sábado, 21 de dezembro de 2019

Negação, um filme contra a desinformação e em favor do Direito, da História e do Jornalismo


 Lídia Maria de Melo
Nestes tempos em que muitos não se acanham em contestar fatos históricos notórios ou fenômenos naturais mais do que comprovados pela ciência,  o filme “Negação”, em cartaz no Netflix, é necessário e imprescindível, em termos jurídicos, jornalísticos e históricos. 
Dirigido por Mick Jackson e protagonizado pela atriz Rachel Weisz, trata-se de um drama histórico, baseado em fatos reais ocorridos a partir de 1993, quando a historiadora norte-americana Deborah Lipstadt publicou o livro Denying the Holocausto: The Growing Assault on Truth and Memory (Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória). Nele, ela analisou obras que negavam o extermínio de judeus em câmaras de gás, nos campos de concentração, a mando de Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial.
Quando o livro foi publicado na Inglaterra, o escritor britânico David Irving, negador ferrenho do holocausto,  ajuizou uma ação de difamação  contra Deborah Lipstadt e a editora que publicou a obra.
O filme narra essa história e a batalha que ambos travaram em um tribunal britânico até 2001. Durante a narrativa, expõe as diferenças entre o sistema jurídico britânico e o norte-americano, assim como a forma diversa de atuação de advogados das duas nacionalidades.
Também mostra que, na Grã-Bretanha, não existe presunção de inocência e que o ônus da prova cabe ao acusado, quando nos Estados Unidos, a exemplo do Brasil, quem deve provar o que alega é a parte que acusa.
No caso em tela, como estratégia de defesa, os advogados de Deborah utilizam o instituto da exceção da verdade. Ou seja, decidem provar que as críticas classificadas pelo autor da ação como difamação, na realidade, são reais.
Por todos esses aspectos jurídicos, o filme, de 2016, com duração de uma hora e cinquenta minutos, torna-se obrigatório a estudantes e profissionais da área de Direito. Pela temática, é pertinente a quem se dedica ao estudo e à pesquisa da História. Como se trata de um debate de ideias que também põe em evidência a liberdade de expressão, é imprescindível para quem atua no Jornalismo. 

O fato real é tratado em site específico. Clique aqui.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Por um triz. Sonho é sempre sonho

Azaleias - Foto de Lídia Maria de Melo
Lídia Maria de Melo (texto e foto)
Alguns dizem que, enquanto dormimos, nosso espírito costuma sair a passear. Não sei se creio nessas peripécias. Mas, se ocorrem de fato, hoje, um amigo veio me visitar.
Não nos vemos, nem nos falamos, há pelo menos dez anos. Mesmo assim, ele apareceu.
Enquanto eu revisava textos de alunos em sala de aula, abaixou-se ao lado de minha mesa e disse que iria me esperar.  Concordei, feliz.
A primeira vez que ele se aproximou de mim, eu era uma jovem determinada e cheia de planos. Cursava o terceiro ano da faculdade. Alguém chamou meu nome no corredor e ele reconheceu o mesmo que assinava as reportagens que sempre chamavam sua atenção no nosso jornal-laboratório.
Dali em diante, partilhamos muitas histórias, ao sabor de torta de banana açucarada e mousse de manga.
Hoje, até tentei me apressar, mas a conversa não se consumou. Sonho é sempre sonho. Acordei, antes de podermos nos reconectar.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O melhor contra baratas

Texto, foto e ilustração: Lídia Maria de Melo

A rede social Facebook instituiu a lembrança a seus usuários.
Traz de volta postagens.
Hoje, me deu a oportunidade de recordar um texto que escrevi em 29 de outubro de 2017. Vamos a ele:
Inspirada na postagem de uma aluna, conto-lhes esta história sobre baratas. 
O calor deixa as bichinhas malucas. 
Elas saem por aí, dando voos rasantes e tirando o aconchego dos lares. 
Ontem à noite, uma delas entrou em meu apartamento, mais precisamente no meu quarto. Pela janela. Como voam alto as safadinhas! 
Ouvi um farfalhar e percebi que ela caminhava sobre um móvel e depois escondeu-se em um tubo de madeira, que liga duas prateleiras da escrivaninha e por onde passam fios de eletricidade e da TV a cabo. 
Fui correndo pegar um inseticida. 
Espirrei bastante dentro do tubo. Em pouco tempo ela saiu, e eu joguei o chinelo Havaianas em cima. Matei. Tenho nojo. Não tenho medo. 
Havaianas, o melhor contra baratas.
Abaixo da postagem, seguidores comentaram. Uma me chamou de corajosa. Nem tanto!
Outro quis saber a cor de minhas sandálias. Postei a foto: marrons, com bandeirinha do Brasil e nas laterais, três faixas: um verde, uma amarela e outra branca.
Outra lembrou o humorista José Simão: "Todos são héteros até a barata voar".
E um quarto mencionou um antigo comercial das sandálias Havaianas: "Não têm cheiro, não deformam, não soltam as tiras".
Estamos no final de outubro. A primavera em breve nos dará adeus.
O mormaço úmido do litoral paulista já começa a atormentar.
Logo, logo, as baratas tornarão a voar.


sábado, 21 de setembro de 2019

Fogo consome 80% do Refúgio Ecológico Caiman, paraíso do Pantanal, onde fiz reportagem há 25 anos

Região alagadiça, o Pantanal recebe 
as águas do Planalto Brasileiro, com o qual
se limita a Leste, e da Cordilheira dos Andes,
a Oeste, no período de cheia e degelo. Esse ciclo 
renova a fauna, a flora e o solo pantaneiro. 
Foto: Lídia Maria de Melo. 

Chamada de primeira página
no jornal A Tribuna
de minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman,
no Pantanal, 
em 1994. 
Textos e fotos de
Lídia Maria de Melo


21 de setembro, Dia da Árvore. Não há como ficar indiferente às queimadas que dizimam, em ritmo acelerado, parte das florestas brasileiras. Tanto na Amazônia, quanto em outras regiões do país. 
No Pantanal sul-mato-grossense, por exemplo, bombeiros tentam há dias conter o fogo que já destruiu 80% do Refúgio Ecológico Caiman. 
Empenham-se para evitar a morte de animais e vegetação, na área da Reserva Particular do Patrimônio Natural, onde é possível avistar 650 espécies de aves, 90 de mamíferos, 50 de répteis e 250 de peixes. 
São  araras azuis, tuiuiús, tucanos, colhereiros, garças, carcarás, onças pintadas, jacarés, sucuris, pintados, dourados, pacus... Impossível relacionar todos.
Embora seja considerada uma das regiões mais belas e mais ricas do país, em termos de fauna e flora, o Pantanal enfrenta o problema constante de desmatamentos, queimadas, caça e pesca descontroladas e extração de ouro, que polui seus rios com mercúrio. 
Este ano, no entanto, os incêndios tomaram proporções gigantescas, atingindo áreas que até então tinham conseguido escapar ilesas. 
Por essa razão, as notícias atuais me causam profunda consternação.  
De 26 a 29 de maio de 1994, tive o privilégio de conhecer Caiman, como integrante de um grupo de jornalistas de vários veículos de imprensa brasileiros.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-5.  
Foi uma das mais belas viagens que realizei a trabalho.
Propriedade do empresário Roberto Klabin, atual presidente do Instituto SOS Pantanal, o Refúgio Ecológico Caiman é uma fazenda de 53 mil hectares, localizada em Miranda, a 240 quilômetros de Campo Grande e a 36 da área urbana do município. 
Ali, pude realizar uma reportagem de cunho ambiental, para o Caderno de Turismo do jornal A Tribuna, de Santos, onde eu atuava como subeditora da Editoria Local. 
Com edição de Lauro Tubino, diagramação de Eugênio Lara e ilustração de Seri, meus textos foram publicados com fotografias também de minha autoria, além outras de divulgação. 
Ocuparam três páginas do caderno veiculado no dia 14 de agosto de 1994, um domingo.
Naquele tempo, não tínhamos fotos digitais. Usávamos negativos.

Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-6
Como não viajei acompanhada por um repórter-fotográfico do próprio jornal, precisei me virar com uma máquina Yashica, sem lentes especiais, ou outros recursos que permitissem fotografar os animais à distância, com nitidez, durante caminhadas e safáris fotográficos.
Mesmo assim, consegui capturar algumas imagens do tanto que o Pantanal oferece a quem tem olhos e ouvidos para entrar em sintonia com suas maravilhas.
Não vou detalhar. 
Prefiro publicar aqui as páginas do Caderno de Turismo do jornal A Tribuna de 25 anos atrás.
Dessa maneira,  você tem a possibilidade de ler meus textos e ver por que nosso meio ambiente deve ser defendido.
Jornal A Tribuna, agosto de 1994.
Minha reportagem sobre o
Refúgio Ecológico Caiman, no
o Pantanal, 
em 1994. Página A-7
A reprodução exigiu o escaneamento de várias partes de cada página do jornal e, depois, a montagem, usando o programa Paint.
O processo foi artesanal, com poucos recursos técnicos. Uma espécie de junção improvisada das peças de um quebra-cabeça. Apenas o que deu para executar, porque cada página do jornal media 34 cm de largura e 55 cm de altura, enquanto a lente do scanner de mesa tem 21 por 28 cm.
Para ler o texto de cada página do jornal, talvez seja preciso clicar na imagem, aumentar o zoom do navegador ou fazer download.
Publico também algumas fotografias minhas (veja logo mais abaixo), com outras  informações sobre o Pantanal.

Boa leitura e ajude a divulgar a importância do meio ambiente para o Planeta Terra. Faça o que estiver a seu alcance para  preservá-lo.

Cerca de 650 espécies de aves
já foram catalogadas no Pantanal sul-mato-grossense.
 Algumas são aves de arribação. Ou seja,
são aquelas que, no inverno no hemisfério norte,
voam para a América do Sul. Na foto,
um urubu-rei.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O Refúgio Ecológico Caiman
tinha, em 1994, um rebanho de
18 mil cabeças de gado nelore.
Foto de Lídia Maria de Melo.
O tuiuiú, também chamado de jaburu, é a ave-símbolo
 do Pantanal. Tem o corpo branco, uma faixa vermelha
no pescoço, que parece um cachecol, e a cabeça preta.
Tem 1,30 m de altura e 3 m de envergadura
(distância entre as pontas das asas).
Foto de Lídia Maria de Melo.

Tive a oportunidade de alimentar jacaré pantaneiro,
no Lago do Hotel. Acervo de Lídia Maria de Melo.
Os jacarés do Pantanal
(caiman crocodilus yacaré)
são lerdos e mansos. Podem ser
alimentados com pulmão de boi, ou bofe,
O turista só não pode tocar em seu dorso.
Já o jacaré-do-papo-amarelo são
animais em extinção.
Foto de Lídia Maria de Melo.
A piúva é parente do ipê.
É a árvore-símbolo do Pantanal.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O zebrão é um caminhão
usado para fazer safári
fotográfico.
Foto de Lídia Maria de Melo.

O tereré é bebida típica pantaneira.
Derivado do chimarrão,
é mate preparado com água fria.
A bebida utiliza erva do Paraná e
é servida em uma guampa, feita
com chifre de boi, polido com
folha da árvore lixeira. Sorve-se com
uma bombilha. A bebida foi
criada por migrantes gaúchos.
Acervo de Lídia Maria de Melo.

Celestino Prudêncio da Silva tinha
69 anos em 1994. Dos 14 aos 52,
atuou como onceiro e caçou
88 onças pintadas e 275 pardas.
Usava arma de fogo, zagaia e um cão.
A primeira caçada ocorreu
para provar sua coragem
ao pai da namorada.
Só parou em 1977, quando a onça
tornou-se protegida por lei.
Depois, passou a atuar como guia de campo
na Caiman. Foto de Lídia Maria de Melo.








Ao final da estadia, partimos de Caiman
em um Cessna 208 Caravan,
um monomotor turboélice, que inaugurou
a linha aérea entre a fazenda e Campo Grande.
Antes, esse trajeto de 240 quilômetros
 era feito em furgão.
Foto de Lídia Maria de Melo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Tecnologia digital revolucionou o mundo em poucos anos, mas não conseguiu desacelerar preconceitos


Texto: Lídia Maria de Melo
Fotos: Pixabay - Free license

Só para lembrar. 
O boom da internet no Brasil só ocorreu em 1996. Eu comprei meu primeiro computador com internet em 1997. A maioria dos jornalistas que trabalhavam no jornal A Tribuna, também. 
Mesmo assim, a conexão era discada. Precisava de um telefone. 
Em 1994, fiz uma reportagem para a revista Nova Escola e precisei explicar o que era internet, inclusive que eram necessárias, para a conexão, uma placa de modem e uma linha telefônica. 
Logo depois, a Folha de S. Paulo fez matéria de página dupla sobre a internet. 
A banda larga só surgiu depois do ano 2000. 
Defendi dissertação de Mestrado na USP em abril de 2001. Até então, não havia conteúdo na internet. Nada, ou quase nada, que fosse possível pesquisar com credibilidade. 
O Google só foi fundado em setembro de 1998. Imagine! 
Rede social era sala de bate papo do Uol ou do Terra, além do ICQ. 
O primeiro celular no Brasil chegou em 1990, mas era artigo de luxo. Caríssimo. E, até 20 anos atrás, só era possível fazer ligação. 
Meu primeiro celular, eu comprei, após pegar uma fila quilométrica, em 1998 ou 1999. 
Celular com touch screen só surgiu em 2007. 
O Windows só foi introduzido em celulares em 2012. Pouco antes, o sistema era apenas Android. 
Smartphone é bebê ainda.
Os blogs, inicialmente, eram diários de adolescentes.
Criei o meu primeiro em 2006, ano em que escrevi uma crônica e um comentário para o Blog do Noblat, que já tinha cunho jornalístico. Na crônica, falei sobre um coral de bem-te-vis. No comentário, opinei sobre a cabeçada do Zidane no jogador Materazzi, na Copa da Alemanha.
Ou seja, a revolução tecnológica é coisa muito recente no mundo.
Então eu me pergunto: se a gente se acostumou com isso tudo, tão rapidamente, por que não consegue se livrar do preconceito étnico, social, de gênero, sexual, linguístico, religioso?

domingo, 9 de junho de 2019

Precisei voltar àquela esquina da Avenida Conselheiro Nébias

Image by Hans Braxmeier from Pixabay
Lídia Maria de Melo

Ele nunca saberá a volta que eu dei para reencontrá-lo e depositar R$ 20,00 em seu boné.
Na manhã de sexta-feira, peguei a Avenida Conselheiro Nébias, única via santista que liga o porto à praia, cortando diversos bairros, em uma extensão de 4,4 Km.
Estava na altura do número 300, no sentido Centro-Praia.  Precisava chegar ao número 741, na pista oposta, Praia-Centro. Isso exigiu que, dirigindo, eu fizesse o contorno por trás do Supermercado Carrefour, instalado no número 802, onde nos anos 1970 funcionou o Hipermercado Eldorado, com seu restaurante com mesa giratória, grande atrativo no Bairro do Boqueirão.
Essa mudança de pista me fez virar à direita, na Rua Roberto Simonsen, e percorrer um pequeno trecho da Pedro de Toledo, que me deu acesso ao sentido Praia-Centro da Avenida Conselheiro Nébias. Justamente nesse cruzamento, com o semáforo fechado, avistei um homem de idade, magro, cabelo branco, coluna ainda ereta, vestido com dignidade, estendendo um boné branco, num gesto pedinte em direção aos motoristas dos demais carros.
A cena me condoeu. Era um idoso, com jeito de quem trabalhou a vida inteira e agora estava necessitado. O semáforo logo abriu e não deu tempo para que eu abrisse a bolsa, repleta de bolsos e alcançasse a carteira com zíper, onde guardava meu pouco dinheiro trocado.
Quando dei partida no carro, ele estava na altura do vidro a meu lado. Fiz um gesto de sinto muito e segui, com o coração partido.
Enquanto me conduzia a meu destino, tracei um plano e o cumpri à risca. Trafeguei até o número 741, parei no estacionamento do Laboratório Pasteur, onde pegaria um exame para minha mãe. Antes de descer do carro e acionar o alarme, retirei da carteira R$ 20,00 e deixei no console. Na recepção, não havia ninguém, além da recepcionista, que me atendeu em cerca de dois minutos.
De posse da sacola de exames, voltei ao carro e me pus na Conselheiro Nébias, na direção contrária ao mar. Converti na Rua Soares de Camargo, primeira que deu acesso à Rua Oswaldo Cruz, e nessa continuei até a Lobo Viana, onde percorri uma quadra e acessei a Álvares de Azevedo, por trás do Super Centro Boqueirão.
Ali, peguei a Rua Bento de Abreu e a Dr. Amílcar Mendes Gonçalves, para retornar até a Avenida Conselheiro Nébias, sentido Centro-Praia, e chegar de novo até a Rua Roberto Simonsen, para outra vez passar atrás do Supermercado Carrefour e alcançar a Rua Pedro de Toledo.
Nesse trecho, torci para que o semáforo estivesse novamente fechado. Assim, poderia entregar os R$ 20,00 àquele homem de idade avançada, cabelo branco, vestido com dignidade, que estendia o boné na direção dos vidros dos automóveis, na esperança de angariar constrangedores trocados.
Talvez estivesse com fome, talvez a aposentadoria já não desse para sobreviver. Talvez houvesse remédios para comprar. Talvez, talvez, talvez...
Eu só podia supor. Jamais o tinha visto naquele cruzamento do Boqueirão, onde cadeirantes vendem balas, outros necessitados oferecem meia-dúzia de panos de chão branquinhos por R$ 10,00, meninos lançam bolinhas ou limões para o ar em malabarismos toscos, em troca de moedas ou nota de R$ 2,00.
Minha torcida deu certo. O semáforo exibia a luz vermelha acesa. Porém, na direção de meu carro, veio uma moça loira que me entregou um fólder de uma construtora. Rapidamente recolhi, e depositei no banco ao lado, aquele anúncio de apartamentos de dois dormitórios, com 53,97 m², por R$ 290 mil, na Rua Alexandre Martins, altura do Canal 5, após a Avenida Afonso Pena, no bairro do Estuário.
Meus olhos aflitos tinham outro interesse. Buscaram com rapidez a imagem daquele senhor, até avistarem o topo de seu cabelo branco entre as três fileiras de carros.
Em poucos instantes, a luz verde acenderia. Então, mentalmente, eu o atraí até mim.
O semáforo liberou a passagem para os carros, que logo se puseram em movimento. Ainda segurando a velocidade do meu, abri o vidro, estendi a mão para fora e balancei a cédula de R$ 20,00, com medo de não conseguir lhe entregar. Por sorte, ninguém acionou a buzina. Também por sorte, ele me percebeu e se aproximou. Não pegou o dinheiro com a mão. Estendeu o boné, onde o depositei, a tempo de ouvi-lo agradecer:
_ Deus a abençoe, minha senhora.
A voz era firme e, assim como a calça, o tênis e a camisa com manga dobrada acima do pulso, a ponto de exibir a pele branca com manchas senis, também demonstrava dignidade.
Não doei o dinheiro para sossegar minha consciência. Não. Eu não era culpada pela condição dele. Fiz todo aquele trajeto de novo, porque não me conformei em ver um homem idoso sendo obrigado a mendigar uns trocados no semáforo. Nenhum ser humano nasceu para herdar sina tamanha.
Aquela quantia não resolveria sua carência. Era pouco. Eu sei. Talvez permitisse que ele pudesse, ao menos, fazer uma refeição, ou pegar uma condução. Não tenho como conhecer sua real necessidade, assim como ele jamais saberá que eu não conseguiria ir embora, sem retornar àquela esquina.
Refazer todo o trajeto e depositar aquela nota em seu boné foi tudo o que estava a meu alcance naquele momento. Além disso, ele não ouviu, porque a fluência do trânsito me obrigou a tirar logo o carro dali, mas eu desejei que Deus o abençoasse também.




sábado, 1 de junho de 2019

Receitas contra aborrecimento

Texto e foto: Lídia Maria de Melo
Quando me aborreço muito, faço-me um agrado como esse da fotografia, ou ponho-me à frente do espelho, com uma tesoura na mão, e corto o cabelo.
Em meados de maio, fiz as duas coisas.
Num fim de tarde chuvoso, saboreei, na Confeitaria Brunella, um croquete de carne, um doce de massa folhada com creme de baunilha e uma xícara de chocolate quente.
Depois, tosei o cabelo, de um jeito que detesto, mas descarreguei as energias.
Não perdi a força, como ocorreu com Sansão, quando Dalila cortou seu cabelo enquanto ele dormia.
Fiquei sem o aquecimento natural do pescoço quando esfria. Mas isso passa. É só esperar crescer de novo.
Desde criança, acumulo histórias envolvendo meu cabelo, que por anos foi loiro e depois escureceu. Esta é somente mais uma fase. Logo estará longo de novo. Pronto para ser cortado, se necessário for.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Niki Lauda, um tricampeão. Nas pistas e na vida

Niki Lauda - Reprodução
Lídia Maria de Melo
Acabo de saber da morte de Niki Lauda, corredor de Fórmula 1 dos tempos em que eu, garota, acompanhava essa modalidade esportiva. (Depois da morte de Ayrton Senna, em 1994, abandonei a F1). 

Lauda era um dos maiores adversários de James Hunt. Um ídolo. 
Mas do que mais me lembro é do acidente em 1976, que o deixou gravemente queimado. 
O brasileiro Emerson Fittipaldi ajudou a tirá-lo das chamas, mas não a tempo de evitar que o rosto de Niki ficasse totalmente deformado. 
Mesmo assim, Niki Lauda seguiu em frente. 
Em 1986, uma brasileira de Curitiba, Cristina Lopes Afonso, teve grande parte do corpo queimado pelo próprio namorado, um médico enciumado. 
A história dela, que hoje é vereadora em Goiânia, ganhou repercussão internacional, tamanha a violência. 
Niki Lauda ajudou-a a se tratar fora do Brasil. 
Hoje, Niki Lauda morreu em Viena, sua cidade natal, aos 70 anos. Um tricampeão! Nas pistas e na vida.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Patrono da Educação, Paulo Freire está sob ataque injusto


Folhetim (Folha de S. Paulo)
1º de julho de 1979, p3
Lídia Maria de Melo                
Cresci ouvindo falar de Paulo Freire com muito respeito, devido a seu método de alfabetização, que se popularizou pelo nome de Método Paulo Freire.
O mundo reverenciou suas ideias. Atualmente, é o terceiro pensador mais citado em universidades internacionais e brasileiras da área de humanas.
O Brasil também reverenciou suas ideias, embora as escolas públicas nunca tenham implantado seus métodos de modo sistemático.
Depois de ter conseguido ensinar 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias, foi convidado pelo presidente João Goulart a desenvolver o Plano Nacional  de Alfabetização, que previa cursos de formação de professores por todo o  País.
Após o golpe militar de 1964, o pernambucano Paulo Reglus Neves Freire, nascido em 19 de setembro de 1921, passou 70 dias preso.
Quando saiu da prisão, deixou o Brasil, para somente retornar em 1979, com a assinatura da Lei de Anistia.
Em 2012, quinze anos após sua morte, ocorrida em 2 de maio de 1997, foi declarado Patrono da Educação  Brasileira.
Quando me tornei jornalista, tive a honra de entrevistar Paulo Freire em 22 de setembro de 1988, na Redação do jornal A Tribuna, em Santos, e ele me contou que, enquanto vivia no exílio, participou de um congresso na Grécia e, na saída do teatro onde o encontro ocorreu, um vendedor ambulante cumprimentou-o por sua obra. Aquela manifestação deixou-o muito feliz. 
Folhetim (Folha de S. Paulo)
1º de julho de 1979, p.4
Ele também me disse que não criou um método. O que colocou em prática foi uma filosofia educacional que contextualizava o ensino, empregando na alfabetização palavras que faziam sentido aos alunos, como, por exemplo, "tijolo", "casa", "saúde", e despertavam o pensamento crítico.
Conversamos ainda sobre uma pitangueira, da qual ele sentia saudades enquanto vivia longe do Brasil. O assunto veio à baila, porque comentei sobre a entrevista à jornalista Ione Cirilo, publicada em 26 de agosto de 1979,  no Folhetim, suplemento dominical do jornal Folha de S. Paulo.  Essa entrevista ao Folhetim tinha como título uma frase do próprio Paulo Freire sobre a pitangueira: "Se você tiver uma pitangueira em casa, cuide das pitangas... Pode ser que um dia você se exile também".
Em meu início de carreira no Magistério, lecionei em uma escola particular, de 1978 a 1982, e era chamada de "tia". Isso me incomodava. Não pelas crianças, mas pelo fato de pressentir uma falta de respeito à minha profissão. Quando comentava sobre esse incômodo, ninguém me compreendia. Anos depois, soube que "professora" passou a ser tratamento obrigatório nessa escola.

Entrevista de Paulo Freire
Folhetim em 26/8/1979, p. 8
Entrevista de Paulo Freire
Folhetim em 26/8/1979, p.9

Em 1993, Paulo Freire lançou o livro "Professora, sim; tia, não". Lavou minha alma quando escreveu: "A tentativa de reduzir a professora à condição de tia é uma "inocente" armadilha ideológica em que, tentando-se dar a ilusão de adocicar  a vida da professora, se tenta amaciar a sua capacidade de luta ou entretê-la no exercício de tarefas fundamentais. Entre elas, por exemplo, a de desafiar seus alunos, desde a mais tenra e adequada idade, através de jogos, de estórias, de leituras para compreender a necessidade de coerência entre discurso e prática; um discurso sobre a defesa dos fracos, dos pobres, dos descamisados; um discurso que nega a existência das classes sociais, seus conflitos, e a prática política em favor exatamente dos poderosos".
De uns tempos para cá, com espanto, vejo brasileiros atacarem as ideias do educador Paulo Freire. Diversos países, no entanto, reverenciam-no e adotam suas ideias em seus planos educacionais. Por que o Brasil quer destruir seu patrimônio cultural e intelectual? Não seria um suicídio? Pense nisso. 
Para saber mais sobre a obra de Paulo Freire, clique aqui e aqui também. 
Um de seus livros mais conhecidos é Pedagogia do Oprimido, de 1968. 
Para ler as reportagens, faça download das imagens dos jornais acima. 


quinta-feira, 4 de abril de 2019

E se fosse comigo?

Texto e Foto de Lídia Maria de Melo

Em 4 de outubro de 2008, um sábado, escrevi o seguinte texto que publiquei em meu antigo blog:
Uma bicicleta acorrentada a um poste de esquina, sob chuva torrencial, atraiu minha atenção numa madrugada de anos atrás. Na rua, não havia ninguém, além de mim, protegida pela couraça de meu automóvel com vidro filmado. Não sei por que a gente tem essa ilusão de que o para-brisa escurecido nos põe a salvo.
Por onde andaria o dono da bicicleta? A tempestade teria motivado o abandono do veículo naquela calçada? Ou algo de ruim sucedera?
Não sei por que me preocupar com uma pessoa desconhecida. Mas essa sempre foi a minha natureza. Não, por curiosidade. Por preocupação mesmo. Deve ser muito triste esperar por alguém em casa e esse alguém não chegar, nem dar notícias.
Uma vez, numa manhã de inverno (1996, 1997 ou 1998), eu andava na praia e testemunhei a morte súbita de um atleta. Ventava muito e estava nublado. Meus olhos lacrimejavam. A areia fina impregnava aflitivamente entre os dentes. Tudo estava deserto. Era possível contar os que caminhavam ou corriam.
Uns passos depois de chegar, olhei para trás  e avistei um pequeno círculo de pessoas perto do mar. Retornei. E, antes que eu alcançasse o local, uma viatura do Corpo de Bombeiros estacionou. Vi quando o corpo de um homem foi coberto com pano branco. Ele vestia shorts de atleta, tinha pernas musculosas e calçava tênis. Era alguém que estava correndo e de repente caiu sem vida na areia. Pedi para ver seu rosto. Isso era importante, porque ele não carregava documentos, mas apenas uma chave. Não reconheci sua fisionomia, mas percebi que o boné era dos chamados atletas de Cristo.
Corri até um telefone público e liguei a cobrar para casa. Pedi a minha irmã, uma triatleta, que avisasse um casal que coordenava uma equipe de corredores. Com sorte, eles poderiam identificá-lo. Estava aflita com a possibilidade de que alguém o estivesse esperando em casa.
Infelizmente, esse receio se confirmou. O rapaz tinha 35 anos e era maratonista. Viúvo, morava com a mãe e a única filha de 9 anos. A menina aguardava, com coleguinhas, que o pai retornasse, para orientá-los em um trabalho de escola. Foi muito difícil dar a notícia para a família.
Mesmo sem poder tê-lo ajudado naquele instante final, senti um alívio por estar ali e ter tomado a iniciativa de procurar alguém que o conhecesse. Consegui evitar que ele fosse levado ao Instituto Médico Legal como indigente e que seus parentes tivessem que peregrinar, horas ou dias, até obter alguma informação sobre seu paradeiro.
Fiz por ele e por sua família apenas o que eu gostaria que fizessem por mim e pelos meus.
Quando a gente se põe no lugar do outro, dá para sentir sua dor e sabe exatamente como deve proceder.

terça-feira, 2 de abril de 2019

A mira do estilingue na terra dos Papagaios



Fotos e texto: Lídia Maria de Melo


À beira do Atlântico, um país de Papagaios elegeu seu líder maior, simulando estilingue com as asas.
No período da campanha eleitoral, o som das Maritacas era tão forte que, soprado pelos ventos oceânicos, atraiu terras longínquas.
Mesmo voando aos quatro cantos, Tucanos e Guarás-vermelhos logo perderam espaço.
A fauna entrou em espécie de transe, com o ruído dos louros, cujo líder reinaria durante quatro longos anos, assessorado pelos filhotes, por um Falcão-peregrino e um Urubu-rei.
O cenário ficou a tal ponto agitado que um terço dos eleitores se recusou a votar. Outro terço optou pelos Guarás.
Um pouquinho mais de outro terço, porém, caiu de encantos pelo Papagaio-mór, que obedecia cegamente a uma Calopsita, ou Cacatua faceira, não se sabe exatamente, que fez ninho em Terras do Norte, banhadas por dois oceanos.
No entanto, três meses após a aclamação, um forte chacoalho abalou o Reino Alado.

Seria um terremoto? Aviso de furacão? Ou efeitos do voo do Super-Homem? (Ou seria o Batman?). 
Uma rajada de vento tropical soprou forte uma notícia que logo se espalhou. Todo o território estava à deriva nas mãos de um Papagaio a serviço das terras nortistas e de um pequeno Espaço Conflituoso no Deserto, disputado por Estorninhos e Corujas-de-celeiro.
                                                    

Se governasse para os Papagaios, Maritacas, Araras e afins, o Papagaio-mór não teria se aliado aos Estorninhos e atraído a fúria da Coruja-de-celeiro e de espécies-irmãs.
Assim, as aves exportadoras da Terra Papagalli não deixariam de negociar ração com todas as espécies de Corujas e outras aves-aliadas.
O pior dessa história é que o Reino dos Papagaios também pode atrair outras modalidades de ódio. Toc-Toc-Toc! De tanto medo, as aves estão convocando o Pica-pau, para  bater na madeira três vezes, com seu poderoso bico, e isolar a possibilidade de algo dar ainda mais errado. 
As aves têm voado cabisbaixas, sem querer cantar. Voam rasantemente, avaliando seus erros: encantaram-se com uns pios e gorjeios, que na verdade não partiam de um coral bem regido.  

Se houvesse um maestro exímio, o Papagaio estaria ladeado pelo Bem-te-vi. O Beija-flor comandaria a área das Artes. João-de-Barro assumiria o setor da Habitação e a Águia, a Educação. Para o Meio Ambiente, qualquer uma delas se sairia bem. Porém, nenhuma foi convidada, o que desperta profundas desconfianças.
O que há de certo é que o reino naufraga a olhos vistos, sem sombras de expectativas.
A Previdência foi entregue ao bicho-homem. As aves já sabem que boa coisa não virá. E um tal Plano Anticrime, do Urubu-rei, tem por sustentação a filosofia de James Bond. Aquele mesmo de codinome 007. Licença para matar. 

As penas das aves tornaram-se muito ouriçadas. Não sabem a melhor decisão. Se ficam, o bicho pega; se voam, o homem come. O fato mesmo é que receiam virar os alvos, durante as aulas de estilingue.
Nesse caso, só vislumbram uma saída: tornarem-se aves de arribação.


domingo, 24 de março de 2019

Um Segundo (poema para Domingos de Oliveira)

                                                                 Lídia Maria de Melo
Domingos de Oliveira, 31/12/1971
Fonte: Arquivo Nacional.
Acervo do Fundo Correio da Manhã. 
Domínio Público. 31 de dezembro de 1971
O escritor não precisa escrever necessariamente sobre si. Até pode. Mas, muitas vezes, sente as dores, os amores, as aflições, os contentamentos do outro. 
Na verdade, criativamente, o escritor reproduz, recria, imagina. 
Ontem à tarde, a partida definitiva do cineasta, ator, roteirista e escritor Domingos de Oliveira me inspirou. 
Imbuída desse estado de espírito, escrevi o poema Um Segundo, que transcrevo mais abaixo.
Como consagrou Fernando Pessoa, "O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a sentir que é dor/ a dor que deveras sente". 
O fim é uma certeza na vida de todo ser humano. A perda também.
Infinitas coisas da vida me inspiram.

(Mera coincidência: com muitos anos de diferença, nasci no mesmo dia em que Domingos de Oliveira veio ao mundo).

            Um Segundo
                                  Lídia Maria de Melo

Levantou da cama, olhou o mar pela janela.
Fazia sol na cidade e o mundo andava em reboliço. 
Saboreou o suco de laranja meio azedo.
Do jeito que aprendeu a gostar.
Comeu o bagaço da laranja espremida,
contrariando as ideias maternas.
O intestino sempre agradeceu,
Falou ao telefone com um amigo de sempre.
Não era dado aos modernos contatos de teclados.
Preferia o olho no olho, ou confissões no ouvido, permeadas por Graham Bell.
Ouviu um disco de Tom, fingindo que o encontraria num bar de esquina.
Não tardou, chegou a hora do almoço.
Coxa de frango dourada. Purê de batata-baroa.
Não conseguiu deixar de lembrar da rima das primeiras idades: ovo e uva boa.
Subiu até a suíte para escovar os dentes e esticar o esqueleto.
Pela janela, uma brisa carinhosa aliviava a temperatura indigesta do verão.
Já era outono e a meteorologia prometia mais calmaria.
Mesmo sem querer, adormeceu.
Acordou de um susto.
Precisava continuar a escrever o roteiro encomendado.
Levantou da cama com cuidado.
O físico já não lhe permitia pular.
Ajeitou-se diante do computador e percebeu que perdera a partida amistosa da seleção de futebol.
Se era para falar em perdas, tantas coisas já se tinham ido.
Até mesmo a democracia andava se equilibrando no fio de uma navalha afiada.
Era mesmo hora de escrever.
Até conseguiu digitar a palavra “Quando”, mas uma pontada lancinante encolheu os dedos de suas mãos.
E não deu tempo para mais nada.
Não gritou, não pediu ajuda, não se contorceu, nem pensou.
Foi coisa de um segundo.
Sem subterfúgios.
A tarde silenciosa e tranquila trouxera um recado lacônico:
estava na hora de ir. 

domingo, 10 de março de 2019

Distração em dobro. Entrei em carro gêmeo do meu

Lídia Maria de Melo 


No final da manhã, de ontem, de maneira involuntária, tomei parte de um típico exemplo de distração em dobro.
Precisei deixar meu carro no estacionamento do Super Centro Boqueirão, primeiro centro comercial da América Latina, em funcionamento desde 1965 em um trecho das ruas Oswaldo Cruz, Lobo Viana e Álvares de Azevedo, no Bairro do Boqueirão, em Santos. O local é bastante agradável para compras e um lanche rápido, porém, um verdadeiro desafio de localização para os clientes. Em seus corredores, quase todo mundo se perde à procura de uma alguma loja, porque a planta parece ter sido moldada no mitológico labirinto da Ilha de Creta. 
Minha estada, no entanto, nada teve a ver com essa pitoresca característica. Foi rápida e sem necessidade de GPS, mapa ou bússola.
A tranquilidade vigorou até o retorno a meu carro.
Depois de pagar R$ 12,00 no guichê, por menos de uma hora de uso, desativei o alarme do veículo, abri a porta e, imediatamente, observei no tapete algo escrito com letras vermelhas. Uma marca bem pequena. Pensei que fosse um selo ou um papel caído. Entrei e me acomodei ao volante. Olhei rapidamente e vi que o tapete do lado do carona tinha a mesma inscrição. 
No câmbio, algo metálico me causou estranhamento. No banco ao carona, percebi uns objetos desconhecidos. Eu tinha deixado uma sacola plástica da Livraria Loyola, com quatro livros de teor político que tinha acabado de comprar. 
Tudo aconteceu em milésimos de segundos. O suficiente para eu perceber que aquele carro não era o meu. 
Saí imediatamente. Poderiam pensar que eu estava tentando roubar aquele automóvel. Ou, pior, eu poderia ser acusada de ter subtraído algum objeto alheio. Apesar de ter sido tudo rápido, juro ter visto uma carteira em cima do banco ao lado do assento do motorista. E eu sou uma pessoa honesta! Jamais pegaria algo que não me pertencesse! E se o dono do carro não acreditasse? Até provar que focinho de porco não é tomada!
Meu carro, do mesmo modelo, mesma marca e mesma cor, estava exatamente ao lado daquele no qual entrei por engano. Era um gêmeo dele. 
Busquei com os olhos alguém com quem pudesse me desculpar. 
Um senhor fumava, bem próximo, caminhando de um lado ao outro, mas nem me olhou. Pensei: "Como consegui abrir o carro com meu alarme?". Mas não foi isso.
Enquanto entrava no meu e dava partida, deduzi o que de fato ocorreu. 

Quando desativei o alarme, o som dessa ação veio do meu. Porém, não percebi que, naquele momento, havia dois carros idênticos, um ao lado do outro. Mirei no que não era meu e entrei. Só que o carro errado estava aberto, porque aquele senhor fumante, mais distraído que eu, estava ali, guardando o próprio veículo. Por isso, estava destrancado. 
O mais surpreendente é que, embaixo de suas barbas, eu, se fosse uma ladra, poderia ter levado o carro dele, ou os objetos que estavam lá dentro. E ele... Ah, ele não percebeu absolutamente nada!

quarta-feira, 6 de março de 2019

O povo está vivo e elege nas ruas o hit do Carnaval

Lídia Maria de Melo


Alguns podem achar estranho que o... (vocês sabem quem), eleito por maioria dos votos, tenha recebido publicamente, agora, na Folia de Momo, de Norte a Sul, a orientação de fazer determinada coisa.
Teriam os eleitores dele se arrependido?
Não creio!
Só para relembrar, ele obteve a maioria dos votos válidos. Porém, não recebeu a maioria dos votos dos eleitores brasileiros. 

Reuni informações em um quadro (que os ilustradores, diagramadores e diretores de arte, como o Sérgio Moura, não vejam🤦‍♀️🤭🤭).
Em 2018, o Brasil tinha 147.305.155 eleitores. Ele recebeu 57.797.847 votos. Fernando Haddad obteve 47.040.906. Os votos brancos somaram 2.486.593. Os nulos chegaram a 8.608.105. Outros 31.371.704 eleitores não compareceram às urnas.
Isso significa que 89.507.308 brasileiros habilitados ao voto (incluindo os adeptos de Haddad) optaram pelo #EleNão.
Agora, dá para entender por que bandas e blocos deste País elegeram nas ruas o hit do Carnaval 2019. O povo está vivo.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

Incêndio da Vila Socó, em Cubatão: 35 anos se passaram e ninguém foi responsabilizado

Lídia Maria de Melo
(publicado em 25 de fevereiro de 2019 e atualizado em 6 de abril de 2019)


Há 35 anos, o município paulista de Cubatão entrava para a história das tragédias brasileiras.
Nos primeiros minutos da madrugada de 25 de fevereiro de 1984, sábado de Carnaval, um incêndio de grandes proporções dizimou a Vila Socó, uma favela de palafitas, que abrigava cerca de 8 mil pessoas, à margem do quilômetro 57 da Via Anchieta, estrada que dá acesso a  São Paulo, capital do Estado homônimo.
Provocada por um vazamento de gasolina dos oleodutos da Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobrás, que passavam sob os casebres de madeira, a tragédia deixou 93 mortos e 200 feridos, segundo números oficiais divulgados pelo então presidente da Petrobrás, Shigeak Ueki.
Moradores sobreviventes, jornalistas, policiais militares, bombeiros nunca admitiram essa versão, diante do cenário de destruição que testemunharam.
A tubulação da Refinaria transferia o produto para o terminal portuário no bairro da Alemoa, em Santos.
Por volta das 22h30 da sexta-feira, 24 de fevereiro, também de acordo com versão oficial, um operador da Refinaria iniciou a transferência da gasolina, mas o duto que deveria receber o combustível estava fechado, o que teria causado pressão excessiva e a consequente ruptura.
Com isso, mais de 700 mil litros de gasolina vazaram no mangue e se espalharam rapidamente.O forte cheiro assustou moradores, mas a maioria não abandonou o local.
Reportagens jornalísticas da época relatam que o tenente Roldão Paulino da Silva, da Polícia Militar, durante ronda localizou o ponto do vazamento no duto e ainda deu voz de prisão a um morador que tentava encher um vasilhame com a gasolina.
O policial também alertou os moradores para que deixassem suas casas, porque havia riscos. Devido à forte chuva que caía naquela noite, a maioria não acatou as orientações. Muitos estavam dormindo.
O tenente comunicou a Petrobrás sobre o vazamento, utilizando o rádio da viatura. Um policial rodoviário também contatou a Refinaria. Diante dos avisos, o engenheiro Araci de Souza Freire compareceu ao ponto do vazamento e pediu ajuda ao Corpo de Bombeiros. Era meia-noite e vinte minutos do da madrugada do sábado, 25 de fevereiro.
Dez minutos depois, uma explosão foi ouvida e os moradores da Vila Socó viram labaredas. Alguns conseguiram fugir. Muitos (até hoje não se sabe quantos) não tiveram chance, porque em pouquíssimo tempo a favela foi tomada pelas chamas, após outras explosões. O fogo alastrou-se com rapidez, porque o produto inflamável espalhou-se pelo mangue, favorecido pela movimentação da maré.
Quando os bombeiros chegaram, não havia o que fazer. O incêndio só foi debelado pela manhã, quando alguns focos ainda podiam ser vistos. Além de restos de madeira e
utensílios retorcidos pelas chamas, o cenário expunha corpos incinerados. Sobreviventes tinham certeza de que crianças poderiam ter se desintegrado nas labaredas e famílias inteiras, sumido no fogo. Desse modo, não havia quem reclamasse a ausência delas.

CONTRASTE

Naquele ano, os números associados às indústrias de Cubatão denotavam riqueza. O município produzia 47% do hidrogênio brasileiro, 40% do aço, 38% dos fertilizantes, 32% do ácido fosfórico, 30% do polietileno, 18% do gás de cozinha e 12% da gasolina consumida em todo o território nacional, segundo a jornalista e pesquisadora Renata Egydio Carvalho¹. Alguns desses produtos eram também exportados, contabilizando cerca de um bilhão de dólares.
Essa robustez industrial contrastava com a pobreza que predominava entre boa parte dos habitantes do território situado ao pé da Serra do Mar, internacionalmente conhecido como Vale da Morte.
As favelas começaram a surgir em Cubatão com a construção da Via Anchieta, na década de 1940, e com a industrialização. Seu nome passou a ser associado  à poluição que provocava o nascimento de bebês anencéfalos, a alta incidência de leucopenia entre trabalhadores e o desflorestamento da Mata Atlântica, no trecho da Serra, em função do ar e das chuvas com alto teor de toxicidade.
Foi nesse ambiente que se formou a favela denominada Vila Socó no começo da década de 1960, por iniciativa de Arthur Isidoro Maez, pescador que criava um socó. O pássaro, que vive em meio aos pântanos e alagados, exatamente como as palafitas que foram consumidas pelo fogo, emprestou seu nome ao aglomerado.
A tragédia traumatizou toda a região da Baixada Santista, e o Ministério Público denunciou autoridades e técnicos, mas ninguém foi responsabilizado. O então ministro de Minas e Energia, César Cals, culpou o Governo do Estado pela tragédia, por haver um núcleo habitacional na área da Refinaria. Na ocasião, o governador era Franco Montoro, enquanto José Oswaldo Passarelli estava à frente da Prefeitura.
A Cesteb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) multou a Petrobrás, mas a empresa recorreu, isentando-se de culpa, com o apoio do Ministério das Minas e Energias.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade chegou a investigar o caso, ocorrido durante a ditadura militar, mas não houve resultados concretos.
Os moradores remanescentes foram transferidos mais tarde para um bairro planejado, que recebeu o nome de Vila São José.

COBERTURA JORNALÍSTICA


Bombeiro carrega corpo carbonizado na Vila Socó. A imagem
impactante, que registra as marcas da tragédia,
 foi captada pelo
 repórter-fotográfico Walter Mello, do jornal A Tribuna (Santos/SP)
Waltinho faleceu no dia 1.º de abril de 2019. 
O incêndio na Vila Socó ocorreu quando eu ainda cursava o terceiro ano do curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, na Faculdade de Comunicação de Santos (atual Universidade Católica de Santos).
Como era Carnaval, viajei na sexta-feira, dia 24, para a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, onde passei os Festejos de Momo. Lá, fiquei sabendo da tragédia.
Para ler a cobertura que jornais e revistas brasileiros e estrangeiros realizaram, clique nos títulos dos veículos de imprensa abaixo relacionados:
A Tribuna 1  (reprodução do site Novo Milênio)
A Tribuna 2 (reprodução do site Novo Milênio)
A Tribuna (versos para Vila Socó, reproduzida pelo Novo Milênio)
Cidade de Santos (reprodução do site Novo Milênio)
Agência Folha
Folha Press (inclui foto do repórter-fotográfico Ademir Barbosa)
Folha de S. Paulo (inclui a primeira página do jornal Notícias Populares)
Folha de S. Paulo (cobertura do dia da tragédia, com fotos de Ademir Barbosa, reprodução do site Novo Milênio)
Jornal do Brasil (digitalizado pelo Google News)
Jornal do Brasil (reproduzido pelo site Novo Milênio)
Jornal Especial Vila Socó 
O Estado de S. Paulo (reproduzido no site Novo Milênio)
Revista Brasil Extra (reproduzida pelo Novo Milênio)
Revista Veja (reproduzida pelo site Novo Milênio)
Revista Estudos Avançados (reprodução site Novo Milênio)
Última Hora (reprodução do site Novo Milênio)
The Canberra Times (Austrália), La Vanguardia (Barcelona), The New York Times (EUA), Time Magazine (EUA), Le Monde (França) ( reproduzidos pelo site Novo Milênio)
Gazeta Mercantil e Revista Manchete
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¹ CARVALHO, Renata Egydio. Cubatão e o jornalismo ecológico: estudo de três momentos. Disponível em: Acesso em 24 fev. 2019.