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quinta-feira, 15 de julho de 2010

A morte de Eliza, Dana de Teffé e Márcia

Sinto meu estômago arder sempre que ouço, ou leio, notícias sobre as barbaridades que a jovem Eliza Samudio sofreu antes de ser assassinada no mês passado.
Há pessoas que preferem comentar os filmes pornográficos que ela teria feito.
Parece que tentam se sentir menos incomodadas com a extrema crueldade cometida, aparentemente, a mando do goleiro Bruno, do Flamengo.
Será que querem justificar a atitude do atleta, que até bem pouco tempo era considerado ídolo da maior torcida futebolística no Brasil?
É o caso de se perguntar: a participação em um filme pornográfico seria um ato pior do que a execução de um ser humano por meios tão perversos e brutais?
O número alto de mortes de mulheres no Brasil preocupa.
A cada dia, dez são assassinadas por pessoas de seu convívio. Normalmente, os parceiros. São os chamados crimes passionais. Os mesmos que, nos anos 80, motivaram a campanha Quem Ama Não Mata.
No caso de Eliza, o que mais me causa repugnância é o fato de ela ter sido torturada durante dias por psicopatas, sem ter tido a menor chance de reagir. E ainda com um bebê.
Senti ânsia quando ouvi a repetição da súplica que ela fez ao seu suposto agressor e carrasco, o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos: ''Eu não aguento mais apanhar''. E também quando ouvi a resposta fria, impiedosa e tirana, que ele deu a ela: ''Você não vai mais apanhar. Você vai é morrer''.
Os demais detalhes envolvendo o destino do corpo de Eliza e a presença de cães no local do crime embrulham meu estômago de vez.
Tenho pena do bebê que ficou. Porque ninguém sabe o que ele ouviu e sofreu enquanto ficou junto da mãe, quando ela era torturada e no instante da morte.
Ele nunca será capaz de dizer, mas certamente terá sequelas psicológicas que talvez ninguém jamais saiba explicar.
O desaparecimento do corpo e a suposta impossibilidade de se incriminar os culpados me trazem à mente dois casos anteriores. Já escrevi sobre eles.
O texto foi publicado no jornal A Tribuna de 10 de setembro de 2000, na página B-6, sob o título Caso lembra o de Dana de Teffé.
Republico a seguir, omitindo o nome do réu no caso mais recente:
O assassinato que o carateca C. G. afirma ter cometido no dia 31 de agosto faz lembrar o também misterioso caso que envolveu a milionária Dana de Teffé e o advogado Leopoldo Heitor, em 1961.
De origem judaica e natural da Tchecoslováquia, Dana morava no Rio de Janeiro e era cliente do jovem Leopoldo. Em 29 de julho daquele ano, fizeram juntos uma viagem até São Paulo. Dana desapareceu.
Leopoldo foi denunciado pelo jurista Oscar Stevenson, que até então era seu amigo, professor e conselheiro. Stevenson acusou Leopoldo de ter assassinado Dana de Teffé a tiros e enterrado o corpo em seu sítio, perto da cidade de Rio Claro. Tudo teria sido feito com o auxílio de um homem identificado como Hélio Vinagre, segundo reportagem de Muniz Sodré, publicada na revista Manchete. O texto informa ainda que o advogado se apossou do apartamento, das jóias e das pratas da cliente, munido de uma falsa procuração.
A polícia fez diversas escavações no tal sítio, mas não encontrou o cadáver da milionária. Preso, Leopoldo apresentou outra versão para o desaparecimento da cliente: o carro em que viajavam fora interceptado por espiões tchecos que raptaram Dana, depois de troca de tiros.
O Advogado do Diabo, forma como passou a ser tratado pela imprensa, ficou preso por oito anos, mas conseguiu fugir três vezes. Também por três vezes foi a julgamento e ele mesmo fez sua defesa, ao lado de outros dois advogados, Ronaldo Machado e Rovani Tavares.
No último, depois de 20 horas de debates, Leopoldo Heitor convenceu os jurados de Rio Claro de que era inocente. Ele garantia que a cliente fora levada por agentes comunistas estrangeiros, porque durante a Segunda Guerra Mundial ajudara a entregar judeus aos nazistas.
Por anos, a Promotoria insistiu na tese de que Leopoldo Heitor matara Dana de Teffé. Mas não conseguiu provar seus argumentos, porque o corpo nunca foi encontrado.
Pela lei, sem corpo, não há crime. E, nesse caso, se houve, foi um crime perfeito.
Ao contrário de Leopoldo, C. G. confessou ter matado e esquartejado a mulher, Márcia. Só que tomou o cuidado de esconder o cadáver, ou os pedaços, em lugar que dificulta a localização.
Apesar das evidências e da confissão, se o corpo de Márcia não for encontrado, o carateca da Encruzilhada poderá escapar impune e a família da vítima não terá sequer o direito de considerá-la legalmente morta, pelo menos em curto prazo.
Caso venha a ser esse o desfecho da macabra história, prevalecerá entre a população o sentimento de impotência diante de mais uma brutal perversidade praticada por um ser humano contra outro.
(P.S.: O carateca foi julgado e condenado em primeira instância a 14 anos de reclusão, em regime fechado, por homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Em maio de 2004, o Tribunal de Justiça (TJ) confirmou a sentença do júri de Santos).

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