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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De apagão a Consciência Negra,
passando por República e minissaia

Alguns assuntos foram notícias este mês, mas a falta de tempo me impediu de fazer postagens sobre eles. Mesmo com atraso, acho que ainda é hora de escrever.

Apagão
(Foto de Lídia Maria de Melo)
Quando um pão se torna verde de mofo, certamente o prazo de validade já venceu.
Para quem enxerga normalmente, encontrar na embalagem a data-limite para consumo de um produto é tarefa que envolve certo pendor investigativo.
Fico imaginando como deve ser difícil para um cego conseguir saber esse prazo. Essa dificuldade é muito maior para eles, já que os prazos não estão traduzidos em braile.
No entanto, durante o apagão que atingiu 18 estados brasileiros, das 22h15 do dia 10 até às 5 horas do dia seguinte, os cegos tiraram a escuridão de letra.
Eu estava quase saindo do trabalho quando tudo virou breu. A interrupção abrupta de energia me fez lembrar de 1999. Também me veio à mente uma notícia da Folha de S. Paulo sobre a ação de hackers em nosso sistema elétrico. Achei uma grande coincidência que, um ou dois dias depois da tal notícia, ficássemos totalmente dependentes da luz de velas, lanternas e celulares.
Para mim, foi uma ação hackeriana. Os responsáveis por ela, sempre uns garotos, quiseram mandar um recado: ''Fomos nós mesmos''.
Para o Governo Federal, essa hipótese é absurda. E toda a responsabilidade recaiu sobre a natureza. Foram os raios que partiram os cabos de transmissão de Itaipu. Fizeram até um especialista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) se calar. Desclassificaram suas declarações de que raios não seriam capazes de provocar aquele incidente.
Ainda bem que não somos bobos e o País inteiro (ao menos, a população dos 18 estados que ficaram às escuras) ainda busca a verdadeira razão de termos ficado nas trevas durante horas. Quando voltei para casa, fui obrigada a usar o farol alto. Olhar pelo retrovisor era ver na natureza a cor negra. No meu prédio, as lâmpadas de emergência não funcionaram. Subi as escadarias com a luz do celular. Por sorte, ainda restava um mínimo de bateria. Pude aproximar do número do andar e do apartamento. Sem esse recurso, não sei como teria me virado. Também por obra do acaso, meu carro estava abastecido. Normalmente, deixo para fazer isso quando retorno do trabalho. Sem energia, seria impossível as bombas dos tanques de combustível funcionarem. Quase tudo é automatizado nos tempos atuais. Essa é uma das desvantagens da modernidade. Ficamos impotentes diante dos imprevistos.
Na tarde posterior ao blecaute, imaginei: para os cegos, não houve problemas, a não ser tomar banho frio de chuveiro, ter alimentos estragados no refrigerador, não poder usar o elevador...
Foi justamente isso que o Jornal da Tarde confirmou na sua edição do dia 15. Pessoas que não enxergam disseram que ''ouviram'' o apagão quando os que têm visão normal lamentaram a falta de luz com sonoros: ''Ai!, Oh!'' e outras interjeições mais. Eles não ficaram sem saída.

República
No domingo, dia 15, a República brasileira completou 120 anos.
Na antiga escola primária, aprendi a cantar o hino composto por Leopoldo Miguez (música) e Albuquerque e Medeiros (letra). Hoje, nem sei se ainda ensinam. Decorei tudo, porque era obrigada. Entender o sentido das palavras é que eram elas. Para isso, é imprescindível um dicionário.
Vamos lá:
Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus.
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!
Comentário: Pálio não é modelo de carro. Entre os vários sentidos da palavra, aqui é ''manto''. Desdobrado: estendido. Rebel vem de rebelde. Remir: redimir, perdoar. Torpes: desonestos, repugnantes. Labéus: manchas na reputação, erros, desonras. Porvir: futuro, tempo que há de vir.
Melhor entendendo: Que o hino seja um manto de luz estendido sob o vasto céu, que seja um canto rebelde que vem perdoar (ou reparar) os erros infames ou repugnantes do passado. Que seja um hino de honra, de orgulho (glória) que fale de esperança e de um novo futuro. Que embale com visões de triunfos quem surgir lutando por ele (pelo futuro).
(refrão)
>>Liberdade! Liberdade!
>>Abre as asas sobre nós,
>>Das lutas na tempestade
>>Dá que ouçamos tua voz
*
Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar !
(refrão)....
*
Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra, nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!
(refrão) ...
*
Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!
(refrão) ...
O refrão era (e é) a parte de que eu mais gostava ( e gosto).
Agora, quem desejar entender o restante do hino, deve se debruçar sobre um dicionário e se empenhar na pesquisa. Certamente, não perderá tempo. Ao contrário, ganhará conhecimento. A vida não é feita somente de praia, cinema, televisão e balada. Boa sorte.

Consciência Negra.
Hoje é Dia da Consciência Negra, em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Esse assunto merece uma postagem à parte. Mas ficará para outra ocasião. Não precisamos de data específica para pensar e abordar temas. Como diz a música da Baby do Brasil (para mim, sempre Baby Consuelo), ''todo dia é dia de índio''.
Num país miscigenado como o nosso, todo dia tem que ser dia de negro, índio, mulato, cafuzo, mameluco, branco, caboclo, amarelo e sei lá mais quantas classificações querem.
Para mim, todo dia é dia de gente, de ser humano. Todo dia é dia de respeitar os direitos desses seres multicores. Todo dia é dia dos direitos humanos. Todo dia é dia da raça humana. Todo dia é dia de ser contrário ao preconceito.
Liberté, Egalité, Fraternité!

Minissaia
Por falar em direitos, na madrugada de domingo, dia 15, assisti ao programa Altas Horas, apresentado pelo Serginho Groisman na Rede Globo.
De novo fiquei decepcionada com o comportamento dos universitários. Dessa vez, dos que estavam na plateia. A Geisy Arruda, a garota do vestido rosa-choque curto, foi entrevistada. Achei que o público se comportou de maneira tendenciosa com ela. A grande maioria das perguntas embutia um tom de reprovação pelo traje da estudante. Um ou dois universitários condenaram abertamente o comportamento dos jovens que a hostilizaram na Uniban.
No Altas Horas, predominou a ideia de que Geisy era culpada pela conduta deles. Tal aquela tese de que, se a mulher foi estuprada, é sinal de que estimulou o estuprador.
E pensar que nos anos 60 a minissaia era símbolo de atitude, de modernidade, de vanguarda. Hoje, tantos jovens demonstram mentalidade tão retrógrada, tão reacionária!...
Parece que o mundo já foi mais moderno!

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