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terça-feira, 25 de junho de 2013

Charges avaliam manifestações de maneira
criativa, contundente e bem-humorada

      Angeli - Folha de S. Paulo 23/6/2013 - reprodução
A charge é um dos meios mais sintéticos de se expressar opinião. Para transmitir o que pensa a respeito de determinado assunto, o chargista utiliza linguagem não verbal, que pode estar associada, ou não, a recursos verbais. Porém, somente o emprego de imagem e de palavras não garante que a mensagem seja entendida.
A compreensão do conteúdo da charge envolve a somatória de outros fatores, como contexto, intertextualidade e conhecimento partilhado entre emissor e receptor. Se, por exemplo, quem observar a charge não tiver informação suficiente sobre o tema abordado, a comunicação não se concretizará.
O emprego de figuras de linguagem, como metáfora, ironia, hipérbole, prosopopeia, onomatopeia, elipse, é outro ponto fundamental para que a intenção da charge se consolide. Em outras palavras, a charge é uma unidade, formada por um mosaico de sentidos, ligados pelo humor.
Desde o início do mês, quando a população brasileira passou a ocupar as ruas das cidades para protestar, as manifestações tomaram o lugar da Copa das Confederações na relação de temas que serviram de inspiração aos chargistas.
                              "Afinal, pelo que vocês lutam?".
Na edição de domingo do jornal Folha de S. Paulo, a charge assinada por Angeli aborda o assunto (veja imagem acima). Ambientada em um espaço não especificado, mas que pode ser qualquer uma das cidades que estão sendo palco de manifestações, ela mostra um jornalista fazendo a seguinte questão a um grupo de encapuzados: "Afinal, pelo que vocês lutam?".
À frente de chamas e  armados com paus e embalagens de sprays, os integrantes do grupo respondem: "Ora! Por um país mais transparente!". A interjeição "ora" e os pontos de exclamação dão à explicação dos manifestantes um tom de obviedade.
A boca entreaberta do jornalista, além de caracterizar o momento da elaboração da pergunta, simboliza a expressão de surpresa diante da resposta, que torna a situação contraditória e irônica.
A perplexidade do repórter ocorre em silêncio, o que remete à  elipse, figura caracterizada pela omissão de palavras facilmente subentendidas no contexto. É como se ele e o leitor se perguntassem: "Se eles desejam tão ardentemente a transparência, como se apresentam com os rostos cobertos?!"
Assim, consolida-se, em clímax, a opinião humorada do chargista.
 DaCosta - A Tribuna 15/6/2013 - reprodução
No dia 15, a charge que DaCosta publicou no jornal A Tribuna envolve Copa das Confederações, protestos e repressão policial, sob um título formado pelo trocadilho: "Bola e Bala". As duas  palavras incorporam a síntese dos acontecimentos.
De um lado, a Seleção Brasileira de Futebol faz a bola rolar na abertura da Copa das Confederações.
Do outro, uma manifestante protesta nas ruas e tenta se proteger contra as balas de borracha disparadas pela Polícia Militar.
Esse tipo de projétil foi utilizado pela PM na Avenida Paulista, em  São Paulo, na tarde do dia 13, durante a  tentativa de conter o protesto contra o aumento da tarifa do transporte público. No episódio, manifestantes e jornalistas acabaram feridos e precisaram ser hospitalizados.
Nos dois quadros que compõem a charge, outro fator contribui para a construção do sentido, as cores da Bandeira Brasileira. O verde está no gramado, na gola e nas mangas da camiseta do jogador, que no restante é amarela. O azul aparece nas meias e no calção, que na lateral tem um detalhe branco, cor que tinge a chuteira.
Na manifestante, o verde colore o calçado, enquanto o amarelo se evidencia no bermudão, e o azul, na camiseta e na bolsa tiracolo. Já o branco, como símbolo da paz, chama a atenção na camiseta, que é larga e comprida.
Outras cores deixam suas marcas: o cinza do asfalto, de uma parte da bola e das balas que perfuram o papelão bege, com o qual a manifestante tenta se proteger.
A única diferença de tom entre os dois personagens é o roxo, que no cabelo da manifestante serve de indício de sua juventude e irreverência. 
O preto usado de base para o título pode ser interpretado como uma referência aos momentos de luto, já que o clima de confronto entre manifestantes e polícia nas ruas, até aquele momento, era de muito temor.
Nessa charge de DaCosta, o humor não provoca riso, mas apreensão. A mesma que se pode observar tanto na expressão do jogador, quanto na da manifestante.
 Paixão - Gazeta do Povo 15/6/2013 - reprodução
 
No mesmo dia 15, na Gazeta do Povo, Paixão faz intertextualidade com o quadro O Grito, de Edvard Munch (ao lado), datado de 1893, para expressar a reação do manifestante ao barulho das bombas lançadas pela tropa de choque da Polícia Militar.
A exemplo do que ocorre na pintura de Munch, a charge não emprega linguagem verbal, mas o grito que ecoa pode ser ouvido pela representação da imagem: o personagem tem a boca escancarada, os olhos arregalados e as mãos nos ouvidos, para protegê-los do estrondo das explosões. Os sons das bombas se evidenciam nos desenhos de fogueiras pontiagudas, pintadas de vermelho e amarelo, ao mesmo tempo em que delas sobem espirais de fumaças brancas.
 Jorge Braga - O Popular 18/6/2013 - reprodução
No dia 18, no jornal  O Popular, Jorge Braga, com linguagem não verbal e uma onomatopeia, dá sua interpretação à frase que mais vem se repetindo no País desde que os protestos tomaram conta das ruas: "O gigante despertou".
Numa associação explícita com o super-herói Hulk, o chargista mostra o Brasil, caracterizado pelo mapa, se transformando e rugindo, enfurecido e esverdeado. Ele não só despertou. Também amedronta. Basta ver  a expressão facial e os gestos do Hulk-Brasil.
Mesmo sem palavras, a charge faz referência aos versos do hino nacional brasileiro "gigante pela própria natureza" e "deitado eternamente em berço esplêndido", consolidando uma paródia.
Neste caso, ocorre então uma intertextualidade híbrida entre textos verbais, que são o hino e a frase sobre o despertar do gigante, e não verbais, o mapa do Brasil e o incrível Hulk.
Como se vê, as charges expõem comentários sobre questões cotidianas, de forma bastante sintética, mas muito criativa, contundente e bem-humorada.

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