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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para não perder a referência histórica

 Esta semana, voltei a utilizar a expressão: ''falta de referência histórica''. Estava comentando o absurdo que é chamar de ''terrorista'' uma pessoa que combateu a ditadura militar, como a candidata à presidência da República Dilma Rousseff (PT), por exemplo.
 Para não repetir as mesmas coisas que já escrevi a respeito, vou postar abaixo um comentário que publiquei no jornal A Tribuna e em meu antigo blog em novembro de 2008.
 A situação era outra, mas os argumentos valem do mesmo jeito para o contexto atual.
 Falta referência histórica para os que classificam os opositores do governo militar (1964 a 1985) de guerrilheiros.
 De 1964 a 1985, o Brasil viveu um regime de exceção, em que a Constituição foi rasgada, o Congresso foi fechado e os ditadores faziam e aprovavam leis a seu bel-prazer, suprimindo os direitos dos cidadãos brasileiros.
 Até hoje não se sabe com exatidão o número de prisões ilegais, de pessoas torturadas, mortas e desaparecidas nesse período em que a imprensa ficou sob censura. Quem combateu a ditadura militar não agiu contra um governo legítimo e eleito pelo povo. Não. Combateu um governo autoritário que derrubou um presidente eleito legalmente.
É preciso que cada ato cometido naquele período pelos opositores do governo seja analisado nesse contexto. Do contrário, o julgamento será também arbitrário.

Para não perder a referência histórica
Análise de Lídia Maria de Melo publicada no jornal  
A Tribuna - 18 de novembro de 2008 - página A-4

Martin Luther King
A eleição de Barack Obama fez o mundo relembrar a luta de Martin Luther King contra a segregação racial nos Estados Unidos nos anos 60 e o discurso que ele proferiu em agosto de 1963, sob o mote ‘‘I have a dream’’ (Eu tenho um sonho).
Na Espanha, por exemplo, o jornal catalão El Periódico estampou na capa um pôster de Luther King com a frase ‘‘Ya no es mas um sueño’’ (Já não é mais um sonho).
A lembrança evidenciou que, mesmo 45 anos depois, a importância do líder negro assassinado em 1969 não se dirimiu. A essa remissão se dá o nome de referência histórica.
Já, quando alguém nega as atrocidades cometidas pelo regime nazista de Adolf Hitler durante a Segunda Grande Guerra, ou as torturas aplicadas aos presos políticos durante a ditadura militar no Brasil, ocorre o inverso. Tenta-se apagar a História e, com isso, ao passar dos anos, as referências das gerações.
Em janeiro de 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha nazista e a Itália fascista. A partir daí, navios mercantes brasileiros e da Marinha passaram a ser torpedeados por submarinos alemães na costa do País, com perdas de centenas de tripulantes. Esses ataques motivaram protestos populares nas ruas e fizeram o governo de Getúlio Vargas declarar guerra aos países do Eixo.
Dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), quem não foi combater na Itália e ajudar a vencer a Batalha de Monte Castelo ficou na defesa do litoral brasileiro.
Com o fim do conflito, em 1945, e a vitória dos países aliados, entre os quais estava o Brasil, todos os que vestiram farda foram considerados heróis. A Nação aclamou.
Quando os integrantes da FEB passaram a se aposentar, lá por meados da década de 60 e início dos anos 70, receberam vencimentos considerados especiais. Afinal, eram heróis. E de guerra! Ninguém contestou.
Agora, em 2008, cerca de 35, 40 anos depois da concessão dos benefícios, com a História já apagada da memória nacional, a Previdência Social perdeu a referência. O resultado é que pessoas com mais de 80 anos de idade e já debilitadas fisicamente têm seus vencimentos reduzidos e ainda são consideradas devedoras.
Um dia, 2008 poderá ser chamado de ano dos contrastes. Enquanto os norte-americanos tornam concreto o sonho de Martin Luther King, ao eleger um negro para a Presidência do país, no Brasil, aqueles que lutaram por um mundo melhor, agora, vivem um pesadelo.
Talvez seja a hora de se reforçar as aulas de História do Brasil. Principalmente, nos órgãos federais, como a Controladoria Geral da União (CGU). Do contrário, corremos o risco de perder nossas referências. E de negar de vez nossa História.
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O que motivou a análise acima:
Parecer do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), datado de 2003 e referente a proventos de ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial e pensionistas, determinou a redução de benefícios concedidos pela Lei 5.315, de 12 de setembro de 1967 e garantidos no Inciso V do Artigo 53 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias de 1988. Na Baixada Santista, 663 aposentados e pensionistas podem ser prejudicados pela decisão. Desses, 438 são de Santos.
Reportagem da jornalista Andréa Rifer, intitulada ''INSS reduz a aposentadoria de ex-combatentes da 2ª Guerra'', mostra o exemplo da pensionista Amélia Machado da Silva, de 83 anos, que recebia R$ 2.398,93 e teve o benefício reduzido para R$ 1.263,63. Porém, 30% desse valor foi descontado para quitar dívida de R$ 76 mil, acumulada dos valores recebidos a mais, segundo cálculos da Previdência Social. Com isso, os benefícios realmente pagos são de R$ 884,00. Ela e outros ex-combatentes, que se aposentaram há 35, 40 anos, recorreram à Justiça e conseguiram garantir seus direitos por meio de liminar.

Leia também: 1. Dilma Rousseff  e 2. ditadura militar

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As abomináveis ditaduras.
Yes, we can

Em fevereiro de 2008, postei um texto e um vídeo em meu antigo blog. A conjuntura atual me faz republicá-los aqui. Até para que não fiquem esquecidos no tempo.

As abomináveis ditaduras

Tenho certa dificuldade com a teoria desprovida da prática, da experiência. Quando rejeito uma ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, parto do ensinamento que a vida me deu e me dá.
Vivi dos 6 aos 28 anos dentro da ditadura militar que se impôs no Brasil. E ela não passou ao largo. Chutou a porta da casa da minha família e se instalou. Meu pai foi um preso político, mas não foi somente ele que as medidas de exceção atingiram. Foi toda a família (meu pai, minha mãe, eu e minhas irmãs). Se a ele impuseram um silêncio, nós também fomos impedidas de expressar livremente nosso pensamento. Nós também ficamos amordaçadas. Se ele era vigiado, nós também fomos cerceadas. Se ele foi processado injustamente várias vezes, nós também fomos punidas. E isso não é força de expressão. É realidade!
Mesmo depois de 1985, quando teoricamente a ditadura foi extinta, seus rastros continuaram marcando o tapete da sala, do quarto, de todos os cômodos da casa.
Comecei a ser alfabetizada exatamente em 1964, quando os tanques do Exército rumaram de Minas Gerais em direção ao estado onde se situava a Cidade Vermelha. Em outras palavras, Santos. Vermelha, porque aqui estavam os sindicatos considerados mais fortes do País, acusados de receber subvenção soviética, e a intelectualidade que se alimentava das idéias de Fidel e procedentes de Moscou.
Cresci ouvindo meu pai, um desses sindicalistas de Santos, falar com admiração de Fidel Castro, da União Soviética, e encarar como inimigos a política e os costumes ditados pelos Estados Unidos. Meu pai nunca disse que era comunista ou socialista, mas tudo levava a crer que pelo menos era simpatizante.
O mundo vivia essa dicotomia: URSS versus EUA.
Cuba era a própria Utopia, ilha imaginada pelo inglês Thomas Morus, para criticar acidamente o regime feudal que vigorava na Inglaterra do século XVI e que acabou condenando-o à morte por decapitação.
Por anos, mantive pelo regime cubano, pela figura de Fidel, a mesma simpatia que herdei de meu pai.
Só que a gente cresce e começa a pensar pela própria cabeça, a analisar e a fazer correlações. Assim como meu pai e toda a minha família, participei dos movimentos sociais contra a ditadura em vigor no Brasil. Aprendi a não aceitar as imposições, a censura, a tortura, a redução dos direitos civis. Até hoje, quem quiser angariar a minha antipatia e se tornar meu inimigo é só me mandar calar a boca, é só me impedir de expressar meu pensamento. Considero isso uma clara consequência do que a ditadura fez com minha família e com este País.
Uma forma que encontrei de vomitar todo esse peso foi escrever. Daí, surgiu o livro
‘‘Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós’’. Ele inclusive me ajudou a superar uma doença, desenvolvida a partir dos traumas emocionais e que a medicina considera incurável. Depois da publicação desse livro, nunca mais precisei de remédio e a doença sumiu, contrariando as previsões médicas.
Se a imposição do silêncio e o cerceamento da liberdade me fizeram tão mal, e um meio de expressão, como um livro, me ajudou a superar esse mal, como posso concordar com um regime que não permite que as pessoas discordem dele? Seria uma conivência com o que a ditadura militar fez a minha família, a este País. Eu seria a personificação da incoerência.
A democracia é imperfeita, assim como o ser humano. Mas quem disse que ditadura é perfeita? Só quem não viveu de perto uma e não sofreu as suas consequências é que pode dizer um absurdo desses.
No filme
Dr. Jivago, há uma cena em que o médico foge para o campo, depois de ter sua casa na cidade desapropriada pelos bolcheviques durante a revolução de 1917. Mas, um dia, os bolcheviques chegam à sua propriedade rural e Jivago está escrevendo um poema lírico. Ele acaba preso, porque o poema é considerado uma ameaça aos ideais da revolução. Foi uma das cenas que mais me tocaram.
Quando o golpe militar se instalou no Brasil e meu pai foi preso, minha mãe e amigos da família enterraram livros dele, para que ele não fosse incriminado ainda mais.
Essas situações não me foram contadas. Eu acompanhei de perto, assim como inúmeras outras. E tinha 6 anos de idade. E sabia de tudo o que acontecia. Ninguém consegue esconder de uma criança que seu pai está preso, principalmente quando ela vai até a prisão para vê-lo. Não é difícil para uma criança entender o que é preso político, já que seu pai não é ladrão, nem assassino e vive expressando seu pensamento sobre a situação política do sindicato, da cidade, do país, de outros países.
Quando se cresce num ambiente em que se respira política, aprende-se no cotidiano. Não é preciso ficar adulto para começar a entender.
Muita gente no Brasil teve a vida destruída por causa de seus ideais socialistas. Muita gente morreu. Em Cuba, muita gente também foi, e é, perseguida por ser contrária ao regime de Fidel. Muita gente também morreu. Qual é a diferença?
Fidel Castro foi um líder, mas se transformou em um ditador. Do contrário, teria permitido que o povo escolhesse seu próprio rumo. Por que uma tutela eterna?
Bem cantam os Titãs: ‘‘A gente não quer só comida’’.
Melhor ainda é a síntese de Ernesto Sábato, que cito como epígrafe em meu livro: ‘‘Não há ditaduras más e outras benéficas, todas são igualmente abomináveis’’.


Yes, We Can