Direitos Autorais

Não reproduza textos, fotos e vídeos deste blog sem autorização da autora.
Mesmo com autorização, se utilizar algum conteúdo, mencione a fonte
e a autoria. Lei 9.610/98.

Translate

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar morreu. Viva Ferreira Gullar!

Ferreira Gullar morreu. Viva o poeta Ferreira Gullar! 
Parafraseando Guimarães Rosa, um poeta não morre, fica encantado. 
A poesia de Ferreira Gullar estará sempre me rodeando.
Quando eu estava no 7º. semestre de Jornalismo, na Faculdade de Comunicação de Santos, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atualmente UniSantos, o antigo prédio da Facos, na Pompeia, era de blocos e concreto aparente. Achávamos que era muito cinza e resolvemos pintar nossa classe. Eu participei da pintura interna e depois escrevi, com tinta amarela, no corredor, na parede externa, ao lado da porta de entrada da sala, um trecho do poema "No Mundo Há Muitas Armadilhas". 
Ferreira Gullar era um homem feio, de cabelo liso e comprido, que soube lidar com o exílio político, com as instabilidades de dois filhos esquizofrênicos. 
Tinha uma mente de vanguarda, mesmo aos 86 anos. A obra de Ferreira Gullar estará sempre comigo. Valeu, poeta!

NO MUNDO HÁ MUITAS ARMADILHAS

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentaras até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.


domingo, 20 de novembro de 2016

Pé de cidreira, um resgate de carinho

            



                                                     
 Lídia Maria de Melo 
(fotos e texto)

No fundo do quintal 
da casa de minha infância, 
havia um pé de cidreira.
Para ele, acorríamos
em busca de umas folhas
que aplacariam as dores
de nosso estômago ou intestino
depois de maceradas
e mergulhadas em água fervilhante.
Era um pé de uns sessenta centímetros
de altura, com cheiro doce e acolhedor.
Às vezes, nos dava flores miúdas
e perfumadas,
atração auspiciosa para abelhas e passarinhos.
Um grande companheiro de infância.
Fiel e protetor.
Hoje, que o tempo correu,
minha infância vive em um cofre de sonhos
e aquela casa nem existe mais,
a não ser nas gavetas da memória
e nos instantes das fotografias,
um novo pé de cidreira
acompanha meu dia a dia
neste jardim suspenso
de terraço de apartamento.
Também é atração de pássaros
com seu odor adocicado
e as florzinhas ocasionais.
Para matar a saudade,
mesmo sem dor de barriga,
nem estomacal,
 volto a fazer o chá que
minha mãe me ensinou.
É um resgate de carinho,
como canção de ninar,
um jeito de vencer o tempo
e reviver emoções 
ao menos pelo paladar.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois minutos de superluar

         Lídia Maria de Melo

Dois minutos de luar,
De visão, encanto e brilho
Na noite nublada e de vento.
Lua gigante, super, mega.
Lua cheia de novembro,
que fura nuvem, embala sonhos.
Lua que não se inibe, sob ameaça de chuva.
Lua famosa e notícia. De jornal, rádio, internet e TV.
Lua disputada por olhares deslumbrados
em terra, no mar, na saudade.
Lua fotografada, filmada,
bênção no céu do Brasil e de outros continentes.
Lua surpresa, presente, majestosa, magistral.
Lua satélite, mística, musa, rainha do céu.

Lua, prosa, poesia, verso de menestrel.

video


domingo, 13 de novembro de 2016

À beira do abismo, sob a chuva, passarinho descobre sua identidade, sua instintiva vocação


Lídia Maria de Melo (texto e fotos)

Com a presença de passarinhos nos terraços de meu apartamento, já estou acostumada, por causa das plantas, das flores. Mas não, com um deles no beiral da área de serviço.
Foi o que aconteceu neste sábado, às 13h30.
Chovia, quando ouvi um piado insistente e alto. Apanhei meu celular e fui na ponta dos pés tentar fotografar o animalzinho alado. Segui o som, um tanto desesperado. No terraço da sala não havia nada. Continuei a busca e cheguei à cozinha. Depois, à área de serviço.
Já estava com medo de me deparar c
om um pássaro perdido dentro do apartamento. Certamente, eu estaria em apuros.
Mas o que encontrei foi esse rapazinho da fotografia (ou seria uma mocinha?) piando, como a pedir socorro, para fugir da chuva.
Havia um outro com ele, que não hesitou em escapar, ao perceber minha aproximação.
Talvez fosse a mãe dele. Uma mãe um tanto desnaturada.
O(a) sujeitinho(a) estava visivelmente com medo e com frio, tentando evitar os pingos da chuva.
O olharzinho dele implorava ajuda, mas eu, covarde, fechei os vidros da área de serviço.
Passei a fotografá-lo, penalizada com o piado sofrido.
Imaginei que ele ainda era um filhote, que não sabia voar. Mas como teria chegado àquela altura de mais ou menos 20 metros?
Deixei-o lá à própria sorte. Não gostaria de estar na sua pele (ou nas suas penas).
Passados uns minutos, os piados cessaram.
Voltei lá, para conferir o que acontecera.
Bingo! O passarinho (re)descobriu sua identidade, sua instintiva vocação. Bateu asas e voou.
A mim, restaram as fotos e a curiosidade sobre a espécie daquele bichinho indefeso e ao mesmo tempo tão livre.
Alguém saberia identificar a espécie desse pássaro?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal fluminense Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
      UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
               CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.

     

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ministra defende juiz federal, mas ofende a Língua Portuguesa

Lídia Maria de Melo

Com a devida vênia, preciso comentar a fala da ministra Cármen Lúcia, na abertura da sessão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) puxou a orelha do presidente do Senado, Renan Calheiros (sem citar o nome dele), na defesa do juiz federal Vallisney Souza Oliveira, e cometeu uma ofensa à Língua Portuguesa. Logo ela que fala tão bem e disse, equivocadamente, que o termo "presidenta" estava errado, insinuando que a ex-presidente da República não havia estudado.
Hoje, ela cometeu erros de concordância ao dizer: "Todas as vezes que um juiz é agredido, eu e cada um de nós, juízes, é agredido".
A expressão "cada um de nós" leva o verbo para o singular. Nesse caso, o uso do verbo "ser" no singular estaria correto ("Cada um de nós é"). Porém, a ministra adicionou a essa expressão o pronome pessoal "eu", formando um sujeito composto. 
Nesse caso, o verbo "ser" deveria ter sido usado no plural, assim como o adjetivo: "Eu e cada um de nós, juízes, somos agredidos".
Com todo o respeito à ministra Cármen Lúcia, fico imaginando a repercussão, caso esse deslize fosse cometido pela ex-presidente Dilma ou pelo ex-presidente Lula.

Em tempo: A defesa da ministra ao juiz federal Vallisney Souza Oliveira está relacionada à ofensa que o presidente do Senado fez ao magistrado, porque ele autorizou a prisão de quatro policiais legislativos na semana passada, dentro da Operação Métis.

(Republicado do blog Prosa Linguística)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Azaleias, rosa e orquídeas, uma carícia para meus olhos e para minha alma

Texto e fotos de Lídia Maria de Melo (postagem atualizada em 12 de novembro de 2016)
                                                                         
    
As azaleias são como eu. No clima ameno e frio, mostram todo seu viço. Quando chega o calor, elas começam a murchar, incomodadas. Em compensação, hoje, quando fui regar as outras plantas aqui do jardim suspenso, deparei-me com uma orquídea linda, escondida entre o tronco de um antúrio. Não sabe ela o quanto me deleitou. Em outro canto, uma rosa faceira absorvia os raios indiretos do sol, acariciando meus olhos. 
Não tem jeito: somos parte da natureza.
Às vezes penso que somente ela tem o dom de nos salvar.
..........
Ontem, a orquídea acima me fez uma surpresa no meu jardim suspenso.
Hoje (27 de outubro), ela não está mais sozinha. Uma outra, de beleza igual, lhe faz companhia. E uma terceira, ainda em botão, já começa a vingar. É a força da vida, é um impulso em nós.


12  de novembro de 2016. Volto a esta postagem, para dar notícias das orquídeas que aparecem nos textos e fotografias acima. Hoje, elas são três e continuam viçosas e belas, alegrando minha visão.
  


domingo, 16 de outubro de 2016

O filme norte-americano "Olhos da Justiça" recria o argentino "O Segredo dos Seus Olhos"

Lídia Maria de Melo

Apesar do início do horário de verão, que engoliu uma hora de meu precioso tempo, consegui assistir a um filme ontem. Aleatoriamente, no Netflix, escolhi "Olhos da Justiça", dirigido por Billy Ray, com Chiwetel  Ejiofor, Júlia Roberts e Nicole Kidman.
Trata-se de uma narrativa de suspense policial, contada com o auxílio de flash back, que me manteve atenta e distante do sono. Um filme de Hollywood, com atores talentosos e bonitos e interpretações que não decepcionam. Aliás, a cena da personagem de Julia Roberts (Jess) com a filha morta na caçamba foi emocionante.
Acompanhei cena a cena a investigação do personagem de Chiwetel  Ejiofor, o agente do FBI, para tentar prender, 13 anos depois, o assassino da filha de sua colega investigadora Jess, mas não percebi que era um remake do filme argentino  "El Secreto de Sus Ojos" (O Segredo dos Seus Olhos), de Juan José Campanella, estrelado por Ricardo Alberto Darín e Soledad Villamil e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.
Somente na etapa final, quando a amargurada e envelhecida Jess dirige-se para uma construção estranha, nos fundos de sua casa, é que intuí que a história se assemelhava ao belo e premiado filme argentino.
Primeiro, pensei em plágio. Depois (não vou contar a cena), cheguei à conclusão de que era um remake, ou seja, um filme intertextual.
De maneira geral, não há plágio nesse tipo de composição dialógica, no sentido do termo cunhado por Mikhail Bakhtin, "principalmente", como já disse o compositor e escritor Bráulio Tavares (em: A cereja do bolo narrativo, revista Língua Portuguesa, dez. 2011), "se os novos adornos (...) tiverem riqueza bastante para se imporem sobre a mecânica antiga”.
Na versão de Billy Ray, o esqueleto do enredo do filme de Campanella está todo ali, mas a história contada é outra. É como se novos personagens vivessem um fato semelhante ao já vivido por outros personagens. A esse processo, a búlgara naturalizada francesa Julia Kristeva denominou intertextualidade, a criação de um novo texto a partir outros textos já existentes.
No fim das contas, o filme argentino também é intertextual, porque se baseia no livro de Eduardo Sacheri, "La Pregunta de sus Ojos", publicado em 2005.
Nesse caso, a arte segue as leis da natureza, pois, como explicou o químico Antoine Laurent Lavoisier, no século XVIII, "na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", no que foi parodiado por Chacrinha, no século XX: "Na televisão, nada se cria, tudo se copia". Na realidade, o valor da arte está na criação, ou na recriação, mas nunca na cópia, pura e simples.
Quanto à minha preferência em relação aos dois filmes, não tenho dúvidas: o argentino é muito melhor, porque causa impacto. É trágico, mas é poético, criativo e original.

Leia o que escrevi em 2010 sobre O Segredo dos Seus Olhos

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Ressaca do mar em Santos é um alerta
sobre a elevação acelerada dos oceanos

Lídia Maria de Melo

Força da maré jogou barco "Gênesis" contra a mureta
O que é do mar o mar toma. Um dia Santos ficará sob as águas.
Cresci ouvindo essa profecia popular. Pessoas mais velhas repetiam-na como se fosse uma verdade inquestionável. Quem era criança se impressionava. Os adolescentes, com sua natural arrogância, desdenhavam. Bobagem!
Lembro-me de uma inspetora de alunos da escola em que eu estudava o Curso Normal, para me formar professora, dona Lídia, minha xará, a dizer repetidas vezes que gostaria de voltar a morar no interior do Estado de São Paulo. Ela era de Olímpia e temia que o mar invadisse Santos inteira. Apesar de ouvi-la com educação, eu acreditava que o medo de dona Lídia jamais iria se concretizar. Crendice!
Erosão na Praia da Aparecida, em Santos,
sugere que a faixa de areia já foi aterrada
Minha mãe até hoje relata que, quando chegou a Santos, em 1953, ainda uma menina, o bairro da Ponta da Praia era praticamente composto por manguezal e chácaras de japoneses que cultivavam chuchus. Com exceção das avenidas e ruas mais nobres, a maioria das vias era de terra batida, sem asfalto. Isso ocorria, por exemplo, na Vila Hayden, no Bairro do Embaré, em ruas como a Bambual e a Frei Francisco Sampaio, entre outras.
Mureta quebrada pela ressaca de domingo
Sessenta e três anos depois, o próprio mar confirma a profecia popular.
No domingo pela manhã, percebi que as águas, normalmente tranquilas como as de uma piscina, espumavam demais. O mar estava de ressaca, como se houvesse bebido excessivamente e agora quisesse pôr fora tudo o que lhe fazia mal. Do alto, tive a impressão de que as ondas alcançavam a Fonte do Sapo.
Por volta das 16h30, a desconfiança virou certeza.
A maré subiu 2,60 m, alagando as duas pistas das avenidas Saldanha da Gama e Bartolomeu de Gusmão, na Ponta da Praia, além de garagens de edifícios e do Clube de Regatas Vasco da Gama. Com a ajuda do vento que soprava forte desde a madrugada, atingindo 90 Km/h, segundo a Base Aérea de Santos, e da chuva, a ressaca do mar fez estragos.

Calçada à beira-mar ficou esburacada
  video
                                        Vídeo mostra mureta que margeia o canal do estuário

Quebrou mais uma vez, em vários pontos, a mureta branca da Ponta da Praia, derrubou árvores, esburacou calçadas de mosaico português, lançando pedras à distância, arrastou um contêiner para a avenida da orla, alagou o Museu de Pesca, quebrou o Píer do Pescador, jogou o barco "Gênesis" contra a murada que margeia o canal de entrada do Porto de Santos, perto da estação das barquinhas que fazem a travessia entre Santos e Guarujá. A Ponte Edgard Perdigão também ficou inundada. Ali, moradores do bairro guarujaense de Santa Cruz dos Navegantes e da Praia do Góes embarcam e desembarcam em Santos.

Vento e ondas destruíram brinquedos na Praia da Aparecida  
A travessia de barcas e balsas entre Santos e Guarujá foi interrompida por duas horas.
Na Praia da Aparecida, a Fonte dos Sapos transbordou de água salgada. Dos brinquedos instalados na areia, sobraram carcaças. Na faixa de areia, as tubulações subterrâneas ficaram expostas, assim como dutos e as raízes dos coqueiros plantados pela Administração Pública.
Lama comprova que água do mar invadiu a Fonte do Sapo
Tubulações e dutos subterrâneos ficaram expostos na praia

Na segunda-feira, causava impressão forte a erosão das camadas de terra na praia.
Tenho poucos conhecimentos geológicos a respeito de Santos. Sei que a cidade possui o segundo pior solo do mundo para construções (o primeiro é o da Cidade do México), devido a uma camada de argila muito espessa. Por isso, os prédios mais antigos, erguidos no sistema de sapatas, sem fundação com estacas, são tortos. Nossa orla marítima ostenta uma coleção de edifícios tão inclinados que deixam a italiana Torre de Pisa com inveja.
Maré alta jogou contêiner na calçada
Sei também que a areia das praias de Santos é escura por dois motivos: por ser muito fina, o que a faz reter muita umidade, e por ter mais minerais pesados, como mica preta brilhosa, por exemplo, e matéria orgânica, vinda do mangue (decomposição de folha, galho e outros elementos naturais).
Apesar de não ser especialista, fiquei com a impressão de que algumas praias de Santos foram aterradas e a ressaca levou essa camada artificial, deixando apenas a que realmente faz parte da composição original, na Ponta da Praia e na Aparecida.
Será que falo bobagens? Estou tentando ouvir um especialista.
Parte da mureta branca foi derrubada mais uma vez
Não vou me alongar sobre esse assunto, porque não tenho informações exatas sobre esse fato. As fotos que fiz na segunda-feira são mais eloquentes. A paisagem que a ressaca deixou leva-me a pensar que o homem aterrou a faixa de areia e o mar veio tomar de volta o que é dele por direito, fazendo valer e se concretizar a profecia popular: "O que é do mar o mar toma. Um dia, Santos vai ficar sob as águas".
Vento de 90 Km/h e  ondas derrubaram coqueiros
Iniciada em 2006 e concluída em 2009, pesquisa do engenheiro e professor Gilberto Berzin  e do biólogo Renan Braga Ribeiro, do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília (Unisanta), concluiu que Santos terá áreas extensas alagadas e atingidas pelas ondas, em função da elevação do nível dos oceanos. Isso, até o final deste século.
Píer do Pescador foi totalmente destruído

Garagem de subterrânea foi inundada pela água salgada
Em reportagem da jornalista Andrea Rifer publicada no jornal A Tribuna, sob minha supervisão editorial, em 3 de dezembro de 2009, os dois pesquisadores alertavam para a necessidade de planejamento para enfrentar o problema.
Eles sugeriram que esse planejamento tomasse como base a experiência da cidade de  Amsterdã, na Holanda, que tem parte de seu território a 2 metros abaixo do nível do mar. Veja a reportagem aqui.
Os sinais do Oceano Atlântico estão nos alertando: ou agimos rapidamente, ou teremos que dar adeus ao litoral.
Canal 6 é um dos que drenam a cidade de Santos, como
 parte do projeto centenário do sanitarista Saturnino de Brito 

domingo, 21 de agosto de 2016

Ao fazer Olimpíada impecável, Rio de Janeiro deu tapa com luvas de pelica no preconceito

Vista do Morro do Pão de Açúcar e seus bondinhos
Vista do Pão de Açúcar e do Corcovado, ao fundo,
na Baía da Guanabara
Lídia Maria de Melo
Ainda vou escrever uma postagem mais consistente sobre a Olimpíada Rio 2016.
A simpatia e a competência do velocista jamaicano Usain Bolt, as conquistas do nadador norte-americano Michael Phelps e da ginasta Simone Biles, a ausência do nadador brasileiro César Cielo, recordista dos 50 metros livres, o talento das jogadoras brasileiras de futebol feminino e a necessidade de patrocínio e mais espaço nos veículos de  jornalismo esportivo, a questão dos atletas que integram o projeto das Forças Armadas, o papelão do nadador Ryan Lochte, as vaias e o choro do francês do salto com vara, as invenções do jornalista do Le Monde em relação às declarações do técnico   francês, a cobertura jornalística antes e depois da
cerimônia de abertura da Olimpíada, o sucesso do tenista Guga Kuerten como comentarista da TV Globo, a eficiência da ginasta Daiane dos Santos nos comentários sobre a ginástica artística, o exorcismo do 7x1 de 2010, o desempenho de Neymar, a serenidade do treinador Rodrigo Micale...
Esses e muitos outros temas poderiam ser alvos de postagens sobre os Jogos Olímpicos do Rio. Hoje, porém, quando estou gripada e ainda curto a ressaca da conquista da Medalha de Ouro pela Seleção Brasileira de Futebol sobre a Seleção da Alemanha, só quero dizer que o Brasil deu um tapa com luva de pelica em todos os preconceituosos (imprensa e países estrangeiros e imprensa brasileira) que duvidavam da capacidade da cidade do Rio de Janeiro para realizar a Olimpíada 2016.
No ano de 2009, quando houve a escolha da Cidade Maravilhosa como sede destes Jogos Olímpicos, cheguei a fazer uma postagem comentando o desdém de Madri, ao ser anunciado o nome do vencedor, o município do Rio.
Hoje, está confirmado: deu tudo certo.
Na verdade, já sabíamos. Porém, brasileiro parece mesmo ter complexo de vira-latas. Precisa que outros digam que somos capazes.
Não é necessário que nos digam.
O Brasil tem defeitos, mas suas qualidades são infinitas também.
Nós sabemos disto. Está na hora de nos orgulhar mais de nossas potencialidades. Sem ufanismo, mas com altivez, como fazem os atletas olímpicos. Cada um que disputa uma modalidade esportiva sabe do que é capaz e do que não é. Somente os que têm autoconfiança, empenho e determinação alcançam o topo do pódio.
Obrigada, Rio de Janeiro. Mesmo com todos os seus problemas, mais uma vez você mereceu o título de Cidade Maravilhosa.
Não fui ao Rio. Acompanhei os jogos pela televisão. Porém, tive a oportunidade de acompanhar a passagem da Tocha Olímpica por Santos no dia 22 de julho. Fiquei feliz por ter feito parte desse momento da história das Olimpíadas.

domingo, 14 de agosto de 2016

Superações de Rafaela Silva e de Diego Hypólito mostram importância de apoio psicológico

Lídia Maria de Melo
Os desempenhos dos atletas Rafaela Silva (ouro no judô) e Diego Hypolito (prata no solo da ginástica artística) na Olimpíada Rio 2016 evidenciam a importância que um tratamento psicológico pode ter na vida de uma pessoa atingida por um trauma emocional.
Rafaela sofreu com a desclassificação na Olimpíada de Londres, em 2012, e posteriormente com os ataques de internautas postados em redes sociais.  A judoca carioca entrou em depressão e pensou em abandonar o esporte.
Só decidiu retornar ao tatame após o acompanhamento de uma psicóloga.
O resultado foi a conquista da medalha de ouro olímpico na categoria 57 quilos, na última segunda-feira, dia 8.
Diego Hypolito também enfrentou problemas emocionais, depois de sofrer duas quedas durante apresentações olímpicas: em Pequim (2008) e Londres (2012).
A superação veio agora no Rio, depois de muito treinamento e acompanhamento psicológico. Hoje, finalmente Diego pôde desabafar: "Nunca deixem que digam até onde vai o seu sonho".
No dia a dia, não se deve  negligenciar problemas emocionais, acreditando que sempre será possível superá-los sem ajuda profissional.
Se para manter a saúde do corpo, busca-se acompanhamento médico, por que não procurar um psicólogo ou um psiquiatra quando a mente ou o emocional exigir?
Recorrer a auxílio especializado não deve ser visto como sinal de fraqueza. Rafaela e Diego são exemplos de que o cuidado com a mente também é uma atitude salutar. Deram a volta por cima e alcançaram seus objetivos. Superaram os fantasmas que os atormentaram. Estão felizes. Fizeram o Brasil feliz.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

Você sabe o que é "cutruvia" e " catraia"?

Lídia Maria de Melo

Quando alguém me pede o sinônimo de uma palavra, invariavelmente pergunto: "Qual é a frase?".
A pergunta tem fundamento. Uma palavra fora do contexto pode concentrar diversos sentidos (polissemia), ou não ter sentido algum.
O contexto é um conjunto de circunstâncias que ajudam na compreensão de uma mensagem. A partir dele, um fato ou um vocábulo adquire significado.
Na novela Velho Chico, escrita por Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi,  e apresentada na Rede Globo às 21 horas, a personagem Luzia costuma usar as palavras "catraia" e cutruvia".
Pelo contexto em que são empregados, não há dúvidas de que a mulher de Santo dos Anjos atribui aos dois termos uma carga semântica bastante ofensiva.

Catraia no Porto de Santos

Catraias atracadas na Bacia do Mercado, em Santos. 
À esquerda, o canal sob o  Porto.
Desde criança conheço a palavra "catraia". Trata-se de um barco, com um motor, tripulado por uma pessoa, o catraieiro.
Na travessia entre Santos e o distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, a catraia transporta 25 passageiros sentados, além do catraieiro.
Em Santos, o embarque (e desembarque) é feito na Bacia do Mercado.
A catraia segue por um canal, sob o cais do Porto, até alcançar o Canal do Estuário para, após atravessá-lo, atracar em outra estação de embarque e desembarque em Vicente de Carvalho.
Catraia.
Quando a maré está baixa, as catraias chegam a atolar no fundo do canal sob o Porto. Quando está alta, os passageiros precisam se curvar, mesmo sentados, para não baterem a cabeça no teto de concreto. Se a passagem fica inviável, a atracação é feita no cais do Porto mesmo e as catraias não chegam à Bacia do Mercado.
Se duas catraias se encontram em direção contrária dentro do canal sob o Porto, a água muitas vezes respinga nas roupas dos passageiros. Devido à concentração de óleo, as manchas se revelam quando os respingos secam. A única forma de retirar esse óleo da roupa é esfregar óleo de cozinha no local, até sumir a mancha. Depois, é só lavar.
Não ando de catraia há muitos anos. Acho que há mais de quatro décadas, mas de vez em quando passo perto da Bacia do Mercado e tudo está como sempre.
Voltando ao sentido da palavra "catraia", o que eu conheço nada tem a ver com o empregado por Luzia, em Velho Chico.
A mulher de Santo dos Anjos utiliza o termo para ofender Maria Tereza de Sá Ribeiro, a antiga e eterna paixão de seu marido. E não se trata de uma invenção semântica da personagem.
O dicionário Aurélio Século XXI (edição de 1999) registra "catraia" com quatro acepções, que são:

  1.  barco de pequeno porte; 
  2.  pequena construção, casinhola; 
  3.  meretriz; 
  4.  meretriz de baixa classe.
O dicionário Míni Houaiss (2008) e o Dicionário da Língua Portuguesa Comentado pelo Professor Pasquale (2009) só admitem "catraia" no sentido de barco pequeno.

Cutruvia
Se "catraia" é reconhecida pelos dicionários, inclusive pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), ao menos no sentido de "barco", o mesmo não ocorre com "cutruvia", outro xingamento do repertório de Luzia.
Essa ofensa repetida à exaustão contra Maria Tereza não tem registro no VOLP, nem nos dicionários citados acima.
Segundo o site O Nordeste.com , o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto Maior (2010), registra "cotruvia" (com "o") como prostituta de ínfima classe.
O site Dicionário Informal  apresenta dois conceitos para a palavra:
  1.  Mulher da vida, que se relaciona com homens comprometidos. Meretriz. Amante.
  2.  Pessoa por quem se nutre antipatia. 
Assim, "cutruvia", na linguagem falada, designa prostitutas.
Mesmo que não houvesse registro em nenhum local, seria fácil perceber seu significado. Bastaria prestar atenção à maneira como Luzia se expressa.
O contexto seria suficiente para esclarecer as dúvidas semânticas.

sábado, 30 de julho de 2016

Olimpíada também gera empregos e aquece o setor hoteleiro. Por que tanta crítica?

Há pessoas que cultivam o hábito de reclamar dos feriados brasileiros. Porém, elas se esquecem de que os setores de hotéis, restaurantes e entretenimento têm o maior fluxo de caixa durante as férias e os feriados.
Criticam também o Carnaval e a Olimpíada do Rio, mas não enxergam que empregos são gerados com esses eventos e o setor turístico (hotéis, restaurantes, entretenimento) lucra bastante.
A área de transportes também não fica atrás. Depende da movimentação maior de turistas internos e externos.
Não consigo entender! Parece que torcem contra o Brasil.
É certo que temos problemas, mas não podemos permanecer estagnados e não atuar em circuitos diversos.
Outra coisa: não é verdade que em outros países não existem tantos feriados como no Brasil. 
Em 2014, o Uol publicou um quadro com um ranking que derruba esse mito de que nosso País tem feriados demais.
Dá vontade de mandar esse pessoal ir catar coquinho.

domingo, 24 de julho de 2016

Tocha Olímpica em Santos, emoção para sempre

22 de julho de 2016.
Esperei duas horas (das 11h50 às 13h45) para ver a Tocha Olímpica em Santos, mas valeu a pena.
Uma emoção! Principalmente, porque se trata de um símbolo de união entre os povos.

Na orla da praia, pude testemunhar o chamado "beijo olímpico" ou "beijo da chama", que é o momento em que uma tocha encontra-se com outra e a acende.  


Depois de ter passado pelas cidades de Praia Grande e São Vicente, onde passeou de teleférico e voou de paraglider, chegou a Santos, no bairro do José Menino. De lá, seguiu pelo Canal 1 até a Vila Belmiro, no Estádio Urbano Caldeira, do Santos Futebol Clube. Na sequência, foi levada pelo Canal 2 novamente até a orla da praia.  


Acompanhei-a da Fonte dos Sapos, entre os canais 5 e 6, até o Aquário Municipal, na Ponta da Praia. Dali, seguiu para Guarujá, pelo mar, de catraia, nas mãos do surfista Mineirinho. 
Foi uma manhã de festa, ao som de aplausos, ovações, bandas escolares, carro de som, buzinas. 



Pena não ter acompanhado o trecho próximo ao Canal 2, onde uma integrante da Força Nacional carregou a tocha e seus companheiros cantaram "Minha vida é andar por este País/ pra ver se um dia descanso feliz", a  exemplo do que ocorreu em Fortaleza.
Quando essa moça passou a tocha para Cidão Mello, ex-jogador da Seleção de Vôlei, todo o grupo da Força Nacional se juntou e fez uma foto, comemorando.
Cidão, por sua vez, incluiu na última hora uma passagem por um trecho do jardim da orla. 
No final da tarde, a Tocha Olímpica retornou de Guarujá para Santos, em um cortejo de  canoas havaianas, nas mãos do canoísta Fábio Paiva. (Clique no vídeo abaixo, para assistir).
video

O revezamento continuou em outros bairros da cidade de Santos, como o Valongo, onde está o Museu Pelé. Ali, houve a participação do Atleta do Século.
Depois de andar de bondinho pelo Centro Histórico, a tocha foi levada por atletas olímpicos até a Praia do Gonzaga, onde o ex-jogador Pepe, do Quinteto Mágico do Santos (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe) acendeu a Pira.
Foi um espetáculo inesquecível.
Uma imagem para permanecer eternamente na memória.

Reveja aqui o vídeo dirigido por Fernando Meirelles e apresentado pelo Brasil na candidatura pela realização da Olimpíada de 2016.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...