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domingo, 18 de setembro de 2011

Com que autoridade estão mudando os ditados populares? Por que agora se "vaia" Roma?

Não há novidade em se dizer que a língua é dinâmica e passa, ao longo dos tempos, por um processo de alteração, tanto na forma das palavras, quanto nos sentidos. De tempos em tempos, muitos vocábulos surgem e outros morrem. Essas mudanças ocorrem sempre a partir de uma necessidade dos falantes do idioma.
Primeiro, as alterações costumam se dar no plano oral. Depois, no escrito. E normalmente ficam registradas em documentos, na imprensa, na literatura... Só a partir de uma ocorrência acentuada é que linguistas e dicionaristas procedem ao registro oficial nas gramáticas, nos estudos linguísticos e nos dicionários.
Desde que a internet tornou-se ambiente comum aos povos, passaram a circular entre os usuários informações nem sempre fundamentadas ou assinadas por alguém idôneo. Mesmo assim, são aceitas como corretas pela maioria que não questiona a procedência delas.
No rol de exemplos estão textos falsos, atribuídos a pessoas respeitadas em seu campo de atuação, como jornalistas, escritores, poetas, professores de português, políticos.
Em espanhol, em francês e italiano, quem tem boca vai a Roma. Por que não em português?
Já há algum tempo, chama a atenção uma lista de ditados populares que, supostamente, teriam sido concebidos há séculos com estrutura diferente da que utilizamos agora. Com "agora", quero dizer há mais de 100 anos. Faço esse cálculo porque meus avós, se vivos fossem, teriam ultrapassado um século de existência. Meus pais aprenderam com eles ditados que hoje ainda ouço. Se alguém decide atualmente que eles surgiram com outro sentido, essa correção deve remontar a um período superior a um cento de anos.
Entre os ditados, está o mais que conhecido "Quem tem boca vai a Roma".
Em agosto do ano passado, na revista Língua Portuguesa, o professor e escritor Sírio Possenti, do Departamento de Linguística da Unicamp e autor do livro Os Humores da Língua - Análises Linguísticas de Piadas, comentou sobre esse modismo de se alterar certas expressões, com o argumento de que elas não fazem sentido.
Além de outros exemplos, ele citou "Quem tem boca vai a Roma", que a lista da internet corrige para "Quem tem boca vaia Roma".
"Boca", como explicou o professor, é uma metonímia para "perguntar", "sabe falar" etc. Ele lembrou também que o mesmo ditado tem correspondente em outras línguas. Em francês, Qui langue a, à Rome vá (numa tradição livre, Quem tem língua, vai a Roma); em espanhol, Preguntando se va a Roma (Perguntando se vai a Roma); e, em italiano, Chi língua há, a Roma va (Quem tem língua, vai a Roma).
Ou seja, nesses idiomas de origem latina, como o português, o ditado quer dizer exatamente o que o nosso expressa: "Quem tem boca vai a Roma" (Quem tem boca pergunta e chega ao lugar procurado). Por que somente no Brasil a cidade que foi sede de um império seria vaiada?
Na tal lista que circula na internet, consta também a expressão "bicho-carpinteiro" como errada e corrigida para "bicho no corpo inteiro". Basta uma consulta aos dicinários, como o de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Aurélio Século XXI), para ver a expressão "bicho-carpinteiro" registrada com o sentido relacionado "a quem não consegue ficar quieto, não para em lugar nenhum".
Utilizada há séculos no arquipélago de Açores, a expressão é mencionada também pelo frei português Francisco Rei de Abreu Mata Zeferino em seu livro Anatômico Jocoso, de 1755, no capítulo 1, nas páginas 155 e 204. Ou seja, há 256 anos.
Alterar dito popular equivale a trocar risco de vida por risco de morte. Modismo sem fundamento
Essa ânsia de correção, sem base científica, é semelhante à que envolve a expressão idiomática "risco de vida", há séculos consagrada pelo uso, no português, no francês (risque de vie), no espanhol (riesgo de vida), no inglês (risk of life), mas que, agora, alguém no Brasil cismou de mudar para "risco de morte".
Escritores renomados da língua portuguesa registraram-na em suas obras: Aluísio de Azevedo, em O Cortiço ("Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos estiveram em risco de vida"); José de Alencar, em O Guarani ( "Não há dúvida, disse D. Antônio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecília quis fazer-lhe a vontade com risco de vida"); Machado de Assis, em Quincas Borba ("Salvar uma criança com o risco da própria vida...").
As leis brasileiras falam em "gratificação por risco de vida", assim como o Código de Ética Médico menciona "iminente risco de vida".
Isso não quer dizer que a expressão "risco de morte" não possa ser usada. O que causa estranheza é empregá-la no lugar de "risco de vida", como se essa estivesse errada.
O uso de "risco de morte" é registrado também em nossa literatura, mas a expressão está sempre acompanhada de um adjetivo. Exemplos: risco de morte súbita, risco de morte por afogamento, risco de morte por parada cardíaca, como cita o professor Cláudio Moreno no blog Sua Língua.

Então não se poderia usar a expressão "ao pé da letra". Afinal, letra não tem pé!
Volto a repetir, como a língua é dinâmica, alterações podem ocorrer nas expressões, nas palavras. Mas só as aceito de bom grado se surgirem espontaneamente entre a população. 
No caso dos ditados populares e de "risco de vida", as mudanças têm sido impostas pela imprensa e por usuários da internet que não questionam as mensagens que recebem por e-mails.
Se alguém trouxer a público documentos que comprovem que os ditos populares incluídos na listagem surgiram de forma diferente há séculos e séculos, então darei minha mão à palmatória. Opa, essa expressão quer dizer que me renderei aos argumentos. Quando foi criada, fazia referência ao castigo aplicado nas escolas ou nas casas, com o uso da palmatória, um instrumento que servia para castigar uma pessoa, aplicando-lhe golpes na palma da mão. Como a palmatória foi abolida, pode ser que alguém queira encontrar uma outra explicação para ela.
Vale lembrar que as expressões idiomáticas não têm sentido literal. A maioria está impregnada de sentidos expressos por figuras de linguagem ou de pensamento, ou faz referência a uma realidade que já se modificou. Retratam a cultura do povo que as criou.
Uma mesma palavra ou expressão pode assumir conotação diferente, dependendo do contexto. Se assim não fosse, jamais poderíamos dizer, por exemplo, "ao pé da letra". Afinal, letra não tem pé!
Verificar a autenticidade é ato necessário
A tal lista alterando os ditados populares foi atribuída ao professor Pasquale Cipro Neto. Indignado, ele negou a autoria em artigo publicado na Folha de S. Paulo de 13 de maio de 2010.  Leia.
Ah, aqui também cabe um alerta: antes de disseminar tudo o que aparece em mensagem enviada por e-mail, postada em redes sociais, ou acreditar no que está escrito, é preciso verificar a autenticidade.
Durante a campanha eleitoral à Presidência da República, um e-mail denegria a imagem da então candidata Dilma Rousseff, atribuindo-lhe ações das quais ela jamais participou. Aquelas afirmações não tinham fundamento, eram mentirosas, mas muita gente acreditou.
Por isso e muito mais, é preciso confirmar a procedência das informações que circulam na internet (ou fora dela).

3 comentários:

Eunice Bemfica disse...

Oi, Lídia! Enfim alguém com credibilidade e consistência teórica toca nesse assunto! Não aguento mais ouvir o tal "risco de morte" nos telejornais da Globo, sem falar nos outros casos, menos comuns, porém não menos gritantes. Muito bem!

Lidia Maria de Melo disse...

Comentários postados no Facebook -

Alessandro Atanes disse: Belo artigo de Lidia Maria de Melo sobre como os modismos acabam com a língua. Esse negócio de risco de morte no lugar de risco de vida, etc... O risco é da vida, de perdê-la, é a vida que arriscamos, por isso é que a expressão contém a palavra vida.

Alex Gomes Sakai disse: Essa história de risco de morte é uma bobagem, e os usuários se acham o máximo.

Luiz Otero disse:
Sempre vale a pena ler o que a Lidia Maria de Melo escreve no blog. Confiram.

Beth disse...

Parabéns pelo seu texto!

Assim que li lembrei do ditado:
"enfiou o pé no jacá" que foi transmudado em "enfiou o pé na jaca", perdendo completamente seu sentido original...

Antigamente, os tropeiros paravam nas biroscas, a meio caminho, para tomar uma pinga. Então, quando bebiam demais, era comum colocarem o pé direiro no estribo e, quando jogavam a perna esquerda para montar os cavalos, erravam e enfiavam o pé no jacá (cesto em que as mercadorias eram carregadas)
levando um grande tombo.

Por isso, quando alguém bebe demais
diz-se que ele "...enfiou o pé no jacá"; lembrando sempre que a jaca,
fruta, não tem nada com isso.

E então a gente se pergunta: "Com
que autoridade estão mudando os ditados populares?"

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