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sábado, 30 de abril de 2011

Aos 99 anos, morre o escritor argentino
Ernesto Sábato, autor da epígrafe deste blog

                                                        Fotos Lídia Maria de Melo/reprodução
                                                                               clique nelas para ampliar

Morreu hoje, aos 99 anos e dez meses, o escritor argentino Ernesto Sábato.
Em 22 de junho de 1991, dois dias antes de Sábato completar 80 anos, o Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, publicava uma entrevista de página dupla com ele. Ainda hoje guardo o texto assinado por Eduardo Montibello.
Após muita insistência para vencer a relutância do escritor, o jornalista viajou até Santos Lugares, um distante bairro de Buenos Aires, onde Sábato morava fazia cerca de meio século, e conseguiu que ele filosofasse sobre literatura, política argentina, jornalismo, futebol e sua participação na comissão que analisava o desaparecimento de presos políticos.
Foi desse material que tirei a frase que serve de epígrafe a este blog (sobre a foto de abertura,  no alto da página): ''Na vida, tudo pede paixão''.
Nela, Sábato sintetiza a força motriz do ser humano, embora estivesse discorrendo sobre o esporte que é paixão na Argentina, no Brasil e em diversos países do mundo.
Em resposta à pergunta ''Sobre o que gostaria de escrever, um tema que nunca tenha escrito?'', ele responde:
''Uma coisa sobre a qual nunca escrevi é o futebol. Creio que é o esporte mais inteligente, por isso se impôs em todos os países do mundo, menos nos Estados Unidos e no Japão, onde eles gostam do beisebol. Você acha que existe um esporte mais estúpido que o beisebol? Não creio. O futebol tem uma beleza estética, um bom passe, um gol. Às vezes, vejo uma partida pela televisão e me entusiamo como qualquer torcedor, me emociono, grito. É apaixonante. Parece-me normal que as pessoas vibrem em campo. Dizem que em campo as pessoas ficam como loucas, mas isso é compreensível, como me parece perfeitamente normal que duas pessoas se enfrentem aos murros defendendo seu clube. Cheguei a brigar com torcedores do Gimnasia y Esgrima quando era estudante em La Plata. Ali, quando nasce um garoto, o pai põe uma camisa do clube no breço. O futebol desperta paixão, e, na vida, tudo pede paixão''.
Dois anos depois, em 9 de janeiro de 1993, o autor do romance ''O Túnel'', entre tantos outros livros literários e ensaísticos, concede nova entrevista ao mesmo Caderno de Sábado, do Jornal de Tarde. Dessa vez, assinada pelo jornalista Janer Cristaldo.
Nessa, ele fala sobre as mudanças no Leste Europeu e os reflexos na política mundial,sobre sua crença em Deus (''conforme o momento e as circunstâncias''), uma doença nos olhos que o impedia de ler e escrever, sobre a pintura que desenvolvia, sobre as injustiças, a ciência, a violência.
Foi desse material que destaquei uma epígrafe para meu livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós, que escrevi em 1985, mas só publiquei em 1995.
Refiro-me à frase ''Não há ditaduras más e outras benéficas: todas são igualmente abomináveis'', dita na resposta à primeira pergunta: ''Você, que há mais de meio século vem lutando contra as tiranias dos regimes comunistas, como se sente no fim do século?'' 
Leia a resposta completa de Ernesto Sábato: ''Não só lutei contra as tiranias comunistas, mas contra toda forma de tirania. Não há ditaduras más e outras benéficas: todas são igualmente abomináveis. O que me desagrada é quando são feitas em nome de grandes ideais, como foi o caso, precisamente, da stalinista. Pelo mesmo motivo, me repugnam as igrejas estabelecidas que, como no caso da religião cristã, com um Deus onisciente e infinitamente bondoso, torturaram horrendamente ou perseguiram até a morte seitas bondosas''.  
Antes de se tornar escritor, jornalista, ativista político e pintor, Sábato foi físico nuclear.
Em 1984, ele assinou o livro ''Nunca Mais'', um documento sobre as pessoas desaparecidas durante a ditadura militar argentina. O trabalho inspirou o projeto ''Brasil: Nunca Mais'', coordenado pelo então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que incluiu a publicação do livro homônimo, publicado em 1985.

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