terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Álbum de recordação


Você se sentou a meu lado,
roçou os pelos de seu braço esquerdo no meu braço direito.
Essa sensação já ultrapassa duas décadas e meia
sem que ninguém saiba,
nem pressinta.
Talvez até você já tenha se esquecido.
Mas meus sentidos ainda se aguçam
com essa remota referência,
de quando você tinha cabelo
e eu, cintura fina.
Você era ainda belo
e eu, pouco mais que uma menina.
Permeávamos planos e sonhos
na sala e na escada da universidade,
pintávamos paredes,
tracejando poesia.
O futuro tudo permitia,
comportava toda nossa utopia.

domingo, 13 de dezembro de 2009

41 anos do AI-5 e o navio Raul Soares

Hoje, 13 de dezembro, completam-se 41 anos da edição do Ato Institucional nº 5. Fala-se muito de que o AI-5 instalou de vez a ditadura no País. Ninguém com lucidez poderá desmentir a realidade desse fato. Mas é preciso deixar claro que a ditadura começou no dia 1º de março de 1964. As prisões, as torturas, as cassações dos direitos políticos, as mortes não tiveram início somente em 1968. Uma geração anterior enfrentou a ditadura ou nem teve tempo de combatê-la. Já foi tomada de assalto nos instantes iniciais do golpe que nos deixaria 21 anos sem liberdades, sem autonomia, acuados, privados de nossos maiores direitos.
Boa parte da população, porém, nem se dava conta do que acontecia.
Já me cansei de dizer, mas vou continuar repetindo. Eu tinha 6 anos de idade quando o golpe se instalou no Brasil, na minha cidade de Santos, a chamada Barcelona brasileira. Começava a cursar a 1ª série do antigo curso Primário. A escola funcionava dentro do Sindicato dos Operários Portuários de Santos, na Rua General Câmara, 258.
Aqui, reproduzo o trecho de meu livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós (página 11), em que relato a visita que fiz a meu pai, junto com minha família. Ele estava encarcerado no navio que serviu de presídio político no Porto de Santos de abril a novembro de 1964:
''Uma lancha apanhou-nos no porto, em frente à alfândega.
Havia muitas mulheres, além de minha mãe e tia Neuza. E ainda outras crianças, além de mim, minhas irmãs, Laura e Lúcia, e nossa prima Sônia, de 3 anos.
Desembarcanos, perto da Ilha Barnabé, em um flutuante que balançava muito, amarrado no navio preto, adernado, o Raul Soares. Eu que sempre morri de medo do balanço de barca.
Os policiais marítimos, com uniformes de mescla azul, estendiam as mãos para nos ajudar.
Minha mãe com Lúcia, bebê, no colo, e aquela escada estreita, mole, tão insegura!
Que medo de cair!
Do flutuante, os policiais observavam nossa subida. E todas as mulheres e meninas de saia ou vestido. Naquele tempo, não era permitida a entrada de mulheres de calça comprida nos estabelecimentos públicos.
E eles lá embaixo olhando... Ódio era o que eu sentia!
Por dentro, o navio parecia maior.
Ficamos num salão repleto de mesas longas e... policiais marítimos.
Não sei da sensação de rever meu pai, mas não me esqueço de que reclamei de dor de cabeça. Um policial trouxe um comprimido cor-de-rosa. Acho que Melhoral infantil.
Recusei. Meu pai insistiu. Tomei, revoltada por ele ainda agradecer e sorrir para o ''polícia'', como eu dizia.
Pouco depois, pedi para ir ao banheiro.
Tia Neuza me acompanhou. O polícia correu na frente. A privada estava suja e sem descarga. Ele forrou o fundo com papel higiênico. Ela não me deixou sentar.
Desde então, fiquei com ódio de todo e qualquer policial marítimo. Não podia ver farda de mescla azul. Ofegava, emburrada.
Não houve outras visitas, porque eram proibidas. A Capitania dos Portos só permitiu aquela em uma tarde de sábado.
Na volta, conforme a lancha foi se afastando em direção ao cais, as mãos que acenavam nas vigias foram ficando menores, menores... até que sumiram. Só restou a imagem incômoda daquele navio negro, que permaneceu tatuado em nós, como os números nos braços dos sobreviventes dos campos nazistas de concentração''.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Mosquito na cozinha

A lembrança mais remota que guardo de São Longuinho não tem data. Envolve uma tesourinha que meu pai preservava para aparar o bigode. E aqui cabe uma digressão. Nunca vi meu pai sem bigode, nem quando fez quimioterapia e perdeu parte dos pêlos.
Eu devia estar com 9 anos de idade e, numa manhã, meu pai saiu furioso do banheiro , parecendo aquele homenzinho que vem impresso no pacote de lâminas da marca Gillete. Procurava sua tesourinha, infinitamente menor que a tesoura de costura de minha mãe.
Percorreu os demais cômodos da casa e eu quieta, tentando me lembrar em que lugar eu havia deixado a tesourinha na tarde anterior. Encostei a cabeça na parede, aparando a testa no antebraço. Foi então que lancei mão da prece que aprendera com minha mãe:
São Longuinho,
São Longuinho,
faça-me achar
a tesourinha
que eu lhe dou
três pulinhos.
Lembrei! No quarador de roupas, feito de ripas no fundo do quintal. Corri até lá. Estava caída no gramadinho. Depois de dar os três pulinhos, entreguei a tesourinha a meu pai. Não sem antes levar uma bronca. A tesoura ficaria cega, se eu continuasse a cortar papel com ela. Cortar papel era meu brinquedo favorito. Fazia bonecas mil.
Agora, estou na cozinha, com as portas fechadas, tentando avistar, com os limites de minha visão, um mosquito que minha irmã tentou matar, mas não conseguiu. Estamos em tempo de estiagem, mas se for um Aedes aegypti é uma séria ameaça. Nossa cidade se inclui entre as que correm risco de ter epidemia de dengue hemorrágica. Nos verões passados, já registrou milhares de casos da doença, na forma comum.
Depois de um breve silêncio, percebo quando o mosquito voa por baixo da mesa em direção à pia, onde está o forno elétrico, abaixo do micro-ondas, garrafa plástica de água mineral e uma mamadeira. Há ainda dois pratos sujos e uns copos usados. Deixamos para lavar de manhã, para não fazer barulho e acordar o bebê, que dorme em seu quarto.
Sacudo um pano de prato. Nem sinal dele. Fico parada, quieta. Só os olhos correndo para todos os lados. O teto é um lugar onde eles costumam ficar. Nas quinas também. Nada. Sinto-me como um soldado na selva vietnamita. Pisando leve para não alertar o inimigo. E ele está ali, quem sabe me percebendo.
Imploro a São Longuinho, para me permitir enxergá-lo. Mas acho que fiz o pedido errado. Ele aparece na lateral do forninho, ressaltado na tinta esmaltada branca.
Mas não posso atingi-lo, embora tenha tentado. Não há ângulo, entre a mamadeira e a garrafa plástica de água mineral. Ele desaparece outra vez. O relógio já marca meia-noite. Paciência é preciso, como a um budista. Um Roberto Baggio, que vê a Itália sendo derrotada pela Nigéria e ficando de fora da semifinal da Copa do Mundo de Futebol, embaixo de muito olé. Mas eis que o nigeriano se distrai e permite que Baggio toque na bola. Sai do meio do campo. Dribla um, passa por outro e mais um, chuta a gol. Empata e consegue a prorrogação, passando dois minutos do tempo regulamentar da partida. Na prorrogação, outro Baggio, o Dino, marca um gol e a Itália fica, mostrando aos nigerianos que é preciso malícia e paciência ininterruptamente.
Na final do campeonato, o feito não se repete. Ao contrário, é o mesmo Baggio, o Roberto, que perde o pênalti fatal, deixando a taça para a seleção do Brasil. Novamente, a paciência budista. Nenhum sinal de rebeldia, mas de resignação. Mesmo quando fica na geladeira depois daquele erro. A paciência é fundamental. Às vezes a pratico deliberadamente, tentando colocar linha em agulha bem pequena, afrouxar parafuso minúsculo. É teste de sobrevivência. E se algum dia minha vida, ou a de quem mais amo, depender de uma ação assim?
O mosquito está ali, mas não o vejo por outros vários minutos. Até que ele ressurge no armário branco. Apresso-me a pegar o chinelo do pé direito e, mesmo correndo o risco de fazer barulho e acordar o bebê, solto uma sonora chinelada. Em vão. Ele consegue fugir. Refaço o pedido ao santo das coisas desaparecidas. ‘‘Permita que eu o veja e mate, para poder dormir sossegada’’. Antigamente essa peregrinação era com barata. Hoje nem as vejo mais.
Fico outro tanto de tempo e desisto. Fecho a porta e vou para meu quarto. Antes, comunico minha irmã, que não se conforma e vai à cozinha. Uns dez minutos depois, volta ela sorridente e vitoriosa. ‘‘Matei o maldito’’, diz, entreabrindo a porta de meu quarto. ‘’Onde?’’, quero saber. ‘‘Na porta da geladeira’’.
Mesmo deitada, sacudo o corpo três vezes. São Longuinho me valeu.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Repórteres de A Tribuna
conquistam o Prêmio Esso

Suzana, eu e Tatiana na Redação
O exercício do jornalismo diário não tem aquele glamour que filmes e novelas mostram. Abdicar à vida social e perder os encontros de amigos e familiares aos sábados, domingos e feriados não têm a menor graça.
A labuta cotidiana chega a ser dolorida às vezes. Mas a gente sempre quer estar onde a notícia se faz presente. Mesmo que, no dia seguinte, a pessoa ao lado leia o que escrevemos, o que editamos, e nem desconfie de que aquele trabalho é nosso.
A gente quer estar lá, porque este nosso trabalho pode fazer diferença na vida de alguém.
Na noite de ontem, no Rio de Janeiro, em cerimônia realizada no Hotel Copacabana Palace, as jornalistas Tatiana Lopes e Suzana Fonseca, colegas de equipe no jornal A Tribuna, receberam o Prêmio Esso de Jornalismo, na categoria Interior. E foi justamente porque reportagens que elas desenvolveram este ano mudaram a vida de uma família.
Alessandra Galvão dos Santos encontrou a mãe, o pai e os irmãos, quase 30 anos depois de ter sido raptada ainda bebê em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá.
Isso só foi possível graças às reportagens de Suzana e Tatiana publicadas em A Tribuna, no Caderno Baixada Santista, que tenho a satisfação de coordenar e editar, com uma equipe de garra e boa vontade.
Parabéns à dupla pela conquista de um dos principais prêmios jornalísticos do País.
Veja duas das matérias (clique nas páginas para ampliar).

Acesse o site do Prêmio Esso de Jornalismo para ver a relação completa dos vencedores.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Caetano se enrolou ainda mais

Em Portugal, Caetano Veloso quis desfazer a má impressão por ter chamado o presidente Lula de analfabeto, mas se enrolou mais ainda. Jogou para cima da imprensa a responsabilidade por suas preconceituosas palavras e ainda se expressou de forma confusa.
Minha opinião eu deixei registrada abaixo do vídeo que encontrei no site do BOL.



Lamentável, Caetano Veloso! Preconceituoso! Os linguistas qualificados de nosso país não condenam tanto a linguagem de Lula. Por que você faz isso, utilizando um raciocínio tão embaralhado? Quando Lula fala, eu entendo, o povo todo entende. Ele se expressa de maneira clara. O mesmo não acontece com você, Caetano. Ouça o conselho da sábia senhora sua mãe, dona Canô. ''Você é apenas um cantor'', disse ela, acrescentando: ''Quem é você para desrespeitar o nosso presidente?''. Cante, Caetano, cante. Apenas, componha e cante.
Lídia Maria de Melo 07/12/2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Serra da Boa Esperança
(hoje lembrei Lamartine)

Três versões para a mesma eterna música de Lamartine Babo, Serra da Boa Esperança, composta em 1937.
Aprendi a gostar desse samba-canção pela voz de Dércio Marques, cantor que costumava fazer shows no circuito universitário, em Santos, nos anos 80.

Aqui, com Eduardo Dusek e Carlos Navas.


Aqui, numa interpretação tradicional, mas bela, do seresteiro Bolão, Antônio Carlos Fioravante.


Aqui, na voz de Gal Costa.

domingo, 29 de novembro de 2009

Mariza, a nova rainha do fado

No Brasil, quando se fala em fado, o ritmo tradicional português, pensa-se logo em Amália Rodrigues. Mas os portugueses têm uma nova rainha do fado.
É a moçambicana Mariza, radicada em Lisboa desde a infância e que se intitula cantadeira de fados.
Mariza, que se dedica a esse gênero musical desde os 5 anos de idade e tem esse nome em homenagem à cantora brasileira Marisa Gata Mansa, foi ao Programa do Jô na quinta-feira e arrasou.
Ela conseguiu fazer o Jô Soares ficar em silêncio e boquiaberto. Não apenas cantando fado, no português lusitano, mas interpretando Cadeira Vazia, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, em português brasileiro, à semelhança de Elis Regina.
Para ouvir essa interpretação com sotaque brasileiro, clique no vídeo postado no Youtube por MD9290.


Para assistir à entrevista dela no Programa do Jô, clique aqui.
Pena que nesse vídeo ela não apareça cantando o fado Rosa Branca, na abertura do programa, e de Oh, Gente da Minha Terra, no encerramento.
Mas encontrei no Youtube interpretações dessas músicas em outras ocasiões.
Ouça Rosa Branca, que foi postada por WorldConnections.


E Oh,Gente da Minha Terra, postada por Somerset2004.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Barco com jornalistas vira



Leia o post anterior Colete Salva-Vidas (abaixo).
Veja também a brincadeira de mau gosto do Bom Dia Brasil, telejornal matutino da Rede Globo. Clique aqui.

Coletes salva-vidas


O uso de colete salva-vidas por passageiros de qualquer embarcação deveria ser obrigatório. Não basta ter no barco, o passageiro precisa vestir. Que o digam os dez jornalistas que caíram nas águas do Canal do Mar Pequeno, em São Vicente. Na tarde de ontem, eles viraram notícia, quando a lancha em que estavam bateu em outra e virou. Felizmente, não houve vítimas, somente perdas materiais. Veja o video da TV Tribuna.
Quem atravessa o canal do estuário entre Santos e Vicente de Carvalho ou entre Santos e Guarujá utiliza barca, barquinha, catraia e balsa. Em todas as embarcações há coletes salva-vidas, mas eles servem de enfeites. Quando uma embarcação vira, não dá tempo para colocar. Então, o melhor seria vestir assim que se entra na lancha.
Vale pensar a respeito.

domingo, 22 de novembro de 2009

Emoções nocivas

As emoções têm poderes que ainda não conhecemos totalmente.

Em maio de 1992, Pedro Collor de Mello denunciou um esquema de corrupção envolvendo Paulo César (PC) Farias, tesoureiro de Fernando Collor de Mello, presidente do Brasil e seu irmão. Pedro chegou a lançar o livro Passando a Limpo _ A Trajetória de um Farsante, com a jornalista Dora Kramer, contando detalhes.
Em dezembro de 1994, Pedro Collor morria vitimado por um câncer no cérebro aos 42 anos de idade. Acho que ele denunciou, mas não suportou. Involuntariamente, puniu-se com a doença.


Na sexta-feira à noite, Dia da Consciência Negra, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta morreu de câncer no intestino. Afilhado político de Paulo Maluf, Pitta foi acusado de corrupção passiva quando ainda comandava a prefeitura paulistana.
No ano passado, foi preso dentro da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Era investigado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. Foi levado preso de casa, trajando pijama. Tudo diante de câmeras de televisão.
Na sua relação de problemas, estavam ainda as questões familiares, com a ex-mulher e os filhos. Independentemente de ser culpado ou não, acho que Pitta também não suportou o rol de acusações e o péssimo relacionamento com a família. Descarregou suas emoções no corpo.

EM 2006, foi o câncer que matou também, aos 42 anos, Sandra Regina Machado Arantes do Nascimento Felinto, filha primogênita de Pelé. Ela só foi reconhecida após recorrer à Justiça em 1991. Apesar de tê-la registrado, obedecendo a determinação judicial, Pelé jamais deu a Sandra o que ela buscava: amor ou, ao menos, carinho e atenção. Sandra foi eleita vereadora em Santos, escreveu um livro contando sua história, casou-se, teve dois filhos (um deles, com extremo talento com a bola), mas aparentemente não suportou o desprezo do pai. Desenvolveu também um câncer.

Esses são apenas três exemplos dos efeitos emocionais no organismo.
Minhas opiniões não se baseiam em dados científicos, mas em observações.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De apagão a Consciência Negra,
passando por República e minissaia

Alguns assuntos foram notícias este mês, mas a falta de tempo me impediu de fazer postagens sobre eles. Mesmo com atraso, acho que ainda é hora de escrever.

Apagão
(Foto de Lídia Maria de Melo)
Quando um pão se torna verde de mofo, certamente o prazo de validade já venceu.
Para quem enxerga normalmente, encontrar na embalagem a data-limite para consumo de um produto é tarefa que envolve certo pendor investigativo.
Fico imaginando como deve ser difícil para um cego conseguir saber esse prazo. Essa dificuldade é muito maior para eles, já que os prazos não estão traduzidos em braile.
No entanto, durante o apagão que atingiu 18 estados brasileiros, das 22h15 do dia 10 até às 5 horas do dia seguinte, os cegos tiraram a escuridão de letra.
Eu estava quase saindo do trabalho quando tudo virou breu. A interrupção abrupta de energia me fez lembrar de 1999. Também me veio à mente uma notícia da Folha de S. Paulo sobre a ação de hackers em nosso sistema elétrico. Achei uma grande coincidência que, um ou dois dias depois da tal notícia, ficássemos totalmente dependentes da luz de velas, lanternas e celulares.
Para mim, foi uma ação hackeriana. Os responsáveis por ela, sempre uns garotos, quiseram mandar um recado: ''Fomos nós mesmos''.
Para o Governo Federal, essa hipótese é absurda. E toda a responsabilidade recaiu sobre a natureza. Foram os raios que partiram os cabos de transmissão de Itaipu. Fizeram até um especialista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) se calar. Desclassificaram suas declarações de que raios não seriam capazes de provocar aquele incidente.
Ainda bem que não somos bobos e o País inteiro (ao menos, a população dos 18 estados que ficaram às escuras) ainda busca a verdadeira razão de termos ficado nas trevas durante horas. Quando voltei para casa, fui obrigada a usar o farol alto. Olhar pelo retrovisor era ver na natureza a cor negra. No meu prédio, as lâmpadas de emergência não funcionaram. Subi as escadarias com a luz do celular. Por sorte, ainda restava um mínimo de bateria. Pude aproximar do número do andar e do apartamento. Sem esse recurso, não sei como teria me virado. Também por obra do acaso, meu carro estava abastecido. Normalmente, deixo para fazer isso quando retorno do trabalho. Sem energia, seria impossível as bombas dos tanques de combustível funcionarem. Quase tudo é automatizado nos tempos atuais. Essa é uma das desvantagens da modernidade. Ficamos impotentes diante dos imprevistos.
Na tarde posterior ao blecaute, imaginei: para os cegos, não houve problemas, a não ser tomar banho frio de chuveiro, ter alimentos estragados no refrigerador, não poder usar o elevador...
Foi justamente isso que o Jornal da Tarde confirmou na sua edição do dia 15. Pessoas que não enxergam disseram que ''ouviram'' o apagão quando os que têm visão normal lamentaram a falta de luz com sonoros: ''Ai!, Oh!'' e outras interjeições mais. Eles não ficaram sem saída.

República
No domingo, dia 15, a República brasileira completou 120 anos.
Na antiga escola primária, aprendi a cantar o hino composto por Leopoldo Miguez (música) e Albuquerque e Medeiros (letra). Hoje, nem sei se ainda ensinam. Decorei tudo, porque era obrigada. Entender o sentido das palavras é que eram elas. Para isso, é imprescindível um dicionário.
Vamos lá:
Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus.
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!
Comentário: Pálio não é modelo de carro. Entre os vários sentidos da palavra, aqui é ''manto''. Desdobrado: estendido. Rebel vem de rebelde. Remir: redimir, perdoar. Torpes: desonestos, repugnantes. Labéus: manchas na reputação, erros, desonras. Porvir: futuro, tempo que há de vir.
Melhor entendendo: Que o hino seja um manto de luz estendido sob o vasto céu, que seja um canto rebelde que vem perdoar (ou reparar) os erros infames ou repugnantes do passado. Que seja um hino de honra, de orgulho (glória) que fale de esperança e de um novo futuro. Que embale com visões de triunfos quem surgir lutando por ele (pelo futuro).
(refrão)
>>Liberdade! Liberdade!
>>Abre as asas sobre nós,
>>Das lutas na tempestade
>>Dá que ouçamos tua voz
*
Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar !
(refrão)....
*
Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra, nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!
(refrão) ...
*
Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!
(refrão) ...
O refrão era (e é) a parte de que eu mais gostava ( e gosto).
Agora, quem desejar entender o restante do hino, deve se debruçar sobre um dicionário e se empenhar na pesquisa. Certamente, não perderá tempo. Ao contrário, ganhará conhecimento. A vida não é feita somente de praia, cinema, televisão e balada. Boa sorte.

Consciência Negra.
Hoje é Dia da Consciência Negra, em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Esse assunto merece uma postagem à parte. Mas ficará para outra ocasião. Não precisamos de data específica para pensar e abordar temas. Como diz a música da Baby do Brasil (para mim, sempre Baby Consuelo), ''todo dia é dia de índio''.
Num país miscigenado como o nosso, todo dia tem que ser dia de negro, índio, mulato, cafuzo, mameluco, branco, caboclo, amarelo e sei lá mais quantas classificações querem.
Para mim, todo dia é dia de gente, de ser humano. Todo dia é dia de respeitar os direitos desses seres multicores. Todo dia é dia dos direitos humanos. Todo dia é dia da raça humana. Todo dia é dia de ser contrário ao preconceito.
Liberté, Egalité, Fraternité!

Minissaia
Por falar em direitos, na madrugada de domingo, dia 15, assisti ao programa Altas Horas, apresentado pelo Serginho Groisman na Rede Globo.
De novo fiquei decepcionada com o comportamento dos universitários. Dessa vez, dos que estavam na plateia. A Geisy Arruda, a garota do vestido rosa-choque curto, foi entrevistada. Achei que o público se comportou de maneira tendenciosa com ela. A grande maioria das perguntas embutia um tom de reprovação pelo traje da estudante. Um ou dois universitários condenaram abertamente o comportamento dos jovens que a hostilizaram na Uniban.
No Altas Horas, predominou a ideia de que Geisy era culpada pela conduta deles. Tal aquela tese de que, se a mulher foi estuprada, é sinal de que estimulou o estuprador.
E pensar que nos anos 60 a minissaia era símbolo de atitude, de modernidade, de vanguarda. Hoje, tantos jovens demonstram mentalidade tão retrógrada, tão reacionária!...
Parece que o mundo já foi mais moderno!

domingo, 15 de novembro de 2009

Meu blog selecionado pela VejaBlog

VejaBlog - Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil Recebi hoje o seguinte comentário:
VejaBlog _ Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil!

Parabéns pelo seu Blog!!!
Você está fazendo parte da maior e melhor seleção de Blogs/Sites do País!!!- Só Sites e Blogs Premiados -
Selecionado pela nossa equipe, você está agora entre os melhores e mais prestigiados Blogs/Sites do Brasil!
O seu link encontra-se no item: http://www.vejablog.com.br/blogblog_02/
Os links encontram-se rigorosamenteem ordem alfabética.
Pegue nosso selo.
Um forte abraço,
Dário Dutra
http://www.vejablog.com.br/

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ONGs ajudam a salvar vidas

Já que não posso ir aos lugares do mundo em que a miséria impera, já que não tenho tempo de me dedicar a uma causa voluntária, ajudo organizações não governamentais que desenvolvem projetos capazes de minimizar o sofrimento de pessoas.
Uma delas é a Casa da Esperança de Santos, um centro de reabilitação de doentes físicos e mentais, criado pelo médico Samuel Augusto Leão de Moura. O trabalho é realizado por equipe multidisciplinar desde 24 de julho de 1957. Quem desejar saber mais sobre a instituição pode acessar o site http://www.casadaesperançasantos.org.br/ .
Também contribuo com a ONG Médicos Sem Fronteiras, fundada em 1971 por um grupo de jovens médicos e jornalistas. Eles tinham trabalhado como voluntários em Biafra, região da Nigéria (África), que no final dos anos 60, estava sendo destruída por uma guerra civil brutal.
Para conhecer mais, basta acessar http://www.msf.org.br/

domingo, 8 de novembro de 2009

Num ato de incompetência e intolerância, Uniban expulsa estudante do vestido rosa

A Uniban resolveu expulsar a estudante de Turismo Geisy Arruda, de 20 anos. Na noite de 22 de outubro, no período de aulas no campus da universidade em São Bernardo do Campo, a universitária foi encurralada e ofendida coletivamente por centenas de alunos.
O motivo do ataque foi o vestido rosa-choque que ela trajava. De mangas compridas, a peça tinha o comprimento das roupas que jovens de sua idade costumam usar. A diferença é que a barra canelada se ajustava ao corpo e ia subindo conforme ela andava ou sentava. Com isso, suas coxas ficaram mais expostas, como se estivesse de shorts.
Para um país com temperatura tropical, como o nosso, e onde uma boa parcela da população jovem e feminina anda de barriga de fora, não seria de se esperar que a vestimenta de Geisy provocasse tanto furor. Mas foi o que ocorreu.
Após algumas horas de intenso tumulto nos corredores da universidade, ela precisou ser escoltada por policiais e vestir o jaleco de um professor para poder sair do campus em direção a sua casa. Mesmo assim, ao som de um sonoro palavrão, repetido em coro por vozes masculinas. Vídeos postados no site Youtube atestam os atos insanos.
O tumulto em si já é notícia velha, como se diz no jargão jornalístico. Mas a expulsão é um novo capítulo que faz aumentar a indignação de quem já se espantou com o comportamento irracional dos universitários que acossaram a jovem de vestido rosa-choque.
Em outros tempos, os universitários tinham postura de vanguarda. Por isso é que, ao longo da história, eles sempre aparecem empunhando bandeiras em favor das liberdades e dos direitos civis.
Na Uniban, ocorreu o contrário. Os estudantes discriminaram, julgaram, condenaram, expuseram ao ridículo e, por pouco, não atacaram fisicamente a jovem que tem o direito de expressar seus modos por meio da roupa que usa.
Se o traje era tão inadequado e feria os princípios da convivência, por que ela foi admitida no campus, assim que chegou para as aulas? Com certeza, ninguém na portaria observou algo fora do comum.
Depois de ter chamado a atenção, enquanto foi ao banheiro, passou a ser hostilizada. Mesmo dentro da sala de aula, continuou a ouvir insultos que partiam de estudantes que se postaram no corredor em frente à classe. Foi preciso chamar a polícia para garantir a integridade física da garota.
Agora, a universidade publica nota na imprensa oficializando a expulsão da aluna, sob o argumento de que ela provocou o comportamento dos demais estudantes.
Que retrocesso! A lógica que dá base à expulsão de Geisy é a mesma de quem atribui à vítima de estupro a responsabilidade pelos atos do estuprador. É o mesmo argumento de quem acredita que, se o marido espanca a mulher, ela deve ter provocado de alguma maneira o comportamento agressor.
Sob todos os aspectos, é lamentável a atitude da Uniban. De uma universidade, espera-se uma atitude que colabore para a formação moral e ética de seus estudantes. Não basta ensinar a técnica. É preciso ajudar a construir valores. Mas não esses, da segregação e da injustiça. Não esses valores que respaldam o açodamento, a execução em praça pública, o apedrejamento, sem direito à defesa.
A decisão da Uniban é o apoio explícito à intolerância e uma prova de incompetência para atuar na área educacional.
Em tempo: as imagens que mostram os estudantes ensandecidos nos corredores da Uniban me fizeram lembrar da tradicional e polêmica Farra do Boi, realizada no sul do Brasil e em países como a Espanha.

sábado, 7 de novembro de 2009

Maracatu Quiloa

Num domingo à tarde, um batuque forte me chamou a atenção. O ritmo que convidava à dança vinha da Praça Caio Ribeiro de Moraes e Silva, um lugar tomado por árvores gigantes.
Apanhei minha câmera digital e fui saciar minha curiosidade. Em poucos minutos estava diante de rapazes, moças e uma criança, que trajavam roupas coloridas. Uns dançavam desinibidos, enquanto outros tocavam instrumentos vários.
Era o Maracatu Quiloa, que fazia seu arrastão na praça em frente ao Sesc, no bairro Aparecida, em Santos. Ali, nas tardes de domingo, é montada uma feira de artesanatos.
Pois era nos estreitos corredores formados pelas barracas dos expositores que o Quiloa deslizava seu ritmo e entoava suas canções, denominadas loas.
Imediatamente coloquei a filmadora para funcionar. O resultado pode ser conferido no vídeo abaixo.

video


Fundado em 5 de outubro de 2003, o grupo tem por objetivo difundir o maracatu de baque virado, manifestação cultural originária de Pernambuco que utiliza instrumentos de percussão, como alfaias, agbés, gonguês, caixas, ilus, atabaques e mineiros.
O Quiloa tem sede no número 99 da Rua General Câmara, no Centro de Santos. Na esquina dessa rua com a Itororó, seus integrantes ensaiam às quartas-feiras, a partir das 19h30.

Entre suas canções, está ''Saia'': Bota a saia pra rodar/bota o corpo pra mexer/isso é maracatu/ de baque virado pra valer (bis)/ O caixeiro vai chamar/o bombo estremecer/toque agbê, mexe o ganzá/ esse é o quiloa pra você''.
O grupo foi alvo de matéria no jornal A Tribuna de ontem (texto de Vinícius Holanda, foto do Alberto Marques e edição minha) e no site do jornal, que exibiu ainda parte de meu vídeo.
Se desejar conhecer mais, acesse o blog do Quiloa.
Blog Widget by LinkWithin