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domingo, 22 de setembro de 2013

As homenagens que Narciso de Andrade me fez

(Esta postagem foi publicada originariamente em 3 de janeiro de 2008 em meu antigo blog. Aqui está transcrita com alguns acréscimos de informações e fotografias).

A primeira vez que conversei com o poeta santista Narciso de Andrade foi em 1995 na Redação de A Tribuna. Ele, que escrevia crônicas para o jornal, foi até lá para me conhecer. Havia lido meu livro, ''Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós'', recém-lançado em 22 de novembro daquele ano.
Dias depois, em dia 8 de dezembro, uma sexta-feira, publicou uma crônica para mim. Intitulada ''A Dolorosa Tatuagem'', a crônica saiu na página 6 do caderno AT Especial (ver mais abaixo)
Para mim, foi um verdadeiro carinho. Sua alma de poeta conseguiu ''sentir'', no meu livro, detalhes e nuances que ninguém nunca demonstrou ter percebido.
No dia 29 de março de 1996, participei do projeto O Autor e sua Obra, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Santos, na Biblioteca Mário Faria, localizada no Posto 6, na orla da praia. Meu pai, Iradil Santos Mello, e minha mãe, Mercedes Gomes de Sá, estavam lá. 
Para minha surpresa, Narciso de Andrade também compareceu. Mais uma vez, senti-me honrada pelo apoio do poeta e advogado. Ele sentou-se na plateia, à esquerda, pouco atrás de minha mãe.
                                          (Fotos: Irandy Ribas)
Meu pai e eu, palestrando. Exemplares de meu livro sobre a mesa   
Minha mãe à esquerda, com a bolsa preta no colo.
 Atrás dela, de braços cruzados, Narciso de Andrade
Em 30 de outubro de 1997, Narciso enviou-me um telegrama, cumprimentando-me por ter recebido o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria Literatura, com o conto Bala Perdida. Disse-me: "Você dignifica o ofício de escritor. Parabéns". 
 A Tribuna de 29/10/1997, sobre
 minha premiação
Telegrama que Narciso me enviou
em 30 de outubro de 1997
Minha matéria sobre neologismo.
A Tribuna - 23/9/1988
Antes disso tudo, em 23 de setembro de 1988, quando publiquei a matéria "Neologismos - A garantia de renovação do idioma", no Caderno AT Especial, de A Tribuna, ele telefonou para a então editora, Ivani Cardoso, expressando sua satisfação com meu trabalho. Nem me conhecia. 
Narciso de Andrade sempre foi um poeta, na escrita e nas atitudes.
A última vez que o vi  foi mais ou menos em 2005. Passava, com o filho, em frente ao prédio do jornal  A Tribuna. Conversamos rapidamente, mas ele já parecia frágil fisicamente. 
Em 29 de dezembro de 2007, um sábado, Narciso morreu. 
Em férias, só fiquei sabendo na noite de domingo, dia 30, quando liguei o computador. Ele já havia sido sepultado. 
Tenho certeza de que ele agora deve estar andando na beira do mar, chutando as ondas, calmamente, ou perambulando pelo cais do porto, na companhia de ninguém mais do que Roldão Mendes Rosa, outro poeta que amou Santos como o amigo Narciso e foi meu professor. 
Bem-aventurados os homens inteligentes, mas, antes de tudo, sensíveis.
Aqui transcrevo a crônica que Narciso escreveu para mim e meu livro:  
A Dolorosa Tatuagem
                    ( Narciso de Andrade)












(reprodução do jornal A Tribuna -8/12/1995)
Este livro queima as mãos da gente. Entretanto, iniciada a leitura, não se pode mais parar. Um certo espaço da vida santista começa a acontecer sob o impacto da sedimentação dos anos transcorridos. A argamassa do tempo não conseguiu soterrar na memória daquela menina os destroços de sofrimento, dor, desencanto  que ela não fez por merecer. Pois, como já se disse, era menina. E, como menina, outra vida deveria destinar-se à sua infância. Como a qualquer infância.
O crime maior dos atos desatinados do Poder exercido com brutalidade é justamente o mal causado aos jovens; sobretudo, às crianças, que não podem mais do que receber o impacto da crueldade sem qualquer possibilidade de reação e sem entender bem o que está ocorrendo. É uma pena tenham as coisas acontecido do modo narrado no livro. Mas aconteceram. Não há por que escondermos fatos agora que os tempos, felizmente, são outros.
Lídia Maria de Melo tinha seis anos quando foi visitar seu pai recolhido ao navio Raul Soares, ancorado próximo à Ilha Barnabé, preso ao seu triste destino final de cárcere político. Navio é uma coisa bela, seu verdadeiro destino são as distâncias , o mar largo, os ventos, o azul.
(*) ''Uma lancha apanhou-nos no porto, em frente à  Alfândega.
''... Desembarcamos perto da Ilha Barnabé, em um flutuante que balançava muito, amarrado ao navio preto, adernado, o Raul Soares.
''... Não houve outras visitas, porque eram proibidas.
''... Na volta, conforme a lancha foi se afastando em direção ao cais, as mãos que acenavam nas vigias foram ficando menores, menores... até que sumiram. Só restou a imagem incômoda daquele navio negro, que permaneceu tatuado em nós, como os números nos braços dos sobreviventes dos campos nazistas de concentração''.(*)
A verdade dói, muitas vezes, mas é a verdade. ''La verdad es lo que es/ y sigue siendo verdad/ aunque se piense al revés'' (Antonio Machado).
O livro ora vindo a público, em edição da Pioneira e da Uniceb (Universidade Santa Cecília) _ Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós _ nasceu em 1985, como trabalho de conclusão do Curso de Jornalismo de Lídia Maria de Melo, sob o título de Para Não Ser Pego de Surpresa, e teve como orientador o jornalista e professor Eron Brum.
Narra a saga de Iradil Santos Mello, perseguido e preso pelo ''crime'' de ser dirigente sindical em 1964 e as repercussões desse fato em sua família. Seria mais uma das muitas histórias semelhantes ocorridas na ocasião, se aquela menina, Lídia, não tivesse transformado o medo, a dor, o sofrimento próprio e dos seus em matéria emblemática de uma época, sob muitos aspectos, inexplicável, dadas as características da gente brasileira.
A emoção perpassa o livro a cada capítulo que a autora, jornalista e professora, soube fazer densos e diretos de acordo com a melhor e mais moderna técnica do gênero. Trata-se de um livro de memórias, é claro, mas transcende ao comum pois não se furta a traçar um quadro geral da situação no País à época.
Faltava em Santos um livro como esse que vem compor com outros (Ventos do Mar, Sombras sobre Santos) um quadro de certos aspectos pouco lembrados de nossa história. É claro que no espaço de uma crônica não dá para dizer muita coisa sobre uma obra desta natureza, mas vale transmitir à autora mensagem de carinho, admiração e simpatia. Pela verdade e pela coragem encobertas no jeitinho discreto de ser. De ser Lídia.
(*  O trecho em negrito foi transcrito de meu livro por Narciso)



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