos anos 60 tinham pelo mundo dos negócios e que os de hoje não têm, esse texto da Agência Alcântara Machado seria totalmente atual. Bastaria trocar os nomes de Jimi e Janis pelos de Michael Jackson e Amy Winehouse, por exemplo, e corrigir a acentuação.
Ninguém diria que foi escrito há mais de quatro décadas.
Leia mais em:

sábado, 20 de outubro de 2012

As palavras transportam todos os nossos segredos. A defesa de José Genoino e o parquet

Após tomar conhecimento da carta da filha de José Genoíno a respeito das acusações que pesam contra o pai no esquema do Mensalão, busquei mais informações na internet. Fico sempre tentada a ouvir as pessoas que se dizem acusadas injustamente.
Na terça-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Genoíno por corrupção ativa. A carta de Miruna Genoíno foi lida, ontem, pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP) na tribuna do Senado.
Neste momento, como jornalista, o que mais gostaria era de poder entrevistar o ex-deputado e ex-presidente do PT. Não para acusá-lo ou tomar partido. Para, quem sabe, poder decifrar histórias e fatos que não se revelam com facilidade, que passam despercebidos aos olhos comuns.
Acho que este anseio surgiu em mim durante a ditadura militar, quando a verdade dos perseguidos se ocultava nos vãos das palavras, nas entrelinhas, como charadas a serem decifradas somente por quem fosse capaz de alcançar os sentidos invisíveis e flutuantes das linguagens.
No site do jornal O Globo, encontrei um infográfico intitulado Saiba quem são os acusados do mensalão. Cliquei no nome de Genoíno e achei sua defesa apresentada ao Supremo Tribunal Federal.
Vou me debruçar sobre ela. Quem sabe eu consiga analisar mais em silêncio, longe da influência de meus colegas da imprensa e dos holofotes das câmeras de TV, as ponderações da defesa. Se um dia eu tiver a oportunidade de conversar com ele, estarei preparada.
Assinado pelos advogados Sônia Cochrane Ráo, Luiz Fernando Pacheco, Sandra Gonçalvez Pires e Marina Chaves Alves, o documento de 115 páginas é datado de 8 de setembro de 2011.
Além dos argumentos da defesa, oferece oportunidade secundária de estudo do léxico. Não pude escapar desta outra tentação, que pode parecer supérflua, diante da gravidade do tema em pauta. Mas asseguro que não é. As palavras transportam todos os nossos segredos (desconfio que essa frase seja o embrião de um poema).
Para entender, acompanhe um exemplo. Logo de início, os advogados empregam a palavra francesa "parquet" (lê-se parquê). O termo é muito comum  nos meios judiciários, embora pudesse ser substituído por ministério público ou pelo cargo ocupado por um de seus membros.
Pois bem, "parquet", em francês, significa "assoalho". Na época dos reinados franceses, nas salas de audiência, os procuradores dos monarcas ficavam no assoalho (parquet) e não, no tablado ocupado pelo juiz. Com o tempo, no Direito, esse termo passou a designar o Ministério Público ou o representante dele, indicando que a instituição é o sustentáculo, a base, do sistema jurídico.
Vou me debruçar sobre essa defesa e, claro, sobre a acusação. Certamente, depreenderei muito mais.

sábado, 30 de julho de 2011

Apenas uma pessoa morreu. Apenas?!

                   Ilustração: Lídia Maria de Melo
Como você se sentiria, se descobrisse que a única vítima fatal em um acidente de avião, com 162 pessoas a bordo, é seu filho ou sua filha, irmão, irmã, marido, mulher, alguém de sua família?
Como você reagiria se uma criança vítima de abuso sexual fosse sua parente? E se ela tivesse 9 anos em vez de 3? Faria diferença? Você se sentiria menos indignado? Sua dor seria menor?
Imaginando que você seja pai ou mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, avô ou avó, tio ou tia, integrante de uma família a quem ama, que seja um ser humano com um mínimo de sentimentos, posso antever sua resposta.
Então, é hora de outra pergunta. Desta vez, destinada a colegas jornalistas. Por que empregar o advérbio "apenas" em notícias desse gênero?
Observe esta frase: "Apenas uma pessoa se salvou entre os 162 ocupantes do avião". O "apenas" não tem o mesmo efeito que nesta outra: "Apenas uma pessoa morreu entre os 162 ocupantes do avião".
Na primeira, não ofende, porque está associado à ideia de vitória dentro de uma tragédia. Está ligado à celebração da vida.
Na segunda, soa como se essa vida perdida tivesse pouca ou nenhuma importância, já que tantas outras se salvaram. Ajuda a desmerecer a dor da família.
Do ponto de vista jornalístico, o "apenas" relega a nada a única pessoa morta no acidente aéreo, porque numericamente a quantidade é ínfima. No entanto, para a família, mesmo em termos percentuais, a perda equivale a 100%. Pode corresponder a todo seu universo.
O "apenas" também terá conotações totalmente diferentes nestas duas outras construções: 1) "Uma criança de apenas 3 anos aprendeu a ler sozinha"; 2) "Uma criança de apenas 3 anos foi violentada".
Na primeira, ressalta uma situação inusitada, mas positiva. Reforça que não é comum uma criança dessa idade aprender a ler, e ainda mais sozinha. Não agride os que não estão incluídos nesse rol.
Na segunda, é desnecessário, porque a situação envolve "uma criança", que tem "3 anos" e que foi "violentada". Essa notícia não precisa de um advérbio para ser chocante.
O uso do "apenas" deixa subentendido que, se o abuso sexual fosse contra uma criança mais velha, como uma de 9 anos, por exemplo, o crime seria menos grave. O que não é verdade.
Dá para perceber?
Por isso, é preciso refletir sobre os vários sentidos e o peso das palavras antes de se divulgar uma notícia.
Uma frase como "Apenas uma pessoa morreu no acidente" soa como descaso. Ou uma agressão.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Hjelmslev via a linguagem como um
fio tecido na trama do pensamento

Foto: reprodução
''Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana até os momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor.
A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento''.
(Louis Trolle Hjelmslev*, em Prolegômenos a uma teoria da linguagem)

* Hjelmslev era um linguista dinamarquês, nascido em 3 de outubro de 1899, na cidade de Copenhague, e falecido em 30 de maio de 1965. Doutor em Filologia, fundou o Círculo Linguístico de Copenhague, mas, o mais importante, foi precursor das tendências modernas da Linguística. Defendeu a teoria de que a língua é um todo autossuficiente.

P.S.: Prolegômeno pode ser compreendido como introdução, prefácio.