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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Jornal da Tarde, a "festa acabou, a luz apagou"

Após 46 anos, 9 meses e 27 dias, o Jornal da Tarde deixa de circular.
Hoje, o diário paulista levou às bancas sua última edição, com uma foto da cidade de São Paulo e um agradecimento.
Na madrugada, inseri na Wikipédia a informação sobre o seu fim. Era a notícia que eu não gostaria de ter dado e que me fez lembrar do dia 15 de setembro de 1987, quando o jornal Cidade de Santos, do Grupo Folhas, encerrou suas atividades, depois de 20 anos de circulação.
Eu fazia parte daquela equipe e estava lá havia 1 ano e 9 meses, desde 2 de janeiro de 1986.
Embora tivesse tiragem estadual, o Jornal da Tarde faz parte da história do jornalismo brasileiro. Ajudou a contar a história do Brasil.
Não me lembro de seu início, mas foi em 4 de janeiro de 1966, com uma equipe disposta a seguir a cartilha do chamado New Journalism, corrente norte-americana que bebia na fonte da literatura, para elaborar seus textos, e ignorava as regras da objetividade, da pirâmide invertida.
Quase todos da equipe de repórteres que passaram por lá até os anos 1970 tornaram-se escritores.
Durante a ditadura militar, o JT ficou conhecido por cobrir os espaços em branco das matérias censuradas com receitas culinárias totalmente inventadas. Era uma espécie de aviso ao público, que nem sempre percebia a intenção da mensagem.
Em meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", publiquei uma dessas matérias, bruscamente interrompida, sem ponto final, e complementada com uma receita maluca.
Ao longo de sua trajetória, o JT se marcou pelos textos muito bem-escritos e pela criatividade e irreverência de suas capas.
Nesse último caso, se insere a primeira página de 5 de junho de 1978. Em destaque, está  Paulo Salim Maluf, indicado como candidato da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido governista, na disputa indireta pelo cargo de governador de São Paulo. Mesmo sendo o favorito do general-presidente Ernesto Geisel, Laudo Natel fora passado para trás. Charges ironizando Maluf emolduravam a página.
Em 26 de abril de 1984, o País acordou desalentado, porque o Congresso rejeitara a Ementa Dante de Oliveira, que nos garantiria o direito de tornar a escolher o presidente da República por meio do voto direto. O Brasil inteiro havia feito campanha pelas Diretas-já. Todos estavam empenhados na retomada da democracia. O JT sabia disso. Então, naquele dia, exibiu uma capa negra de alto a baixo. Pôs-se de luto junto com o povo.
Em 1982, quando a Seleção Brasileira de Futebol, apesar de ser a favorita, perdeu a Copa da Espanha, a foto de um menino chorando, vestido na camisa do Brasil, ocupou toda a primeira página. Como legenda, somente a data: Barcelona, 5 de de julho de 1982. O autor da imagem foi o fotógrafo Reinaldo Manente. A página teve idealização dos jornalistas Mário Marinho e Sandro Vaia.
Até pouco tempo atrás, quando a linha do jornal mudou, o diário presenteava o leitor com lições culturais. Publicava o Caderno de Sábado. Com ele, aprendi muito sobre literatura e cultura em geral.
Em 1995, quando Mike Tyson anunciou que voltaria a lutar, após anos afastado dos ringues por causa de sua prisão, o JT recorreu à linguagem publicitária para informar seus leitores. Não deu a notícia de chofre. Criou expectativa, utilizando "teaser", um recurso para despertar o interesse sobre um produto. Diariamente, soltava a frase "Ele vem aí", ao lado de um amassadinho no alto direito da primeira página. Cada dia, a área amassada ia aumentando, até que começou a surgiu uma mancha vermelha. Depois, uma luva rompeu a página e, no dia da luta, Tyson saiu dela. Essa série, denominada Tyson vem aí..., ganhou o Prêmio Esso de 1995, na categoria Criação Gráfica. A equipe responsável era composta por: Leão Serva, Paulo Sérgio Roberto e Ricardo Mello.
Antes, o jornal tinha feito o nariz de Paulo Maluf crescer dia a dia, como se ele fosse um pinóquio. Indiretamente, chamava-o de mentiroso.
Quando o primeiro transplante de coração foi realizado pelo sul-africano Christian Barnard, o JT estampou na edição de 4 de dezembro de 1967: "Coração de moça salva velho".
No ano seguinte, foi a vez do cirurgião Eurípides de Jesus Zerbini realizar o primeiro transplante cardíaco no Brasil. A edição de 26 de maio de 1968 saiu com um "Extra" acima da manchete "Coração trocado vai bem".
Não posso me esquecer de mencionar o Jornal do Carro, encartado todas as quartas-feiras, para atender a quem necessitava de informações sobre automóveis e outros veículos motorizados.
Seus fãs não precisam se preocupar. O JC conseguiu se salvar. Será incorporado a O Estado de S. Paulo.
A notícia sobre o fim do JT foi confirmada pela direção do Grupo Estado na tarde de segunda-feira (29/10/12).
Seria preciso escrever um livro para se falar das capas criativas do Jornal da Tarde. No momento, quero somente prestar-lhe uma homenagem, como leitora saudosa e jornalista.
Hoje, no Brasil, é o Dia do Saci Pererê, o personagem folclórico que dá fim a objetos, faz viajantes errarem o caminho. Seria bom que tudo não passasse de uma brincadeira provocada pelo negro moleque travesso de uma perna só. Infelizmente, não é.
Então, aquela capa enlutada do Jornal da Tarde, publicada em 26 de abril de 1984, poderia ser resgatada hoje.
Como também é dia do aniversário de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade, vale lembrar de seus versos: "A festa acabou/ a luz apagou".
Abraço aos colegas que fizeram a edição final.

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