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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As abomináveis ditaduras.
Yes, we can

Em fevereiro de 2008, postei um texto e um vídeo em meu antigo blog. A conjuntura atual me faz republicá-los aqui. Até para que não fiquem esquecidos no tempo.

As abomináveis ditaduras

Tenho certa dificuldade com a teoria desprovida da prática, da experiência. Quando rejeito uma ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, parto do ensinamento que a vida me deu e me dá.
Vivi dos 6 aos 28 anos dentro da ditadura militar que se impôs no Brasil. E ela não passou ao largo. Chutou a porta da casa da minha família e se instalou. Meu pai foi um preso político, mas não foi somente ele que as medidas de exceção atingiram. Foi toda a família (meu pai, minha mãe, eu e minhas irmãs). Se a ele impuseram um silêncio, nós também fomos impedidas de expressar livremente nosso pensamento. Nós também ficamos amordaçadas. Se ele era vigiado, nós também fomos cerceadas. Se ele foi processado injustamente várias vezes, nós também fomos punidas. E isso não é força de expressão. É realidade!
Mesmo depois de 1985, quando teoricamente a ditadura foi extinta, seus rastros continuaram marcando o tapete da sala, do quarto, de todos os cômodos da casa.
Comecei a ser alfabetizada exatamente em 1964, quando os tanques do Exército rumaram de Minas Gerais em direção ao estado onde se situava a Cidade Vermelha. Em outras palavras, Santos. Vermelha, porque aqui estavam os sindicatos considerados mais fortes do País, acusados de receber subvenção soviética, e a intelectualidade que se alimentava das idéias de Fidel e procedentes de Moscou.
Cresci ouvindo meu pai, um desses sindicalistas de Santos, falar com admiração de Fidel Castro, da União Soviética, e encarar como inimigos a política e os costumes ditados pelos Estados Unidos. Meu pai nunca disse que era comunista ou socialista, mas tudo levava a crer que pelo menos era simpatizante.
O mundo vivia essa dicotomia: URSS versus EUA.
Cuba era a própria Utopia, ilha imaginada pelo inglês Thomas Morus, para criticar acidamente o regime feudal que vigorava na Inglaterra do século XVI e que acabou condenando-o à morte por decapitação.
Por anos, mantive pelo regime cubano, pela figura de Fidel, a mesma simpatia que herdei de meu pai.
Só que a gente cresce e começa a pensar pela própria cabeça, a analisar e a fazer correlações. Assim como meu pai e toda a minha família, participei dos movimentos sociais contra a ditadura em vigor no Brasil. Aprendi a não aceitar as imposições, a censura, a tortura, a redução dos direitos civis. Até hoje, quem quiser angariar a minha antipatia e se tornar meu inimigo é só me mandar calar a boca, é só me impedir de expressar meu pensamento. Considero isso uma clara consequência do que a ditadura fez com minha família e com este País.
Uma forma que encontrei de vomitar todo esse peso foi escrever. Daí, surgiu o livro
‘‘Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós’’. Ele inclusive me ajudou a superar uma doença, desenvolvida a partir dos traumas emocionais e que a medicina considera incurável. Depois da publicação desse livro, nunca mais precisei de remédio e a doença sumiu, contrariando as previsões médicas.
Se a imposição do silêncio e o cerceamento da liberdade me fizeram tão mal, e um meio de expressão, como um livro, me ajudou a superar esse mal, como posso concordar com um regime que não permite que as pessoas discordem dele? Seria uma conivência com o que a ditadura militar fez a minha família, a este País. Eu seria a personificação da incoerência.
A democracia é imperfeita, assim como o ser humano. Mas quem disse que ditadura é perfeita? Só quem não viveu de perto uma e não sofreu as suas consequências é que pode dizer um absurdo desses.
No filme
Dr. Jivago, há uma cena em que o médico foge para o campo, depois de ter sua casa na cidade desapropriada pelos bolcheviques durante a revolução de 1917. Mas, um dia, os bolcheviques chegam à sua propriedade rural e Jivago está escrevendo um poema lírico. Ele acaba preso, porque o poema é considerado uma ameaça aos ideais da revolução. Foi uma das cenas que mais me tocaram.
Quando o golpe militar se instalou no Brasil e meu pai foi preso, minha mãe e amigos da família enterraram livros dele, para que ele não fosse incriminado ainda mais.
Essas situações não me foram contadas. Eu acompanhei de perto, assim como inúmeras outras. E tinha 6 anos de idade. E sabia de tudo o que acontecia. Ninguém consegue esconder de uma criança que seu pai está preso, principalmente quando ela vai até a prisão para vê-lo. Não é difícil para uma criança entender o que é preso político, já que seu pai não é ladrão, nem assassino e vive expressando seu pensamento sobre a situação política do sindicato, da cidade, do país, de outros países.
Quando se cresce num ambiente em que se respira política, aprende-se no cotidiano. Não é preciso ficar adulto para começar a entender.
Muita gente no Brasil teve a vida destruída por causa de seus ideais socialistas. Muita gente morreu. Em Cuba, muita gente também foi, e é, perseguida por ser contrária ao regime de Fidel. Muita gente também morreu. Qual é a diferença?
Fidel Castro foi um líder, mas se transformou em um ditador. Do contrário, teria permitido que o povo escolhesse seu próprio rumo. Por que uma tutela eterna?
Bem cantam os Titãs: ‘‘A gente não quer só comida’’.
Melhor ainda é a síntese de Ernesto Sábato, que cito como epígrafe em meu livro: ‘‘Não há ditaduras más e outras benéficas, todas são igualmente abomináveis’’.


Yes, We Can

5 comentários:

iracema forte caingang disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
iracema forte caingang disse...

Querida Lídia
Estou feliz por estar viva, mas culpada pela liberdade poética de ter escrito sobre um trauma que não vivi. O texto é ficção. Nunca estive no Haiti. Me perdoe, não imaginei que aquelas letras levassem os leitores a crerem que eu estava ali. Moro no Acre, onde os tremores de terra ocorrem diariamente, mas a 6 mil km de profundidade, contra os 6 km de Porto Principe. Vivo diariamente esperando que um dia a terra se mova, mas acho que abusei, embora esteja de corpo junto com esta gente.
Sejamos amigas
Bjs

Roger Gauthier disse...

Hello Lidia,

I do not know if you read English. But I want to be precise here, and I do not speak Portuguese. So I will write in English (my language is French :-))) ) and then translate in Portuguese with Google Translator (bad...).

I found you because you appeared on my blog. Thank you. I find your ideas very interesting, and true. As I live in Québec where there is no dictatorship and you can say anything, dictatorship is only a theory. I know about it. I know what it is and reject it thoroughly.

Communism is not dictatorship, and capitalism is not dictatorship, and socialism is not dictatorship. It is what people do with it... Left, right, center... you can find despair in humankind because humans are often more than cruel. They want all the riches, all the power, all the prosperity for themselves.

This is humankind, and it is not beautiful. Most of the time it is awful.

Yes, We Can?
I am not sure at all. People say that Obama united all Americans, and it is not true. Look at the numbers:
• African-Americans voted Obama 97 %
• Spanish-speaking Americans voted Obama 66 %
• "White" (?) Americans voted Obama... 37 %

Americans are almost as divided as ever. They threw Bush out, OK. But white Americans did not vote for Obama.

And Obama was the best man...

See now what happens. In each by-election they vote against Obama. They are against healthcare! I cannot believe that.

So where is hope, Lidia? Hope is not coming from Russia, certainly not. Hope is not coming from China. Hope is not coming from the USA? Is there hope in Europe? Perhaps, I do not know.

Is there hope in Sweden, Norway, Finland, Canada? Possibly. But those are small countries without real power...

I am 65 year old, Lidia. I have no hope left for humankind.

But I suffer for all those living under a dictatorship.

Have a good day,

Roger

••••••••••••••••••••••

(Translated by the bad Google Translator)

Olá Lidia,

Não sei se você lê Inglês. Mas eu quero ser mais preciso aqui, e eu não falam Português. Então eu vou escrever em Inglês (a minha língua é o francês) e, em seguida, traduzir em Português com o Google Translator.

Eu encontrei você, porque você apareceu no meu blog. Obrigado. Acho as suas ideias muito interessantes, e verdadeiro. Enquanto eu viver em Québec, onde não há ditadura, e você pode dizer qualquer coisa, a ditadura é apenas uma teoria. Eu sei sobre ela. Eu sei o que é e rejeitá-la completamente.

O comunismo não é ditadura, eo capitalismo não é ditadura, eo socialismo não é ditadura. É que as pessoas fazem com ele ... Esquerda, direita, centro ... Você pode encontrar o desespero da humanidade porque os seres humanos são muitas vezes mais cruel. Eles querem que todas as riquezas, todo o poder, toda a prosperidade para si próprios.

Esta é a humanidade, e não é bonito. Na maioria das vezes é terrível.

Yes, We Can?
Não estou certo em tudo. As pessoas dizem que Obama uniu todos os americanos, e isso não é verdade. Olhe para os números:
• Africano-americanos votaram Obama 97%
• Espanhol-americanos de língua Obama votou 66%
• Os americanos brancos votaram Obama ... 37%

Os americanos são quase tão divididos como sempre. Eles jogaram fora Bush, OK. Mas os americanos brancos não votar em Obama.

E Obama era o melhor homem ...

Veja agora o que acontece. Em cada pré-eleição votam contra Obama. Eles são contra a saúde! Eu não posso acreditar nisso.

Então, onde está a esperança, Lidia? A esperança não é proveniente da Rússia, certamente não. A esperança não é proveniente da China. A esperança não vem do E.U.A.? Há esperança na Europa? Talvez, eu não sei.

Há esperança na Suécia, Noruega, Finlândia, Canadá? Possivelmente. Mas esses são países pequenos, sem poder real ...

Eu sou 65 anos de idade, Lidia. Eu não tenho nenhuma esperança para a humanidade.

Mas eu sofrer por todos os que vivem sob uma ditadura.

Tenha um bom dia,

Roger

iracema forte caingang disse...

Pior,é fingir a dor que sentimos realmente.
Voce me surpreendeu. A considero amiga e irmã. Um grande abraço.
Da sua eterna amiga
Ira

iracema forte caingang disse...

Minha querida amiga,as perdas na ditadura não têm cabimento nesse pequeno espaço. Toda a minha vida se perdeu no governo militar. Aí é outra história.
Beijão

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