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sábado, 28 de agosto de 2010

Processo de criação. Tua casa. Teu perfil



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A criação de um texto está sempre relacionada a uma história. A composição do meu poema Tua casa. Teu perfil não escapou a essa regra. Em abril de 1990, a editora Fátima Francisco, do Caderno de Reforma e Decoração, que seria encartado, em formato tabloide, no jornal A Tribuna, edição de 26 de maio daquele ano, perguntou-me se eu tinha uma poesia ou prosa sobre aquele tema. Para a página 2, verso da capa, ela havia idealizado a publicação de um texto ilustrado. Eu não tinha, mas aceitei o desafio de escrever. À noite, quando cheguei a minha casa, sentei na sala e imaginei uma pessoa estranha excursionando por ela e tentando desvendar a personalidade de quem ali morava. Foi assim que, no dia 24 de abril de 1990, nasceu o poema que foi publicado como Tua casa. Tua cara e teve ilustrações do Seri e Bar (foto ao lado). Mais tarde, mudei o título.

Tua casa. Teu perfil

             (Lídia Maria de Melo)

Num cochilo do porteiro,
roubo a chave do quadro,
pé ante pé sorrateiro,
galgo o terceiro andar.

Um giro na fechadura,
um outro, na maçaneta,
correr de olhos ligeiros:
o teu mundo se revela.

Na gravura de Ouro Preto,
o mistério de teus gestos,
a elegância de teu porte,
requinte de beija-flor.

A mistura de estilos
deslizando pelos cantos,
entre versos de Pessoa
e enredos de Piñon.

Prato inglês de porcelana,
tons de branco e marrom.
Chapéu de corte exótico
sombreando teu olhar

siamês. E o sorriso
bronzeado no retrato.
Moldura de madrepérola
no piano. A janela.

Surpreendo a pulseira,
jade e prata, displicente,
sobre a mesa de madeira
brilhando cera jasmim.

Os teus modos sacrossantos,
face e cabelo ciganos
estampados na escultura,
mulher de pedra-sabão.

O videocassete preto
guardando Cármen, de Saura.
Recostado na estante
o Bolero, de Ravel.

Nunca te vi dançar
tango, lambada ou tuíste,
mas a cozinha me mostra
teu bailado, teu tempero.

O teu cheiro no banheiro,
xampu, perfume indiano,
a bota de couro cru
no tapete macramê.

A cortina entreaberta,
o vestido de flanela,
a cadeira de balanço,
almofadas pelo chão.

Um mosaico de segredos
nos teus passos de gazela,
nos detalhes, nas paredes,
tua cara, teu perfil.

Pelas frestas entram raios,
arco-íris, tons vermelhos.
Teus desejos espalhados
num pedaço de espelho.

(Santos - 24/4/1990)


2 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Puxa vida, que força e que vida nestes versos. Vi e senti tudo guiado pela tua mão, Lídia. Belo.

Vânia Lúcia Augusto disse...

Você é fantástica e escreve fantasticamente! bjo e saudades... (vc faz falta!)