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sábado, 10 de outubro de 2009

Prioridade em pronto-socorro:
a ficha ou a vida?

Como se distingue a prioridade em um pronto-socorro?
Será que funcionários que trabalham na recepção estão aptos a fazer a triagem dos pacientes?
Essas duas perguntas me ocorreram esta semana, quando precisei procurar um atendimento médico de emergência.
Sou daquelas pessoas que evitam ao máximo passar por um profissional de saúde que não conheço e que não sabe de meu histórico. Normalmente, saio do consultório me sentindo uma idiota.
Tenho a impressão de que o médico não leva a sério minhas queixas. Principalmente quando ouço: ''Isso não é nada. A senhora não tem nada''. Mesmo quando, conhecendo muito bem meu organismo, sei que estou me sentindo mal, porque houve alguma alteração.
Conversando com um colega, ele me disse que sente o mesmo.
O curioso é que constantemente ouvimos das autoridades de saúde que as pessoas com determinados sintomas de doenças específicas devem procurar atendimento médico imediato.
Entre os sintomas estão alguns relacionados ao funcionamento do coração.
Há sinais que não devem ser negligenciados. Nesse caso, não é prudente esperar pelo próprio médico. É preciso procurar um pronto-socorro.
Foi o que fiz na noite de quinta-feira. Estava trabalhando e meu coração começou a dar sinais de que saía do ritmo. A frequência cardíaca se descompassou. Tive a impressão de que ia desfalecer. No início, tentei controlar com respiração espaçada e profunda. Quando percebi que não dava mais e a pressão e a angústia no peito eram excessivas, pedi a um colega para que me levasse ao pronto-socorro de meu plano de saúde.
Chegamos lá em pouco tempo.
Na recepção, peguei uma senha e me dirigi à recepcionista. Ela me informou que eu deveria aguardar minha vez, porque havia uma pessoa na minha frente.
Disse a ela que estava com arritmia cardíaca. Ela me respondeu: ''Aqui é um pronto-socorro. Todos os atendimentos são de emergência''.
Sem desrespeitar a outra pessoa, percebi que ela procurava por um pediatra, porque estava com uma criança no colo. Eu seria atendida por um clínico geral, já que não havia cardiologista. Logo, nós duas poderíamos ser encaminhadas ao mesmo tempo. O problema, para a recepcionista, era a ficha que tinha de preencher. Mas o que é mais importante, a ficha ou a vida?
Não retruquei, mas não arredei o pé do balcão.
Ela então pediu meu cartão do plano e sugeriu que eu fosse entrando. Depois, faria minha ficha. Respondi que não invadiria a ala dos consultórios sem que ela me encaminhasse. Se eu fizesse isso, poderia ser barrada pelo segurança. Ele se encontrava de terno preto e braços cruzados diante da porta que separa o setor de espera do de atendimento. Não precisaria usar de força para me barrar. Bastaria se colocar diante de meu caminho com seus quase dois metros de altura e largura.
Ela levantou-se e pediu a alguém para me encaminhar.
Um outro funcionário me indicou uma cadeira no setor de inalação.
Em poucos segundos, ouvi a voz de um médico dizendo: ''Mas não recebi ficha!''.
Ele chegou até mim e perguntou o que eu tinha. Expliquei em breves palavras e, antes de me auscutar, diagnosticou: ''É arritmia ventricular. Eu também tenho isso. É difícil de se pegar, porque, quando a pessoa chega ao médico, já passou''.
E, ouvindo meus batimentos cardíacos com o estetoscópio, disse: ''Disso a senhora não morre, pode morrer com isso, mas disso, não''.
Apesar do incômodo, tive presença de espírito: ''Não estou pensando em morrer, por isso é que vim aqui''.
Ele riu, assim como a enfermeira que estava a seu lado. E emendou: ''A senhora se aborreceu?''
Depois de minha confirmação, me encaminhou para um eletrocardiograma.
O exame, segundo ele, não acusou nenhuma alteração. O ritmo realmente voltara ao normal. Somente a pressão estava alterada: 14x8. Mesmo assim, ele disse que era normal. Não é!
Voltou a me orientar sobre respiração correta e movimentos de braços (abertos) nesses momentos, para que a arritmia passe. ''Eu tenho isso, mesmo deitado, ou sentado'', reforçou, sem me aconselhar a procurar meu médico pessoal ou tomar qualquer outra medida preventiva.
Meu colega comentou comigo que tinha a impressão de estar no atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), embora a unidade fosse do setor privado. Eu respondi que, atualmente, é quase a mesma coisa.
Saí de lá sem assinar a tal ficha ''tão importante'' na recepção e sem pegar de volta meu cartão do plano de saúde.
Na volta para meu local de trabalho, paramos em uma farmácia. Decidi comprar uma caixa do remédio que tomo diariamente para controlar a pressão. Nesse momento, é que notei que estava sem o cartão do plano. Retornamos à unidade e uma outra recepcionista se espantou com o fato de eu ter sido atendida sem aquela ficha. ''Eu acabei de preencher agora'', disse. Já tinha se passado pelo menos meia-hora da consulta.
Esse episódio serviu para que eu pudesse ponderar mais uma vez: que orientação tem uma recepcionista para fazer a triagem de pacientes de urgência e emergência?
Em outras ocasiões, já procurei atendimento médico no pronto-socorro do plano de saúde.
Em algumas delas, foi para medir a pressão.
Mas, na última quinta-feira, era meu coração que estava alterado. Será que eu deveria mesmo ter esperado minha vez? Como é que eu iria saber se não estava tendo um enfarte, por exemplo, ou não teria uma parada cardíaca? Meu coração estava alterado, descompassado!
Não são os médicos que costumam nos orientar a procurar atendimento imediato sempre que sentirmos que algo não está bem?
Mas por que preciso me sentir uma idiota quando passo por um dos serviços de saúde oferecidos pelo plano que pago mensalmente?
Essa resposta quem deve dar não sou eu.
Talvez alguma autoridade do setor possa me explicar.
Felizmente, saí bem de lá. Mesmo assim, ainda vou consultar um médico de minha confiança.
E se eu esperasse e tivesse tido algo mais sério?
Talvez minha família ouvisse que eu deveria ter ido procurar logo um atendimento.
Chorar sobre o leite derramado é uma atitude que não reverte o que já ocorreu. O mais inteligente é prevenir.
Mas lidar com a falta de orientação e preparo no setor de saúde não é coisa fácil.
Duro também é ter que brigar pelos próprios direitos, mesmo quando se está em situação debilitada em um pronto-socorro.
E olha que tenho plano de saúde e disponho de informação sobre meus direitos. Imagino o que não sofre quem não tem.
O atendimento de saúde eficiente, digno e sem constrangimentos para todas as pessoas é um dos desafios deste País.

3 comentários:

Eunice disse...

Sempre que vejo alguma campanha contra a auto-medicação, com o inevitável conselho "procure seu médico" penso: como assim? Estão falando para os habitantes de qual país? Para este, onde nem mesmo os serviços conveniados atendem direito?
Obviamente não acho que se deva tomar remédio indiscriminadamente, mas como melhorar uma gripe, uma dor? Para o problema da saúde pública ainda não há solução!

Luiz Gomes Otero disse...

O que sentiste talvez tenha sido apenas o reflexo dos anos e anos de trabalho (o tal do estresse, etc. e tal). Porém, a dificuldade de se chegar ao atendimento correto (ou pelo menos aquilo que entendemos como correto) na saúde é algo corriqueiro nos dias de hoje, inclusive na rede particular. Que via crucis!!!

Tânia Marques disse...

Olá, realmente tudo de negativo que acontece aqui em nosso país é reflexo do descaso do Estado para com o cidadõ. Anulando o voto, forçamos mudanças gerais na sociedade. Será uma forma de mostrarmos o nosso inconformismo diante dos problemas criados pelos nossos "pseudorepresentantes". Gostei do seu blog. Espero que visites o meu. Abraços. www.marquesiano.blogspot.com

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