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quarta-feira, 2 de abril de 2025

A verdadeira sede do DOPS_SANTOS


Artigo publicado no jornal santista A Tribuna, na
 coluna Tribuna Livre, em 31 de março de 1964.


Tropas do Exército rumaram de Juiz de Fora (MG) ao Rio de Janeiro, no dia 31 de março de 1964, para destituir o presidente da República, João Goulart. Em Santos, o golpe se concretizou em 1.º de abril, Dia da Mentira. Para que não nos esqueçamos e ninguém altere a História e desrespeite a memória dos que lutaram e resistiram em nossa cidade, escrevi e publiquei o artigo "A Verdadeira Sede do DOPS-Santos" no jornal santista A Tribuna, onde trabalhei por 23 anos, como repórter, subeditora e editora do primeiro caderno. Reproduzo a imagem da publicação e a transcrição do texto, para que todos os interessados possam ler. Boa leitura.

A VERDADEIRA SEDE DO DOPS-SANTOS

Lidia Maria de Melo, jornalista, escritora, professora e advogada.

O Dia da Mentira costumava ser marcado por sustos e risos. A intensidade da diversão dependia de quem soubesse inventar uma história melhor que a outra. Sem importar a idade, 1º de abril sempre foi uma data para se brincar.
Em 1964, a brincadeira acabou. De manhã, forças civis e militares, bem armadas, devassaram sindicatos ligados ao Porto de Santos. Dirigentes, associados e funcionários foram presos no Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, junto com políticos, profissionais liberais e lavradores.
No prédio, funcionava a Cadeia Pública, a Delegacia Auxiliar da 7ª Região e a 4ª Delegacia de Ordem Política e Social, cuja sigla, DOPS, era usada no feminino e no masculino, por ser igual à do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, identificado, em outro período, também como DEOPS.
As entidades classistas ficaram nas mãos de interventores nomeados pelo capitão dos Portos, Júlio de Sá Bierrenbach, por indicação da Companhia Docas de Santos.
A sequência dessa História já é pública: inquéritos, demissões, processos, desemprego, prisão no navio Raul Soares, torturas, doenças, mortes.
Acompanhei tudo de perto. Meu pai era diretor do Sindicato dos Operários Portuários (atual Sintraport), foi preso no DOPS e no navio-presídio, que conheci por dentro. Eu tinha 6 anos e fazia o 1.º ano do Curso Primário na escola do sindicato.
Essa História me segue pela vida. Publiquei o livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós e tenho outro na fila de edição. Fiz reportagens, palestras, dei entrevistas e testemunhei na Comissão Nacional da Verdade e na Municipal. Ouvi sindicalistas daquela geração repetir que ficaram presos no DOPS. Não havia dúvida sobre a localização.
Em 2024, surgiu a versão de que o antigo DOPS havia funcionado no ex-prédio da Ciretran, na Av. Conselheiro Nébias. Não questiono o fato de que, naquela delegacia, tenha havido tortura, mas isso não torna o local a sede do DOPS-Santos.
Apesar dos métodos escusos, o DOPS não era clandestino e funcionou no Palácio da Polícia até 1983. Em 2010, milhares de prontuários de investigados e presos foram localizados numa sala e entregues ao Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Sobre a requisição do antigo imóvel da Ciretran, para fazer dele um lugar de memória, não sou contra. Porém, provas das alegações devem ser expostas, assim como se cobrou dos que foram à Justiça e à Comissão de Anistia reivindicar seus direitos.
Neste 1.º de abril de 2025, é preciso lembrar que, se queremos preservar a Memória e garantir a Justiça, para contar a História de luta e resistência de Santos, devemos priorizar a Verdade.



sábado, 1 de março de 2025

Além do santista Rubens Paiva, ditadura prendeu e torturou cerca de 500 pessoas em Santos

 Lídia Maria de Melo

Na esteira da torcida pela atriz Fernanda Torres e pelo filme Ainda estou aqui, na cerimônia do Oscar, amanhã (2/3/2025), o jornal Diário do Litoral publicou, na edição de hoje, uma matéria de página sobre a ditadura em Santos. Na condição de entrevistada, colaborei para esse trabalho do colega jornalista Nilson Regalado. Para quem não sabe, sou jornalista e autora do livro Raul Soares, um navio tatuado em nós, que relata, a partir de meu ponto de vista, as consequências do golpe de Estado de 1964 em minha família, após a prisão de meu pai, que era sindicalista e funcionário da Companhia Docas de Santos (CDS). Também narra as experiências dele na prisão efetuada pelo DOPS, no Palácio da Polícia, em Santos, e no navio Raul Soares, no Porto de Santos. Na época, eu tinha 6 anos de idade, e acompanhei tudo e também visitei meu pai dentro desse navio, sob a escolta de policiais marítimos e fuzileiros navais armados de fuzis e metralhadoras. Como vocês podem ver, Santos foi uma cidade bastante atingida pelo golpe militar de 1964 e pela ditadura, ao longo de 21 anos. Quem comandou a repressão em Santos, em 1964, foi o então capitão dos Portos do Estado de São Paulo, Júlio de Sá Bierrenbach, que tinha a patente de capitão de mar e guerra. Este ano, publicarei mais um livro sobre esse tema, mas com novas informações e enfoques, além de muita pesquisa. Nele, realizo um trabalho em que emprego as técnicas adquiridas em minhas áreas de formação: Letras (professora), Comunicação Social (jornalista), Ciências da Comunicação (pesquisadora) e Direito (advogada). Deixo aqui uma cópia da página do jornal. Acho que, para ler no computador, é melhor fazer download da imagem e salvar. Assim, fica mais fácil para ampliar. No celular, acredito que também é melhor salvar, ou ir ampliando com o dedo indicador e o polegar (rsrs). Vale a pena a leitura de reportagem. E também a torcida pela Fernanda e pelo filme. Nunca me canso de dizer que Walter Salles faz poesia em forma de filme, mesmo que seja um drama.


sábado, 14 de setembro de 2024

O golpe de 1964 e a invasão de sindicatos do Porto de Santos, em minha entrevista na Band Litoral


Para assistir, clique aqui.

Os 60 anos do golpe militar e a perseguição aos trabalhadores do Porto, organizados em sindicatos. Esse foi o tema de mais uma entrevista que concedi este ano e foi ao ar em 14 de setembro de 2024 no programa Porto e Baixada, veiculado pela Thathy TV - Band Litoral e também no canal da emissora no Youtube. Trato desse assunto no meu próximo livro sobre a ditadura no Porto de Santos. Para assistir e conhecer um pouco mais sobre esse tema histórico e tão importante, clique no link: https://youtu.be/UfUw_Wd8DyY.  

A equipe que me entrevistou foi a Naihara Carvalho - Naih Oliveira Carvalho (produção), Rafael Roncarati (cinegrafista) e Gabriel Ursini (produção e operação de drone). No roteiro e edição final, André Rittes; edição, Renan Sposito; apresentação, Felipe Folli; e direção, Ari Brito.

Obrigada a todos pela veiculação de um assunto tão importante para a História do Brasil, de Santos, do Porto, dos Trabalhadores Portuários e de outras áreas e do Sindicalismo Santista e Brasileiro.

Para assistir, clique  no link:     https://youtu.be/UfUw_Wd8DyY ,

#DitaduraNuncaMais #sindicalismo #Santos #PortoDeSantos #trabalhadores #companhiadocas

terça-feira, 9 de março de 2021

Meu poema Apenas Um Navio virou música na voz de Julinho Bittencourt

Lídia Maria de Melo

Em maio de 1982, quando eu fazia o primeiro ano do curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, na UniSantos, escrevi o poema Apenas Um Navio. Na mesma época, fiz um outro, intitulado Filho de Um Estupro.
Ambos remetem às memórias de quando eu tinha 6 anos de idade e meu pai, Iradil Santos Mello, foi preso pelo regime militar em 1964, logo após o golpe de estado, simplesmente porque era sindicalista. Marcam também a atuação de minha mãe, Mercedes Gomes de Sá, para proteger e sustentar a família, materialmente e emocionalmente.
Primeiro, meu pai ficou na sede do Dops. Depois, no navio Raul Soares, que serviu de presídio político no canal do estuário do Porto de Santos, de abril a novembro de 1964. 
Acabei incluindo os dois poemas no meu trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulado Para Não Ser Pego de Surpresa, em 1985. Dez anos depois, ou seja, em 1995, o trabalho virou livro e publiquei com o título de Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós. 
Em 2013, esses dois poemas foram comentados no livro Esquinas do Mundo, ensaios sobre História e Literatura a partir do porto de Santos, do jornalista e historiador Alessandro Atanes, que também os espalhou em blogs e sites (http://revistapausa.blogspot.com/2012/08/apenas-um-navio-poesia-em-estado-de.html).
Agora, em 2021, recebo a notícia de que o jornalista e músico Julinho Bittencourt criou uma melodia para meu poema Apenas Um Navio. Dessa forma, nós nos tornamos parceiros.
Quando você escutar a música Apenas Um Navio, saiba que se trata de mais um filhinho meu que escapa de meus cuidados e ganha o mundo.
Não é a primeira vez que faço uma parceria, mas é sempre como se fosse.
Se você não conhece os poemas, leia a seguir. Se já conhece, relembre:

Apenas Um Navio
   (Lídia Maria de Melo - maio de 1982)

No ano de meia quatro,
no meio do estuário,
em frente ao Porto de Santos,
o porto de minha infância,
das barcas e das catraias,
dos navios e rebocadores,
dos trens e dos armazéns,
onde os botos,
às cinco e meia da tarde,
viravam cambalhotas
enquanto as gaivotas
fisgavam peixes no mar,
avistava-se um navio
velho, preto,
ancorado
próximo à Ilha Barnabé,
que os menos informados
confundiam com um navio comum.
Mas eu e muitas crianças,
que ansiavam
para verem os pais
(confinados),
sabíamos que ele era bem mais
que um navio qualquer
e o culpávamos
pela ausência paterna
nos almoços de domingo,
pela angústia disfarçada nos olhos de nossas mães,
pela melancolia que abraçava
todas as nossas brincadeiras,
pela vontade de chorar
sem saber bem o porquê.
Nós já sentíamos tudo
e éramos tão crianças!
Só o que não entendíamos
é que o Raul Soares
era apenas um navio
e não tinha culpa de nada.
Não tinha culpa de ter virado
Instrumento repressivo
no ano de meia quatro.

.....

Filho de Um Estupro

   (Lídia Maria de Melo - maio de 1982)

O pai deste meu medo de agora
veio montado no nariz vermelho
de minha mãe
que forçava um sorriso
para ocultar
de suas crianças
no pátio da escola
o peso da repressão
(não saberia traduzir-nos
que há horas certas
para falar, pensar e discordar).
No entanto, não pôde impedir
que o montador de seu nariz
violentasse meus olhos
e me engravidasse o coração
com um pavor pulsante
que jamais poderei abortar...
E carrego comigo
cravado nos gestos
enterrado nos olhos,
com o incômodo
de uma mãe que carrega no ventre
o filho de um estupro.
 

domingo, 24 de abril de 2016

Para que nunca mais aconteça

Hoje, completam-se 52 anos da chegada do navio Raul Soares ao Porto de Santos, para servir de presídio político da ditadura militar. 
Quem acompanha o que costumo escrever sabe que meu pai foi um dos presos dessa embarcação, que conheci por dentro aos 6 anos de idade. 
Hoje, não escrevi sobre esse fato. Preferi alertar para o recrudescimento das ideias ditatoriais em nosso País. 
O artigo de minha autoria e intitulado "Para que nunca mais aconteça" está no jornal A Tribuna, de Santos, edição de hoje, na seção Tribuna Livre (página A-2), conforme imagem ao lado e reprodução de texto abaixo:

Para que nunca mais aconteça


Lídia Maria de Melo.
 Jornalista, professora do curso de Jornalismo e membro do Grupo de Pesquisa Grupo de Direitos Humanos e Vulnerabilidade da UniSantos e autora do livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós".

É difícil imaginar que, na face da Terra, milhares de seres humanos, em idade de entendimento, não saibam o que ocorreu na Europa durante a Segunda Grande Guerra por iniciativa do regime nazista, sob o comando de Hitler. É público e notório o extermínio de judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, comunistas, testemunhas de Jeová, pessoas com deficiência física e mental. O conhecimento generalizado dessa barbárie só está consolidado, porque os judeus não permitem que o mundo se esqueça.
A Alemanha, berço do nazismo, determinou  no pós-guerra o estudo  do passado, para que aqueles atos nunca mais voltem a se repetir.
Na África do Sul, por 46 anos, prevaleceu o regime segregacionista Apartheid. Quando Nelson Mandela deixou a prisão, após quase três décadas, tornou-se presidente. Para reconstruir o país, instituiu um governo de coalizão. Porém, criou uma Comissão de Verdade e Reconciliação, que poderia perdoar torturadores, desde que eles confessassem seus crimes e pedissem desculpas públicas às vítimas.
A Argentina, que enfrentou sete anos de ditadura, conviveu com a morte e o desaparecimento de 30 mil pessoas. A população conhece detalhes dessa trágica história de crimes que violam todos os preceitos humanitários.
O Brasil viveu 21 anos em regime ditatorial. Nesse período, o Congresso foi fechado, a Constituição de 1946 foi rasgada, 17 atos institucionais suprimiram direitos civis. As eleições e o habeas corpus acabaram suspensos. Ter um objeto vermelho poderia ser prova de subversão. Não era preciso antecedente criminal ou engajamento político para justificar prisão arbitrária.
Todo preso político era julgado pela Justiça Militar. Os processos se arrastavam por anos, antes da indefectível absolvição por falta de provas. Milhares de civis e militares foram presos, sem culpa formada. Quem ousou enfrentar as Forças Armadas foi classificado como terrorista. Todos sofreram punições: prisão, interrogatório, demissão, processo, tortura, exílio, cassação, morte ou até desaparecimento. Nem a Lei de Anistia, de agosto de 1979, compensou as perdas.  Marcas fincadas na alma jamais se apagam.
Quem, em nome do Estado, prendeu ilegalmente, torturou, matou, escondeu corpos, até hoje não encontrados, também foi anistiado, sem punição.
Toda essa História está documentada. O Projeto Brasil Nunca Mais, por exemplo, é composto por material recolhido nos processos que tramitaram na Justiça Militar. O relatório da Comissão Nacional da Verdade está na internet.
Com tanto material à disposição, por que milhares de brasileiros, regidos por um ordenamento jurídico que classifica a tortura como crime de lesa-humanidade, são capazes de apoiar a homenagem do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015) na Câmara dos Deputados? Alcunhado de Doutor Tibiriçá, o coronel foi o primeiro agente da ditadura a ser reconhecido pela Justiça, em 2008, como torturador. Ele não poupava homens, mulheres ou crianças.
Exceto os que convictamente defendem a ideologia da tortura, quem idolatra Brilhante Ustra e Bolsonaro não sabe o que aconteceu. Alimenta-se de boatos.
No Brasil, o assunto não é aprofundado. O País falhou, não seguindo o exemplo dos  judeus, da Alemanha, África do Sul e Argentina. Há iniciativas isoladas, mas, de modo geral, a ditadura militar é abordada superficialmente.  Se quisermos evitar a repetição dessa História, precisamos estudar de fato esse assunto. Para que nunca mais aconteça.  


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Anistiados de Santos, já falecidos e ex-presos do navio Raul Soares, recebem homenagem da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça

Três anistiados santistas já falecidos foram homenageados ontem, em Santos, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, durante sessão pública da 91.ª Caravana da Anistia, nas dependências da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Campus Dom Idílio José Soares.

Ex-presos do navio Raul Soares, que serviu de presídio político no Porto de Santos, de abril a outubro de 1964,  os homenageados foram: Iradil Santos Mello, meu pai, diretor do Sindicato dos Operários Portuários (atual Sintraport) de 1963 a 1964, que esteve preso no Dops e no Raul Soares, foi processado e, em 1980, anistiado; Waldemar Neves Guerra, presidente do Sindicato da Administração Portuária (atual Sindaport) em 1964, também preso no navio Raul Soares, processado e mais tarde anistiado; e  José Gomes, prefeito de Santos em 1964, deposto, preso no navio Raul Soares e cassado.

Meu pai, Iradil,  foi representado por mim; Guerra, por sua filha Wilma Guerra Maransaldi; e Gomes, por sua filha Betty Gomes.

Assinada pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, a homenagem consistiu em um diploma com os dizeres: "Na 91ª. Caravana da Anistia, a Comissão de Anistia presta homenagem àqueles que têm contribuído para a causa da reparação, memória, verdade e justiça no Brasil. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça".

Embora não estivesse previsto, fiz um pronunciamento em nome das três filhas e dos três homenageados. Lembrei a importância da cidade de Santos no cenário político, econômico, trabalhista e cultural do País, o que acabou  provocando uma reação repressora contundente dos arquitetos do golpe militar já no primeiro dia do regime ditatorial. Mencionei o uso do navio Raul Soares, como presídio político e como forma de repressão. Citei Júlio de Sá Bierrenbach, então capitão dos portos, que conduziu os inquéritos envolvendo trabalhadores santistas acusados de subversão e coordenou as prisões ilegais no navio. Disse que quase todos eram portuários e sindicalistas sem antecedentes criminais.   (Ver outros artigos neste blog sobre o assunto).

Como a plateia era composta, em sua maioria, por pessoas de Brasília ou residentes no ABC paulista, que acompanhavam o julgamento do pedido de anistia e reparação de trabalhadores da Volkswagen, minhas informações sobre o que ocorreu em Santos a partir de 1964 causou impacto entre os presentes. Constatei esse fato diante dos tantos que foram conversar comigo no final e me pediram para manter contato por e-mail ou lhes enviar meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós".

A anistia de meu pai foi  aprovada pelo então ministro do Trabalho, Murillo Macêdo, após ter sido concedida em junho de 1980 pela Comissão Especial instituída pela Resolução 3.008, de janeiro de 1980, conforme estabelecia a Lei nº 6683, de 28 de agosto de 1979 (regulamentada pelo Decreto 84.143, de 31 de outubro de 1979).

No despacho publicado no Diário Oficial da União, em 12 de junho de 1980, o ministro aprovou a anistia, mas não apreciou o pedido de retorno ao trabalho na Companhia Docas de Santos (já denominada Companhia Docas do Estado de São Paulo), sob alegação de que não era competência de seu ministério. Esse direito foi obtido por meio de ação judicial.
............................................
Atualizando hoje, 21 de novembro de 2105, com recorte de publicação do jornal A Tribuna, de Santos, e com texto que publiquei no Facebook.

A homenagem da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça a três ex-presos políticos do navio-presídio Raul Soares (os sindicalistas Iradil Santos Mello (meu pai) e Waldemar Neves Guerra e o ex-prefeito José Gomes) foi registrada na edição de hoje de A Tribuna.
Os três já haviam sido anistiados na década de 1980. Agradeço publicamente à colega jornalista Arminda Augusto, editora-chefe do jornal, pela atenção e divulgação.
Aproveito esta postagem para expor umas reflexões, principalmente aos da terra, que já ouviram falar sobre estes episódios: a História de Santos, incluindo o caso do navio-prisão Raul Soares, em 1964, embora de grande relevância para o cenário político brasileiro, é pouco conhecida nacionalmente e mesmo aqui na Baixada Santista.
Se há décadas falo e escrevo repetidamente sobre o mesmo assunto, é porque acredito que o slogan "Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça" vale também para nós, santistas. Não escrevo, nem falo para jornalistas e militantes que já sabem (mal!) esta História.
Escrevo e falo para que acontecimentos anteriores e posteriores a 1964, envolvendo Santos, não caiam no esquecimento, ou nem sejam conhecidos.
Escrevo e falo para quem tem interesse de conhecer mais, como a maioria dos que lotavam o auditório 310 do Campus Dom Idílio da UniSantos, quinta-feira. Eram pessoas de cidades do ABC paulista, de Brasília... Muitas vieram conversar comigo após meu pronunciamento, buscando mais informações.
Naquele momento, falei sobre o mesmo tema, para que fosse possível entender por que três homens de Santos, já falecidos, foram homenageados pelo Ministério da Justiça.
O contexto da homenagem precisava ser explicado.
Escrevo e falo, e continuarei escrevendo e falando, porque acredito na Memória, na História, na Verdade e na Justiça.

sábado, 26 de abril de 2014

1964, ano que legou ao Porto de Santos e
ao Brasil o navio-prisão Raul Soares


No dia 31 de março, fui entrevistada pelo professor César Bargo Perez no programa Urbanidades, da TV UniSantos, afiliada do Canal Brasil, para falar sobre os 50 anos do golpe militar de 1964. A meu lado estava o historiador Reinaldo Martins. Quem não conseguiu assistir, tem a chance de ver os vídeos:
(Bloco 1).


(Bloco 2)


(Bloco 3)


Embora a data do golpe de fato tenha sido 1º de abril de 1964, no último dia 31 de março, tomei parte também de uma mesa-redonda cujo tema foi: Ditadura Militar: Os 50 anos do golpe de 1964. Antes, a plateia assistiu ao documentário "O Dia que Durou 21 Anos", de Camilo Tavares.
Idealizado pelo filósofo e professor Ricardo Galvanese, o encontro ocorreu no Campus Dom Idílio José Soares da Universidade Católica de Santos (UniSantos) e contou ainda com a participação da professora e assistente social Lígia Maria Castelo Branco Fonseca e do historiador Reinaldo Martins.
Alunos e professores de vários cursos compareceram.
Também dei entrevista para o jornal A Tribuna, de Santos, que publicou reportagem sobre o navio-prisão Raul Soares. Meu nome foi citado ainda em documentário do Canal Brasil. Isso se deu porque eu cedi uma foto do navio que serviu de presídio político no Porto de Santos em 1964.
No dia 24 de abril, para lembrar os 50 anos da chegada do navio-presídio Raul Soares a Santos, o jornal A Tribuna fez nova matéria sobre o tema.
..........
Quem não teve oportunidade de ver em 2010, deixo aqui o depoimento (dividido em quatro partes) que dei para a USP sobre o navio Raul Soares, que foi presídio político no Porto de Santos de abril a outubro de 1964:








Acesse ainda reportagens e comentários que escrevi no link abaixo:
Golpe militar de 1964: 5 décadas depois daquele dia de 1964.

domingo, 30 de março de 2014

Golpe militar: 5 décadas depois daquele dia de 1964


Nesta segunda-feira (pela versão oficial) ou nesta terça (pela versão real), completam-se 50 anos do golpe militar de 1964, que mudou a vida do Brasil e de milhares de famílias, como a do então presidente da República João Goulart e como a minha.
Não vou repetir a história que há anos escrevo: sobre as prisões que meu pai sofreu, na sede do Dops e no navio Raul Soares, que serviu de presídio político no Porto de Santos em 1964. Deixarei os links para que o leitor possa acessar os textos anteriores.
Também postarei o link do documentário "O dia que durou 21 anos", de Flávio Tavares e Camilo Galli Tavares, que expõe claramente a conspiração dos Estados Unidos contra um governo legitimamente eleito e referendado pelo povo. Depois da renúncia do então presidente Jânio Quadros, apesar das forças contrárias, Jango tomou posse com apoio político e popular. Quando se quis implantar um regime parlamentarista, para lhe tirar o poder, um plebiscito garantiu a manutenção do presidencialismo e devolveu-lhe o comando do País.
O documentário deve ser visto por quem deseja compreender o que realmente ocorreu no período que antecedeu o golpe.
Quanto a mim, nestes 50 anos que se completam, vejo com certo receio a atmosfera que se apresenta.
Há dez anos, quando foram lembrados os 40 anos do golpe, havia uma ânsia de saber. Fiz várias palestras como convidada (do Sesc, para abrir a exposição itinerante com documentos do DOPS; da UniSantos, na Semana de Serviço Social; da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo, para falar aos integrantes da Comissão Estadual de Ex-Presos Políticos), escrevi matérias no jornal, fui entrevistada.
Agora, continuo sendo solicitada. Mas ouço e leio absurdos em análises feitas por pessoas que se dizem historiadoras. Fico temerosa  em relação à versão que será legada à posteridade.
A exemplo do que ocorreu em relação aos crimes dos nazistas, praticados durante a Segunda Guerra Mundial (chegaram a ser negados por quem não admitia a existência do holocausto), agora está em voga um revisionismo da história da ditadura no Brasil. Primeiro, disseram que aqui a ditadura foi "branda". Agora, alguns têm a audácia de afirmar que a ditadura só durou dez anos.
Essas ideias são absurdas (para dizer o mínimo). Só podem partir de historiadores e jornalistas de gabinete, que não sentiram na pele o que aconteceu neste País, nem souberam ouvir fontes fidedignas. Além disso, não merecem exercer essas profissões. (Brevemente, escreverei sobre o tema).
Já me estendi por demais. Aqui está o link do documentário "O dia que durou 21 anos":  http://vimeo.com/75717915

Abaixo seguem minhas postagens anteriores sobre ditadura e o navio-prisão Raul Soares:
1. Minha entrevista sobre censura e ditadura à ECA/USP (partes 1 e 2):

2. Minha entrevista sobre censura e ditadura à ECA/USP (partes 3 e 4):

3. Comissão da Verdade inclui Raul Soares na relação dos centros de tortura do Estado de São Paulo:
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2013/05/comissao-da-verdade-inclui-raul-soares.html

4. Ditadura não começou com o AI-5, mas em 1º de abril de 1964:

5. 41 anos do AI-5 e o navio Raul Soares:

6. Há 48 anos o navio Raul Soares virava prisão no Porto de Santos:

7. TV Tribuna exibe reportagem sobre navio Raul Soares, prisão flutuante da ditadura:


9. O arquivo secreto do Dops:

10. Ser omisso é ser cúmplice (entrevista que fiz com Celso Lungaretti):
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2011/03/celso-lungaretti-ser-omisso-e-ser.html




13. Anistia:

14. Thomas Maack, médico e preso do Raul Soares:
http://movebr.wikidot.com/maackt:navio-prisao

15. Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós:
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0181b.htm

16. Comissão da Verdade investiga o navio-prisão Raul Soares:

17. A tortura no porto de santos:
18. As homenagens que Narciso de Andrade me fez:
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2013/09/as-homenagens-que-narciso-de-andrade-me.html

19. Assassinato de Vladimir Herzog completa 38 anos:
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2013/10/assassinato-de-vladimir-herzog-completa.html

20. Vladimir Herzog: a justiça nas mãos de dois juízes chamados Márcio:
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2012/09/vladimir-herzog-justica-nas-maos-de.html

21. Ditadura militar: uma história invertida
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2010/01/ditadura-militar.html

22. As abomináveis ditaduras
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2010/02/as-abominaveis-ditaduras.html

23. Para não perder a referência histórica:
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2010/10/para-nao-perder-referencia-historica.html

24. E-mail veicula informação falsa sobre a ministra Dilma Rousseff
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2010/03/e-mail-veicula-falsa-informacao-sobre.html

25. Vinte anos da anistia:
http://lidiamaria.melo.zip.net/arch2006-08-01_2006-08-31.html#2006_08-28_13_34_23-102131659-27

26. Raul Soares (Parecer atestou tortura)

27. O que vivemos hoje é fruto do que aconteceu antes
http://lidiamariademelo.blogspot.com.br/2011/05/o-que-vivemos-hoje-e-fruto-do-que.html

domingo, 22 de setembro de 2013

As homenagens que Narciso de Andrade me fez

(Esta postagem foi publicada originariamente em 3 de janeiro de 2008 em meu antigo blog. Aqui está transcrita com alguns acréscimos de informações e fotografias).

A primeira vez que conversei com o poeta santista Narciso de Andrade foi em 1995 na Redação de A Tribuna. Ele, que escrevia crônicas para o jornal, foi até lá para me conhecer. Havia lido meu livro, ''Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós'', recém-lançado em 22 de novembro daquele ano.
Dias depois, em dia 8 de dezembro, uma sexta-feira, publicou uma crônica para mim. Intitulada ''A Dolorosa Tatuagem'', a crônica saiu na página 6 do caderno AT Especial (ver mais abaixo)
Para mim, foi um verdadeiro carinho. Sua alma de poeta conseguiu ''sentir'', no meu livro, detalhes e nuances que ninguém nunca demonstrou ter percebido.
No dia 29 de março de 1996, participei do projeto O Autor e sua Obra, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Santos, na Biblioteca Mário Faria, localizada no Posto 6, na orla da praia. Meu pai, Iradil Santos Mello, e minha mãe, Mercedes Gomes de Sá, estavam lá. 
Para minha surpresa, Narciso de Andrade também compareceu. Mais uma vez, senti-me honrada pelo apoio do poeta e advogado. Ele sentou-se na plateia, à esquerda, pouco atrás de minha mãe.
                                          (Fotos: Irandy Ribas)
Meu pai e eu, palestrando. Exemplares de meu livro sobre a mesa   
Minha mãe à esquerda, com a bolsa preta no colo.
 Atrás dela, de braços cruzados, Narciso de Andrade
Em 30 de outubro de 1997, Narciso enviou-me um telegrama, cumprimentando-me por ter recebido o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria Literatura, com o conto Bala Perdida. Disse-me: "Você dignifica o ofício de escritor. Parabéns". 
 A Tribuna de 29/10/1997, sobre
 minha premiação
Telegrama que Narciso me enviou
em 30 de outubro de 1997
Minha matéria sobre neologismo.
A Tribuna - 23/9/1988
Antes disso tudo, em 23 de setembro de 1988, quando publiquei a matéria "Neologismos - A garantia de renovação do idioma", no Caderno AT Especial, de A Tribuna, ele telefonou para a então editora, Ivani Cardoso, expressando sua satisfação com meu trabalho. Nem me conhecia. 
Narciso de Andrade sempre foi um poeta, na escrita e nas atitudes.
A última vez que o vi  foi mais ou menos em 2005. Passava, com o filho, em frente ao prédio do jornal  A Tribuna. Conversamos rapidamente, mas ele já parecia frágil fisicamente. 
Em 29 de dezembro de 2007, um sábado, Narciso morreu. 
Em férias, só fiquei sabendo na noite de domingo, dia 30, quando liguei o computador. Ele já havia sido sepultado. 
Tenho certeza de que ele agora deve estar andando na beira do mar, chutando as ondas, calmamente, ou perambulando pelo cais do porto, na companhia de ninguém mais do que Roldão Mendes Rosa, outro poeta que amou Santos como o amigo Narciso e foi meu professor. 
Bem-aventurados os homens inteligentes, mas, antes de tudo, sensíveis.
Aqui transcrevo a crônica que Narciso escreveu para mim e meu livro:  
A Dolorosa Tatuagem
                    ( Narciso de Andrade)












(reprodução do jornal A Tribuna -8/12/1995)
Este livro queima as mãos da gente. Entretanto, iniciada a leitura, não se pode mais parar. Um certo espaço da vida santista começa a acontecer sob o impacto da sedimentação dos anos transcorridos. A argamassa do tempo não conseguiu soterrar na memória daquela menina os destroços de sofrimento, dor, desencanto  que ela não fez por merecer. Pois, como já se disse, era menina. E, como menina, outra vida deveria destinar-se à sua infância. Como a qualquer infância.
O crime maior dos atos desatinados do Poder exercido com brutalidade é justamente o mal causado aos jovens; sobretudo, às crianças, que não podem mais do que receber o impacto da crueldade sem qualquer possibilidade de reação e sem entender bem o que está ocorrendo. É uma pena tenham as coisas acontecido do modo narrado no livro. Mas aconteceram. Não há por que escondermos fatos agora que os tempos, felizmente, são outros.
Lídia Maria de Melo tinha seis anos quando foi visitar seu pai recolhido ao navio Raul Soares, ancorado próximo à Ilha Barnabé, preso ao seu triste destino final de cárcere político. Navio é uma coisa bela, seu verdadeiro destino são as distâncias , o mar largo, os ventos, o azul.
(*) ''Uma lancha apanhou-nos no porto, em frente à  Alfândega.
''... Desembarcamos perto da Ilha Barnabé, em um flutuante que balançava muito, amarrado ao navio preto, adernado, o Raul Soares.
''... Não houve outras visitas, porque eram proibidas.
''... Na volta, conforme a lancha foi se afastando em direção ao cais, as mãos que acenavam nas vigias foram ficando menores, menores... até que sumiram. Só restou a imagem incômoda daquele navio negro, que permaneceu tatuado em nós, como os números nos braços dos sobreviventes dos campos nazistas de concentração''.(*)
A verdade dói, muitas vezes, mas é a verdade. ''La verdad es lo que es/ y sigue siendo verdad/ aunque se piense al revés'' (Antonio Machado).
O livro ora vindo a público, em edição da Pioneira e da Uniceb (Universidade Santa Cecília) _ Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós _ nasceu em 1985, como trabalho de conclusão do Curso de Jornalismo de Lídia Maria de Melo, sob o título de Para Não Ser Pego de Surpresa, e teve como orientador o jornalista e professor Eron Brum.
Narra a saga de Iradil Santos Mello, perseguido e preso pelo ''crime'' de ser dirigente sindical em 1964 e as repercussões desse fato em sua família. Seria mais uma das muitas histórias semelhantes ocorridas na ocasião, se aquela menina, Lídia, não tivesse transformado o medo, a dor, o sofrimento próprio e dos seus em matéria emblemática de uma época, sob muitos aspectos, inexplicável, dadas as características da gente brasileira.
A emoção perpassa o livro a cada capítulo que a autora, jornalista e professora, soube fazer densos e diretos de acordo com a melhor e mais moderna técnica do gênero. Trata-se de um livro de memórias, é claro, mas transcende ao comum pois não se furta a traçar um quadro geral da situação no País à época.
Faltava em Santos um livro como esse que vem compor com outros (Ventos do Mar, Sombras sobre Santos) um quadro de certos aspectos pouco lembrados de nossa história. É claro que no espaço de uma crônica não dá para dizer muita coisa sobre uma obra desta natureza, mas vale transmitir à autora mensagem de carinho, admiração e simpatia. Pela verdade e pela coragem encobertas no jeitinho discreto de ser. De ser Lídia.
(*  O trecho em negrito foi transcrito de meu livro por Narciso)



domingo, 26 de maio de 2013

Comissão da Verdade inclui Raul Soares em mapa de centros de tortura do Estado de S. Paulo

Navio Raul Soares é citado em mapa dos centros de tortura do Estado de São Paulo
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou, no dia 21, um balanço parcial de um ano de  trabalho. Os dados apresentados parece que surpreenderam a imprensa brasileira e a população.
Principalmente, o fato de navios (como o Raul Soares) terem sido utilizados em 1964 para aprisionar militares dissidentes e lideranças sindicais. Além disso, a informação de que a tortura foi empregada em sessões de interrogatórios desde o início da ditadura.
O espanto geral só prova que, quanto mais o tempo passa, menos se conhece a História recente do País. Afinal, muito do que foi exposto já consta em documentos apresentados há anos à Comissão Nacional de Anistia e à Comissão Estadual de Ex-Presos Políticos de São Paulo, por exemplo.
Nesse sentido, o trabalho da CNV de resgate da memória está sendo de suma importância, porque talvez, agora, os fatos passem a ter reconhecimento oficial. No mapa dos locais considerados como centros de tortura no Estado de São Paulo, a comissão incluiu o navio Raul Soares, que serviu de presídio político no Porto de Santos de abril a novembro de 1964.
Os que foram atingidos logo após o golpe e os seus familiares não se surpreenderam com a divulgação da CNV. Afinal, sentiram na pele os métodos dos golpistas.
Há tempos escrevo sobre isso e me repito: a ditadura e seus métodos brutais não começaram somente após a decretação do Ato Institucional nº 5, em 1968. A porta de nossas casas foi arrombada no dia 1º. de abril de 1964.
Quando o AI-5 passou a assombrar o País, inclusive os setores que apoiaram o golpe de estado, muitos brasileiros já viviam aterrorizados havia quatro anos.
Por isso, é mesmo imprescindível que a CNV reconheça publicamente essas informações. Assim, quando se falar em ditadura, talvez a História Oficial possa esclarecer que:
1. nem todos os opositores do regime militar pegaram em armas, e poucos foram guerrilheiros;
2. a ditadura começou no dia 1º de abril de 1964 e não, em 1968, com o AI-5;
3. a partir de 1º de abril de 1964, sindicalistas de Santos  sofreram prisões ilegais no Dops e no navio Raul Soares, enfrentaram desemprego, perda dos direitos políticos por dez anos, perseguição, ameaças, tortura psicológica e processos na Justiça Militar, embora fossem civis;
4. as famílias dos perseguidos acabaram também sendo atingidas.
No depoimento que demos à Comissão Nacional da Verdade em janeiro, eu e minha mãe fizemos questão de frisar esses aspectos.
A História precisa ser contada por inteiro. A luta e o sofrimento das pessoas que estavam na linha de frente na defesa de um estado de direito, as quais chamo de Geração 64, não podem ser desmerecidos.
Comissão Municipal
Na próxima terça-feira (28 de maio), farei o pronunciamento de abertura da audiência pública sobre o navio Raul Soares, na Câmara de Santos, a convite da Comissão Municipal da Verdade Prefeito Esmeraldo Tarquínio. Tentarei abordar essas questões de maneira sintética.
Participarei como autora do livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós" e, principalmente, porque meu pai, Iradil Santos Mello, esteve preso nesse presídio flutuante da ditadura.
Na época, ele era portuário e diretor do Sindicato dos Operários Portuários, atualmente Sintraport.
Depois das prisões, ele respondeu a processos na Justiça Militar, embora fosse um civil. Em 1980, foi anistiado.
Quatro ex-presos do Raul Soares comparecerão à audiência e darão depoimentos.








Leia também:
A ditadura não começou com o AI-5, mas em 1º de abril de 1964
41 anos do AI-5 e o navio Raul Soares
Há 48 anos o navio Raul Soares virava prisão no Porto de Santos
A tortura no Porto de Santos

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A gratidão do médico Thomas Maack

A coluna Tribuna Livre, da edição de hoje do jornal A Tribuna, publica meu artigo "A gratidão do médico Thomas Maack", que se refere a um dos papéis do jornalista e ao agradecimento que esse meu entrevistado me fez na Câmara de Santos, durante a sessão solene do último dia 8 de novembro.
Homenageado na sede do Legislativo santista, por ter sido um dos presos no navio Raul Soares, em 1964, e por ter ajudado a cuidar da saúde de outros prisioneiros, Maack também mencionou meu pai, Iradil Santos Mello, e meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós".
As citações no discurso foram motivadas pela reportagem que fiz com ele em 2003 e que publiquei em A Tribuna.
Clique na imagem para ampliar e ler. Caso não consiga, o texto está reproduzido mais abaixo.

A Tribuna - 30 de novembro de 2012 - página A-2.
Tribuna Livre.
LÍDIA MARIA DE MELO. Jornalista, professora do curso de Comunicação Social da UniSantos, escritora e mestre em Ciências da Comunicação pela USP.
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A gratidão do médico Thomas Maack
A um jornalista cabe não apenas reportar informações. Sob sua responsabilidade estão o registro de fatos históricos, a preservação e o resgate da memória. Por isso, é necessário voltar à sessão da Câmara de Santos de 8 de novembro.
Nessa data, o médico Thomas Maack recebeu merecida homenagem, proposta pelo vereador Marcus De Rosis. A honraria, ele dividiu com outros homens que, a exemplo dele, foram feitos prisioneiros políticos no navio Raul Soares, no Porto de Santos, em 1964.
Por questões profissionais, não participei da noite solene. Mesmo assim, no discurso que proferiu, Thomas Maack mencionou meu nome e o de meu pai, além de um dos meus livros e uma entrevista que fiz com ele há nove anos.
“Lídia Maria de Melo, escritora, jornalista, filha do falecido Iradil Santos Mello, meu companheiro de prisão no Raul Soares, escreveu um livro profundo: ‘Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós’, que retrata o que foi a repressão da ditadura – a repressão no Raul Soares - sob o ponto de vista de um trabalhador no Porto de Santos, de um sindicalista e de sua família. Lídia foi a jornalista que em 2003 publicou a primeira entrevista comigo e fez conhecer ao povo santista o meu papel. Pelo livro e pela entrevista, eu lhe devo uma profunda gratidão”. Ele me enviou uma cópia do texto por e-mail.
O agradecimento, que acolhi com respeito e admiração, eu compartilho neste espaço, porque foi em A Tribuna que publiquei, na edição de 2 de novembro de 2003, a entrevista citada na Câmara.
Intitulada “Thomas Maack, médico e preso do Raul Soares”, a reportagem ocupou a página A-4 na data em que fazia 39 anos que o navio fora rebocado de Santos. Pela primeira vez, a imprensa contava a história do alemão que viveu no Brasil dos primeiros meses de vida até os 29 anos, mas, antes de obter a cidadania, teve que deixar o País.
Para viabilizar esse trabalho jornalístico, primeiro, pesquisei intensamente o paradeiro daquele médico cujo nome eu conhecia desde criança. Entre 4 mil homônimos, localizei-o em Nova Iorque (EUA). Para a entrevista, ele leu meu livro e, durante meses, mantivemos longas conversas diárias por e-mail.
Depois que redigi os textos, chegou o momento da edição. Nessa etapa, contei com a parceria do diagramador Luiz Sérgio Moura. Publicada, a reportagem recebeu cumprimentos da Câmara e de leitores. Além de constar nos arquivos de A Tribuna, está reproduzida no site Novo Milênio.
Em 20 de fevereiro de 2004, Thomas Maack esteve em Santos. Encontramo-nos em frente ao prédio da Bolsa de Café. Era sexta-feira, véspera de Carnaval. A pedido dele, levei-o ao porto. Diante da estação das barcas que fazem a travessia entre Santos e Vicente de Carvalho, ele viu o lugar onde o Raul Soares permaneceu no canal do estuário, perto da Ilha Barnabé. Fiz fotos com uma máquina que ainda usava filme.
De lá, fomos ao Palácio da Polícia, na Rua São Francisco. Ele só reconheceu o prédio onde funcionou o Dops, quando nos dirigimos à parte de trás. Ali, após o navio seguir para o Rio de Janeiro, ele ficou preso até 15 de dezembro de 1964. Almoçamos no restaurante Vista ao Mar, na orla da praia, onde lhe dei o livro “Um Jeito Santista de Ser”, editado e ofertado pela Prefeitura.
Essa passagem de Thomas Maack pela Cidade só teve duas testemunhas: Artur Ribeiro, afilhado dele, e eu, então editora do Caderno Local de A Tribuna. No dia seguinte, 21 de fevereiro, a coluna Dia a Dia deu a notícia em três notas intituladas: “Sombras do passado”, “Visita monitorada” e “Livro na bagagem”.
A memória do ser humano pode falhar, mas o que um jornal publica permanece. Vira arquivo. Entra para a História.
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domingo, 11 de novembro de 2012

TV Tribuna exibe reportagem sobre o navio
Raul Soares, prisão flutuante da ditadura

No último dia 2, fez 48 anos que o navio Raul Soares foi levado embora do Porto de Santos. A embarcação ficou ancorada no canal do estuário, perto da Ilha Barnabé. Serviu de cárcere para presos políticos de 24 de abril a 23 de outubro de 1964. A ditadura militar começou naquele ano e só terminou em 1985.
Além de escrever o livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", já realizei inúmeras entrevistas sobre o  assunto. Também prestei vários depoimentos.
Nas duas últimas semanas, o tema voltou à tona na imprensa.
No dia 2, o jornal A Tribuna, onde trabalhei durante 23 anos (1988 a  2011), publicou reportagem  de Eduardo Brandão, para quem concedi entrevista, junto com o ex-sindicalista Vitorino Nogueira, que permaneceu confinado por três meses, e o ex-deputado federal Gastone Righi, que foi advogado de presos políticos.
Ontem, a TV Tribuna exibiu reportagem que inclui entrevista minha, do ex-sindicalista Argeu Anacleto da Silva e do médico Thomas Maack. Ambos estiveram encarcerados na embarcação, assim como meu pai, Iradil Santos Mello, que também era diretor do Sindicato dos Operários Portuários.
Para assistir ao vídeo, clique aqui.  No G1, o material foi reproduzido como texto.
As fotos que aparecem na reportagem são do meu acervo pessoal.

A seta à direita indica meu pai, Iradil Santos Mello, no convés do navio Raul Soares junto com outros presos e autoridades. Em 16 de setembro de 1964.

Bem-conduzida e editada, a reportagem da TV Tribuna só tem duas incorreções. Uma sobre o tempo de falecimento de meu pai. Ele morreu em 21 de dezembro de 1999 e não, há três anos.
A outra é a informação prestada pelo médico Thomas Maack.
Ele diz que só agora, 48 anos depois de sua libertação, voltou ao Porto de Santos para rever o local onde o navio ficou ancorado.
Na verdade,  ele retornou em 20 fevereiro de 2004, uma sexta-feira, véspera de Carnaval. Eu mesma o levei àquele lugar e o fotografei. Depois, seguimos até o Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, onde ele também ficou preso após sair do navio. Na sequência, almoçamos no restaurante Vista ao Mar.
Como lembrança de Santos, ele levou o livro de fotos e textos Um jeito santista de ser, editado pela Prefeitura. Três notas sobre a visita foram publicadas na coluna Dia a Dia de A Tribuna em 21 de fevereiro de 2004. Clique na imagem abaixo para ler:
                                       
Essa passagem do médico por Santos em 2004 foi uma consequência da reportagem inédita que fiz sobre ele e que saiu publicada no jornal A Tribuna em 2 de novembro de 2003.
Naquele ano, eu o localizei em Nova Iorque (EUA) e o entrevistei durante quatro meses. A matéria está reproduzida no site Novo Milênio.
Poemas
A temática do navio-prisão não está restrita às reportagens. O jornalista e historiador Alessandro Atanes fez críticas literárias sobre dois poemas de minha autoria que estão em meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós". Ambos completaram três décadas este ano. Leia na Revista Pausa as análises: "Apenas um navio" e "Filho de um estupro".
No livro, há ainda outros dois poemas relacionados a emoções despertadas  durante o período da ditadura militar.
Um é "Herói anônimo": "As águas do lago/onde afogaram teus sonhos/assumiram o escarlate do teu sangue,/o acre do teu suor.../E a cara da História/apossou-se das pregas de tua testa/embora teu nome/tenha se perdido/entre tantos/nas memórias".
O outro é "Erguendo um brinde": "Hoje tenho motivos/para um sorriso vingado./Te encontrei sobrevivo,resgatado./Ainda percebo vestígios/dos dribles dos últimos anos./Mas tua cara anda boa/solicitando um brinde./Como não bebo/ergo a mão/em sinal de prazer./De total excitação./De sangue sobrecarregado/de adrenalina.../Ergo a mão/ e arrisco uma gargalhada./Sabia que um dia/ainda riríamos de muitos deles./Sabia!/Até parece piada./Te arrebentaram.../Te matar não conseguiram".

Veja também: 
Há 48 anos, o navio Raul Soares virava prisão no Porto de Santos.
41 anos do AI-5 e o navio Raul Soares.
A ditadura não começou com o AI-5, mas em 1º. de abril de 1964.
O arquivo secreto do Dops.
Minha entrevista sobre censura e ditadura  à ECA/USP (partes 1 e 2).
Minha entrevista sobre censura e ditadura à ECA/USP (partes 3 e 4).