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sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Arquivo Secreto do Dops

Em 2003, publiquei o artigo ''O Arquivo Secreto do Dops'' (leia mais abaixo). Logo no segundo parágrafo, escrevi: ''Mas os acontecimentos de um período marcado pela arbitrariedade nunca são totalmente expostos. Há sempre o que se descobrir''.
O texto faz parte do livro Direitos Humanos, Aqui e Agora, organizado pela Comissão Especial de Vereadores (CEV) de Direitos Humanos da Câmara de Santos e pela Universidade Católica de Santos. O lançamento ficou a cargo da Editora Universitária Leopoldianum. Fui convidada a escrever, após uma palestra na Câmara em 2001. Outras 69 pessoas escreveram artigos para essa publicação. Entre elas, Zilda Arns, Hélio Bicudo e Maria Paula Dallari Bucci.
Ontem, 26 de fevereiro de 2010, as palavras que escrevi no segundo parágrafo daquele artigo foram fortemente reafirmadas com a descoberta, em Santos, de mais de seis mil dossiês de presos e perseguidos políticos. Estavam abandonados em uma sala do Palácio da Polícia, que abrigou por décadas, inclusive durante a ditadura militar brasileira, uma unidade do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), órgão da repressão.
Esse material já deveria ter sido enviado ao Arquivo Público do Estado de São Paulo em 1983, quando o Dops foi desativado. Não se sabe exatamente o motivo, mas isso não ocorreu. Permaneceu oculto numa sala infestada de cupins, traças, baratas e poeira.
Somente ontem, após denúncia publicada nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Diário de São Paulo, o material foi transportado para a Capital. Será higienizado e, depois, aberto ao público junto com o material que compõe o acervo do Arquivo Público do Estado de Sã0 Paulo.
Foi justamente no Arquivo Público que minha família localizou documentos sobre meu pai.
Em 2004, o órgão inaugurou a abertura do acervo do Dops com uma exposição itinerante que marcava também os 40 anos do golpe militar de 1964.
A convite dos organizadores, no dia 11 de maio de 2004, fiz a palestra denominada Ecos da Ditadura _ O Navio-prisão Raul Soares e a Repressão na Baixada Santista. Essa conferência marcou a chegada a Santos da mostra Cotidiano Vigiado. Repressão, Resistência e Liberdade nos Arquivos do Dops 1924-1983, realizada no Sesc-Santos. Documentos datados de 1924 a 1983 puderam ser vistos pela população.
Leia a seguir meu artigo de 2003:

O Arquivo Secreto do Dops
Meu pai, Iradil Santos Mello, integra a relação de presos do Raul Soares, o navio que se tornou símbolo da repressão militar em Santos, por ter servido de presídio político de abril a outubro de 1964.
Essa história não é nova. Já foi relatada em reportagens e no livro ''Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós'', que escrevi em 1985 e publiquei dez anos depois. Mas os acontecimentos de um período marcado pela arbitrariedade nunca são totalmente expostos. Há sempre o que se descobrir.
Foi o que ocorreu no início de 2002. Minha mãe solicitou ao Arquivo Público do Estado de São Paulo cópias de documentos secretos do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) referentes a meu pai.
O resultado da pesquisa confirmou o que meu pai costumava afirmar com convicção, mas muitos achavam que não passava de uma mania de perseguição: seus passos eram vigiados pela ditadura.
Em um dos documentos, datado de 27 de maio de 1969, há informações sobre reunião realizada em 12 de abril daquele mesmo ano, numa residência em Guarujá, com o nome dos presentes, entre eles, o do então prefeito da cidade e o de meu pai, que é descrito como ''ex-empregado da Cia. Docas de Santos, dispensado por exercer atividades subversivas''.
Intitulado ''Relação das Personalidades Contra-indicadas para o contato com o sr. Presidente da República'', um outro documento, de 1976, também traz informações detalhadas sobre meu pai. Estão lá o se nome completo, a filiação, data e local de nascimento, estado civil e os seguintes dados compilados no item denominado 'Histórico': ''Comunista - membro; esteve preso a bordo do navio Raul Soares; foi da direção dos Sindicato dos Portuários; comunista atuante; faz feira em V. de Carvalho e bico no Cassino em Guarujá''. Em letras maiúsculas, aparecem as palavras CONFIDENCIAL e RESERVADO.
No dossiê, existem ainda recortes do jornal ''A Gazeta'', que noticiou a decretação da prisão preventiva dele e a sua detenção no Raul Soares; a relação oficial da 4ª Delegacia de Santos dos que foram presos em decorrência do golpe militar e a lista das pessoas (chamadas de 'indivíduos') com antecedentes ou passagens anotados.
Lamento que meu pai, falecido em 21 de dezembro de 1999, mesmo anistiado, jamais tenha tido a chance de ler o que os espiões do regime militar escreveram a respeito. Estou certa, no entanto, de que ele não se espantaria e até reagiria com humor, como era bem de seu feitio.
O material do Dops vale ser pesquisado para se conhecer a filosofia política dos que governaram o país. Precisa ser conhecido para que a História não se perca e os desrespeitos à dignidade e aos direitos dos cidadãos não venham a se repetir.
As anotações confidenciais do Dops só me levam a reafirmar o sentimento, sintetizado no meu poema Erguendo um brinde, com o qual encerrei a narrativa do meu livro Raul Soares...: ''Hoje tenho motivos/para um sorriso vingado./Te encontrei sobrevivo, resgatado./ Ainda percebo vestígios/ dos dribles dos últimos anos,/Mas tua cara anda boa/ solicitando um brinde./Como não bebo,/ ergo a mão/ em sinal de prazer,/ De total excitação,/ De sangue sobrecarregado/ de adrenalina.../Ergo a mão/ e arrisco uma gargalhada./ Sabia que um dia/ ainda riríamos de muitos deles./ Sabia!/ Até parece piada,/Te arrebentaram.../ Te matar não conseguiram''.

2 comentários:

Luiz Gomes Otero disse...

Fico imaginando em quantos arquivos do Dops devem estar perdidos por aí, pelo Estado, assim como esse encontrado em Santos. E isso pode ser apenas a ponta de um enorme iceberg, formado por intrigas e uma repressão covarde e sem limites.

Anônimo disse...

Olá boma dia Lidia, meu nome é Reginaldo de Almeida, filho do ex, lider politico Manoel de Almeida, preso no navio Raul Soares e ex. Presidente do Sindicato dos Operários Portuarios de Santos, junto com o seu pai no o sr. Iradil fazia parte da diretória do sindicato, eu gostaria de entar em contato com vc pois vivi, o pos ditadura militar, meu e-mail é reginaldo-franca@bol.com.br por favor me passe um telefone onde eu possa entrar em contato com vc, hoje eu me encontro morando no Alto Vale do Ribeira em Apiaí, pois cada vez que eu me pego sozinho vem as lembranças do que vivi, fique com Deus e fico no aguardo de um contato, grato pela atenção. Reginaldo de Almeida.