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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Anistiados de Santos, já falecidos e ex-presos do navio Raul Soares, recebem homenagem da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça

Três anistiados santistas já falecidos foram homenageados ontem, em Santos, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, durante sessão pública da 91.ª Caravana da Anistia, nas dependências da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Campus Dom Idílio José Soares.

Ex-presos do navio Raul Soares, que serviu de presídio político no Porto de Santos, de abril a outubro de 1964,  os homenageados foram: Iradil Santos Mello, meu pai, diretor do Sindicato dos Operários Portuários (atual Sintraport) de 1963 a 1964, que esteve preso no Dops e no Raul Soares, foi processado e, em 1980, anistiado; Waldemar Neves Guerra, presidente do Sindicato da Administração Portuária (atual Sindaport) em 1964, também preso no navio Raul Soares, processado e mais tarde anistiado; e  José Gomes, prefeito de Santos em 1964, deposto, preso no navio Raul Soares e cassado.

Meu pai, Iradil,  foi representado por mim; Guerra, por sua filha Wilma Guerra Maransaldi; e Gomes, por sua filha Betty Gomes.

Assinada pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, a homenagem consistiu em um diploma com os dizeres: "Na 91ª. Caravana da Anistia, a Comissão de Anistia presta homenagem àqueles que têm contribuído para a causa da reparação, memória, verdade e justiça no Brasil. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça".

Embora não estivesse previsto, fiz um pronunciamento em nome das três filhas e dos três homenageados. Lembrei a importância da cidade de Santos no cenário político, econômico, trabalhista e cultural do País, o que acabou  provocando uma reação repressora contundente dos arquitetos do golpe militar já no primeiro dia do regime ditatorial. Mencionei o uso do navio Raul Soares, como presídio político e como forma de repressão. Citei Júlio de Sá Bierrenbach, então capitão dos portos, que conduziu os inquéritos envolvendo trabalhadores santistas acusados de subversão e coordenou as prisões ilegais no navio. Disse que quase todos eram portuários e sindicalistas sem antecedentes criminais.   (Ver outros artigos neste blog sobre o assunto).

Como a plateia era composta, em sua maioria, por pessoas de Brasília ou residentes no ABC paulista, que acompanhavam o julgamento do pedido de anistia e reparação de trabalhadores da Volkswagen, minhas informações sobre o que ocorreu em Santos a partir de 1964 causou impacto entre os presentes. Constatei esse fato diante dos tantos que foram conversar comigo no final e me pediram para manter contato por e-mail ou lhes enviar meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós".

A anistia de meu pai foi  aprovada pelo então ministro do Trabalho, Murillo Macêdo, após ter sido concedida em junho de 1980 pela Comissão Especial instituída pela Resolução 3.008, de janeiro de 1980, conforme estabelecia a Lei nº 6683, de 28 de agosto de 1979 (regulamentada pelo Decreto 84.143, de 31 de outubro de 1979).

No despacho publicado no Diário Oficial da União, em 12 de junho de 1980, o ministro aprovou a anistia, mas não apreciou o pedido de retorno ao trabalho na Companhia Docas de Santos (já denominada Companhia Docas do Estado de São Paulo), sob alegação de que não era competência de seu ministério. Esse direito foi obtido por meio de ação judicial.
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Atualizando hoje, 21 de novembro de 2105, com recorte de publicação do jornal A Tribuna, de Santos, e com texto que publiquei no Facebook.

A homenagem da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça a três ex-presos políticos do navio-presídio Raul Soares (os sindicalistas Iradil Santos Mello (meu pai) e Waldemar Neves Guerra e o ex-prefeito José Gomes) foi registrada na edição de hoje de A Tribuna.
Os três já haviam sido anistiados na década de 1980. Agradeço publicamente à colega jornalista Arminda Augusto, editora-chefe do jornal, pela atenção e divulgação.
Aproveito esta postagem para expor umas reflexões, principalmente aos da terra, que já ouviram falar sobre estes episódios: a História de Santos, incluindo o caso do navio-prisão Raul Soares, em 1964, embora de grande relevância para o cenário político brasileiro, é pouco conhecida nacionalmente e mesmo aqui na Baixada Santista.
Se há décadas falo e escrevo repetidamente sobre o mesmo assunto, é porque acredito que o slogan "Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça" vale também para nós, santistas. Não escrevo, nem falo para jornalistas e militantes que já sabem (mal!) esta História.
Escrevo e falo para que acontecimentos anteriores e posteriores a 1964, envolvendo Santos, não caiam no esquecimento, ou nem sejam conhecidos.
Escrevo e falo para quem tem interesse de conhecer mais, como a maioria dos que lotavam o auditório 310 do Campus Dom Idílio da UniSantos, quinta-feira. Eram pessoas de cidades do ABC paulista, de Brasília... Muitas vieram conversar comigo após meu pronunciamento, buscando mais informações.
Naquele momento, falei sobre o mesmo tema, para que fosse possível entender por que três homens de Santos, já falecidos, foram homenageados pelo Ministério da Justiça.
O contexto da homenagem precisava ser explicado.
Escrevo e falo, e continuarei escrevendo e falando, porque acredito na Memória, na História, na Verdade e na Justiça.

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