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sábado, 30 de julho de 2011

Apenas uma pessoa morreu. Apenas?!

                   Ilustração: Lídia Maria de Melo
Como você se sentiria, se descobrisse que a única vítima fatal em um acidente de avião, com 162 pessoas a bordo, é seu filho ou sua filha, irmão, irmã, marido, mulher, alguém de sua família?
Como você reagiria se uma criança vítima de abuso sexual fosse sua parente? E se ela tivesse 9 anos em vez de 3? Faria diferença? Você se sentiria menos indignado? Sua dor seria menor?
Imaginando que você seja pai ou mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, avô ou avó, tio ou tia, integrante de uma família a quem ama, que seja um ser humano com um mínimo de sentimentos, posso antever sua resposta.
Então, é hora de outra pergunta. Desta vez, destinada a colegas jornalistas. Por que empregar o advérbio "apenas" em notícias desse gênero?
Observe esta frase: "Apenas uma pessoa se salvou entre os 162 ocupantes do avião". O "apenas" não tem o mesmo efeito que nesta outra: "Apenas uma pessoa morreu entre os 162 ocupantes do avião".
Na primeira, não ofende, porque está associado à ideia de vitória dentro de uma tragédia. Está ligado à celebração da vida.
Na segunda, soa como se essa vida perdida tivesse pouca ou nenhuma importância, já que tantas outras se salvaram. Ajuda a desmerecer a dor da família.
Do ponto de vista jornalístico, o "apenas" relega a nada a única pessoa morta no acidente aéreo, porque numericamente a quantidade é ínfima. No entanto, para a família, mesmo em termos percentuais, a perda equivale a 100%. Pode corresponder a todo seu universo.
O "apenas" também terá conotações totalmente diferentes nestas duas outras construções: 1) "Uma criança de apenas 3 anos aprendeu a ler sozinha"; 2) "Uma criança de apenas 3 anos foi violentada".
Na primeira, ressalta uma situação inusitada, mas positiva. Reforça que não é comum uma criança dessa idade aprender a ler, e ainda mais sozinha. Não agride os que não estão incluídos nesse rol.
Na segunda, é desnecessário, porque a situação envolve "uma criança", que tem "3 anos" e que foi "violentada". Essa notícia não precisa de um advérbio para ser chocante.
O uso do "apenas" deixa subentendido que, se o abuso sexual fosse contra uma criança mais velha, como uma de 9 anos, por exemplo, o crime seria menos grave. O que não é verdade.
Dá para perceber?
Por isso, é preciso refletir sobre os vários sentidos e o peso das palavras antes de se divulgar uma notícia.
Uma frase como "Apenas uma pessoa morreu no acidente" soa como descaso. Ou uma agressão.

3 comentários:

O Tribuno disse...

Minha nobre jornalista, estou aqui APENAS para dizer que suas observações foram "apenasmente" fantásticas. Parabéns!

Eunice Bemfica disse...

Bom saber que você dá aulas em curso de jornalismo, pois esse discernimento merece ser compartilhado.

Lidia Maria de Melo disse...

Mensagens postadas no Facebook:

*Dirceu Cateck disse: "Nossa Lídia, adorei o post de hoje. Há certo tempo havia feito essa observação e sempre achei desnecessário a palavra "apenas" em alguns contextos e até agressivos em outros, exatamente como você expressa neste texto".

*Rafael Motta disse: "E não é "apenas" um jornalista que não se apercebe disso, Lídia".

*Mauricio Businari disse: "O Jornalismo agoniza, o corpo todo engessado".

*Beth Capelache de Carvalho curtiu o post

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