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sábado, 1 de julho de 2017

Jornal Cidade de Santos: 50 anos hoje

Hoje, completam-se 50 anos do lançamento do jornal Cidade de Santos, da empresa Folha da Manhã ou Grupo Folhas. O diário circulou por 20 anos, de 1.º de julho de 1967 a 15 de setembro de 1987.
Quando o Cidade surgiu em Santos, eu ainda era criança. Quando cresci e me formei em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, depois de ter também feito Letras, foi lá na Redação do Cidade de Santos que iniciei minha carreira de jornalista, em 2 de janeiro de 1986. 

Quem estava no comando era o editor-chefe Gabriel Tranjan. Por um ano e nove meses, atuei como repórter e copidesque. Depois o jornal encerrou as atividades e eu fui trabalhar no jornal concorrente, A Tribuna, com passagem concomitante de cinco anos pela revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita, do Grupo Abril. Por 23 anos, de 1988 a 2011, em A Tribuna, exerci as funções de repórter, subeditora e editora.
No ano passado, orientei o 
TCC (trabalho de conclusão de curso) de uma aluna do curso de Jornalismo sobre a história do Cidade de Santos.
Em 15 de setembro de 2007, em meu antigo blog, escrevi um texto, ilustrado por fotos, relatando um pouco das minhas lembranças sobre esse jornal que não sai da memória dos santistasReproduzo abaixo, porque todas as informações continuam valendo. 

Hoje (15/9/2007), faz 20 anos que o Cidade de Santos parou de circular. A imagem acima reproduz a primeira página da última edição em 15 de setembro de 1987. À esquerda, foi publicado um comunicado dirigido aos leitores sobre o encerramento das atividades. O editor-chefe era José Alberto  Moraes Alves Blandy. 
Fundado pelo Grupo Folhas em 1967, quando eu ainda era criança, o Cidade de Santos foi o jornal em que iniciei minha carreira como jornalista. Comecei a trabalhar na redação situada na Rua do Comércio, 32, esquina com a XV de Novembro, no Centro, em 2 de janeiro de 1986. O editor-chefe era Gabriel Tranjan, um excelente profissional. Fiquei até o fatídico 15 de setembro de 1987, quando a edição circulou com 14 páginas, divididas em dois cadernos. Na última, o título era bastante sugestivo: ''Esta cidade está abandonada. É o fim''.


Guardo comigo quase todas as matérias que produzi no Cidade de Santos. A da reclamação contra um laticínio foi a primeira, feita em 2 de janeiro de 1986, com o repórter-fotográfico Adalberto Marques, e publicada no dia seguinte.
No dia 3 de janeiro de 1986, fiz uma matéria na Sabesp sobre falta de água. O superintendente era o Maurílio Mariano, irmão do ex-prefeito de Guarujá, Maurici Mariano. Foi a manchete do jornal do dia 4 de janeiro de 1986. A foto era do repórter-fotográfico Ademir Barbosa, falecido há cerca de dois anos.

Em fevereiro de 1986, elaborei o caderno de Carnaval.
Tenho também um álbum que o jornal lançou em maio de 1968, para que a garotada colasse figurinhas de personalidades santistas, que eram publicadas em suas páginas.
Quando o jornal fechou, a regional santista do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo emitiu nota de repúdio, que foi distribuída à população.
A notícia foi publicada no Jornal da Tarde e em outros periódicos.
Entre tantas reportagens que fiz, gostei muito de ter relembrado, em fevereiro de 1986, a circulação do último bonde em Santos 15 anos antes (matéria especial de página inteira) e de ter entrevistado o bailarino de fama internacional que morava na Rua Floriano Peixoto, em Santos, Décio Stuart.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rota cruzada

(Lídia Maria de Melo)

Por que é que eu sempre te encontro?
Por que tua boca  não sai
de tudo o que posso ver
na tela da minha tevê?
O toque do telefone te atormenta,
quando estamos sozinhos, e eu sei.
Não devias ligar.
No saldo,
vale o passeio na mata,
meus dedos na tua mão,
um ouvido na cachoeira
e o outro no coração.
As caixas de chocolate
e  teus carinhos macios
na pele das minhas costas.
O teu jeito meio moleque dengoso
de grudar no meu pescoço
e se escanchar com as pernas
em torno de minha cintura.
Podem transcorrer uns mil anos,
ninguém vai ultrapassar
as nossas intimidades.
Teu gosto na minha boca,
a tua boca em mim,
e eu me desintegrando,
entregue no teu deleite.
Há algo além de estranho.
Há muito mais do que o acaso
na nossa rota cruzada
no mesmo tempo e espaço.
É muito mais que luxúria.
Transcende o limite do lógico.
Prefiro chamar de carinho.
De ti já vem outro nome.
Não penso em rotular,
me dou permissão de sentir.
Uma história deixa rastros.
Não vou insistir, nem brigar.
Pode ficar em sossego,
toda esta trajetória
é nosso jeito de amar.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Dia Mundial de Luta Contra o Lúpus

Hoje é Dia Mundial de Luta contra o Lúpus.
Para quem não sabe, em latim, "lupus" significa "lobo". Na classificação médica, lúpus é uma doença autoimune, da espécie reumática, que não tem cura, mas pode ser controlada. 

Dos 15 aos 36 anos, convivi intimamente com essa doença e seus efeitos colaterais.
Não sei se foi algum caçador, como o do conto de Chapeuzinho Vermelho, que entrou em ação, ou se foi obra divina, mas meu lúpus está em remissão há muitos anos e, desde então, fiquei livre de tomar cortisona diariamente. 

Neste momento, não posso mais escrever, mas neste blog há alguns textos sobre o assunto. Deixo os links abaixo. 
É importante falar sobre o tema, para dar alento a quem sofre com esse mal.
De minha parte, afirmo: é possível vencer o lúpus, mesmo que às vezes a gente quase acredite que não.


Leia mais:


domingo, 30 de abril de 2017

Atentado da extrema direita no Riocentro completa 36 anos hoje

Lídia Maria de Melo

Anúncio do show ilustrado por Ziraldo
Hoje, por volta das 21 horas, completam-se 36 anos do Atentado do Riocentro, pavilhão localizado na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
Naquela noite de 30 de abril de 1981, realizava-se um show de música popular brasileira para 10 mil pessoas, em comemoração ao Dia do Trabalho, que transcorreria no dia seguinte, 1.º de maio.
Cerca de 30 cantores participavam da festa. Elba Ramalho cantava quando a bomba explodiu em um Puma, do lado de fora
O Brasil ainda vivia uma ditadura militar, mas já se encaminhava para um processo de abertura política. A Lei de Anistia havia sido assinada em agosto de 1979, o bipartidarismo já havia chegado ao fim e a sociedade se organizava em torno da retomada da eleição para presidente da República. A extrema direita não se conformava com a possibilidade de redemocratização do país. Assim, organizava atentados para atribuí-los à esquerda. Dessa maneira, justificaria um retrocesso e a permanência dos militares no poder.
A ação só não obteve êxito, porque algo saiu errado. A bomba que deveria matar as pessoas que estavam no Riocentro explodiu dentro de um automóvel Puma, no colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, conhecido como "agente Wagner", do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão subordinado ao Exército.
O sargento morreu na hora, com o corpo destroçado. Seu companheiro de ação, o capitão Wilson Luís Chaves Machado, de 33 anos, alocado no mesmo destacamento, ficou gravemente ferido, com as vísceras de fora.
Bomba explodiu antes, dentro do Puma 
No bolso da calça do sargento havia uma lista com nomes verdadeiros de civis e militares de extrema direita envolvidos com torturas e espionagem.
Anos depois, veio a público a informação de que, dentro do pavilhão, dez dos 14 portões estavam fechados, o que impediria a saída das pessoas, caso uma bomba explodisse lá dentro. Também havia sido programada uma explosão no setor de energia elétrica, para deixar o Riocentro às escuras.


Deputado insinua que agentes do Exército eram os responsáveis
ATENTADOS QUE SÉRGIO MACACO EVITOU
Durante a ditadura militar, a extrema direita realizou outros atentados com o intuito de incriminar a esquerda e justificar ações contra seus integrantes.
Em 1968, um desses atos não foi realizado graças ao capitão paraquedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, conhecido como Sérgio Macaco. Alocado no esquadrão Para-Sar, unidade aeroterrestre de salvamento da Força Aérea Brasileira, Sérgio Macaco recebeu ordens do brigadeiro João Paulo Burnier, chefe de gabinete do Ministério da Aeronáutica, para colocar bombas em locais estratégicos no Rio de Janeiro, como Loja Sears, Citibank e embaixada norte-americana. Enquanto ele e sua equipe socorreriam as vítimas de helicóptero, outras bombas deveriam ser acionadas por controle remoto na Represa de Ribeirão das Lajes, para acabar com a água, e no Gasômetro, em São Cristóvão. Esses atos deveriam ser atribuídos aos integrantes de organizações de esquerda, que eram chamados de "subversivos".
O capitão Sérgio Macaco não acatou as ordens de Burnier e ainda denunciou-o. Apesar de as denúncias terem chegado ao presidente da República de então, Arthur da Costa e Silva, Burnier foi absolvido e Sérgio Macaco, transferido para Recife (PE). Pouco tempo depois, foi cassado e expulso da Aeronáutica. Somente anos e anos depois, teve seu nome reabilitado.
OUTRAS AÇÕES DA DIREITA
Ainda em 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancaram o elenco da peça Roda Viva, de Chico Buarque, que estava sendo encenada.
No Rio de Janeiro, o Teatro Opinião foi destruído pelo CCC com bombas e coquetéis molotov.
Em 1976, uma bomba explodiu parte do sétimo andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). No mesmo dia, outro artefato foi lançado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio. No mês seguinte, Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado e torturado.
Em 1980, bancas de jornais foram incendiadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porque vendiam jornais alternativos.
Em 27 de agosto de 1980, como parte da Operação Cristal, uma carta-bomba destinada ao presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Eduardo Seabra Fagundes, matou na hora a secretária Lida Monteiro da Silva. O funcionário José Ramiro dos Santos também ficou ferido no atentado.
No mesmo dia, outras duas cartas-bombas foram entregues e detonadas no Rio de Janeiro. Uma, no gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho (PMDB), deixando seis pessoas feridas, e outra, na sede do jornal Tribuna da Imprensa.
Os autores dos atentados de 1980 envolveram-se no do Riocentro, meses depois, mas nunca foram punidos.
HOMENAGEM
A mesa de dona Lida Monteiro da Silva, com as marcas da bomba, está exposta no Memorial da OAB, em Brasília. O nome dela foi dado ao Museu Histórico da entidade.

sábado, 4 de março de 2017

Aloha! Canoas havaianas partem de Santos para o 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Lídia Maria de Melo
Antes da largada, equipes rezaram e soltaram gritos de guerra e aloha
(texto e fotos)
Hoje de manhã, levei minhas sandálias havaianas para assistirem à largada do 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro de Canoas Havaianas, na Praia da Aparecida, em frente ao Colégio Escolástica Rosa, em Santos.
Os canoístas foram para o mar às 10 horas, depois que cada equipe deu seu grito de guerra e todos os participantes, de mãos dadas, formaram um círculo, rezaram em silêncio e, por fim, soltaram em uníssono um "aloha", saudação do povo havaiano, que tem significado de "amor", "afeto", "paz", "compaixão", "misericórdia" ou, simplesmente, "olá" e "tchau".
31 equipes participam do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Largada na Praia da Aparecida, em Santos
Durante a partida, o Porto de Santos permaneceu fechado. As embarcações de grande porte, como os navios, não puderam entrar ou sair do canal portuário, para permitir a passagem das canoas de 31 equipes participantes, além dos barcos e caiaques de apoio. 
As equipes são procedentes de vários estados brasileiros (Bahia tem cinco grupos) e de países estrangeiros, como Chile e Argentina. A prova inclui categoria masculina, feminina, mista e máster.
Largada na Praia da Aparecida, em Santos
O percurso da prova tem 75 Km, com trechos de mar e rio. Cada equipe é formada por nove atletas. Seis permanecem remando na canoa e três ficam em barco de apoio, para fazerem  revezamento com os remadores. A troca de atletas é realizada com as embarcações em movimento. As remadas são ininterruptas.
Ponto de partida e chegada, Praia da Aparecida
Depois da largada na Praia da Aparecida, as canoas seguiram costeando a Ilha de Santo Amaro, passando pelas praias de Guarujá, até conseguirem alcançar o Canal de Bertioga, depois o Canal do Estuário, no Porto de Santos, e, por fim, encerrarem no ponto de partida, em Santos.
A competição é organizada pelo canoísta Fábio Paiva e conta com um extenso rol de patrocinadores.
Durante a largada, uma cena chamou a atenção. Enquanto os canoístas desafiavam as ondas com remadas incessantes, na areia da praia, sob um sol já bastante forte, o ultramaratonista Valmir Nunes arrastava outros atletas para a corrida. Cada qual com seu esporte.
Ultramaratonista Valmir Nunes, sem camisa.

Outro ponto que não passou despercebido foi o uso de drones na cobertura da competição. Ainda na  na faixa de areia, o locutor chegou a advertir para o risco de acidente entre os equipamentos.
Na foto abaixo, é possível ver um dos drones.
Drone (dentro do círculo laranja) acompanha a largada

Fábio Paiva
O organizador do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro, o canoísta e multimedalhista Fábio Paiva, é introdutor da canoagem oceânica no Brasil.
Eu o conheci, profissionalmente, em 1990, quando o entrevistei para o jornal A Tribuna, de Santos, onde atuei por 23 anos, de 1988 a 2011, como repórter, subeditora e editora, e para o qual ainda colaboro esporadicamente.
Paiva, que também é engenheiro, havia projetado caiaques para dois fotógrafos publicitários, Vito D´Aléssio e Renato Dutra, que participaram da expedição pioneira batizada de Projeto Xingu, em 1989. As embarcações de fibra de vidro e resina de poliéster foram desenhadas e construídas na oficina Opium Competition Ltda., que na época Paiva mantinha no Bairro do Paquetá, em Santos.
Minha reportagem sobre o Projeto Xingu saiu publicada na edição de 8 de janeiro de 1990. Veja reprodução abaixo:

Fábio Paiva desenhou e construiu os caiaques
usados no expedição Projeto Xingu





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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Entre isso e aquilo" ou " entre isso ou aquilo"?

Outro dia, uma jornalista que foi minha aluna, enviou-me esta pergunta sobre o emprego da preposição "entre":
Professora, escrevi um texto usando ENTRE: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa e honrar os compromissos financeiros."
Aí o editor corrigiu: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa ou honrar os compromissos financeiros".
Fiquei na dúvida! Entre isso e aquilo OU Entre isso ou aquilo?
                                                                 ***
Esclareci a questão com esta resposta:
Uma das acepções da preposição "entre" é "a meio de" (dois espaços, dois tempos, duas situações etc).
Dessa forma, citando um exemplo do dicionarista Antônio Houaiss, podemos dizer: "O livro estava entre a mesa e a estante".  E ainda: "Está em dúvida entre a primavera e o outono".
Com base nesses enunciados, referendados por um dos maiores filólogos brasileiros, podemos concluir que você escreveu corretamente.
Seu editor deve ter se confundido com a expressão "ou isso ou aquilo" (sem "entre"). Utilizando a preposição "entre", o correto é como você usou, ou seja, com a conjunção "e".
Para empregar o "ou", o enunciado deve excluir o "entre". Desta forma : "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher: (DOIS PONTOS) ou colocar comida na mesa, (VÍRGULA) ou honrar os compromissos financeiros".
Reforçando, o correto é "entre isso e aquilo". 
Um abraço.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Para sempre Dom Paulo Evaristo Arns

Soube da morte de Dom Paulo Evaristo Arns no início da tarde de ontem.
Apesar de ele ter idade avançada e de que um dia todos nós iremos, lamentei e lamento muito sua partida.
Como cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo teve uma atuação importantíssima na defesa dos direitos dos perseguidos pela ditadura militar no Brasil. Salvou muitas vidas.
Em 1985, assinou o livro "Brasil, Nunca Mais", porque a equipe que o elaborou e desenvolveu o projeto de mesmo nome não poderia se identificar, pois corria risco de vida. O primeiro exemplar vendido em Santos eu comprei, na então Livraria Atlântica, depois Siciliano e hoje, Saraiva, na Avenida Ana Costa, no Gonzaga.
No prefácio desse livro, a respeito da tortura, morte e desaparecimento de presos políticos, ele escreveu: "Não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu".
Dom Paulo já conquistou um lugar no céu há muito tempo. Vai se encontrar com a irmã. Dra. Zilda Arns.
Para sempre Dom Paulo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar morreu. Viva Ferreira Gullar!

Ferreira Gullar morreu. Viva o poeta Ferreira Gullar! 
Parafraseando Guimarães Rosa, um poeta não morre, fica encantado. 
A poesia de Ferreira Gullar estará sempre me rodeando.
Quando eu estava no 7º. semestre de Jornalismo, na Faculdade de Comunicação de Santos, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atualmente UniSantos, o antigo prédio da Facos, na Pompeia, era de blocos e concreto aparente. Achávamos que era muito cinza e resolvemos pintar nossa classe. Eu participei da pintura interna e depois escrevi, com tinta amarela, no corredor, na parede externa, ao lado da porta de entrada da sala, um trecho do poema "No Mundo Há Muitas Armadilhas". 
Ferreira Gullar era um homem feio, de cabelo liso e comprido, que soube lidar com o exílio político, com as instabilidades de dois filhos esquizofrênicos. 
Tinha uma mente de vanguarda, mesmo aos 86 anos. A obra de Ferreira Gullar estará sempre comigo. Valeu, poeta!

NO MUNDO HÁ MUITAS ARMADILHAS

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentaras até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.


domingo, 20 de novembro de 2016

Pé de cidreira, um resgate de carinho

            



                                                     
 Lídia Maria de Melo 
(fotos e texto)

No fundo do quintal 
da casa de minha infância, 
havia um pé de cidreira.
Para ele, acorríamos
em busca de umas folhas
que aplacariam as dores
de nosso estômago ou intestino
depois de maceradas
e mergulhadas em água fervilhante.
Era um pé de uns sessenta centímetros
de altura, com cheiro doce e acolhedor.
Às vezes, nos dava flores miúdas
e perfumadas,
atração auspiciosa para abelhas e passarinhos.
Um grande companheiro de infância.
Fiel e protetor.
Hoje, que o tempo correu,
minha infância vive em um cofre de sonhos
e aquela casa nem existe mais,
a não ser nas gavetas da memória
e nos instantes das fotografias,
um novo pé de cidreira
acompanha meu dia a dia
neste jardim suspenso
de terraço de apartamento.
Também é atração de pássaros
com seu odor adocicado
e as florzinhas ocasionais.
Para matar a saudade,
mesmo sem dor de barriga,
nem estomacal,
 volto a fazer o chá que
minha mãe me ensinou.
É um resgate de carinho,
como canção de ninar,
um jeito de vencer o tempo
e reviver emoções 
ao menos pelo paladar.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois minutos de superluar

         Lídia Maria de Melo

Dois minutos de luar,
De visão, encanto e brilho
Na noite nublada e de vento.
Lua gigante, super, mega.
Lua cheia de novembro,
que fura nuvem, embala sonhos.
Lua que não se inibe, sob ameaça de chuva.
Lua famosa e notícia. De jornal, rádio, internet e TV.
Lua disputada por olhares deslumbrados
em terra, no mar, na saudade.
Lua fotografada, filmada,
bênção no céu do Brasil e de outros continentes.
Lua surpresa, presente, majestosa, magistral.
Lua satélite, mística, musa, rainha do céu.

Lua, prosa, poesia, verso de menestrel.

video


domingo, 13 de novembro de 2016

À beira do abismo, sob a chuva, passarinho descobre sua identidade, sua instintiva vocação


Lídia Maria de Melo (texto e fotos)

Com a presença de passarinhos nos terraços de meu apartamento, já estou acostumada, por causa das plantas, das flores. Mas não, com um deles no beiral da área de serviço.
Foi o que aconteceu neste sábado, às 13h30.
Chovia, quando ouvi um piado insistente e alto. Apanhei meu celular e fui na ponta dos pés tentar fotografar o animalzinho alado. Segui o som, um tanto desesperado. No terraço da sala não havia nada. Continuei a busca e cheguei à cozinha. Depois, à área de serviço.
Já estava com medo de me deparar c
om um pássaro perdido dentro do apartamento. Certamente, eu estaria em apuros.
Mas o que encontrei foi esse rapazinho da fotografia (ou seria uma mocinha?) piando, como a pedir socorro, para fugir da chuva.
Havia um outro com ele, que não hesitou em escapar, ao perceber minha aproximação.
Talvez fosse a mãe dele. Uma mãe um tanto desnaturada.
O(a) sujeitinho(a) estava visivelmente com medo e com frio, tentando evitar os pingos da chuva.
O olharzinho dele implorava ajuda, mas eu, covarde, fechei os vidros da área de serviço.
Passei a fotografá-lo, penalizada com o piado sofrido.
Imaginei que ele ainda era um filhote, que não sabia voar. Mas como teria chegado àquela altura de mais ou menos 20 metros?
Deixei-o lá à própria sorte. Não gostaria de estar na sua pele (ou nas suas penas).
Passados uns minutos, os piados cessaram.
Voltei lá, para conferir o que acontecera.
Bingo! O passarinho (re)descobriu sua identidade, sua instintiva vocação. Bateu asas e voou.
A mim, restaram as fotos e a curiosidade sobre a espécie daquele bichinho indefeso e ao mesmo tempo tão livre.
Alguém saberia identificar a espécie desse pássaro?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal fluminense Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
      UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
               CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.

     

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ministra defende juiz federal, mas ofende a Língua Portuguesa

Lídia Maria de Melo

Com a devida vênia, preciso comentar a fala da ministra Cármen Lúcia, na abertura da sessão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) puxou a orelha do presidente do Senado, Renan Calheiros (sem citar o nome dele), na defesa do juiz federal Vallisney Souza Oliveira, e cometeu uma ofensa à Língua Portuguesa. Logo ela que fala tão bem e disse, equivocadamente, que o termo "presidenta" estava errado, insinuando que a ex-presidente da República não havia estudado.
Hoje, ela cometeu erros de concordância ao dizer: "Todas as vezes que um juiz é agredido, eu e cada um de nós, juízes, é agredido".
A expressão "cada um de nós" leva o verbo para o singular. Nesse caso, o uso do verbo "ser" no singular estaria correto ("Cada um de nós é"). Porém, a ministra adicionou a essa expressão o pronome pessoal "eu", formando um sujeito composto. 
Nesse caso, o verbo "ser" deveria ter sido usado no plural, assim como o adjetivo: "Eu e cada um de nós, juízes, somos agredidos".
Com todo o respeito à ministra Cármen Lúcia, fico imaginando a repercussão, caso esse deslize fosse cometido pela ex-presidente Dilma ou pelo ex-presidente Lula.

Em tempo: A defesa da ministra ao juiz federal Vallisney Souza Oliveira está relacionada à ofensa que o presidente do Senado fez ao magistrado, porque ele autorizou a prisão de quatro policiais legislativos na semana passada, dentro da Operação Métis.

(Republicado do blog Prosa Linguística)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Azaleias, rosa e orquídeas, uma carícia para meus olhos e para minha alma

Texto e fotos de Lídia Maria de Melo (postagem atualizada em 12 de novembro de 2016)
                                                                         
    
As azaleias são como eu. No clima ameno e frio, mostram todo seu viço. Quando chega o calor, elas começam a murchar, incomodadas. Em compensação, hoje, quando fui regar as outras plantas aqui do jardim suspenso, deparei-me com uma orquídea linda, escondida entre o tronco de um antúrio. Não sabe ela o quanto me deleitou. Em outro canto, uma rosa faceira absorvia os raios indiretos do sol, acariciando meus olhos. 
Não tem jeito: somos parte da natureza.
Às vezes penso que somente ela tem o dom de nos salvar.
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Ontem, a orquídea acima me fez uma surpresa no meu jardim suspenso.
Hoje (27 de outubro), ela não está mais sozinha. Uma outra, de beleza igual, lhe faz companhia. E uma terceira, ainda em botão, já começa a vingar. É a força da vida, é um impulso em nós.


12  de novembro de 2016. Volto a esta postagem, para dar notícias das orquídeas que aparecem nos textos e fotografias acima. Hoje, elas são três e continuam viçosas e belas, alegrando minha visão.
  


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