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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Mosquito na cozinha

A lembrança mais remota que guardo de São Longuinho não tem data. Envolve uma tesourinha que meu pai preservava para aparar o bigode. E aqui cabe uma digressão. Nunca vi meu pai sem bigode, nem quando fez quimioterapia e perdeu parte dos pêlos.
Eu devia estar com 9 anos de idade e, numa manhã, meu pai saiu furioso do banheiro , parecendo aquele homenzinho que vem impresso no pacote de lâminas da marca Gillete. Procurava sua tesourinha, infinitamente menor que a tesoura de costura de minha mãe.
Percorreu os demais cômodos da casa e eu quieta, tentando me lembrar em que lugar eu havia deixado a tesourinha na tarde anterior. Encostei a cabeça na parede, aparando a testa no antebraço. Foi então que lancei mão da prece que aprendera com minha mãe:
São Longuinho,
São Longuinho,
faça-me achar
a tesourinha
que eu lhe dou
três pulinhos.
Lembrei! No quarador de roupas, feito de ripas no fundo do quintal. Corri até lá. Estava caída no gramadinho. Depois de dar os três pulinhos, entreguei a tesourinha a meu pai. Não sem antes levar uma bronca. A tesoura ficaria cega, se eu continuasse a cortar papel com ela. Cortar papel era meu brinquedo favorito. Fazia bonecas mil.
Agora, estou na cozinha, com as portas fechadas, tentando avistar, com os limites de minha visão, um mosquito que minha irmã tentou matar, mas não conseguiu. Estamos em tempo de estiagem, mas se for um Aedes aegypti é uma séria ameaça. Nossa cidade se inclui entre as que correm risco de ter epidemia de dengue hemorrágica. Nos verões passados, já registrou milhares de casos da doença, na forma comum.
Depois de um breve silêncio, percebo quando o mosquito voa por baixo da mesa em direção à pia, onde está o forno elétrico, abaixo do micro-ondas, garrafa plástica de água mineral e uma mamadeira. Há ainda dois pratos sujos e uns copos usados. Deixamos para lavar de manhã, para não fazer barulho e acordar o bebê, que dorme em seu quarto.
Sacudo um pano de prato. Nem sinal dele. Fico parada, quieta. Só os olhos correndo para todos os lados. O teto é um lugar onde eles costumam ficar. Nas quinas também. Nada. Sinto-me como um soldado na selva vietnamita. Pisando leve para não alertar o inimigo. E ele está ali, quem sabe me percebendo.
Imploro a São Longuinho, para me permitir enxergá-lo. Mas acho que fiz o pedido errado. Ele aparece na lateral do forninho, ressaltado na tinta esmaltada branca.
Mas não posso atingi-lo, embora tenha tentado. Não há ângulo, entre a mamadeira e a garrafa plástica de água mineral. Ele desaparece outra vez. O relógio já marca meia-noite. Paciência é preciso, como a um budista. Um Roberto Baggio, que vê a Itália sendo derrotada pela Nigéria e ficando de fora da semifinal da Copa do Mundo de Futebol, embaixo de muito olé. Mas eis que o nigeriano se distrai e permite que Baggio toque na bola. Sai do meio do campo. Dribla um, passa por outro e mais um, chuta a gol. Empata e consegue a prorrogação, passando dois minutos do tempo regulamentar da partida. Na prorrogação, outro Baggio, o Dino, marca um gol e a Itália fica, mostrando aos nigerianos que é preciso malícia e paciência ininterruptamente.
Na final do campeonato, o feito não se repete. Ao contrário, é o mesmo Baggio, o Roberto, que perde o pênalti fatal, deixando a taça para a seleção do Brasil. Novamente, a paciência budista. Nenhum sinal de rebeldia, mas de resignação. Mesmo quando fica na geladeira depois daquele erro. A paciência é fundamental. Às vezes a pratico deliberadamente, tentando colocar linha em agulha bem pequena, afrouxar parafuso minúsculo. É teste de sobrevivência. E se algum dia minha vida, ou a de quem mais amo, depender de uma ação assim?
O mosquito está ali, mas não o vejo por outros vários minutos. Até que ele ressurge no armário branco. Apresso-me a pegar o chinelo do pé direito e, mesmo correndo o risco de fazer barulho e acordar o bebê, solto uma sonora chinelada. Em vão. Ele consegue fugir. Refaço o pedido ao santo das coisas desaparecidas. ‘‘Permita que eu o veja e mate, para poder dormir sossegada’’. Antigamente essa peregrinação era com barata. Hoje nem as vejo mais.
Fico outro tanto de tempo e desisto. Fecho a porta e vou para meu quarto. Antes, comunico minha irmã, que não se conforma e vai à cozinha. Uns dez minutos depois, volta ela sorridente e vitoriosa. ‘‘Matei o maldito’’, diz, entreabrindo a porta de meu quarto. ‘’Onde?’’, quero saber. ‘‘Na porta da geladeira’’.
Mesmo deitada, sacudo o corpo três vezes. São Longuinho me valeu.

3 comentários:

Luiz Gomes Otero disse...

Podemos dizer que o tal inseto se meteu em uma gelada ao aterrisar na porta da geladeira? Que final irônico e previsível para ele.

Anônimo disse...

Este parece um texto de Rubem Braga!Já persegui inúmeros mosquitos, também receando ser, algum deles, o transmissor da dengue.A partir de agora, pensarei em São Longuinho. Parabéns por tirar graça das coisas mais comuns!

Eduardo Lara Resende disse...

Excelente, Lídia! Acho que teríamos muito a conversar: baratas, estratégias para caça a mosquitos e exercícios deliberados de paciência.
São Longuinho pede que transmita a V. que a melhor arma para matar o mosquito (desde que seja localizado, é claro) é a tal raquete elétrica. Não escapa um.
O texto é ótimo.
Abraço.

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