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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Ressaca do mar em Santos é um alerta
sobre a elevação acelerada dos oceanos

Lídia Maria de Melo

Força da maré jogou barco "Gênesis" contra a mureta
O que é do mar o mar toma. Um dia Santos ficará sob as águas.
Cresci ouvindo essa profecia popular. Pessoas mais velhas repetiam-na como se fosse uma verdade inquestionável. Quem era criança se impressionava. Os adolescentes, com sua natural arrogância, desdenhavam. Bobagem!
Lembro-me de uma inspetora de alunos da escola em que eu estudava o Curso Normal, para me formar professora, dona Lídia, minha xará, a dizer repetidas vezes que gostaria de voltar a morar no interior do Estado de São Paulo. Ela era de Olímpia e temia que o mar invadisse Santos inteira. Apesar de ouvi-la com educação, eu acreditava que o medo de dona Lídia jamais iria se concretizar. Crendice!
Erosão na Praia da Aparecida, em Santos,
sugere que a faixa de areia já foi aterrada
Minha mãe até hoje relata que, quando chegou a Santos, em 1953, ainda uma menina, o bairro da Ponta da Praia era praticamente composto por manguezal e chácaras de japoneses que cultivavam chuchus. Com exceção das avenidas e ruas mais nobres, a maioria das vias era de terra batida, sem asfalto. Isso ocorria, por exemplo, na Vila Hayden, no Bairro do Embaré, em ruas como a Bambual e a Frei Francisco Sampaio, entre outras.
Mureta quebrada pela ressaca de domingo
Sessenta e três anos depois, o próprio mar confirma a profecia popular.
No domingo pela manhã, percebi que as águas, normalmente tranquilas como as de uma piscina, espumavam demais. O mar estava de ressaca, como se houvesse bebido excessivamente e agora quisesse pôr fora tudo o que lhe fazia mal. Do alto, tive a impressão de que as ondas alcançavam a Fonte do Sapo.
Por volta das 16h30, a desconfiança virou certeza.
A maré subiu 2,60 m, alagando as duas pistas das avenidas Saldanha da Gama e Bartolomeu de Gusmão, na Ponta da Praia, além de garagens de edifícios e do Clube de Regatas Vasco da Gama. Com a ajuda do vento que soprava forte desde a madrugada, atingindo 90 Km/h, segundo a Base Aérea de Santos, e da chuva, a ressaca do mar fez estragos.

Calçada à beira-mar ficou esburacada
 
                                        Vídeo mostra mureta que margeia o canal do estuário

Quebrou mais uma vez, em vários pontos, a mureta branca da Ponta da Praia, derrubou árvores, esburacou calçadas de mosaico português, lançando pedras à distância, arrastou um contêiner para a avenida da orla, alagou o Museu de Pesca, quebrou o Píer do Pescador, jogou o barco "Gênesis" contra a murada que margeia o canal de entrada do Porto de Santos, perto da estação das barquinhas que fazem a travessia entre Santos e Guarujá. A Ponte Edgard Perdigão também ficou inundada. Ali, moradores do bairro guarujaense de Santa Cruz dos Navegantes e da Praia do Góes embarcam e desembarcam em Santos.

Vento e ondas destruíram brinquedos na Praia da Aparecida  
A travessia de barcas e balsas entre Santos e Guarujá foi interrompida por duas horas.
Na Praia da Aparecida, a Fonte dos Sapos transbordou de água salgada. Dos brinquedos instalados na areia, sobraram carcaças. Na faixa de areia, as tubulações subterrâneas ficaram expostas, assim como dutos e as raízes dos coqueiros plantados pela Administração Pública.
Lama comprova que água do mar invadiu a Fonte do Sapo
Tubulações e dutos subterrâneos ficaram expostos na praia

Na segunda-feira, causava impressão forte a erosão das camadas de terra na praia.
Tenho poucos conhecimentos geológicos a respeito de Santos. Sei que a cidade possui o segundo pior solo do mundo para construções (o primeiro é o da Cidade do México), devido a uma camada de argila muito espessa. Por isso, os prédios mais antigos, erguidos no sistema de sapatas, sem fundação com estacas, são tortos. Nossa orla marítima ostenta uma coleção de edifícios tão inclinados que deixam a italiana Torre de Pisa com inveja.
Maré alta jogou contêiner na calçada
Sei também que a areia das praias de Santos é escura por dois motivos: por ser muito fina, o que a faz reter muita umidade, e por ter mais minerais pesados, como mica preta brilhosa, por exemplo, e matéria orgânica, vinda do mangue (decomposição de folha, galho e outros elementos naturais).
Apesar de não ser especialista, fiquei com a impressão de que algumas praias de Santos foram aterradas e a ressaca levou essa camada artificial, deixando apenas a que realmente faz parte da composição original, na Ponta da Praia e na Aparecida.
Será que falo bobagens? Estou tentando ouvir um especialista.
Parte da mureta branca foi derrubada mais uma vez
Não vou me alongar sobre esse assunto, porque não tenho informações exatas sobre esse fato. As fotos que fiz na segunda-feira são mais eloquentes. A paisagem que a ressaca deixou leva-me a pensar que o homem aterrou a faixa de areia e o mar veio tomar de volta o que é dele por direito, fazendo valer e se concretizar a profecia popular: "O que é do mar o mar toma. Um dia, Santos vai ficar sob as águas".
Vento de 90 Km/h e  ondas derrubaram coqueiros
Iniciada em 2006 e concluída em 2009, pesquisa do engenheiro e professor Gilberto Berzin  e do biólogo Renan Braga Ribeiro, do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília (Unisanta), concluiu que Santos terá áreas extensas alagadas e atingidas pelas ondas, em função da elevação do nível dos oceanos. Isso, até o final deste século.
Píer do Pescador foi totalmente destruído

Garagem de subterrânea foi inundada pela água salgada
Em reportagem da jornalista Andrea Rifer publicada no jornal A Tribuna, sob minha supervisão editorial, em 3 de dezembro de 2009, os dois pesquisadores alertavam para a necessidade de planejamento para enfrentar o problema.
Eles sugeriram que esse planejamento tomasse como base a experiência da cidade de  Amsterdã, na Holanda, que tem parte de seu território a 2 metros abaixo do nível do mar. Veja a reportagem aqui.
Os sinais do Oceano Atlântico estão nos alertando: ou agimos rapidamente, ou teremos que dar adeus ao litoral.
Canal 6 é um dos que drenam a cidade de Santos, como
 parte do projeto centenário do sanitarista Saturnino de Brito 

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