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domingo, 10 de outubro de 2010

João Cabral de Melo Neto

Ontem foi dia do nascimento de Lennon. Era necessário lugar exclusivo no calendário. Não merecia ofuscamento.
 Por essa razão, deixei para hoje o registro dos 11 anos da morte de outro poeta. Um brasileiro, um nordestino, um severino douto, homem de intelecto. João Cabral de Melo Neto, autor de vasta obra, mas que se popularizou com Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque.
Abaixo, apenas uma pequena amostra da verve deste filho de Recife (PE), que nasceu em 9 de janeiro de 1920, percorreu o mundo como diplomata e morreu em 9 de outubro de 1999:


Catar Feijão

Catar feijão se limita com escrever:
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco, 
o de que entre os grãos pesados entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a com risco. 
                      
 (João Cabral de Melo Neto)
...................................................................................
Tecendo a Manhã    
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.  

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
   

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.  

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto)

.................................................................
Portador de dor de cabeça crônica, João Cabral dedicou um poema à aspirina:

Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda a hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia...

(João Cabral de Melo Neto)
                                       

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