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sábado, 19 de abril de 2014

Nos 120 anos do jornal A Tribuna, o meu depoimento: "23 anos de histórias marcantes"

No dia 26 de março, o jornal A Tribuna, de Santos, completou 120 anos de circulação. Como trabalhei no periódico de julho de 1988 a março de 2011 (como repórter, subeditora e editora) fui convidada para escrever o bastidor de alguma matéria.
Eis o texto que foi publicado na página F-72 do caderno especial que circulou no dia ao aniversário.



A íntegra do texto é a seguinte: 
Nos 23 anos em que trabalhei no jornal A Tribuna (de 1º. de julho de 1988 a 17 de março de 2011), como repórter, subeditora e editora de Local, escrevi, orientei e editei uma infinidade de reportagens. Difícil é apontar as mais relevantes. Porém, algumas logo vêm à mente quando faço uma retrospectiva. 
Entre elas, figuram  as que tiveram como tema a ditadura militar. De alguma forma, essas reportagens ajudaram a manter viva a memória de que no Porto de Santos, em 1964, o navio Raul Soares foi  transformado em presídio político e usado para reprimir trabalhadores da região e de outras partes do País. Atualmente, esses textos servem de apoio ao trabalho das Comissões da Verdade (nacional,  estadual e municipal).
Outra reportagem que não sai da lembrança  ocorreu em 9 de junho de 1989, uma sexta-feira. Eu estava pronta para deixar a Redação, pouco antes das 23 horas, quando o telefone tocou. Um acidente grave acabara de ocorrer no Km 59 da pista ascendente da Via Anchieta. Abandonei o plano de ir jantar em um restaurante e rumei para a estrada com o repórter-fotográfico Rubens Onofre. O repórter Carlos Eduardo Correia de Souza não estava escalado, mas foi junto.
Como o carro do jornal não pôde entrar na Anchieta, a solução foi pedir carona ao oficial de uma viatura do Corpo de Bombeiros. Ele concordou em nos levar na carroceria. Subimos e nos instalamos ao lado dos soldados, numa espécie de banco, que deixava o corpo inteiro sem proteção. Com a sirene e o giroflex ligados, o caminhão seguiu em alta velocidade, e eu temi ser lançada por cima da cabine.
Quando a viatura parou, os bombeiros desceram uma ribanceira, subiram outra e pularam uma defensa. Eu,  Rubens e Carlos Eduardo fizemos o mesmo e pudemos chegar perto dos veículos acidentados.
A cena nos chocou. Envolto em fumaça escura e tóxica, um carro de passeio estava incinerado e espremido entre a carcaça de dois ônibus, que ainda eram devorados por labaredas de fogo. Conseguimos ver apenas a marca do carro. Era Volkswagen. Dentro, havia três pessoas carbonizadas. No dia seguinte, soubemos que dois eram funcionários da Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, e o terceiro, motorista de uma empresa de transportes.
A matéria que escrevi foi manchete da primeira página, junto com duas fotografias feitas por Rubens Onofre. Missão cumprida, fiquei em choque e emudecida.  Não parava de pensar na dor que as famílias daquelas três pessoas iriam sentir e em como elas perderam a vida, de modo tão trágico e banal, num piscar de olhos.
PersonalidadesAs recordações envolvem ainda reportagens com personalidades. Uma delas,  o educador Paulo Freire, que eu entrevistei  com a repórter  Fátima de Azevedo Francisco.  Outra, um dos maiores nomes da medicina sanitarista do Brasil, David Capistrano Filho, que comandou a Secretaria de Saúde e a Prefeitura de Santos. Entrevistei Capistrano muitas vezes e passei a admirá-lo por sua inteligência e história.  E ele me deu a honra de comparecer à noite de autógrafo de meu livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós, em 22 de novembro de 1995.
Por causa desse livro, fui notícia algumas vezes em A Tribuna. No lançamento, minha foto foi publicada na primeira página. Recebi o mesmo espaço quando conquistei o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em outubro de 1997.
Ter ajudado a escrever a história deste jornal, durante 23 de seus 120 anos, junto com os colegas de Redação, as fontes e os leitores, foi para mim uma experiência profissional muito importante. Inesquecível. 
Lídia Maria de Melo (repórter, subeditora e repórter, de 1º.  de julho de 1988 a 17 de março de 2011) – jornalista, professora dos cursos de Comunicação da UniSantos e escritora.

Nota: por falta de espaço, no momento da edição, precisei cortar o seguinte trecho do texto:  "Um ponto negativo dessas recordações envolve a  edição de matérias que informavam a morte de alguns colegas de profissão, como Zêgo (Evêncio da Quinta, que era cronista de A Tribuna, que escrevia a coluna Pois É), Mingo Duarte (repórter-fotográfico), Lydia Federici (cronista), Áureo de Carvalho (repórter),  Carlos Alberto Manente (diretor de jornalismo da TV Tribuna), Murillo Ferreira Filho (meteorologista da A Tribuna), Tadeu Ferreira (subeditor de Cidades) e Anésio Borges (repórter-fotográfico). Não é bom noticiar a morte de parceiros de trabalho."



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