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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Livro não incentiva o erro de Português

Reproduções
O livro 'Por Uma Vida Melhor', de Heloísa Ramos, foi distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) em escolas públicas, após seleção efetuada por uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Não conheço o livro entregue a 484.195 estudantes, mas, pelo trecho que vi reproduzido em um jornal, não me surpreendo com o que a autora escreveu.
Ela não incentiva o erro de Português. Mostra as variações dos falares brasileiros e explica as regras que são exigidas pela norma culta ou linguagem formal.
'O ''nóis vai'' interiorano equivale ao ''tu vai'' do santista e do gaúcho. O emprego dessas formas coloquiais na presença de pessoas íntimas não é atestado de incapacidade verbal.
Certamente, quem domina a norma culta fará a concordância correta quando estiver em uma situação formal (falando ou escrevendo).
Quem ainda não domina precisará aprender, para poder usar o idioma como as regras gramaticais vigentes estabelecem. Do contrário, não saberá se colocar nos meios em que o padrão culto for dominante e correrá o risco de ser discriminado.
Esse livro não é o primeiro a enfocar o assunto. Na verdade, a maioria das publicações de Língua Portuguesa que conheço e utilizo apresenta as variantes dos falares brasileiros.
Nem por isso deixo, ou deixei, de exigir de meus alunos ou de meus repórteres o emprego das regras gramaticais que regem o Português culto.
No entanto, quando estou diante de uma pessoa que não teve acesso à educação sistemática e que comete erros de concordância ou de pronúncia, não a discrimino, nem espero que ela tenha o mesmo domínio do idioma que eu esperaria de uma pessoa com escolaridade completa. Também não a considero menos capaz intelectualmente.
O assunto merece um debate mais responsável do que o que vem sendo realizado pela imprensa.
Do contrário, vai se repetir o festival de bobagens veiculado em 1990 (e nos anos imediatamente seguintes) depois que o então ministro Antônio Rogério Magri disse que o Plano Collor era ''imexível''. Para que a polêmica arrefecesse, foi preciso que linguistas viessem a público em defesa da palavra inventada pelo então titular do Ministério do Trabalho.
Na ocasião, até que gostei dos absurdos publicados sobre a criação daquela palavra. Foram úteis para mim. Pude enriquecer minha dissertação de Mestrado, ''Neologismos em Pauta - Os Jornais como Disseminadores e Criadores de Novas Palavras'', defendida em 2001 na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
A imprensa precisaria abordar questões linguísticas com mais conhecimento de causa.
Minha sugestão é que leiam os livros: 'Preconceito Linguístico', de Marcos Bagno, publicado pelas  Edições Loyola, e 'Preconceito e Intolerância na Linguagem', de Marli Quadros Leite, pela Editora Contexto.
Bagno fez Letras e  Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco e Doutorado na USP. É professor da Universidade de Brasilía. Marli é professora livre-docente do programa de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da  USP.
Leia nota da Associação Brasileira de Linguística (Abralin) aqui.
Este meu artigo está reproduzido no Portal Luís Nassif.
Leia também: ''Polêmica ou Ignorância?'', de Marcos Bagno.

(Este texto foi republicado no site do Observatório da Imprensa, da AdNews e do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná).

6 comentários:

Eunice Bemfica disse...

Enfim, um comentário desapaixonado e embasado em informações técnicas sobre o assunto! Não aguento mais ler críticas superficiais, de quem apenas reproduz alguma frase que pinçou por aí! Há, por outro lado, defensores cegos de tudo que o Governo faz e adota, que também falam sem qualquer base- porém, a favor! Obrigada por clarear essa discussão.

Lidia Maria de Melo disse...

Obrigada, Eunice. Uma de minhas paixões é a língua portuguesa. O jornalismo isento também. Mas fico envergonhada quando nossos colegas jornalistas se põem a palpitar sem embasamento, com ares de donos da verdade. Em relação ao nosso idioma, os foras costumam ser homéricos! Não deveria ser assim, mas é. Comentei mais no Facebook

Lidia Maria de Melo disse...

Reproduzo aqui comentários que recebi no Facebook e minha réplica:

Marcel Cordella disse: Segundo os jornais, os livros consideram tanto "os livros estavam" quanto "os livro estavam" como formas gramaticalmente aceitas. Não tenho 1/1000 do seu conhecimento, mas não seria mais simples ensinar o certo e explicar que essas flexões ...do idioma existem, principalmente no uso oral? Não concordo, mas entendo seus argumentos, com a marca registrada do Português primoroso oferecido gratuitamente por Lidia Maria de Melo. Bj chefe!

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Cristina Jabbur disse: Perfeita, sua colocação, Lídia. Parabéns!
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Lídia Maria de Melo disse: Obrigada, Cristina Jabbur. Língua Portuguesa é uma de minhas paixões. Marcel Cordella, como dizem os candidatos a cargos políticos, ''você me conhece''. Sou professora de Português há 33 anos. Sou jornalista, há 25 anos e meio. O problema é... justamente o ''segundo os jornais''. Parece que o pessoal não lê. Tira um trecho do livro do contexto e sai opinando, tecendo teses e eu fico aqui me contorcendo. Felizmente, não sou a única. Pelo jeito vou juntar material para mais uma tese. O ''imexível' me ajudou no Mestrado. Agora, acho que poderei fazer um Doutorado. Não há novidade no que a autora escreveu no livro dela. Os professores vão continuar a exigir que o aluno aprenda as regras gramaticais vigentes. Nada mudou. Pode confiar em mim. Alguém não entendeu e saiu vociferando. Desde que vi a notícia no JN da semana passada, fiquei procurando um tempo para escrever a respeito. Beijão. E obrigada por me prestigiar.

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Luiz Otero disse: Concordo com o Marcel Cordella Como ele mesmo disse anteriormente, antes do Riobaldo, existiu um Guimarães Rosa culto.
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‎ Lidia Maria de Melo disse: Luiz Otero, leia minha resposta ao Marcel, acima de seu comentário. Volto a frisar: nenhum professor de Português vai querer que seus alunos não aprendam a norma culta do idioma. O que o livro menciona é o mesmo que os demais livros de Língua Portuguesa citam. Existem vários falares. Leia em meu blog e você vai entender. Quanto ao Guimarães Rosa, é exatamente o que o livro defende. Se G.R. ficasse engessado em um único falar, o Riobaldo não poderia existir. Também sou professora de Literatura. Sem idioma não há literatura. Guimarães Rosa foi beber na fonte dos moradores do Vale do Jequitinhonha, embora fosse médico. Outro personagem dele, o Manuelzão, existiu realmente. E Rosa achou-o tão interessante, embora ele fosse um tropeiro, e usou o linguajar dele em sua obra. Leia o que escrevi em meu blog. Rosa só pôde valorizar esse falar porque valorizava os diversos níveis de fala. Nada disso é novo. Agora é que alguém decidiu encontrar pelo em ovo. Um abraço.

Nando disse...

Tava estranhando seu silêncio, quase te escrevi. Mas tinha certeza sobre tua posição a respeito. Tenho cada vez mais vergonha de ser jornalista.

Lidia Maria de Melo disse...

Desculpe-me, Nando, por entrar no debate com atraso. Foi falta de tempo. Desde que ouvi a primeira notícia, no Jornal Nacional, passei a defender meu ponto de vista contrário ao que foi divulgado. Tinha certeza de que ouviria e leria uma porção de bobagens. Infelizmente, minha previsão se confirmou. Do jeito que está, dá vergonha mesmo. Beijão

Lidia Maria de Melo disse...

Comentário que recebi no Twitter:
Daniel Nakajima disse: @LidiaMdeMelo você sempre nos dando uma aula de jornalismo e português. Boa Lídia! Desse jeito vou tomar açúcara na leche!!! hehe beijão!

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