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domingo, 27 de janeiro de 2013

As tragédias como a de Santa Maria
e a responsalidade de todos nós

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que matou 231 pessoas na madrugada de hoje, nos faz lembrar de três outras tragédias e questionar a responsabilidade da sociedade nesses episódios.

Em 30 de dezembro de 2004,em Buenos Aires (Argentina), 194 jovens morreram na casa noturna República Cromañón, destruída pelo fogo. O país ficou chocado e se mobilizou, exigindo fiscalização mais severa nesse tipo de estabelecimento. O fato levou  ao impeachment do então chefe de governo, Aníbal Ibarra.


Após a tragédia de 1997, o  Regatas Santista foi demolido.
Imagem de Lídia Maria de Melo em 3 de outubro de 2006.
Em novembro de 1997, em Santos (SP), um tumulto na saída de um show realizado pela banda Raimundos, no Clube de Regatas Santista, causou a morte de oito jovens.  O episódio motivou a proibição de shows em clubes santistas.

Com mais de 100 anos de funcionamento, o Regatas abriu falência, após inúmeros processos judiciais, e acabou demolido. Aos sócios, como eu, só restaram a lembrança dos áureos tempos e algumas fotografias.

Como jornalista, editei reportagens sobre o assunto, que foram desenvolvidas pela equipe que eu coordenava no jornal A Tribuna. Também entrevistei mães de algumas vítimas.
Na última quinta-feira, durante aula para universitários, mencionei esse triste episódio do Regatas, ao comentar o recurso textual que empreguei na abertura da matéria sobre aquelas mulheres enlutadas. Na ocasião, usei um trecho da música Pedaço de mim, de Chico Buarque: "A saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar o quarto/ de um filho que já morreu". 

Jornal do Brasil, de 19 de dezembro 1961,
ainda anunciava 317 mortos no circo
Em 17 de dezembro de 1961, no Gran Circo Norte-americano, em Niterói (RJ), 503 pessoas que assistiam ao espetáculo de domingo à tarde morreram carbonizadas quando a cobertura pegou fogo. O material utilizado na lona era algodão revestido com uma camada de parafina, para impedir a passagem da chuva, mas altamente inflamável.

Na edição do dia seguinte, o Jornal do Brasil não noticiou a tragédia. Talvez por causa do horário de fechamento. As rádios da época, no entanto, passaram a divulgar as informações poucos minutos após o incêndio.

No dia 19 de dezembro de 1961, segunda-feira, o JB estampou como manchete: "Papa celebra hoje missa por 317 mortos de Niterói" (foto ao lado). Para ler o texto original, clique aqui e acesse a primeira página do periódico carioca  em seu acervo digitalizado.


Por
uma infeliz coincidência, há pouco mais de uma semana comecei a ler o livro O Espetáculo Mais Triste da Terra, do jornalista Mauro Ventura, que narra o incêndio do Gran Circo Norte-americano.

Tanto na boate Kiss, quanto na casa noturna argentina, no Clube de Regatas Santista e no Gran Circo Norte-americano, houve negligência. Em todos esses episódios, as pessoas ficaram encurraladas sem ter como escapar. No Regatas, as saídas de emergência estavam bloqueadas. Em Santa Maria, a porta foi mantida fechada, porque os seguranças temeram que as comandas não fossem pagas. Na Argentina, também faltaram rotas de fuga, assim como no circo. Além disso, nas duas boates, foram realizados shows pirotécnicos, que provocaram as chamas.

As regras de segurança existem, mas infelizmente quase todo mundo faz vistas grossas. Por que não se realizam campanhas informativas sobre essas normas? Por que as pessoas também não avaliam se estão correndo riscos? Por que os órgãos fiscalizadores não são mais atuantes? Por que os organizadores de eventos não fazem de conta que o público é formado somente por membros de sua família (mãe, pai, filhos, irmãos, sobrinhos)? Talvez  eles vissem que todo o cuidado é pouco em relação à garantia da integridade física.

Há dois anos, fiz um cruzeiro pelo litoral fluminense. Em dois passeios fora do navio, tomamos um barco para chegar a Ilha Grande e a Ilhabela. O navio não ficou atracado em porto, mas ancorado longe da costa. Quando entramos no tal barco, não recebemos colete salva-vidas. Os tripulantes usavam. Ao exigir o colete, recebi a informação de que ele estava guardado em um compartimento na proa. Solicitei quatro (para mim e minha família). Os demais passageiros não receberam. Se o barco virasse, morreríamos afogados.  Dentro do navio, todos recebem  coletes, mas quando saem de barcos, vão sem. Essa situação, pelo que sei, se repete sempre.
No dia em que ocorrer um acidente, vão começar a exigir, mas certamente terá sido tarde.

Um comentário:

Lidia Maria de Melo disse...

Número de mortos na tragédia de Santa Maria chega a 235, segundo o G1:
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/01/jovem-internado-em-porto-alegre-tem-morte-encefalica-diz-secretaria.html

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